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Horizonte da Cena

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críticas

Grande Sertão: Teatro

– por Diogo Horta –

Crítica a partir do espetáculo-instalação “Grande Sertão: Veredas”, de Bia Lessa (São Paulo).

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 3

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 3Grande Sertão: Veredas. Foto de Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 4

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 4

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 6

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 6

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 7

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 7

“_ Nonada.”

Ouvi e vi. Palavras e vistas que passaram por mim, remexeram. Senti vibrando sensações contraditórias que queriam se agarrar àquelas palavras e que vão saindo em forma de outras palavras agora. Não queria falar de uma maneira que não está à altura do senhor, mas é que não sou avançado nas palavras. Então, por isso, vou dizer de um outro jeito meu, pelo menos para sentir que me esforcei em falar diverso, tentando colorir as frases com as cores do meu sertão.

O senhor então, me desculpe. Peço licença pra dizer umas palavras que o senhor, homem maior sabedor da língua, me inspirou. Quem sou eu pra dizer destes modos, inventice de palavras não sei e não tenho esperança de saber. Mas não quero, não quero mesmo, e isso basta, me dirigir ao senhor com a língua fria destes dias que nós vivemos. Se copio o senhor nos dizeres é por completa admiração e pra tentar entender de dentro de mim este meu sertão. Cumpadre meu Riobaldo foi quem disse:“Sertão é o sozinho. (…) Sertão: é dentro da gente.” E há de se ver fácil isso hoje em dia. Aridez e secura, nestes dias, no homem, na mulher e até nas crianças. Um liso do Suçuarão cá dentro. Viver parece que nunca foi tão perigoso.

Faz mais de dez anos que me deparei com o livro do senhor. Li tudo, me embebedando pelas palavras e pelo amor de Riobaldo e Diadorim. Bateu forte no peito. De susto, lembro da imagem que criei na mente do momento exato em que li aquilo que mais me surpreendeu: Diadorim. Diadorim. Desde então, não me encontrei com Riobaldo outra vez, a não ser faz algumas semanas, veja só, num teatro.

Teatro é modo de dizer que o espaço era o chão, um andaime em forma de retângulo e homens que podiam ver embaixo ou em cima de um andaime. Fiquei embaixo. É o chamado lugar alternativo. O espaço também abrigava em volta uma instalação com homens-jagunços de uma espuma-cobertor que também invadia a cena no avançar da história. Raciocinei se o senhor pensava isso, ver seu livro assim encenado, transformado em carne e osso na frente dos outros. Quem fez esta proeza foi Bia, Lessa. Coisa difícil de se imaginar, coisa bonita de se ver. Sertão ali: brincado, jogado, emocionado, palavreado por um elenco engajado, doado…suado. Corpo forte que encarna e presentifica o grande sertão.

Curiosidade achei foi no uso dos microfones para a cena e dos fones de ouvido para o público. Ouvimos os ditos e os gritos – tudo – pelo fone. Paisagem sonora. Ideia que eu fiquei que isso deixava o teatro menos coletivo e mais individualista. Mas, segundo cumpadre meu Rancière (2012), o espectador é essa singularidade mesmo. É esse se descobrir indivíduo neste conjunto de sociedade e mercado que só nos convoca para a indistinção, como dizia outro cumpadre meu Teixeira, Coelho (2001). Fiquei então eu, comigo ali, no meio dos demais, a ouvir palavras nos ouvidos de pertinho. E cumpadre meu Riobaldo que falava, não das favas, ao meu ouvido de vez em quando, quando precisava confidenciar algo mais íntimo, só para nós dois. Foi assim que ele raciocinou comigo umas ideias e eu concordei com a cabeça.

Venho tentando entender o que move quem faz e quem assiste ao teatro. Porque é que a gente se coloca tão grande num trabalho tão árduo para contar uma história com o corpo da gente no presente da vida. Não tenho resposta, não. Talvez nunca tenha. Mas sei que teatro é um pedaço de vida mais real, mais carne e osso, do qual não se pode escapar indiferente. Bia Lessa, que assina a concepção, direção geral, adaptação e desenho de luz desse teatro, fala assim: “Esta é uma das grandes belezas do ato teatral: propor um enfrentamento na construção do trabalho e depois na relação com a plateia. Esse enfrentamento se faz necessário neste momento em que o mundo parece dar uma marcha ré sem fim”[1].

Raciocinei assim, esse enfrentamento, com um dizer de Riobaldo e pensei: O teatro, na rua, no meio do redemunho… O teatro no campo de batalha. Na encruzilhada da vida. No encontro dos homens sós. Riobaldo fala do medo dos outros, da perigosidade da vida, de Deus e do diabo. Mas ele mesmo vê uma coisa – que não tem diabo nenhum: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

E não é que o teatro é homem humano…travessia! Foi isso que vi atravessando os atuantes Balbino, Caio, Clara, Daniel, Elias, Leon, Leo, Lucas, Luisa e Luiza. Teatro, diabo e homem. Redemunho. O teatro reunindo uns e outros ao redor de outros uns formando um redemunho. Homens-pássaro, homens-armas, homens-matados, homens-vivos, homens-sertão, homens cá e lá erguidos pelo suor do ideal, da justiça e do amor. O que havia ali no acordo do teatro é o que devia de haver no mundo todo: respeito pela existência do outro, pelo amor do outro, pela palavra do outro. Jogo de valorizar o todo e as partes.

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 8

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 8

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 2

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 2

E Riobaldo, contando ali no teatro, moveu aqui dentro de mim a força e a dor daquele “ser mulher”. Dor de não poder ser o que se é pelos riscos do sertão. De ter que se esconder na carcaça de homem jagunço pra poder viver. Revi o sofrimento de matar e ser matado. Sofrimento sem fim disse cumpadre meu Riobaldo. Pensei no mundo que corre, no sofrimento das mulheres (todas) que ainda hoje precisam lutar para ser. Pensei: quero ouvir esta história contada pela mulher que dela é protagonista. Não que o senhor e Riobaldo não já tenham contado o que foi e que há, mas é que no íntimo daquela mulher vamos poder descobrir um pouco mais de vida, de luta e de amor. O senhor me desculpe, foi só um desejo que me ocorreu.

Mas essa volta do destino do sofrimento tem via dupla ainda na obra do senhor. E o amor entre dois homens naquela dureza de sertão, secura sem fim e amor aceitado. Não importa o que vai ser no fim, a mudança que há. Mas importa que cumpadre meu Riobaldo aceita o amor que há, não importa o gênero amado. “Mire e veja”: até hoje muita gente não compreendeu isso aí. O amor é o que há. Apenas. O que devia de haver era ser o homem amor. Aceitar qualquer forma de amor como fez cumpadre meu Riobaldo. Porque é amor, meu senhor. E quem não aceita amor é quem deve ter feito pacto com o diabo (ou com o pior do homem humano, se for).

Infinitas desculpas pela mediocridade desta linguagem ensaiada em reprodução do senhor. Dou todo o valor às suas palavras. Mas queria brincar de escrever, como o teatro brinca de ser. Se estamos áridos como o sertão, descobrir o amor ali abre o caminho para o amor em nós mesmos. Que assim se possa fazer. Nessa secura de gente no teatro que também se vai, esse teatro-instalação “Grande Sertão: Veredas” (sempre esgotado de público) traz um pouco de chuva, dá a esperança de que “o mundo se resolve.” A violência daquele sertão que se vê, dos corpos todos mortos que presenciamos lá, não é maior que a vida de amor e de cumplicidade de cumpadres Riobaldo e Diadorim. Há de ser assim com esse tempo de agora e que virá.

Agradeço seus ouvidos. Recomeço a ler os escritos do senhor e a ouvir Riobaldo contar:

“– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo.”

Visto dia 07 de outubro de 2017 no Sesc Consolação, em São Paulo.

[1]. Texto do programa do espetáculo.

Referências:

COELHO, Teixeira. O que é ação cultural. São Paulo: Brasiliense, 2001.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF, 2012.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: Veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

 

Ficha técnica:

Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz: Bia Lessa

Elenco: Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, Leon Góes, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa.

Concepção Espacial: Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha

Música: Egberto Gismonti

Colaboração: Dany Roland

Desenho de Som: Fernando Henna e Daniel Turini

Adereços: Fernando Mello Da Costa

Figurino: Sylvie Leblanc

Desenho de Luz: Binho Schaefer

Projeto de Audio: Marcio Pilot

Diretor Assistente: Bruno Siniscalchi

Assistente de Direção: Amália Lima

Direção Executiva: Maria Duarte

Produtor Executivo: Arlindo Hartz

Colaborações: Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado

Idealização: 2+3 Produções Artísticas Ltda

Realização: Sesc, Ministério da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura.

Patrocínio Master: Banco do Brasil

Patrocínio: Globosat.

Apoio: Instituto-E

31/10/2017 TAGS: Bia Lessa, Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa, São Paulo 1 COMMENT
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    Ator, professor e curador de teatro. Mestre em Artes pela Escola de Belas Artes da UFMG.
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