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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Diálogos Cênicos – Bira e Bedé

Diálogos Cênicos – Bira e Bedé

A produção do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral, orientado por Luciana Romagnolli, pelo projeto Diálogos Cênicos continua:

"Bira e Bedé", foto de Igor Godinho.

“Bira e Bedé”, foto de Igor Godinho.

Bira e Bedé

Por: Guilherme Diniz

Em Esperando Godot, os dois vagabundos esfarrapados à espera de um alguém que nunca chega, estão estritamente ligados um ao outro devido ao receio de estar só; solitários num mundo vazio, estéril, que nada tem a oferecer ao ser humano.

A intervenção urbana  Bira e Bedé da Cia. Pigmaleão Escultura que Mexe, se apropria livremente de alguns traços da icônica obra de Beckett. A insólita relação das duas senhorinhas gêmeas é quase uma dependência mútua, beira a complementaridade e se fundamenta enormemente na tragicômica necessidade de ambas de interagir com a multidão dos lugares por onde passam.

A hibridez da linguagem conhecida como teatro de animação, angaria novos contornos em Bira e Bedé. Além da correlação estética entre arte dramática e visual, a fronteira entre teatro de ator e de boneco é sutilmente transposta para infundir de frescor a presença agigantada dos dois bonecos na rua.

Não há entrecho em Bira e Bedé; há tão somente um estado e um espaço, bem como em Godot. O caráter altamente improvisacional da intervenção é determinante para a explicitação da psicologia das personagens e fundamenta a relação direta com os públicos. A composição no instante ilumina diversas facetas de ambas as personagens. Ora são agressivas ora sensíveis, mas sempre acompanham a já potente ambiência da rua para construírem discursos novos constantemente, marcados pelo aqui-agora da improvisação.

As correspondências entre homem – objeto torna-se concordante no instante em que um concede ao outro qualidades que lhe seriam contrárias. O ator anima o inanimado e o objeto agiganta as dimensões do corpo do humano, amplia suas capacidades teatrais no tocante à movimentação, plasticidade visual e simbologia. Bira e Bedé são bonecos habitáveis – aqueles nos quais são trajados pelos manipuladores – , isso altera severamente a relação destas duas matérias – humana e não humana – com os seres ao seu redor. O diálogo com as pessoas se modifica; os bonecos são recebidos diferentemente em inúmeras situações, da compaixão para com as figuras idosas até a rejeição da presença de dois meros bonecos.

É algo metalinguístico observar a manipulação de objetos por objetos e para objetos. Uma  das gêmeas carrega consigo um andador e a ambas um guarda-chuva. É como se os bonecos ganhassem organicidade similar à humana e transcendessem seu estatuto de objeto. Similar à tela “A Condição Humana” de Magritte, na qual a paisagem da pintura é colocada ao lado de uma janela aberta, e o exterior é idêntico à representação pictórica. O interno e o externo, no quadro, são unos e duplos, assim como os objetos cênicos e os bonecos, são ambos inanimados, podem ser separados por seus atributos ou colocados no mesmo estrato.

É forçoso dizer que seria parcamente possível associar notavelmente Esperando Godot a Bira e Bedé, contudo se todos eles estão à espera de algo, cada um o faz à sua maneira. No diálogo final da peça de Beckett, um vagabundo convida o outro a partir daquele lugar, o convite é prontamente aceito, e eles partem. Entretanto a rubrica indica que eles não se movem. Já Bira e Bedé, para suportarem o peso de suas existências e o fato de estar sempre juntas( mesmo que por momentos separadas), se movem continuamente, e podemos pensar se são elas quem se movem, ou somente nós. Porém ambas, possivelmente, estão presas a uma acachapante coabitação que torna a interação com o público um verdadeiro repouso.

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20/11/2014 TAGS: Belo Horizonte, Bonecos, Diálogos Cênicos, Pigmalião Escultura que Mexe BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos cênicos – 3 em 1

Diálogos cênicos – 3 em 1

A produção do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral, orientado por Luciana Romagnolli, pelo projeto Diálogos Cênicos continua:

"Calor na Bacurinha", foto de Jod Moreira.

“Calor na Bacurinha”, foto de Jod Moreira.

3 em 1. “TRANS + CALOR NA BACURINHA + DERRAME”, Guilherme Morais

Por Viviane Goulart

Simultâneo.

A proposta de TRANS+CALOR NA BACURINHA+DERRAME, exposta por Guilherme Morais e coletivo de artistas no projeto Diálogos Cênicos do Circuito Aberto na Praça da Liberdade, confere à atual cena de Belo Horizonte uma atmosfera experimental e condensada em performance e espetáculo político e relacional.

O político é alcançado nas três peças com o ápice em DERRAME, com seus corpos e o despir dos personagens em uma cena preenchida por Água e derrame de recipientes plásticos. Êxtase é a sensação provocada entre líquido, corpo, movimento e espectador. O ato ainda surpreende na exposição do improviso anunciado por Guilherme em relação ao conteúdo e volume d’Água utilizado em cena. Devido a recessão que vivemos nos tempos atuais a falta d’água gera um outro formato ao espetáculo performado aos olhos do espectador no desfecho desta proposta 3 em 1.

Aflorados os ânimos seguimos…

A mostra é iniciada com uma brincadeira junto ao público. Alguém é convidado ao ato de ouvir uma gravação via fone de aparelho celular e exibir, simultaneamente, a partir de sua própria recepção, atos performativos junto à escuta e o público de frente. O recado está dado: é possível fazer Teatro.

TRANS é iniciado após a cena anterior. Composto por dois performers, a obra transpassa questões de gênero, sexualidade e padrões sociais. Os ruídos sonoros geram clima excepcional e maduro nesta proposta.

O que é TRANS?

Numa sequência de estímulos e desdobramentos conceituais, a cena despe ao que se assiste nos primeiros instantes de performance. Convida o espectador às entranhas do universo Trans a partir do mito de criação de Adão e Eva trans-formados por corpos transexuados em proposição. TRANS é elaborado na simplicidade de adornos e objetos utilizados para o ato e na densidade da performance experienciada pelos sujeitos frontais em cena.

