• Início
  • Categorias

    Hot Categories

    • conversações

    • podcast

    • críticas

    • coberturas

    • entrevistas

    • dossiês

    • ensaios

  • Quem somos
  • Contato
  • Ações
  • Parceiros

Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

críticas

Corpo ebulitivo

– por Guilherme Diniz –

Em Trava Bruta, Leonarda Glück forja um manifesto cênico que discute as singularidades, as travessias e as inquietudes de seu corpo trans em um mundo minado. Além disso, problematiza a cisgeneridade na qualidade de norma, a partir da qual se constrói uma noção, violenta e excludente, de humanidade. O espetáculo recoloca as pesquisas da artista acerca dos atravessamentos e tensões entre distintas linguagens artísticas, como o teatro, a poesia, a música, o vídeo e a performance. Os discursos centrais deste trabalho solo partem da sua transgeneridade em contato com signos e imagens mobilizados no palco, formulando algumas questões: o que é brutalidade? Quem é bruta/bruto? A peça vai ressignificando essas palavras a partir tanto da realidade truculenta, quanto dos modos poéticos de insubordinação.

Para o crítico Eric Bentley, o teatro, de um modo geral, interessa-se menos pelo nu do que pelo despido. A ideia, discutível, parece, contudo, fazer sentido para a concepção de Trava Bruta. Leonarda articula uma série de artifícios para encobrir, revestir e ao mesmo tempo dar a ver o seu corpo. Uma projeção na lateral do palco exibe a própria performer transformada por filtros de Instagram, os quais constroem e reconstroem constantemente a forma do seu corpo. Uma instigante oscilação entre o que se revela e o que se oculta se sustenta. Ao longo do espetáculo, distintas peças de roupa, acessórios e artigos são utilizados, dando vida a um figurino inconstante, como um jogo de tirar e por. Nestes experimentos, acompanhados por uma dramaturgia combativa, a artista vai desmontando imagens estáveis ou universalizantes sobre o que é (ou pode vir a ser) um corpo. Uma de suas caracterizações muito se aproxima da clássica imagem do filme A pele que habito, de Pedro Almodóvar; e, assim como no cinema, no palco de Leonarda a corporeidade é construção, um processo que não se reduz a lógicas biologizantes ou imutáveis. Ela mesma diz em cena: “nosso trabalho é travar a lógica binária, fácil e mesquinha, pobre de poesia, o compasso de dois tempos, e dar passagem à multidão dos sentidos, à diversidade dos números, à imparável mudança dos corpos e dos tempos”.

As suas transformações e caracterizações cênicas geram ora estranhamento, ora uma sarcástica comicidade que nos convida a interrogar nossos próprios olhares orientados por tantas normatividades. Nada é poupado, incluindo a religião, os discursos científicos, o mito do Ocidente etc. Todos esses aparatos de poder que, direta ou indiretamente, violentam corpos como os de Leonarda, são enfrentados. Existe aí uma postura antissistema.

Há uma grande contradição em Trava Bruta, entretanto. A artista afirma, em um determinado momento, que não pretende se ancorar no didatismo (embora ela alegue que o didatismo é, em alguma medida, importante) ou que não deseja atender às expectativas do que é um espetáculo criado por uma pessoa transgênero. Mas, surpreendentemente, ela acaba fazendo isso em uma boa parte do espetáculo. Munida de um microfone, Leonarda diz, irônica e aguerridamente, que “não vai” dar-nos estatísticas, números e dados cruéis sobre a violência transfóbica em suas várias formas de expressão. Mas ela não resiste e nos entrega as informações. Esses sãos os momentos dramaturgicamente mais frágeis. A ironia entre dizer que não vai falar e efetivamente falar não levanta voo. Neste momento, ela se dirige mais contundentemente à cisgeneridade – e aí eu me incluo – fazendo-nos encarar (alguns quiçá pela primeira vez) uma realidade sanguinolenta, mas que também  infiltra-se por subalternizações sutis. O discurso é vigoroso, não há dúvidas, mas se afasta da complexidade poética que estava a ser edificada na primeira parte do espetáculo.

Ao cabo, a artista diz que precisa sonhar, caso contrário ela não aguentaria. Esta dimensão é fundamental como possibilidade de reimaginar o mundo. Tomemos nota: Leonarda Glück está a comemorar 25 anos de carreira em um dos países que, no mundo, mais assassina transexuais e travestis (isso também é dito no espetáculo). A sua existência já é, em si, um manifesto vivo de insurgência, um rasgo de vida no Brasil-morte.

*Espetáculo visto na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp. Texto publicado originalmente nos Olhares Críticos da mostra.

21/06/2022 TAGS: dramaturgia, Leonarda Gluck, MITsp, trans, transexualidade 0 COMMENT
SHARE
Leia mais

Comente Cancel Reply

Período Composto por Indignação

Palavras e imagens, [“que estranha potência a vossa”]

  • About Me

    Guilherme Diniz

    Pesquisador, crítico teatral e curador. Licenciado em Teatro pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (EBA/UFMG) e mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da mesma universidade (FALE/UFMG). Como crítico já realizou coberturas para distintas mostras e festivais de teatro do país, como 1° Festival online de Teatro Negro da UFMG (BH), Janela de Dramaturgia (BH), Segunda Black (RJ), Mirada - Festival Ibero-americano de Artes Cênicas (SP) e Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (SP). É membro da AICT - Associação Internacional de Críticos Teatrais. Atualmente é o diretor artístico do Teatro Municipal Geraldina Campos de Almeida em Pará de Minas (MG).

Relacionados

capa críticas Outras Rosas abrem passagens

coberturas críticas Woyzeck e seus planos de fuga

críticas Visibilidade para quem?

capa coberturas críticas A emergência de uma voz

ensaios Oficinas de desempoderamento | MITsp

capa coberturas críticas Desmontar a ampulheta e recriar as areias do tempo | MITsp

Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

Siga-nos nas redes

Horizontedacena

Horizontedacena

Horizonte da Cena
Direitos Reservados © 2017 - 2019 Horizonte da Cena