por Bramma Bremmer
Crítica a partir do espetáculo HA!, do Grupo Artilharia Cênica (MG), apresentado em 15 de agosto de 2026, no Sesc Tupinambás
Integrando a cobertura do Palco Giratório em Belo Horizonte, em parceria com o Coletivo Horizonte da Cena, a crítica acompanha uma das primeiras atrações da edição na cidade: o espetáculo HA!, do grupo Artilharia Cênica. Voltado para as infâncias e todas as idades, o trabalho ocupou o espaço do Sesc Tupinambás em apresentação no sábado, dia 15 de agosto de 2026, às 16h.
A escolha do espaço carrega um valor afetivo e histórico significativo. O Sesc Tupinambás integra a memória cultural de Belo Horizonte, sendo um centro que marcou a infância de gerações frequentadoras de suas atrações. Retornar ao local duas décadas depois para o exercício da crítica evoca lembranças e reforça a urgência de reocupação desse espaço pela cena teatral mineira, cuja estrutura comporta e necessita da presença constante de artistas da cultura.
Em cena, HA! desenvolve uma pesquisa aprofundada na linguagem do teatro de bonecos e de máscaras. A obra estabelece um diálogo direto com as infâncias ao refletir sobre a presença ostensiva da tecnologia no cotidiano. Trata-se de uma temática atual, na qual crianças pequenas e até bebês já crescem imersos em telas e dispositivos eletrônicos. A montagem investiga de forma poética como esse atravessamento afeta a formação e a subjetividade infantil.
Foto: Igor Cerqueira
Livremente inspirada no conto “O Homem da Areia”, do escritor alemão E.T.A. Hoffmann, e nos estudos do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, especialmente em torno do sono e dos sonhos, a dramaturgia desloca para o universo contemporâneo um medo bastante antigo: aquele que nasce quando adormecemos e perdemos o controle sobre o que pode acontecer no mundo dos sonhos. Se, no imaginário de Hoffmann, o desconhecido se materializa em uma figura ameaçadora, aqui os monstros parecem nascer de um cotidiano aparentemente banal: o excesso de telas, a privação do sono e a substituição da experiência sensível por estímulos incessantes.
A dramaturgia constrói-se sem o uso de palavras textuais — um teatro essencialmente mudo em sua linguagem verbal, mas amplificado por uma trilha sonora contínua que conduz o trabalho. A ausência da palavra falada expande o campo de imaginação e interpretação do público, permitindo que a narrativa se articule por meio da movimentação do elenco e da manipulação precisa dos bonecos.
É justamente quando a criança adormece que o espetáculo parece encontrar sua maior potência. O universo construído em cena se desloca para uma dimensão onírica, povoada por imagens que escapam de uma compreensão imediata. Corpos, bonecos e objetos assumem formas híbridas, aproximando o orgânico do mecânico. Há algo de inquietante nessas figuras que parecem não pertencer completamente nem ao mundo humano nem ao mundo das máquinas. A escolha estética produz uma espécie de estranhamento que dialoga diretamente com a temática da obra: o que acontece quando os nossos corpos começam a funcionar como máquinas permanentemente conectadas?
Foto: Igor Cerqueira
A manipulação dos bonecos é também um dos elementos que mais evidencia a construção artesanal do espetáculo. Em uma época em que grande parte das experiências infantis mediadas pela tecnologia acontece através de superfícies luminosas, HA! oferece justamente o contrário: a materialidade do objeto, a presença dos corpos dos atores, o movimento que acontece diante dos olhos e a possibilidade de perceber que, por trás de uma figura aparentemente autônoma, existe alguém produzindo aquele movimento. O teatro de bonecos se apresenta, assim, não apenas como linguagem estética, mas como uma espécie de contraponto à experiência digital.
Essa escolha ganha ainda mais força porque o espetáculo não parece interessado em estabelecer uma oposição simplista entre tecnologia e infância. Não se trata exatamente de dizer que as telas são ruins e que a criança precisa simplesmente abandoná-las. A questão que atravessa a obra parece estar mais próxima daquilo que o excesso produz: a interrupção do sono, o empobrecimento das experiências sensíveis e a dificuldade de permanecer em contato com o próprio imaginário. É no sono, e sobretudo no sonho, que a peça encontra uma possibilidade de recuperar aquilo que a aceleração cotidiana parece nos fazer perder.
A presença dos adultos também pode ser percebida como parte desse problema. Afinal, o excesso de tecnologia não é uma questão exclusivamente infantil, mas um modo de vida que atravessa as famílias e organiza as relações contemporâneas. A criança diante da tela é também reflexo de um mundo adulto permanentemente conectado, no qual o silêncio, o ócio e até mesmo o tédio parecem ter se tornado experiências difíceis de sustentar. Nesse sentido, o espetáculo fala às crianças, mas não necessariamente apenas sobre as crianças.
Um ponto relevante da sessão foi a recepção da plateia infantil. Logo no início, algumas crianças demonstraram medo e estranhamento diante das figuras em cena, chegando a chorar. Essa reação levanta questionamentos sobre a estética dos bonecos, que flertam com o robótico, o futurista e o inusitado. Contudo, essa resposta em nada invalida a proposta. Pelo contrário: evidencia que o teatro para crianças não deve infantilizar o seu público, mas sim expandir seu repertório e permitir o acesso a diferentes estéticas.
Há, ainda, uma dimensão política na própria escolha de fazer um espetáculo para as infâncias sem recorrer à simplificação. HA! confia na capacidade de seu público de lidar com imagens estranhas, situações de medo e questões que não precisam ser completamente explicadas. Talvez justamente aí esteja uma de suas contribuições mais interessantes: lembrar que a infância também é território do desconhecido, do medo, do sonho e do absurdo, e que oferecer às crianças experiências artísticas não significa protegê-las de toda inquietação, mas criar condições para que possam experimentá-la de maneira compartilhada e imaginativa.
A participação do grupo belo-horizontino no circuito do Palco Giratório com uma pesquisa instigante e necessária reafirma a força da produção local. Em HA!, o Artilharia Cênica encontra no teatro de bonecos uma maneira sensível de falar sobre um dos grandes dilemas do presente, sem abrir mão da fantasia, do estranhamento e da possibilidade de sonhar. Que o eco de HA! siga ressoando nos palcos — e, sobretudo, nos sonhos de quem o assiste.
Foto: Igor Cerqueira
Bramma Bremmer é artista de Belo Horizonte, transitando entre o teatro, o cinema e a literatura. Desde 2016 é cocriadora e atriz em diferentes projetos da Plataforma Beijo, entre eles os espetáculos Projeto Maravilhas, Encanto dos Insetos e Fazer Festa com o Perigo, além da mostra Quarta Kuir. É coordenadora de comunicação do Centro Cultural Galpão Cine Horto desde 2022 e já atuou em diferentes curtas e longas-metragens no audiovisual brasileiro. Participou como crítica teatral em mostras e festivais na cena mineira, e atualmente é também curadora e coordenadora geral do Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.
FICHA TÉCNICA
Direção: Eros P Galvão.
Dramaturgia: Grupo Artilharia Cênica e Eros P Galvão.
Elenco: Bruno Maracia, Igor Fonseca e Raniele Barbosa.
Contrarregra e operador do animatrônico: Gefter Rayan.
Desenho de luz e operação: Tim Santos.
Concepção de figurino: Maia Flores e Victor Medeiros.
Assistente de figurino: Amanda Silva Lopes.
Confecção do figurino: Júlia Alves.
Trilha sonora: Ivo Ivo Ivo.
Operação de som: Tim Santos.
Cenário, adereços e Animatrônico: Tim Santos.
Boneco: Tim Santos e Leandro Marra.
Assistente de cenografia, adereços e boneco: Rodrigo Pimentel.
Concepção dos personagens/bonecos: Eduardo Santos.