O segundo ato chega aos berros e ao som elétrico de uma banda estridente. CALOR NA BACURINHA, baseado na narrativa de Almodóvar, é uma cena proposta por seis mulheres alucinadas por prazer. O nu é a chama da performance. Cada personagem: uma fusão de sujeitos, transmitem o desejo nos corpos brilhantes e sedentos. Arde… Os gritos das mulheres revelam e chocam o espectador em cena de corpos dourados em purpurina e tapa-sexo de folhas verdes. A cena é curta exposta na complexidade de cada personificação de Mulher a devorá-los.

A moral, as estruturas e a montagem são desconstruídas nesta proposta cênica 3 em 1, o que promove uma postura política mesmo que em recusa à medida que choca o outro e as presenças situadas nas falas e no despir dos personagens. Relacional devido à inerência da corporeidade das performances na cena cultural e contemporânea de BH, grupos da cidade em evidência no pensamento e arranjo coletivo à mostra.

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20/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Diálogos Cênicos, Guilherme Morais BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos Cênicos – Manifesto subversivo

Diálogos Cênicos – Manifesto subversivo

Na sequência da publicação de alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto  Diálogos Cênicos, leia a crítica de Jéssica Ribas sobre Trans, de Guilherme Morais:

Guilherme Morais e Ana Luisa Santos em "Trans".

Guilherme Morais e Ana Luisa Santos em “Trans”.

Por Jéssica Ribas

“Trans”,

Transforma um olhar acostumado com o óbvio.

Transmite um discurso que rompe com definições.

Transcende o ideal de gênero estabelecido pelos corpos.

Transpõe as amarras a que se prendem os rótulos.

Uma espectadora é convidada a apresentar a cena reproduzindo tudo o que é dito num vídeo que só ela escuta (Nós estamos constantemente reproduzindo o que vemos e ouvimos, muitas vezes sem filtro). Esse é o start para que o público faça parte do que está por vir.

Dois corpos no espaço, duas figuras vestidas de noiva. Travestidas se confundem (nos confundem). Desfazem das roupas, ainda confundem. As palavras com prefixo trans são lidas e arremessadas, em sintonia, com precisão, meticulosamente trabalhadas, dois corpos em um, desconstroem o clima frouxo e esboçado anterior.

A energia se eleva, uma nova cena se estabelece. Um corpo no chão é modelado e remodelado em excesso, a carne apanha e alcança a exaustão. Fica só. (É feminino?) Muitos pelos aparentes (falsos?). Na roupa de baixo um volume (É homem?).

No novo quadro, o corpo ainda no chão faz poses para o público, tenta se adequar às posições pré-concebidas para uma mulher (É mulher). Assim está adequado? E assim? Nunca estará. A não desistência da procura pela posição “perfeita” novamente leva à exaustão (A cobrança nunca cessa).

A figura de fora retorna. Está repleta de roupas sobrepostas. Quem eu sou? O jogo começa. Enquanto a outra tenta adivinhar, gestos vão sendo feitos, uma mimese de estereótipos se estabelece. A cada acerto, as peças de roupas vão sendo retiradas. É “axezeiro”, é madame, é “tilelê”. O improviso é livre; o riso e a participação do público, que às vezes colabora com os rótulos (reproduzindo-os inconscientemente), também. O performer se despe de tudo até que só reste uma blusa branca, longa, idêntica à que a mulher (?), que já estava em cena, usa. Dessa vez não há definições, “agora está igual a mim”.

Colocam-se de costas ao fundo do palco. Levantam as blusas, descem as roupas de baixo. “Qual a diferença?” Dois corpos, roupas iguais, tipos físicos aproximados. No microfone a resposta: “O cu, porque cada um tem o seu”.

O volume da roupa de baixo é retirado, vira bolas de futebol. Cada jogador tem a sua (a partida é de cada um, não há competições). Um áudio narra o jogo de forma chula, com palavrões (coisa de macho). Jogam por um tempo, o cunho machista novamente fica exaustivo.

Homem e mulher retornam às origens, assumem oposição quando a representação de Adão e Eva vem à tona. Um aparato os une. Adão carrega Eva pendurada pelo espaço até que ela nasce dele numa imagem que remete à mulher parindo.

Do início ao fim, do fim ao início, do meio ao fim, do meio ao início e ao fim, do início e ao fim e ao meio… “Trans”, com sua despretensão pretensiosa, subverte os sentidos em sua manifestação performativa do gênero não fixo.

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19/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Diálogos Cênicos, Guilherme Morais BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos Cênicos – Arte como manifesto: aqui e agora

Diálogos Cênicos – Arte como manifesto: aqui e agora

Na sequência da publicação de alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto  Diálogos Cênicos, leia a crítica de Bremmer Guimarães sobre Trans, Calor na Bacurinha e Derrame, de Guilherme Morais.

Trans, com Ana Luísa Santos e Guilherme Morais.

Trans, com Ana Luísa Santos e Guilherme Morais.

Arte como manifesto: aqui e agora

Por Bremmer Guimarães

Para poder compartilhar da experiência criada pelo trabalho do diretor Guilherme Morais é fundamental se desprender de rótulos. E, antes de quaisquer outros, dos rótulos do próprio teatro. Teatro entendido como arte dramática, que carece de um texto fechado, de uma partitura definida para o ator e para o espectador, com personagens, enredo, princípio, meio e fim. Mais do que o sentido, o que importa nas criações de Morais é o impacto que elas possam causar. Impacto que, nesse caso, dialoga com a força das manifestações políticas. A arte também pode ser entendida como um mecanismo para a problematização de questões sociais.

Na apresentação de Trans, Calor na Bacurinha e Derrame, na noite do dia 4 de novembro de 2014, no Prédio Verde da Praça da Liberdade, o aqui e o agora são determinantes. Jorge Dubatti já sugere que o teatro tem o caráter de uma experiência única e compartilhada, que nunca se repete, ou seja, uma peça é diferente a cada dia. Mas, no caso dos três espetáculos dirigidos por Morais, isso parece se explicitar, aproximando o teatro de uma performance, que se apropria do tempo e do espaço em que se insere, revelando o próprio processo, em vez de se apresentar como resultado ou obra acabada.

Em Trans, a proposição de compartilhamento se dá logo no começo: uma pessoa do público é convidada a abrir o espetáculo, seguindo as indicações que ouve num aparelho de MP4. O espectador é atuante e, assim como proposto por Zé Celso Martinez Correa, do Teat(r)o Oficina, em seus espetáculos, atuante talvez seja também a melhor denominação para os atores em cena. Logo após o momento inicial, os corpos dos dois atuantes nos são apresentados. São dois seres, a princípio, iguais e que transgridem as noções de gênero, de mulher e homem.

Guilherme Morais e Ana Luisa Santos se assumem como eles mesmos, em vez de personagens, mas atuam e, mais do que isso, atuam junto à plateia. Jogam, a todo o momento, com os padrões da sociedade e com o comportamento humano. Ao longo do jogo, hora pensamos estar diante de duas mulheres ou de dois homens cis, hora de uma ou um travesti, hora de transexuais ou mesmo de figuras andróginas. O que se problematiza no espetáculo é o corpo e não necessariamente a sexualidade. Corpo que, como vai se seguir, é justamente o dispositivo que possibilita que a arte se apresente como um manifesto.

O jogo parece se evidenciar ainda mais na cena de improvisação em que uma das personas atuantes usa vários figurinos sobrepostos e vai tirando cada um deles, um por um, criando novas imagens, na tentativa de que o/a parceiro/a descubra que figura ela está representando. Há, nesse momento, uma discussão sobre os estereótipos de nossa cultura e também uma autorreflexão. Nem mesmo quem atua está livre dos preconceitos.

O lugar também é explicitado: estamos numa sala de teatro. O que se apresenta não pretende propor uma desterritorialização do espaço. As lacunas entre uma cena e outra podem criar uma quebra no ritmo do espetáculo, mas, como ele mesmo parece querer romper o padrão das obras teatrais, isso não enfraquece o ritmo das cenas. Ao contrário, pode ser um momento de pausa para que o público reflita, justamente, sobre o que está vendo.

Na sequência, Calor na Bacurinha apresenta mais elementos dramáticos que a antecessora, como personagens bem definidas e até um conflito, mas isso não torna a obra menos performativa. A música, tocada ao vivo por uma banda de rock, e a energia das atuantes são elementos que sobressaem quando assistimos à apresentação. O que vemos é a afirmação da sexualidade da mulher em contrapartida às tradições machistas de nossa sociedade.

Os corpos são determinantes para a cena. A nudez das atrizes serve para evidenciar aquilo que é escondido socialmente. A via escolhida para abordar as temáticas feministas é positiva, sem vitimização da figura feminina, e não existe juízo de valor sobre essa ser a melhor forma para se tratar do tema. A discussão do preconceito dá lugar à superação dele. Nesse momento, é interessante observar a reação e a atuação do público como performer. Para muitas pessoas, encarar a nudez ainda causa constrangimento.

Por último, Derrame se aproxima da dança contemporânea e parece ser a mais experimental das três obras. Os diversos atuantes no palco, segurando duas garrafas nas mãos, fazem movimentos, a princípio abstratos, de forma lenta e sincronizada. A impressão que temos é a de que o objetivo deles é derramar, em seus próprios corpos, o líquido que se encontra dentro dos recipientes que estão sendo carregados.

Há referências da cultura pop nos figurinos, que nos remetem a Branca de Neve, Frida Kahlo, ao boneco de um restaurante de comida chinesa, além de outros personagens, com novas facetas e roupagens. O que se percebe é a desconstrução dessas figuras. As fantasias sugerem as máscaras do nosso dia a dia e das quais devemos nos desprender. As garrafas possuem diferentes formas e são de variadas marcas conhecidas pelo público. Estamos a todo o momento cercados por produtos e embalagens no nosso cotidiano.

Uma possível leitura sobre o trabalho é a de que se trata de uma crítica ao consumo e à indústria cultural. Tanto que, logo após a água ser derramada sobre a cabeça dos performers, eles perdem as suas forças, indo ao chão. A princípio, é difícil se desprender dos padrões, das bases culturais que nos sustentaram ao longo de toda a vida. Mas, em seguida, a sensação de prazer e liberdade toma conta dos corpos, que se levantam e dançam sem qualquer preocupação.

Especialmente nesse dia da apresentação, é interessante perceber como o teatro performativo ou a performance são mesmo artes do aqui e do agora, que não perdem seu potencial cênico mesmo quando têm seu processo explicitado. Em função da crise de abastecimento hídrico que afeta São Paulo e chegou a alertar Minas Gerais, o grupo optou por usar uma menor quantidade de água em cena do que em apresentações anteriores e relevou essa opção ao público. Mas, em vez de a montagem ser comprometida, ela ganhou um novo viés, ambiental e político. O próprio espetáculo se derramando daquilo que o contém. Certamente, uma noite para lavarmos a alma e, como proposto pelas três experiências teatrais, deixar a repressão ao corpo escorrer pelo ralo.

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19/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Diálogos Cênicos, Guilherme Morais BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos cênicos – Derrame

Diálogos cênicos – Derrame
"Derrame", de Guilherme Morais, foi apresentada na programação do Diálogos Cênicos.

“Derrame”, de Guilherme Morais, foi apresentada na programação do Diálogos Cênicos.

Na sequência da publicação de alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto [Circuito Aberto!] Diálogos Cênicos, leia a crítica de Felipe Cordeiro sobre “Derrame”, de Guilherme Morais, escrita no terceiro encontro.

DERRAME

Por Felipe Cordeiro

“Derrame”, do verbo derramar. Encher algo até que transborde, que não caiba em seus limites. Ou, então, o acidente que é para o cérebro o que o infarto é para o coração: morte ou perda de tecido.

Na cena curta (ou performance) dirigida por Guilherme Morais, vários tipos se organizam no espaço: um homem vestido com roupas e acessórios de Frida Kahlo, uma Branca de Neve subversiva de cabelos cor-de-rosa, um homem com uma máscara publicitária de uma marca de comida chinesa; e tantos outros corpos…

No chão estão várias embalagens que possuem formas e tamanhos diversos: caixa de suco, de refrigerante, tubo de ensaio… Os recipientes estão preenchidos com um pouco de água – a quantidade é menor do que a de apresentações anteriores. Talvez para não agredir o piso do casarão histórico da Praça da Liberdade, talvez como posicionamento ético frente às crises hídricas que o Brasil enfrenta, talvez por ambas essas questões ou por nenhuma delas.

Aos poucos, os intérpretes, que estão posicionados cada um ao lado de dois frascos, vão tomando esses objetos, um em cada mão, no ritmo da trilha sonora – uma música instrumental. As embalagens são erguidas e inclinadas até que derramem e molhem esses corpos diversos, que, ao mesmo tempo em que são símbolos de padrões institucionalizados pela sociedade ocidental, também deslocam e transgridem essas imagens já saturadas pelas mídias, levando seu receptor “a uma região de indeterminação que só a arte pode criar e que, definitivamente, se conecta com a resistência aos modelos impostos por uma sociedade estratificada[1]”.

A melancolia do desejo pelo consumo do que preenche os vasilhames só dá lugar ao prazer, à brincadeira e à leveza quando o líquido derrama sobre aqueles corpos, que, a partir de então, abandonam os tecidos, dançam em torno de si e dos outros, escorregam, deslizam, caem, correm, levantam e caem outra vez. Todos riem, se divertem; deitam e rolam sobre a água que é fruto da junção do que antes foi desejado e transbordou, inundou cada uma daquelas personalidades habitadas por referências ao pop, ao kitsch e à antropofagia, que é o resultado de toda essa mistura do Brasil com a China, o México e o Egito.

E se derramarmos tudo que compõe o que nos forma e dá forma? Como isso afeta a nós e a quem nos rodeia? Quem define a nossa forma? Quanto e o quê cabe nessa forma? E se o outro escorrega no que eu derramo? Será que o que derramamos fará falta a outro? É performance ou é teatro? É dança contemporânea? O que existe dentro do contemporâneo? E se derramarmos?

“Derrame” é sobretudo uma imagem que passa pelo espectador na velocidade de um cometa. Uns enxergam uma estrela cadente, outros meteoro. É improdutivo? É lúdico? Eu posso derramar também? Quem vai estancar ou entancar o que escorre?

Derrama-te do que te contém.

[1] ROJO, Sara. Crítica latino-americana de teatro e cinema: imagens. In: RAVETTI, Graciela; ROJO, Grínor; ROJO, Sara. Por uma crítica política da literatura: três perspectivas latino-americanas. Belo Horizonte: Nandyala, 2012.

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16/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Diálogos Cênicos, Guilherme Morais BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos Cênicos – Crítica coletiva sobre “Estrela”

Diálogos Cênicos – Crítica coletiva sobre “Estrela”
Estrela ou escombros da Babilônia

Estrela ou escombros da Babilônia

Na sequência da publicação de alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto [Circuito Aberto!] Diálogos Cênicos, no segundo encontro com tema livre, leia a crítica coletiva de Jéssica Ribas, Felipe Cordeiro e Guilherme Diniz:

Crítica espetáculo “Estrela ou escombros da Babilônia”.

No dia 26 de outubro de 2013, o casarão tombado pelo Patrimônio Histórico situado na rua Manaus, no bairro Santa Efigênia, construído no início do séc. XX e que há muito estava abandonado, era invadido por artistas e ativistas de Belo Horizonte visando à criação de um espaço comum. A ocupação se deu por meio de uma performance teatral na qual pessoas fantasiadas e felizes atuavam enquanto habitavam o local. O espetáculo Estrela ou Escombros da Babilônia, estreado no dia 30 de outubro de 2014, com reapresentações nos dias 31 do mesmo mês e no dia 01 de novembro, comemorou um ano do reavivamento do casarão e de nascimento do Espaço Comum Luiz Estrela. O nome do local é em homenagem ao artista morador de rua Luiz Otávio da Silva, que gostava de ser chamado de Estrela, morto em 26 de junho de 2013 por motivos ainda não esclarecidos.

O espetáculo composto por cerca de 60 atores, muitos deles do curso de teatro da UFMG, e não-atores interessados em integrar o experimento em torno de um teatro documentário, conta a história de Luiz Estrela de forma performática, tal como o artista era. Um pouco antes da apresentação ocorria uma movimentação por parte da produção para fechar a rua, fato que dava algum indício de que o espetáculo aconteceria por toda a extensão do quarteirão. E assim foi, o elenco ia saindo aos poucos de dentro do pátio localizado ao lado do casarão e se posicionando por todo o espaço, inclusive entre o público, sendo parte dele. A parede do prédio ao lado foi fundo para a projeção; a rampa, um palco; as grades, as escadas; e tudo o que circundava aquele ambiente ia sendo ressignificado à medida que a história ia sendo contada por figuras que de alguma forma fizeram parte da vida de Estrela.

Além de sua mãe e de amigos mais próximos, também foram representados moradores de rua presentes em seu mesmo universo marginal composto por pobres, negros, gays, dependentes químicos, doentes mentais, pessoas de alguma forma abandonadas na babilônia da vida, que durante o acontecimento do espetáculo saem das sombras e ganham voz para clamar seus anseios, mesmo que isso se dê por intermédio de outros corpos. O próprio Estrela era representado por dois atores e uma atriz que dividiam entre si o personagem, uma alegoria que demonstrava a multiplicidade dos corpos e a não necessidade de ter estado na pele da figura real para compreender, ser afetado e partilhar de suas questões como cidadão. A presença de Vidigal, um dos melhores amigos de Estrela, não só atuando no espetáculo, mas dividindo o personagem de si mesmo com outro ator, evidencia essa questão e traz ainda outros questionamentos acerca do real e do ficcional no teatro.

No decorrer da apresentação, composta por cenas que formavam uma espécie de rapsódia, o público era levado a ocupar o quarteirão enquanto acompanhava as cenas realizadas ora na rotatória de uma esquina, ora em frente a uma igreja a alguns metros de distância do ponto anterior, resgatando aos poucos no espectador um sentimento de pertencimento a um lugar comum, o da rua.

A montagem, que aconteceu por meio de criação coletiva, teve ainda parte da dramaturgia orientada pelo professor da UFMG Antonio Hildebrando. O resultado final foi a execução de partituras que traziam diversas linguagens repleta de signos, compostas por um conjunto de vozes embaladas por muita musicalidade, na qual a perfeição era insignificante diante da celebração a que constituía. Quem assistiu ao ato comemorativo pôde sentir que fazia e faz parte de algo muito maior, em que cada uma das microquestões levantadas possibilitavam alcançar outras macroquestões, problemas sociais de um indivíduo que embora tenha suas particularidades não será nunca somente individualizado.

