por Daniel Toledo
Crítica a partir do espetáculo No armário não cabe ninguém, do GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância (PR), apresentado em 18 de agosto de 2026 no Teatro Marília
Fotos: Vitor Dias
I
Popularizada sobretudo a partir dos anos 1960, a expressão “sair do armário” comumente se refere a assumir publicamente a própria orientação sexual ou identidade de gênero. Com o tempo, no entanto, seu significado se expandiu para a revelação pública de qualquer gosto, opinião, vício ou característica até então mantidos em segredo por medo de julgamento ou rejeição social.
No livro White Innocence (Ingenuidade branca), publicado em 2016, a antropóloga surinamesa Glória Wekker nos convida a uma perspectiva crítica em torno da mesma expressão. Para ela, existe um risco no ato de sair do armário: mover-se, a partir desse deslocamento, para uma espécie de outro enquadramento, tão limitador e normativo quanto o primeiro.
No armário não cabe ninguém é o título do espetáculo de estreia do GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância, composto por jovens artistas radicados na cidade de Curitiba, que representam o teatro paranaense no Palco Giratório 2026. Ainda que a diversidade de gênero se manifeste entre os intérpretes, o que parece estar no centro do debate é justamente uma expansão do conceito: a peça não se refere diretamente à sexualidade dos personagens, mas às monstruosas – e ordinárias – relações que eles estabelecem entre si.
Com atuação de Mate Bertucci, Vinicius Medeiros e Vinícius Précoma, a obra oferece às crianças uma reflexão sobre parentalidades e arranjos familiares, apresentando ao público a reconhecível rotina doméstica de dois monstros chamados Pi e Tatá.
II
Na porta do Teatro Marília, chegam, em sequência, cinco ônibus trazendo professoras e turmas de estudantes com idades entre 5 e 9 anos. Elas se organizam em filas no saguão, como se estivessem na escola, e logo se acomodam na plateia do teatro.
Em cena, três paredes articuladas criam a sensação de um pequeno apartamento. Há uma mesa dobrável recolhida na parede, um armário embutido amarelo, um rádio antigo, uma porta vermelha, uma janela alta e algumas luminárias que apontam para diferentes direções. Ao lado do rádio, no centro da parede principal, há ainda um ralo que chama atenção por ser um tanto desproporcional aos demais elementos. Certo desequilíbrio se pronuncia, e a instigante cenografia de Vinícius Précoma (também codramaturgo e ator) não esconde que há algo estranho no ar.
No centro do palco, não muito longe das paredes articuladas, temos ainda, em primeiro plano, um pequeno sofá estampado. Sentados no sofá, estão Pi e Tatá, grandes bonecos-monstros que protagonizam o espetáculo que já vai começar.
III
Criada durante o período pandêmico, a dramaturgia de No armário não cabe ninguém nos conduz a um mundo pós-apocalíptico com ares de normalidade. Entre as paredes do apartamento, acompanhamos uma monstruosa rotina: acordam, preparam o café da manhã, travam pequenas discussões logo no início do dia, sentam-se no sofá (a cada dia um pouco mais distantes), não se olham. Pi sai de casa, Tatá lê um livro, Pi retorna, travam uma nova leva de pequenas discussões, tecem e destecem uma manta, sentem sono, dormem.
Paralelamente ao que acontece dentro de casa, recebemos pelo rádio algumas notícias do mundo externo: risco de contaminação, aviso sobre toxinas vencidas e um insistente lembrete sobre manter fechado o ralo da cozinha. E tudo se repete, ao longo de três dias quase iguais.
Aos poucos percebemos que, apesar da aparente normalidade, Pi e Tatá habitam um mundo de sentidos e sentimentos invertidos, no qual a beleza é encarada como um problema e a perspectiva de boas notícias parece cada vez mais distante. Enquanto os intérpretes-manipuladores encaram a cena com leveza, aos bonecos resta o peso de um cotidiano difícil de sustentar.