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16/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Luiz Estrela BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos Cênicos – A Hora do (ou da) Estrela

Diálogos Cênicos – A Hora do (ou da)  Estrela

Na sequência da publicação de alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto [Circuito Aberto!] Diálogos Cênicos, no segundo encontro com tema livre, leia a crítica de Guilherme Diniz:

Luiz Estrela ou Os Escombros da Babilônia

Luiz Estrela ou Os Escombros da Babilônia

A Hora do (ou da)  Estrela

Por Guilherme Diniz

Se nos fosse dado a oportunidade de conhecer meticulosamente as histórias e traumas de todas as personas urbanas e marginais que povoam as ruas de qualquer cidade, certamente ficaríamos atônitos com as odisseias diárias de cada um deles; pois entre o mendigo e a meretriz há muito mais do que sonha a nossa vã filosofia. Quando esta mesma filosofia não verticaliza tais indivíduos, as definições precipitadas levantam-se de envolto às calúnias.

Luiz Estrela ou Os Escombros da Babilônia, espetáculo de formatura de graduação em Teatro (UFMG) de Manu Pessoa, carrega parte dessa problemática e, assim como em A Hora da Estrela, último romance de Clarice Lispector, a peça versa sobre a vida e os sonhos de um alguém que enfrenta os demônios da cidade grande. Tanto em Macabéa quanto em Luiz Estrela, encontramos as crises internas que associam a ambos pertinentes questões de ordem social e filosófica. As parecenças nominais das duas obras, além de oferecer trocadilho para a crítica, pode nos conduzir a reflexões aprofundadas e consoantes a respeito de dois personagens que contêm certas condições similares.

O momento escolhido para a estreia marca um ano de ocupação do casarão abandonado conhecido hoje como Espaço Comum Luiz Estrela, situado na rua Manaus. Artistas e ativistas tomaram o local no dia 26 de Outubro de 2013 e desde então o lugar vem se tornando cada vez mais vívido. Tem mais serventia um espaço coletivo onde há formação artística e circulação de pessoas do que um patrimônio obsoleto e entregue ao ostracismo. E é com este espírito revitalizado que o casarão abriga a encenação sobre a qual nos debruçaremos.

Luiz Estrela é o documento determinante da escritura dramatúrgica da peça. O morador de rua, morto na anárquica noite de 26 de Julho do ano passado, é o precípuo elemento extraído da realidade e que articula os desdobramentos narrativos e estéticos ali presentes.

Enquanto documentário cênico, os vários relatos que constituíram as bases para a reconstrução desta personalidade no processo de montagem apresentam-se paralelamente já nas cenas iniciais, cada relato traz qualidades ora próximas ora incrivelmente distantes. Sabemos que ele fora artista, louco, sonhava em ser designer de moda, epilético, bom filho e mau filho, libertário e libertino, porém nunca unívoco. Algo como Boca de Ouro de Nelson Rodrigues, no qual as muitas descrições do bicheiro carioca justapõem características que não formulam a verdade racional dos fatos, mas criam perspectivas parciais e deformadas pela afetividade dos muitos indivíduos que circundam o universo dele. Mas, ao contrário da tragédia rodriguiana, as versões díspares em Luiz Estrela.. se manifestam lado a lado e ao mesmo tempo, fabricando um efeito relativamente cubista; isso permite  que as várias faces da figura tridimensional se mostrem de uma só vez, chapadas, confundindo a visão. As múltiplas facetas de Estrela são exibidas concomitantemente, distorcendo sua própria forma e contrariando a ideia que costumeiramente se tem acerca do documentário, e que o teórico Bill Nichols chama de “impressão de autenticidade”, isto é, a propriedade que o documentário tem de se apossar objetivamente do real. A partir do momento em que há um recorte e manipulação do que se fala, o campo subjetivo se revela. A questão se torna ainda mais densa quando em cena vemos quatro intérpretes dar vida a Luiz Estrela, sendo que um deles é mulher (Michele Sa). O compromisso com o real documentado não perde de vista a teatralidade da construção artística.

A epicização de incontáveis passagens torna ainda mais firme o nó desse dilema. O distanciamento como recurso que concede ao espectador ferramentas para tecer seu posicionamento crítico sobre o que é visto, é, em Luiz Estrela…, um artifício que avoluma as indagações sobre quem é o documentado e o que é verossímil na sua história/estória. Os mecanismos teatrais que compõem a estrutura da peça são descortinados pela própria encenação, e a “ilusão teatral” se desmantela.

O grande número de canções em cena reforça o teor épico, pois a maioria delas não atua unicamente como trilha sonora de ambiente, mas comentam a ação e fragmentam o fluxo da trama. Músicas como Vaca Profana de Caetano Veloso, ou o Bêbado e a Equilibrista interpretada por Elis Regina já possuem em si uma visão mais aguçada sobre o corpo social e corroboram para a crítica aguda da obra.

A ação não se desenvolve em um só espaço, mas de forma móvel e em palcos simultâneos. Os atores se apoderam da rua usufruindo dela sua materialidade cotidiana, ressignificando a paisagem que é tão habitual, além disso, o ato de caminhar ao longo da rua Manaus retira parte da passividade contemplativa do público; ele é solicitado a correr, andar, sentar-se e levantar-se, ações banais que, emolduradas no contexto cênico coletivo, possibilitam congregar todos num só corpo. Mesmo quando algum membro desse corpo se recusa a sentar, tapando-lhe a visão, não se pode estar indiferente a ele, e talvez entrar em contato com o próximo e pedir que ele se sente pareça ser a mais sensata opção.

Caminham conosco diversos personagens, a maioria deles é composta por tipos sociais ou alegorias altamente estilizadas que se misturam com a multidão de espectadores. Em alguns momentos desempenham uma ação específica, executam um solilóquio ou dialogam com o público. A noiva frustrada, a grávida indigente e a louca da rua ganham espaço juntamente com personagens tipificados da Commedia Dell´arte tais como Tartaglia, Pantaleone e Zanni, que ocupam o seu lugar cômico e mantêm correspondências instigantes com a realidade. Eles elaboram aquele universo fictício ao mesmo tempo em que estão junto de nós, observando e reagindo ao que acontece da mesma forma como o fazemos. Somos tão reais ou diferentes destes personagens assim?

Um ponto chave de Luiz Estrela ou Os Escombros da Babilônia é o documento vivo em cena: Vidigal. É o amigo e conhecedor mais aprofundado de Estrela. Vidigal acompanha tudo e participa mais efusivamente de algumas partes. Ele se situa numa região fronteiriça delgada entre o real e a fantasia. Sua presença é também o comprometimento com a realidade e a intenção de documentar, ainda assim, quando adentra a moldura cênica e se deixa tocar pelas circunstâncias teatrais, Vidigal ganha algo de ficcional. Ele ainda é interpretado por outro ator (Alexandre Hugo) e este choque abrupto entre os dois planos – ficcional e real – perpassa e altera a recepção daquele evento tão curioso. Vidigal pode ser encarado como aquilo que Roland Barthes chama de “o efeito de real”, ou seja, é um elemento que em um discurso funciona como índice de uma realidade exterior ao mundo da obra. O documento vivo se desloca entre estes dois universos e balança certas convicções acerca do que é ou não real. A construção daquilo que chamamos de realidade é fundada em nossas idiossincrasias, crenças e valores pessoais e sociais, de tudo aquilo que conhecemos empiricamente (ou não). Se não soubéssemos qual dos dois Vidigais era o ator, como poderíamos discernir entre o profissional e o amigo de Estrela? A recepção deste fato está engendrada no nosso conhecimento do mundo e na recepção dos acontecimentos dele. A noção de realidade não pode ser unificada ou objetivada na sua totalidade, porque ao fazer isso não levamos em consideração que seu próprio conceito foi construído pelo homem, criatura subjetiva e filha do seu tempo.

O final da peça se dá nos moldes de um cabaré, combinando elementos dos populares vaudevilles norte-americanos, com ambiência acanalhada, comicidade vívida e apresentações irreverentes e despudoradas. Todavia, neste ponto o espetáculo se tergiversou um pouco; houve um afastamento das pungentes indagações estilísticas e sociais que estavam se instituindo.

“Há tantas estrelas sendo apagadas”, diz um dos personagens. Os fatos atuais ratificam esse parecer. Há uma constante banalização da vida marginal e uma marginalização do ser humano que mais se assemelha a uma onda truculenta que arrasta tudo e todos. Os preconceitos e delimitações discriminatórias são algozes cruéis e perseguidores ferrenhos. Pode ser que Estrela não tenha sido morto diretamente por alguém, contudo a cada adjetivo que recebia uma parte sua era assassinada, pois outras tantas eram ignoradas, e sua complexa formação, como a de qualquer ser humano, era coisificada. Lamentavelmente, esta estrela não brilhou mais. O ser humano que passa da potência para o ato, e se completa neste ciclo, neste caso passa da vida para a morte. É essa a maior realização de Luiz Estrela? Alcançar a grandeza do ser somente na morte?

07-11-2014

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16/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Diálogos Cênicos, Luiz Estrela BY: Luciana Romagnolli
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Diálogos Cênicos – Um leão líquido e cada vez mais tátil

Diálogos Cênicos – Um leão líquido e cada vez mais tátil
Dente de Leão - Espanca

‘Dente de Leão”, do grupo Espanca!

A partir de hoje, publicaremos aqui alguns dos textos produzidos pelos participantes do Ateliê de Crítica e Reflexão Teatral pelo projeto [Circuito Aberto!] Diálogos Cênicos. No primeiro encontro, o tema foi livre. Leia a crítica de Bremmer Guimarães:

Um leão líquido e cada vez mais tátil

Por Bremmer Guimarães

O grupo espanca! completou dez anos em 2014. No repertório da companhia, são seis espetáculos, todos apresentados neste ano para comemorar essa uma década de vida. Por Elise, criação que deu origem ao coletivo, talvez seja até hoje sua montagem mais marcante, afinal foi o espetáculo que projetou o espanca! nacionalmente. No entanto, é interessante destacar outras duas peças do grupo, e também as duas últimas: O Líquido Tátil e Dente de Leão. Mais do que isso, é importante se questionar: a que público elas se direcionam?

O Líquido Tátil foi montada em 2012, a partir do texto do diretor e dramaturgo Daniel Veronese. O próprio argentino dirigiu os atores de Belo Horizonte, que viajaram para Buenos Aires, onde fizeram residência de algumas semanas. Era a primeira vez que Grace Passô não participava da direção e dramaturgia de um espetáculo da companhia, embora estivesse presente como atriz. Um ano depois desse processo, Grace deixaria o espanca!, mas isto ainda não importava aqui.

Num primeiro momento, há de se pensar que O Líquido Tátil é uma montagem que dialoga mais com profissionais das artes cênicas e com um público fiel de teatro. A própria história da peça propõe uma reflexão sobre o fazer teatral e o cinema, e referências a pensadores e correntes dessas duas áreas, como Tchekhov, Shakespeare e o impressionismo na sétima arte, não faltam à dramaturgia. Esse excesso de citações até pode prejudicar o entendimento do texto por um espectador que tenha uma menor familiaridade com a linguagem artística, mas, o que está em cena, vai além: o teatro não é colocado num pedestal, como expressão das elites ou voltada para poucos. Esse preconceito é, ao contrário, desconstruído.

O que é teatro? O que há de magia no teatro? O que há de real se, com um simples chute, o cenário pode ser destruído? O que há de glamour se o figurino utilizado pelos personagens – todos eles atores e criadores supostamente renomados – parece ter saído de uma loja barata? O Líquido Tátil causa estranhamento. Sua artesania precária foge ao realismo, caminhando em direção ao absurdo. Esse incômodo é fundamental dentro das diversas conexões que o espectador pode estabelecer assistindo à peça. Seja na falta de clareza, no nonsense ou na ironia.

Já Dente de Leão, novo espetáculo da companhia, estreado em 2014, parece trilhar um caminho diferente: o de causar afeto, em vez de fazer estranhar. A montagem marca nova fase no grupo: a maturidade, a saída de Grace, a chegada de novos membros. Dez anos e uma pausa para a reflexão. O que fizemos até aqui? O que queremos continuar fazendo? Dente de Leão é como um renascimento, como um embrião dos dez anos que estão por vir.

Os personagens, ao contrário de em O Líquido Tátil, estão presos em estereótipos, mas qual será o objetivo dessa escolha? Se, por um lado, parte da classe artística e dos espectadores mais assíduos podem entender o trabalho como superficial ao apresentar estudantes como heróis e professores como vilões, um novo público e novas conexões podem surgir. Qual é a importância desse maniqueísmo dos personagens, que é tão recorrente na literatura, no cinema e nas telenovelas? No caso da peça, ele funciona como um código lógico, uma vez que o roteiro reforça o ideal de que a juventude é esperança de um futuro melhor para o país e aponta a educação como um dos setores críticos da nossa sociedade. No entanto, essa crise não se resume à deficiência dos profissionais, envolvendo vários âmbitos políticos.

A questão colocada pelo espanca! não é a de errar ou acertar, mas a de tentar dialogar com diversos e diversificados espectadores sem perder a essência poética da arte. O artista não deve limitar, nem modificar sua criação, mas precisa ter consciência da constante tensão entre sua subjetividade e a busca por uma forma de se relacionar com a plateia, criando relações de comunicação e afeto, por exemplo. A julgar pela oposição tão convergente entre seus dois últimos trabalhos, essa pesquisa do grupo ainda tem um longo caminho de aprendizado para percorrer.

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16/11/2014 TAGS: Ateliê de Crítica, Belo Horizonte, Grupo Espanca! BY: Luciana Romagnolli
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Gorki: “transgredir limites torna-se norma”

Gorki: “transgredir limites torna-se norma”

por Luciana Romagnolli ::

Uma vertente importante do teatro feito em Berlim atualmente se abre para a realidade social pós-miscigenação, no anseio de colocar na posição de protagonistas cidadãos nascidos na Alemanha de descendências e cores distintas. Dois espetáculos dessa safra puderam ser vistos pelo público brasileiro no Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, ocorrido em maio: “I Call My Brothers” e “The so-called outside means nothing to me”.

“O teatro na Alemanha é muito diverso. O nosso é pós-migrante: a pós migração como temática, como linguagem e estética e como protagonistas do processo. O teatro pós-migração é esse que está sendo feito para poder viabilizar pessoas e artistas que estiveram e estão naquele país há no mínimo duas gerações e meia e não eram reconhecidos em papeis de protagonistas”, diz Wagner Carvalho, mineiro que é codiretor artístico do Ballhaus Naunynstraße, teatro sediado em Berlim e que coproduziu com colaboração do Maxim Gorki Theater o espetáculo “I call my brothers”.

O Horizonte da Cena fez três perguntas ao Maxim Gorki Theatre. Um mês depois, chegaram as respostas de Marie von der Heydt. Confira.

"The so-called outside means nothing to me", do Maxim Gorki Theater

“The so-called outside means nothing to me”, do Maxim Gorki Theater

A mistura inter-racial é um tema central no teatro do Maxim Gorki hoje? Por quê?

Diversidade é um assunto importante no teatro contemporâneo e proporciona histórias fascinantes para o palco. O Maxim Gorki Theatre pretende retratar essas realidades na cidade de Berlim, a qual há um longo tempo tem não só deixado de ser influenciada unicamente por origens alemãs, mas tem sido remodelada pelas mais diversas perspectivas culturais. O teatro não só reconhece a variedade mas integra-a essencialmente no desenvolvimento das peças. O choque cultural proporciona um dos materiais mais cheios de suspense com o qual o teatro pode lidar hoje. As principais questões para o grupo são aquelas de vida e amor, assim como deslocamentos e problemas políticos e sociais em um dos países mais ricos do mundo.

“The so-called outside means nothing to me” e “I call them brothers” trazem jovens atores falando sobre questões políticas sérias com ironia, ceticusmo e humor. Como isso representa o espírito da época atual na Europa ocidental?

Primeiramente, trata da dissolução de tabus e da vida num tempo em que as tragédias podem ser apresentadas como comédias e vice-versa. Você deve estar apto a rir de uma casa queimando para entender de onde o fogo vem e como pode ser apagado. Humor e ironia no teatro possibilitam à audiência lidar com temas críticos e complexos. Ironia e prazer são também ótimos meios especialmente para ultrapassar limites e se aproximar de temas que de outro modo não seriam discutíveis.
Como o Maxim Gorki Theatre se insere na ampla e múltipla cena do teatro alemão?

O Gorki Theatre faz um teatro da diversidade. Isso é personalizado amplamente na montagem do grupo, considerando seus países de origem para começar. Como um teatro municipal, o Gorki pretende espelhar a cidade e ainda continuar a criticá-la ao mesmo tempo, ao apresentar-se como um espaço político e agradável para pensar e ser, amar e viver. De acordo com o planejamento para as próximas estações, o Gorki mostra a diversidade ofertada pela nossa sociedade, na qual transgredir limites torna-se a norma e o que reside na obscuridade não é mais referido como “o outro”. Limites estão sendo literalmente dissolvidos e é preciso olhar para as dolorosas verdades. O Gorki pretende estabelecer diálogo com seu público que revele diferentes caminhos de luxo e mentira na vida.

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01/07/2014 TAGS: Alemanha, FIT-BH, Maxim Gorki BY: Luciana Romagnolli
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A poética, o humor e o pesar do pensar

A poética, o humor e o pesar do pensar

por Camila Canassa* :: 

"Descartes com Lentes", com Nadja Naira. Foto de Elenize Dezgeniski.

“Descartes com Lentes”, com Nadja Naira. Fotos de Elenize Dezgeniski.

O pensar. Este que determina a existência humana segundo Renè Descartes –“penso, logo existo” – torna-se o pior inimigo do filósofo francês no monólogo encenado pela Companhia Brasileira de Teatro e reapresentado em Curitiba nos dias 17 e 18 de julho. Falo da peça “Descartes com Lentes”, que parou novamente na capital paranaense durante mais uma edição da Mostra Novos Repertórios. A iniciativa desta vez foi promovida pelo Edital Cultura 2014, de incentivo à produção artística brasileira no período da Copa do Mundo de Futebol.

Em “Descartes com Lentes”, a desconstrução do pensar é pesar e poética ao mesmo tempo. E é mais. É humor. Muito em parte pelo experimentalismo de Paulo Leminski (1944-1989), é verdade. A peça da Companhia Brasileira traz para o teatro um capítulo integral de uma das obras mais vanguardistas do poeta curitibano, o “Catatau”, lançado em 1975. Nela, o autor joga com as palavras de forma a trazer para o leitor um fluxo de pensamento perturbador, contestador, mas, ainda assim, capaz de poesia e comicidade. Escolhas do diretor Márcio Abreu, assim como a representação da atriz Nadja Naira, reforçam ainda mais estas características da obra e destacam o racionalismo cartesiano como conflito central do enredo.

Na ludicidade de Leminski, supõe-se que Renè tenha visitado o Brasil selvagem e tropical do século XVII pegando carona na comitiva de Maurício de Nassau durante as invasões holandesas. As singularidades dos costumes indígenas e da exuberância da fauna e flora local tornam-se surreais para Descartes, inapreensíveis. Um impacto que bate de frente com suas certezas filosóficas, que amplifica suas dúvidas a um nível ainda não alcançado, que tira os métodos e as bases do seu pensamento e faz com que ele questione a sua própria existência: “já não creio no que penso, já duvido se existo, hesito”. Diante disto, vê-se em cena um filósofo em constante fuga de suas reflexões, duvidando do que vê como quem tem sujeira no vidro das lentes.

Descartes com lentes 1 by Elenize Dezgeniski

Percebe-se a representação imagética deste conflito logo no início da peça.  A existência cambaleia no corpo de Nadja Naira quando ela, interpretando Descartes, declara as primeiras palavras do texto por três vezes seguidas: “Ego, Renatus Cartesius…”. A cada pronunciar do nome latino do filósofo, a atriz cai ao chão, ou melhor, tomba, trata-se de um verdadeiro tombo. Uma queda dentro de um círculo de giz, de braços abertos, formando imagem semelhante ao Homem Vitruviano desenhado por Leonardo da Vinci. Ao meu olhar, coloca-se ali a fragilidade dos argumentos científicos sobre a existência humana. Argumentos que se levantam e tombam em diferentes períodos da História. E não seria este – o conflito que a Companhia Brasileira de Teatro destacou em “Descartes com Lentes” – o grande conflito da própria humanidade: desvendar a sua existência?

Ao final do espetáculo, a resolução deste conflito chega ao público em outra forte imagem. O personagem se despe conforme seus pensamentos se emaranham e o atormentam. O despir-se, peça por peça de roupa, me chega como uma contínua entrega, como reconhecimento de que o ser não está apenas no que é racional, no que é capaz de ser explicado pela linguagem humana ou até classificado pelas convenções da civilização. A existência vai além. Também está no campo dos afetos e, por isso, não pode ser explicada apenas por meio do que é pensamento. A presença nua em cena, entre tantas percepções, foi para mim uma revelação de que a existência também é sentida na pele, é vivida. É surpresa e recomeço a cada confronto de alma e espírito, a cada “irrupção de novas realidades” – nas palavras do próprio Leminski.

Para entregar-se a este ponto, entretanto, o personagem Descartes trilha um caminho crescente de abandono dos códigos linguísticos durante a encenação. Neste caminho, a poética e o humor são muito bem explorados por Nadja Naira e Márcio Abreu. Falas como “o sol por dentro dos cachos, frutas explodem em fachos, entre penas de insetos e plumas” ganham a emoção de quem se encanta com o novo por meio da interpretação da atriz e parecem mesmo ser versos que acabaram de saltar de um poema, não obstante terem vindo da prosa.

Por outro lado, a maneira como Nadja interagiu com o público envolveu os presentes em uma agradável comicidade ao misturar palavras, sentidos e significados tendo espectadores como interlocutores. Um humor que teve como chave a fragilidade da comunicação e a banalidade da linguagem, ineficaz na expressão do que é mais relevante à humanidade. Neste ponto, a peça me remeteu ao Teatro do Absurdo do dramaturgo romeno Eugène Ionesco, tanto no aspecto cômico, quanto na crítica ao racionalismo científico.

Descartes com lentes 2

Em relação à escolha do espaço onde se deu a encenação, havia um palco montado no Teatro Novelas Curitibanas na ocasião – possivelmente para receber as demais peças da Mostra Novos Repertórios que também estavam em cartaz. Em cima e ao redor deste palco, foram dispostas diversas cadeiras para a acomodação do público. A atriz representou no espaço fora do palco, abaixo, bem à frente das amplas janelas do teatro – que ficaram abertas durante todo o tempo, distraindo-nos com a movimentação, a luz e o som da rua. Infelizmente, muitas das movimentações ocorridas em nível baixo e vários dos preciosos olhares e interações com o público foram perdidos por isso. Não é possível saber a motivação desta escolha, se foi técnica ou dramatúrgica – como a intenção de vincular a peça ao mundo externo ao teatro (à vida lá fora). Há ainda a possibilidade de isto ter se dado por se tratar de um exercício cênico, como o próprio diretor enfatizou antes da encenação. Penso também na possibilidade de terem preferido o espaço à frente das janelas na intenção de aproveitar as paredes, que foram preenchidas com frases extraídas de “Catatau”, formando um caos visual a partir deste emaranhado de palavras. De qualquer forma, para o público, a escolha significou uma perda de apreensão do espetáculo.

No mais, acrescentado à força do pesar, da poética e do humor, há ainda um outro fator de extrema relevância em “Descartes com Lentes” ter se reapresentado em Curitiba em junho deste ano. Em tempos de Copa do Mundo, quando se levanta a bandeira frágil de um nacionalismo superficial, trazer à tona a força do tropicalismo literário da geração de 70 é capaz de distribuir lentes de aumento à nossa influenciável visão.

Data da apreciação: 18 de junho de 2014.

*Camila Canassa é jornalista, assessora de comunicação cultural e bacharelanda em Artes Cênicas da Faculdade de Artes do Paraná – UNESPAR/FAP.

 

 

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26/06/2014 TAGS: Camila Canassa, Cia. Brasileira, Curitiba, Mostra Novos Repertórios, Paulo Leminski BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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