IV
“Tudo segue mal” até que ouvimos pelo rádio a notícia de uma grande tempestade e somos avisados de que “objetos não identificados” circulam no ar. Nesse mesmo dia, Pi esquece de fechar o ralo e o iminente risco de contaminação torna-se, então, realidade. A partir de então, os monstros passam a conviver com o tal objeto não identificado, nomeado como “coisa”, “criatura” ou ainda “criançendo” – neologismo que funciona como pista sobre o encaixe familiar daquele pequeno corpo: uma criança crescendo. Fato é que a presença desse novo elemento perturba o lamentável funcionamento da casa, oferecendo-se como espelho – e estopim – para que Pi e Tatá consigam, finalmente, se enxergar: são monstros.
A monstruosidade a que se refere o espetáculo, no entanto, não se relaciona às aparências dos personagens ou a alguma grande crueldade que tenham cometido. Relaciona-se, por outro lado, à própria rotina que estabelecem em casa, onde parece não haver lugar para o afeto, a escuta e a transformação.
Não sabemos se Pi e Tatá são amigos, parentes ou se formam um casal, mas logo entendemos que a relação entre eles não pode continuar como está. “Sair do armário”, no caso dos personagens, é um convite a abandonar uma rotina enquadrada, que já não funciona, e reconhecer que alguns arranjos, ainda que bastante familiares, precisam e podem se modificar.
V
Em atividade desde 2018, GPeTI assume o desafio de experimentar e renovar as linguagens do teatro para crianças. Em No armário não cabe ninguém, percebemos, por exemplo, elementos que remetem ao Teatro do Absurdo, tal qual o uso do estranhamento como recorrente modo de se comunicar. O grupo opta ainda por deixar evidentes a manipulação dos bonecos e a presença dos intérpretes-manipuladores, que além de darem vida aos monstros-personagens, também cantam, dançam e ocasionalmente fazem comentários internos sobre a situação dramática.
Buscando, por outro lado, ampliar os públicos alcançados pela obra, a montagem incorpora à dramaturgia o que seus integrantes chamam de “audiodescrição poética”: uma espécie de narração em off que abrange acontecimentos e sensações que atravessam a cena, oferecendo a públicos específicos – como crianças menores, portadores de deficiência visual e pessoas neurodivergentes, por exemplo – ferramentas adicionais para experimentar o espetáculo. Há que se ponderar, no entanto, em que medida, ao compartilhar o mesmo recurso para todos os públicos, corre-se o risco de limitar a amplitude poética da experiência teatral.
A esse respeito, a apresentação inclui ainda um momento inicial de mediação para as crianças, com orientações sobre o “comportamento ideal” de um espectador de teatro. Conduzido pela diretora e codramaturga Gabriela Valcanaia, o momento envolve, por exemplo, avisos sobre a proibição de se alimentar dentro da sala, a importância do silêncio, a possibilidade de rir, aplaudir e chorar (mas depois voltar ao silêncio) e o impedimento de subir no palco (exceto quando for convidado). Ainda que tantas orientações assegurem, na prática, um bom andamento da apresentação, não corremos também o risco de manter “no armário” o público que acaba de chegar?
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Ficha técnica
No armário não cabe ninguém (2023)
Dramaturgia: Gabriela Valcanaia, Lucas Buzato e Vinícius Précoma
Direção: Gabriela Valcanaia
Elenco: Mate Bertucci, Vinicius Medeiros e Vinícius Précoma
Direção de Movimento e Preparação Corporal: Ane Adade
Preparação Vocal e Consultoria de Trilha Sonora: Edith de Camargo
Trilha Sonora Original: Duca
Iluminação: Nadja Naira
Figurinos, Cenografia e Bonecos: Vinícius Précoma
Cenotécnica: Ottiniel Caetano
Costura: Rose Matias e Dora Peron
Sapatos: PortoFree Calçados
Operação de Luz: Mi Sugiyama e Carol Vaccari
Operação de Som: Karina Rozek
Contrarregra: Gabriella Santos
Projeto Gráfico: Mical Kairós e Barbara Rodrigues
Projeto de Mediação: Gabriela Valcanaia e Karina Rozek
Consultoria em Acessibilidade para Pessoas com Deficiência Visual: CASA Consultoria
Produção: Gabriella Santos
Realização: GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância


