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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

coberturas críticas

Um palco-tela para a imaginação infantil

Um palco-tela para a imaginação infantil

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “#Mergulho”, do Eranos Círculo de Arte.

Há pelo menos duas maneiras de se olhar para  o espetáculo #Mergulho, dirigido por Max Reinert, do Eranos Círculo de Arte, de Itajaí. Do ponto de vista das crianças, público ao qual se direciona o trabalho. E do ponto de vista dos adultos, o que transforma as crianças em performers de uma cena que as engloba. Vamos ao primeiro.

O subtítulo propõe uma experiência teatral para os pequenos. Já aponta para fora do palco tradicional onde atuadores costumam encenar fábulas infantis. A experiência aqui é de um teatro tecnológico, onde os personagens interagem mais com projeções digitais de luz do que entre si. Em tempos ultraconectados, quando não raro crianças de dois anos já têm acesso livre a tablets e quetais, a proposta para espectadores de até seis anos de idade é colocar o humano diante da máquina e resgatar alguma magia dessa relação cada vez mais operativa e automática.

As imagens projetadas estimulam aos poucos a imaginação das crianças, desde a menção ao teatro de sombras, que estaria na origem do tipo de linguagem desenvolvida pelo grupo, até a imersão do humano no espaço virtual. O convívio reduzido entre o ator Leandro Maman e a atriz Sandra Coelho dá lugar à relação direta de cada um deles com a pequena plateia, parceira de cena convocada como testemunha e ajudante na aventura do encontro entre um homem da terra e uma mulher do mar. A simplicidade da história permite que seja acompanhada por todos, desde os mais novos, como uma brincadeira que se brinca junto.

Na apresentação realizada no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, as crianças embarcaram na ilusão e participaram entusiasmadamente de cada ação que lhes era solicitada – ou mesmo das que não. A espontaneidade das respostas de uma faixa etária tão nova acomoda-se bem à encenação na medida em que os atores mantêm a proximidade física e a conversa aberta. É curioso como o palco-tela prontamente remete à tecnologia touch e as crianças não se demoram em tentar acioná-lo com as mãos, impulso que os atores conduzem para falsear uma interatividade na verdade programada, mas que serve à estimulação da fantasia.

Eis um bom lugar para a tecnologia na vida desses meninos e meninas. Como um mundo lúdico que liberte a criatividade e a imaginação, permita desbravar outros territórios, sem prejudicar o convívio humano, a capacidade de escuta e de leitura, a atenção ao concreto e ao presente, que já desafiam as novas gerações como consequências de mudanças perceptivas que, ao menor descuido, são capazes tanto de abrir quanto de fechar mundos.

Outra perspectiva é a que se tem da plateia adulta, situada em cadeiras mais distantes do palco cercado pelas crianças. Estas tornam-se performers involuntárias às quais se assiste com mais interesse do que à fábula em si, atento às reações e espontaneidade que tecem uma camada poética e cômica extra. Numa sociedade em que a infância está restrita a territórios específicos e nem o espaço público nem o mercado de trabalho têm preparo para um convívio mais livre entre todas as idades, assistir às crianças brincando de teatro reaproxima o espectador de sua experiência de infância e de uma ludicidade que não deveriam ser esquecidas, mas também pode investi-lo da noção de comunidade apta a cuidar dos caminhos daqueles que há pouco chegaram no mundo e não são responsabilidade só de pai e mãe.

*Espetáculo visto em 09 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.

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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, infantil, Itajaí BY: Luciana Romagnolli
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Uma estética anódina para as sombras do sentir

Uma estética anódina para as sombras do sentir

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Em Respeito à Dor”, da Cia. Karma.

À primeira vista, a cena armada pela Karma Cia. de Teatro, de Itajaí, no espetáculo “Em Respeito à Dor” remete às experiências que vêm sendo praticadas nos últimos três ou quatro anos no Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR, em Curitiba, sob a orientação do encenador Roberto Alvim. Espectros transumanos da fixa luz fria, do palco sob penumbra, do registro de atuação pouco emocional. Mas o território pelo qual trafega o diretor Mauro Filho é distinto, o da desumanização dos seres num contexto de elogio máximo à produtividade e à felicidade plena, este unicórnio pós-moderno.

Em outras palavras: dessubjetivação. Quem bem escreveu sobre o assunto foi o filósofo italiano Giorgio Agamben, para o qual os dispositivos atuantes no mundo contemporâneo ocasionam a dessubjetivação dos sujeitos. Dispositivos seriam “qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes[1]”, ou seja, desde prisões às escolas, da filosofia à linguagem, da caneta ao computador, à televisão, ao smartphone. Eles produziriam sujeitos por um processo de assujeitamento, de modo que o dispositivo seria uma máquina de governo produtora de subjetivação. Na atual fase do capitalismo, porém, o processo já não corresponde a nenhuma subjetivação real. A ação dos dispositivos é de dessubjetivação.

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Este desvio filosófico traça o pano de fundo dos questionamentos existenciais contidos na dramaturgia colaborativa de “Em Respeito à Dor”. O experimento cênico sobrepõe camadas de verborragia e esforço físico para compor uma metáfora sobre o desgaste emocional e energético que é viver numa sociedade que condena – invisibiliza, expulsa, excomunga – qualquer manifestação de sofrimento (como o luto) por seu caráter improdutivo. Novamente cabe a referência ao estudo de Jonathan Crary[2], para quem o sono é o último reduto contra o capitalismo, por sua absoluta improdutividade – e, também por isso, o mais novo alvo.

O tratamento dramatúrgico textual dessa matéria faz-se por uma narrativa fissurada, reiterativa e não linear, cujos avanços e recuos operam por redundância, aproximando testemunhos de fracasso de Joãozinho (figura ficcional “desertora” da cruzada pela felicidade) a lições para o bem-viver, contidas em frases como “cuidei do meu corpo, esqueci de cuidar da minha alma” ou “me dei o direito de ser egoísta – recomendo”. As ações performáticas, como empurrar um bloco, debater-se, cair, inflar e soltar balões, contrastam a esse tom explicativo um diapasão mais sugestivo, em que a potência poética se sintetiza na forma de imagens simbólicas.

O peso do mundo – de si e do outro – já não é efeito de causas reconhecíveis;, descolou-se delas para tornar-se objeto concreto, dado a priori, que se manifesta no suor e no grito. As palavras sobram quando se tenta dar sentido à falta de sentido, mesmo como jogo de linguagem. Mas o paradoxo maior arquitetado na proposição cênica é a anodinia com a qual se problematiza o bloqueio da subjetividade e dos sentimentos humanos em sua diversidade de tonalidades. Pesa sobre a cena uma sobriedade estética expressa na frieza da luz sobre o espaço vazio, na uniformização dos figurinos e das ações, nas cores cinzentas, no automatismo dos corpos, na economia de expressões faciais, na sensibilidade maquínica. Eis a crueldade-moinho de um mundo sem sentido onde nem se pode sentir.

*Espetáculo visto em 11 de agosto de 2015, no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí/SC.

[1] Para saber mais sobre o assunto, ler “O que é um dispositivo?”, artigo de Giorgio Agamben disponível na internet e em livros como “O que é o Contemporâneo e outros ensaios”.

[2] Como citei em outro texto, o ensaísta trata desse tema no livro “24/7 Capitalismo Tardio ou os Fins do Sono”.

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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Itajaí BY: Luciana Romagnolli
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O jogo cômico entre palco e plateia

O jogo cômico entre palco e plateia
— por Luciana Romagnolli —
Crítica de “Trueque”, da Cia. Animeé.
 
“Às vezes, o palhaço deve saber abrir mão do fenômeno cênico em prol da relação”, já disse Teotônio, o palhaço de Ricardo Pucceti, do grupo Lume, de Campinas. Estar aberto para o jogo exige um estado de presença e prontidão para o improviso, sem apego excessivo ao que se pretende fazer e mostrar, pois só nos vazios o jogo com o espectador encontra espaço para acontecer. Faz parte da arte da palhaçaria, portanto, uma interação direta com a plateia, a disposição à mútua afetação.

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Essa relação não apenas está presente, mas é a própria substância do espetáculo para crianças “Trueque”, apresentado pelas palhaças Mary En (Enne Marx) e Tantan (Tamara Floriano), da Cia. Animeé, de Recife, no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí. Tanto que as duas artistas dispensam a submissão a uma fábula organizadora ou mesmo algum fio narrativo que dê unidade à sequência de ações a serem desempenhadas em triangulação com o público. A dramaturgia de “Trueque” troca a história pelo jogo, na intersecção do circo com o teatro, e delega às músicas o quinhão de poeticidade que instaura o estado artístico. Com isso, faz do espaço somado de palco e plateia um território lúdico e permeável.
Só é possível que as afetações transcorram tão livremente entre plateia e palco em razão do grande carisma das palhaças, que encontram um tom entre a doçura e a marotagem visivelmente atrativo para as crianças (e para os adultos imbuídos do espírito infantil, que eram maioria na sessão realizada na cidade catarinense). Tantan e Mary En funcionam como uma dupla complementar e coesa, que floresce especialmente nos vocais expressivos da primeira. A cena de apresentação do nome da palhaça criada por Tamara Floriano é exemplo da potência do uso de referências musicais para provocar um efeito inesperado e, consequentemente o riso.
Juntas, então, as duas constroem uma atmosfera de cumplicidade com o público, encorajando a participação espontânea dos espectadores desde as menores idades. A naturalidade com que crianças sobem ao palco atesta que, sob a ação das palhaças, aquele se torna um terreno amistoso e a arte se aproxima da brincadeira. Para isso, contribui também o respeito ao tempo de resposta das crianças, não o ritmo acelerado ao qual nos acostumamos na rotina 24/7 (a expressão é do ensaísta norte-americano Jonathan Crary), mas uma dinâmica distendida.
Em raros momentos a dinâmica afrouxa-se como consequência da opção por “abrir mão do fenômeno cênico” um tanto mais. Ao menos, na visão desta adulta, foi o caso da sequência de mágicas e da cena que antecede o final, quando um grupo de espectadores é levado ao palco sem um propósito de ação claro. São momentos que não atingem a mesma carga criativa, embora sustentem o riso e a prontidão do espectador, que a esta altura já aderiu completamente ao jogo.

O espetáculo nasceu da vivência durante o trabalho em hospitais com os Doutores da Alegria. Pode-se imaginar que esta tenha sido uma contingência determinante para que a relação com o espectador sobressaísse. Ao mesmo tempo, fica uma sensação de que o trabalho pode ganhar ainda mais potência sensível se somar a essa admirável capacidade comunicativa uma elaboração mais poética das brincadeiras, como se vê na delicada, comovente e cômica sequência da morte do “biquinho”. Mesmo quando a dramaturgia se dispersa, porém, a música feita com aparente simplicidade em sinos e tubos e a oralidade elaborada com em texturas vocais e rimas imantam as atenções. Quem duvidaria da força cômica de um mero dabadabadu?

*Espetáculo visto em 09 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.
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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, infantil, palhaço, Recife BY: Luciana Romagnolli
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O fator matemático e o fator humano

O fator matemático e o fator humano

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Quase Tudo no Timing”, da Sua Companhia.

Timing is the answer to success.

“Timing” | Kevin Johansen

“Com Certeza”, “Palavras, Palavras, Palavras” e “Variações sobre a Morte de Trotsky”, as três peças curtas do dramaturgo norte-americano David Ives conectadas no espetáculo “Quase Tudo no Timing”, da Sua Companhia, de Itajaí, foram publicadas no Brasil em um único volume intitulado “Tudo no Timing”. O “quase” entra em cena, então, como o fator humano indomável agindo sobre a exatidão matemática da dramaturgia adaptada.

Gestada como um jogo matemático de variações – à semelhança da Teoria dos Muitos Mundos, segundo a qual para situação abrem-se dois mundos paralelos nos quais cada resultado possível se realiza –, a primeira cena leva ao extremo a precisão operativa. Marcelo Marquettti, Leandro Magalhães e Adriano Magalhães cumprem uma espiral de variações bruscas de um diálogo entre dois desconhecidos num café, com timing perfeito, que acentua o efeito cômico. Somam ao jogo de linguagem ainda outro com o espectador, concedendo-lhe a escolha dos gêneros que formarão o casal de personagens, tangenciando uma questão urgente de direitos humanos. Dessa interação direta dos atores com a plateia vem a imprecisão, que humaniza a racionalidade rigorosa da comédia arquitetada por Ives.

Quase Tudo no Timing 3

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Quase Tudo no Timing 2

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Quase Tudo no Timing

Quase Tudo no Timing

A cena sobre a morte de Trotsky repete a presteza da primeira, acrescida de ironia sobre a história política mundial e de um senso de absurdo, especialmente ao brincar com a impossibilidade de que um indivíduo possa ter consciência da perspectiva histórica de seus atos. Por usa vez, “Palavras…” parece ainda um tanto obscura para o grupo, seja na construção do ritmo (é o único não estruturado em variações combinatórias), seja por uma compreensão maior da ácida crítica social contida na fábula sobre a probabilidade matemática de um grupo de macacos datilógrafos escrever um dia, por acaso, “Hamlet”.

No tom geral do espetáculo, a crítica de viés operário depreendida dos dois últimos textos é sobreposta pela pegada pop e irônica sugerida no primeiro. É uma escolha pela comunicação viva e direta com o público, que de fato se concretiza. Mesmo que alguns momentos gerem a sensação de que se cumpre uma suposta dívida cômica com a plateia, o humor – irônico, sarcástico, debochado ou patético – dispensa concessões para encontrar seu espaço.

Música e referências cinematográficas contribuem para constituir a atmosfera descontraída, assim como a própria energia dos atores, desde o preâmbulo dançado até as discussões sobre como construir a próxima cena. Se as fábulas de David Ives ocupam o centro das atenções, as margens são invadidas pela encenação da encenação, ou seja, pelo compartilhar com o espectador dos mecanismos e bastidores da construção das cenas escritas pelo norte-americano – autor também de “A Pele de Vênus”, filmado por Roman Polanski e montado por Hector Babenco como “Vênus em Visom”.

É recorrente no teatro contemporâneo a cena que se arma em palco seminu, delimitado por um cercado de espectadores próximos o bastante dos atores para que haja afetação física direta. No chão, além das marcações, poucos objetos móveis. O microfone e o computador para operação de som e luz nos cantos, à vista. “Quase Tudo no Timing” investe nessa configuração – como também já foi feito pelo grupo Magiluth, do Recife, só para ficar em um exemplo com traços estéticos em comum, entre os quais certo deboche e a forma aberta de manejar o espaço cênico.

Chamo a atenção para essa coincidência não enquanto fórmula, mas, sim, como um tipo de concepção do palco análoga à tela em branco na paiting action. Ou (se a primeira comparação soar muito restritiva em tempos de hibridismo de linguagens) como um espaço vazio sobre o qual quase tudo é possível construir. É este o ponto nevrálgico: o processo de construção exposto ao público em paridade de importância com a fábula. Valorizar o processo em vez da obra acabada, mostrar-se fazendo, responde a uma ética antiespetacular do acontecimento teatral como um fazer coletivo, que desvela escolhas, idiossincrasias e falhas.

Em grande medida, trata-se de uma recusa à ilusão e à catarse própria da sensibilidade contemporânea. Embora não se possa dizer que a ilusão seja abolida – ela se reinventa, pois o jogo de improviso e espontaneidade depende do efeito de real, por vezes representado, tornando muito mais complexas as noções de realismo e ilusão. Pois é nessa tensão entre a representação e a presença que trabalham os atores da Sua Companhia. Marcelo Marquettti, mais identificado a uma atuação representativa; Adriano Magalhães, ao performer com tônus de presença.

São diferenças que aparecem especialmente quando atuam como macacos: Marcelo constrói o personagem com um registro vocal específico; Adriano concentra na movimentação corporal a citação ao símio e mantém na fala o tom do performer. Numa zona de trânsito entre os dois, Leandro Magalhães ainda mantém um vestígio representativo quando experimenta a espontaneidade, mas realiza a interpretação mais nuançada do espetáculo ao assumir a fala da mulher de Trotsky, no limiar delicado entre o aparecimento da personagem e o desaparecimento do ator.

Ainda que essas variações de registro de atuação de algum modo já estejam inseridas dramaturgicamente, talvez possível elaborá-las mais conscientemente para reforçarem o jogo do performer com a representação, que parece ser a matéria mesmo do espetáculo.

*Espetáculo visto em 11 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.

 

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18/08/2015 TAGS: David Ives, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Itajaí BY: Luciana Romagnolli
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Desafios no caminho para um humor subversivo

Desafios no caminho para um humor subversivo

— por Luciana Romagnolli —

O riso tanto tem potencial subversivo quanto conservador. A depender de como se constrói e para onde se direciona a comicidade, ela pode descobrir os absurdos e contradições humanos ou reiterar estruturas de poder, colocar mais argamassa para bem sedimentar um senso-comum em seu lugar acrítico de perpetuação do status quo. Eis o riso que entretém, proporciona alívio cômico às ilimitadas pressões da vida contemporânea, suficiente para que se retorne à rotina mais disposto a encará-la sem subversões nem revoluções. A distância entre o entretenimento simples e a arte residiria nessa adequação com a qual os projetos moderno e contemporâneo não coadunam, imersos como estão num regime estético que compreende a arte como deslocamento (crítico) da percepção.

Eis o desafio que se apresenta diante do Grupo Risco de Teatro, de Itajaí, primeiro espetáculo local a subir ao palco no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha. Como dar o salto do entretenimento cômico para um projeto artístico com potência para cumprir o objetivo de “um teatro de benefícios culturais e sociais” ao qual o próprio grupo se propõe, no qual o riso recupere seu poder de interferência crítica na percepção de uma dada realidade?

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Em qualquer dicionário, risco, quando não é traço, opõe-se ao previsível, transita pela instabilidade e incerteza. E, mesmo quando traço, pode ser incisão. O que vemos em cena afasta-se desse sentido incisivo da experimentação de uma disrupção poética. “Cem Dias” é uma comédia histórica perpassada por alívios cômicos garantidos por piadas de cunho sexual, que seguem a cartilha dos lugares comuns do gênero. A conexão entre a malandragem dos primeiros colonizadores e a corrupção generalizada em tempos sombrios de congresso sob os mandos de Eduardo Cunha fica encoberta pelas reentrâncias da trama, cuja atenção se concentra nas situações cômicas derivadas de estereótipo sexuais como o da mulher madura libidinosa e seus trejeitos afetados.

É claro que o vulgar e o grotesco também guardam grande potencial contestador se empregados com verve para colocar em crise os padrões e valores vigentes. Nesse sentido, a dramaturgia pode amadurecer e, em conjunto com a direção, encontrar estratégias para, sem perder a leveza juvenil do espetáculo, estabelecer uma troca perspicaz com o espectador.

 

Dito isso como uma provocação para o grupo a respeito de como pretende agir sobre o mundo com sua arte, cabe apontar a qualidade do preparo corporal dos atores e a fluência dos diálogos, que geram um entrosamento nas contracenas mais do que propício para os efeitos de comicidade. Não lhes faltam timing nem carisma para o jogo proposto. E, se as oscilações entre o dramático e o épico poderiam se beneficiar de uma maior liquidez, o cenário criado como uma caixa-fornecedora de objetos para a cena surge como estratégia mais contemporânea (sem que haja nisso uma necessidade de originalidade) para instaurar um jogo dinâmico de teatralidade, lúdico e algo inesperado

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18/08/2015 TAGS: cobertura, festival, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Itajaí, Santa Catarina BY: Luciana Romagnolli
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A desorientação humana pela remodelagem do espaço e do tempo

A desorientação humana pela remodelagem do espaço e do tempo

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “A Vida Dele”, da In-co-mo-de-te.

A trilogia com que se inicia o percurso criativo do grupo gaúcho In.co.mo.de-te (Inconformada
Companhia de Moda, Design e Teatro) sustenta-se em textos do escritor estadunidense Paul Auster escritos à luz da obra de Samuel Beckett. “DentroFora”, segundo dos três e o que mais circulou pelo país até agora, inspira-se em “Hide and Seek”, de Auster — por sua vez, uma recriação direta dos “Dias Felizes” de Beckett. No espetáculo, homem e mulher estão ambos encaixotados e incapacitados de se verem, num contexto em que o consumismo acelerado no capitalismo tardio ocupa as lacunas do vazio existencial no pós-guerra beckettiano. O rigor formal da cena enclausura os elementos na beleza estática do quadro imóvel; não é somente Winnie quem está soterrada: luz, espaço e corpos aprisionam palavras ou são aprisionados por estas.

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A estilização acentuada do quadro cênico, proposta coerente com as artesanias que antecedem o teatro no nome da companhia gaúcha, aponta para um projeto de obra de arte total, no qual o cenário, a música, a luz e o figurino impactem sobre os significados e afetações tanto quanto o texto. Eis o traçado comum a “A Vida Dele”, espetáculo que encerra a trilogia austeriana e trata os corpos dos atores Liane Venturella e Nelson Diniz como esculturas no espaço, definidas pelo jogo de luz e sombras da atmosfera misteriosa inspirada na peça “Blackouts” e no romance “Fastasmas”, novamente de Auster.

Sob a responsabilidade da cenógrafa e iluminadora Cláudia De Bem, a luz atua no desenho do espaço, faz-se cenário, dita tempos, transforma situações, compõe quadros altamente gráficos, inspirados em clichês de histórias de espionagem, e embaralha as linhas curvas e soltas da dramaturgia. Enfim, aparece em primeiro plano como a força superior e oculta que, num mundo sem deuses, conduz as ações.

Pois é um mundo destituído de todo destino sagrado tanto quanto de qualquer possibilidade de sentido estável o que habitam os personagens Peter e Verdi. A fábula inventada pela dramaturga Michelle Ferreira a partir dos textos de Auster ilumina a previsibilidade e a falta de finalidade da vida humana, temas obviamente beckettianos. Como uma dupla de clowns (também o eram eram Didi e Estragon), de narizes proeminentes, Peter e Verdi, o astuto e o ingênuo, gastam as horas a espionar um desconhecido na nulidade de seu cotidiano. Ilustram a desorientação humana diante do tédio da existência e do despropósito do tempo, dentre outras leituras que uma obra aberta propicia a cada espectador.

Em meio a reviravoltas típicas de romances detetivescos, emerge a possibilidade de se pensar sobre a própria atividade da escrita, ocupação principal do desconhecido espionado (o ator Carlos Ramiro Fensterseifer), em variadas camadas. Da vida que se faz mais estimulante na imaginação do que na prática. Dos detetives que espionam o escritor ou do escritor que inventa personagens detetives que o espionam a escrever. E, ainda, do escritor que observa os personagens de outro autor para a partir deles compor sua obra, tal como Auster em relação a Beckett.

Diante dessa crítica ao cotidiano esvaziado, a estetização da cena e o investimento na teatralidade dos elementos contrastam criando uma forma marcadamente extracotidiana, cujo afastamento do real simboliza a recusa à banalidade do estar vivo. A musicalidade exerce função determinante para esse descolamento da margem de atuação do homem comum, ampliada pelo fazer artístico. Não somente a música em si, a remodelar o tempo assim como o faz a luz; mas a própria musicalidade nos tempos das falas dos atores, que coreografam as palavras, tanto quanto os corpos são coreografados no espaço. A habilidade em esculpir tempo e espaço por meio da ação da luz e do som sobre os corpos e o palco é um forte traço de personalidade do grupo desenhado já em trabalhos anteriores, e une as disciplinas específicas do artistas envolvidos em prol da teatralidade.

A considerar a apresentação vista no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí, a partir da metade do espetáculo, à medida em que aumentam as contracenas entre os personagens, a encenação mostra alguma dificuldade em manter o rigor formal da engrenagem cênica criada, assim como os contornos do desenvolvimento narrativo de um pseudomistério que tende a se diluir na nulidade da vida. Para que o impacto não se disperse, merece atenção também a cena final, quando a repetição de um elemento nonsense pode restringir-se ao efeito pelo efeito, mais do que gerar desnorteamento.

*Espetáculo visto em 08 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.

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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teat, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Rio Grande do Sul BY: Luciana Romagnolli
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Flutuações de uma relação circo-teatro

Flutuações de uma relação circo-teatro

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Vizinhos”, do Circo Zanni.

Há um padrão que se repete em “Vizinhos”, já visto nesta edição do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo no espetáculo “Um Café da Manhã”. Novamente estão o homem e a mulher em cena a cumprir suas atividades diárias e representar por meio de números circenses o doce e o amargo de uma relação. O caráter arquetípico dessa estrutura em comum requer uma afinação entre intenções e movimentos, além de alguma ruptura de expectativa do desenho modelar de um vínculo a dois, para superar a trivialidade e o esquematismo da equação “casal se conhece, se ama, briga e se separa”.

“Um Café…”, embora siga milimetricamente essa conta, faz o casamento das ações corporais à narrativa da vida por meio de metáforas sugestivas, mas bastante claras, das quais é possível depreender uma história delineada. “Vizinhos” já se move por uma dramaturgia mais aberta e difusa. Apesar de o título atribuir aos performers Maíra Campos e Daniel Pedro a relação de moradores de um espaço contíguo, as fronteiras não evidentes e a comunicação restrita à pantomima deixam o que se vê em cena no limite de uma relação de casal, para a qual de fato evolui.

No início a teatralidade é determinante do modo como cada um ingressa em cena investido de um personagem, num registro cotidiano que até estranha a corda amarrada no meio do apartamento. A cena só recusa o realismo pela decupagem de movimentos em marcação sincopada ditada pela música, a dança então prepondera entre as artes do corpo em jogo. Mas o elemento circense já se revela em detalhes, como a sombra na forma de uma lona de picadeiro projetada ao fundo e os cabelos armados de Maíra, uma imagem clownesca, assim como nas pequenas subversões de modos extracotidianos de realizar atividades como comer macarrão.

A arte circense explode quando a dupla envereda pelo equilibrismo e o corpo dela assume formas esculturais suspenso sobre a base de apoio dele, em momentos de intensa plasticidade. Logo se percebe que o espetáculo do projeto Artinerant’s está menos interessado na grande narrativa do que em compor breves momentos de representação da interação relacional entremeados pela demonstração da habilidade circense.

Disparados por ações teatralizadas, como o trocar de roupa sobre a corda-bamba, os números se estendem até que se desfaça o laço com a motivação originária e reste, em primeiro plano, a técnica. O desenho das ações, então mais impreciso, destitui-se do potencial simbólico. Vemos como Maíra é capaz de realizar uma abertura total de pernas sobre a corda bamba, girar em torno do eixo do quadril ou escorregar sobre o fio suspenso, por exemplo. O risco, a flexibilidade, a destreza e o equilíbrio sobrepõem outros sentidos possíveis.

Pode-se dizer que assim o circo ganha certa autonomia, sem que a dança e o teatro o sujeitem. Ao mesmo tempo, entretanto, está limitado a esses bolsões como respiros antidramáticos, numa estrutura que se tornará mais tributária da narrativa fabular em sua etapa final. Músicas como a versão flamenco-melancólica de “Você não Vale Nada”, cantada por Tiê, redimensionam a cena para um figurativismo atribuidor de sentidos imediatos, ao que o uso de máscaras como a de gado e de coelho convertem em uma atmosfera nonsense.

Depois de um início potente pela relação corpo-tempo-espaço-som, e certa indefinição posterior entre assumir a autonomia circense, investir na fábula ou encontrar o justo entrelaçamento de ambos, esse traço surreal confere novo vigor ao espetáculo, aquela ruptura com o esquema-padrão do romance à qual se fez menção no início deste texto – e ainda adiciona uma camada de humor.

Tal atmosfera se desfaz, contudo, perante a intrusão de uma gravação que comenta levianamente a relação conjugal entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, reduzindo os dois à anedota de amantes libertinos e cruéis – e nisso desconsidera em absoluto a produção intelectual de ambos que está intimamente ligada à esfera da sexualidade e da liberdade. Com essa recusa à complexidade do pensamento, a simplificação do comportamento do célebre casal se insere como uma legenda que tentará fechar os sentidos de leitura do espetáculo. Ainda em off, uma frase como “o ser humano só se safará se ao passar a mão no rosto reconhecer a própria hediondez” não encontra sustentação no que se viu até então em cena, e ainda aponta para uma desnecessária conclusão moralizante.

*Espetáculo visto em junho de 2015, em São Paulo.

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03/06/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Corpos esculpem o destino de uma relação amorosa em “Um Café da Manhã”

Corpos esculpem o destino de uma relação amorosa em “Um Café da Manhã”

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Um Café da Manhã”, do coletivo Um Café da Manhã.

O disparador do espetáculo “Um Café da Manhã” é um prosaico poema do francês Jacques Prévert (1900-1977) sobre um homem que, após servir-se de café com leite e fumar um cigarro, parte: “E saiu/ debaixo de chuva/ Sem uma palavra/ Sem me olhar”. Sem ater-se aos versos mais do que como sopros de sentido que poderiam se construir com uma teatralidade fundada na dança e no circo – em especial, na técnica do trapézio –, o coletivo de São Bernardo do Campo, com direção e roteiro de Ronaldo Cahin, compõe uma coreografia que vai do chão ao ar traçando os passos da atração à despedida de um casal.

A suspensão do parceiro amoroso, abandonado sem mais, é a primeira metáfora extraída do poema a concretizar-se visualmente em cena, já na cenografia de Natalia Vaz e Frederico Fillipi. Separados, no palco, o lado da mulher (a performer Ana Coll) e o do homem (Kadu Mendes), cada um é indiciado por um conjunto de objetos-ícones suspensos por cordas. Para ela, roupas, batom. Para ele, livros e jornal. Um espaço cindido pelo binarismo homem-mulher padronizado, que seguirá os clichês de gênero para desenhar uma pantomima facilmente reconhecível pela plateia por circunscrever-se às expectativas do mito do amor romântico, no qual cabe à mulher a dor pela falta de envolvimento emocional do parceiro. Nesse sentido, nada de extraordinário.

Os corpos é que o dizem, por meio de movimentos cotidianos realizados de modo inesperado – como a artista a amarrar os cabelos de cabeça para baixo, pendurada na argola, ou o performer a tirar e pôr os sapatos enquanto desenha formas com o corpo preso à corda em altitude. A forte teatralidade da encenação provém dessa passagem do ordinário para o extraordinário. Os próprios objetos circenses são ressignificados num regime de representação – a argola feita espelho, o trapézio como casa. E os movimentos adquirem um caráter sugestivamente metafórico, legíveis à medida em que se atribuam significados às coreografias solitárias cumpridas inicialmente pelos performers em seus trapézios e à união que se segue.

Enquanto ela permanece mais próxima do solo, cumprindo um fluxo de esculturas corpóreas que a põe repetidamente de cabeça para baixo com o peso sobre os ombros, e arrisca alguns movimentos aéreos na argola suspensa, ele sobe mais alto na corda à qual enroscado deixa-se cair, em movimentos que anunciam maior gosto pelo risco. Constroem-se assim as imagens das duas personalidades, por obra de que cada movimento seja mimese ou metáfora a compor pela linguagem própria do corpo uma narrativa mais ou menos clara.

A aproximação dos dois indivíduos solitários é igualmente narrada sem palavras, por uma partitura dançada que incorpora patins e, enfim, o trapézio duplo, seguindo uma progressão de risco. O emparelhamento dos corpos e a sincronia de movimentos traçam a trilha do casal, cuja dinâmica é regida pelo corpo masculino: o primeiro que avança, instantaneamente seguido pela mulher, a quem cabe interpor seu corpo ao dele para criar momentos íntimos. Ações e reações pontuadas pelas expressões faciais de Ana Coll, que humanizam a virtuose da coreografia.

É certo, porém, que o virtuosismo não ocupa o valor mais alto em cena, armada como está na hibridez entre arte circense, dança e teatro, todas linguagens agenciadas para contarem a história ordinária de modo extraordinário. Não se trata, então, de alcançar a ousadia fortemente amparada na técnica semelhante ao visto, por exemplo, no casal de trapezistas de “Acelere”, na abertura do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo. Se lá o trapezista carregava a parceira em grande altitude e por longo período sustentado somente pela nuca (sem rede de proteção), aqui a artista experimenta, apenas por segundos, a suspensão com o mesmo ponto de apoio, a pouco mais de dois metros do chão. Afinal, a técnica está a serviço da dramaturgia, não o contrário; e a atenção do espectador é partilhada entre o risco e o drama. Com a particularidade de que a estética do risco físico metaforiza o risco do encontro amoroso tematizado.

Numa encenação em que movimentos e elementos circenses concretos ganham outros sentidos, o mesmo ocorre aos abstratos. Sentimentos associados ao risco do picadeiro adquirem força de narrativa, e mesmo um rechaçado das expressões de acrobatas e equilibristas, como o medo, evidencia-se na expressão da personagem feminina. Assim como a confiança, tornam-se chaves-mestras na condução do destino amoroso.

O erro, então, assume igualmente uma significação dramatúrgica: a ruptura da sincronia – da sintonia ou ainda da confiança – entre o casal, expressa no olhar frustrado da mulher. Tanto é assim que a cena mais impressionante tecnicamente, a virtuose dos dois artistas cujos corpos se entrelaçam e disputam espaço no alto do trapézio, onde a rivalidade do casal se condensa na disputa pelas folhas de um jornal, um erro trivial, inesperado, prosaico, encerra a relação (e o espetáculo) sem maiores explicações. Tal como no poema de Prévert.

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01/06/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Domínios da incompetência

Domínios da incompetência

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Exceções à Gravidade”, de Avner Eisenberg.

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Os clowns (…) sempre tratam do mesmo problema, qual seja, da fome: a fome de comida, a fome de sexo, mas também fome de dignidade, de identidade, de poder. Realmente a questão que abordam constantemente é de saber quem manda, quem grita. No mundo dos clowns só existem duas alternativas: ser dominado, resultando no eterno submisso, a vítima, como acontece na Commedia dell’Arte; ou dominar, assim surge a figura do patrão, o clown branco (o Louis), que já conhecemos. É ele que conduz o jogo, que dá as ordens, insulta, manda e desmanda.

Dario Fo. Manual Mínimo do Ator.

Lido à queima-roupa, o título acima pode iludir um desastre distante do que vemos de fato no espetáculo estadunidense “Exceções à Gravidade”, apresentado no Circos – Fesival Internacional Sesc de Circo. Igualmente longe, porém, está de ser falso. A contradição sobre a qual se move o veterano palhaço Avner não é outra senão a incompetência absoluta para as ações mais triviais, como acender um cigarro ou colocar o chapéu, frente não somente à destreza para pequenas acrobacias, equilibrismos e prestidigitações, como também à impressionante perícia para a falha. Afinal, não parece mais simples errar virtuosamente, com precisão de tempo, espaço e ritmo, do que equilibrar uma escada de metal sobre o nariz.

Sem a mínima máscara vermelha a recobrir a extremidade olfativa, mas trajado semi-à-paisana com chapéu, calças pretas e suspensório, o artista reinventa o protagonismo do nariz como ponto de suporte para o equilíbrio de jornais, penas e demais objetos. Inscrito na tradição dos palhaços mudos, cuja comunicação dá-se toda por pantomima, Avner insiste na repetição de uma nota só, a do erro, para então pegar a plateia no contrapé de um êxito insuspeitado. Suas habilidades surpreendem duplamente por não corresponderem às expectativas nem da imagem de um senhor de mais de sessenta anos, nem da comédia de erros de suas ações iniciais, dignas do convidado trapalhão de Peter Sellers. Para um artista do corpo, o encanto está justamente em fazer parecer fácil o que é difícil. E difícil, o que é fácil.

Se no correr dos séculos muitas vezes o clown se desvencilhou de suas raízes mais transgressoras, identificadas primeiramente com o grotesco e, num segundo momento, com a crítica da conduta humana, e trocou o incômodo de uma postura cruel e provocadora por uma atitude docilizada, eis hoje sua transgressão: como ser político, a recusa à tirania do alto desempenho em uma sociedade com horror à improdutividade. A virtuose da estupidez abre a rota fora do padrão. Pois não seria o gasto improdutivo o que há de menos homogeneizável no mundo?

Esta redução do humano à falha, à imperfeição, à ignorância – “paspalho diante da vida”, diria a pesquisadora Katia Maria Kasper –, personificada ao longo da história pela figura do palhaço ganha então outros matizes diante da habilidade de Avner na manipulação de objetos. À sua maneira, os faz dançar, tal como Chaplin com os pães, sejam pilhas de copos de plástico ou seu indefectível chapéu preto. Enquanto, no circo, o palhaço espanta o medo entre um e outro número de risco, por vezes repetindo satiricamente as acrobacias recém-vistas, quando se converte no dono absoluto do show, Avner concentra em reduzida escala aptidões de outros artistas de picadeiro, como o ilusionista e o equilibrista, e faz do palco de “Exceções à Gravidade” um microcosmo da diversidade circense. Menos ambicioso, claro, como melhor cabe à inadequação própria de um palhaço.

Outro traço distintivo dessa figura é o que Dario Fo chamou de “fome de poder”. Avner é a um só tempo tolo e dominador – uma espécie de fusão da tradicional dupla Branco (astuto e autoritário) e Augusto (ingênuo e desajeitado) num mesmo corpo, sendo que a dominação zombeteira do primeiro sobre o segundo recai também sobre a plateia. Esta é uma construção gradativa. O senhor carismático falseia ora expressões de medo ora de segurança, enredando os espectadores num trançado de sentimentos que vão constituindo a cumplicidade entre plateia e palco.

No controle da multidão à sua frente, Avner converte seu apetite por satisfazer os espectadores em ânsia destes por agradá-lo. O artista vira o jogo sutilmente lançando mão de estratégias como aumentar a luz sobre as cadeiras, fazer de um flash inapropriado um longo improviso e dirigir, como maestro, coros de vozes e palmas. É tal o seu domínio em ludibriar o público e, assim, conquistar sua adesão irrestrita, que até o último aplauso obedece à sua regência.

*Espetáculo visto em maio de 2015, em São Paulo.

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30/05/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, palhaço, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Jérôme Bel estreia novo espetáculo no Kunstenfestivaldesarts, em Bruxelas

Jérôme Bel estreia novo espetáculo no Kunstenfestivaldesarts, em Bruxelas

– por Julia Guimarães –

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Crédito das fotos: Herman Sorgeloos.

Reconhecida por abrigar uma cena bastante expressiva do teatro e da dança das últimas décadas, a Bélgica possui também um dos mais importantes festivais de artes cênicas da atualidade, o Kunsenfestivaldesarts, em Bruxelas. Atualmente dirigido por Christophe Slagmuylder, o KFDA é conhecido por catalisar e valorizar renovações de linguagem na área, seja ao (co)produzir boa parte dos espetáculos que integram sua programação, seja ao mesclar em sua curadoria nomes consagrados da cena contemporânea com criadores pouco conhecidos do público. É esse tipo de estrutura que aparece em sua 20ª edição (8 a 30 de maio), que reúne tanto artistas de peso das artes performativas atuais – como Romeo Castellucci, Jan Lauwers e The Wooster Group – quanto nomes emergentes – caso da portuguesa Marlene Monteiro Freitas ou do sueco Marten Spangberg.

Entre os expoentes do primeiro grupo, está o criador francês Jérôme Bel, que estreou no festival seu novo espetáculo, “Gala”, na noite da última sexta (8). A exemplo da estrutura construída em obras anteriores, como “Disabled Theater” (que passou por São Paulo e Belo Horizonte em 2014), a nova montagem do diretor também explora uma dança feita por corpos não necessariamente treinados para dialogar com essa linguagem, na qual a fragilidade técnica e o erro surgem como modos de potencializar o caráter democrático da dança. No palco de “Gala”, 18 pessoas das mais variadas idades, tamanhos, pesos e etnias constroem uma estética na qual alteridade e coletividade surgem entrelaçadas.

Logo na primeira cena, uma tela de vídeo projeta fotos, em sua maioria extraídas do Google, de teatros espalhados pelo mundo. Vemos desde um minúsculo palco improvisado na praça de alimentação de um shopping até os pomposos teatros elisabetanos europeus, passando por espaços rústicos em que as cadeiras são substituídas, por exemplo, por troncos de madeira.

Nessas imagens, o poder da convenção-teatro se faz presente. A força de uma arquitetura criada para mirar e ser mirado diz respeito aos mecanismos mais básicos de instauração da teatralidade; neste caso, ela é produzida pela tradição de uma disposição espacial que configurou, no decorrer dos séculos, um imaginário em torno da linguagem cênica.

Nesse mecanismo inicial explorado pelo espetáculo, as escolhas de Jérôme Bel já deixam entrever dois elementos que colaboram para produzir uma espécie de distanciamento entre palco e plateia nos seus trabalhos: a excessiva repetição de uma mesma ação (nesse caso, mostrar imagens de teatros) e a ideia de explorar a diversidade a partir de uma unidade.

É um mecanismo semelhante que aparece nas cenas seguintes. A partir de palavras escritas em um bloco de notas disposto na parte da frente do palco, onde se lê uma sucessão de estilos ou referências de dança (balé, valsa, “Michael Jackson”…), um a um, os participantes executam algum movimento emblemático daquele estilo (o Grand Jeté, por exemplo). Já na segunda parte do trabalho, alguns dos bailarinos realizam coreografias criadas por eles próprios (entre esses, uma criança e uma cadeirante) enquanto os outros tentam copiar os passos.

A simplicidade da estrutura convida ao deslizamento do olhar: uma vez que os movimentos em si são universalmente conhecidos, o foco então recai para a maneira encontrada por cada corpo de realizar a ação. E em “Gala”, há tanto bailarinos amadores quanto profissionais. Assim como em “Disabled Theater”, a escolha por valorizar momentos individuais parece chamar atenção para a singularidades de corpos que, no cotidiano, muitas vezes passam despercebidos.

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Crédito das fotos: Herman Sorgeloos.

 

Se, por um lado, o trabalho corre o risco de se tornar uma versão cênica do tão questionado multiculturalismo – acusado de reduzir diversidades étnicas e culturais a uma espécie de slogan publicitário de “tolerância fake”, a exemplo das famosas e criticadas propagandas da marca de roupa United Colours of Benetton -, por outro, funciona, tal qual em outros trabalhos do diretor, como resistência ao caráter virtuoso e espetacular que tradicionalmente esteve atrelado às artes da cena.

Nesse sentido, “Gala” poderia ser visto também em diálogo com toda uma linhagem que busca entrelaçar arte e vida, seja como modo de valorizar um cotidiano antiespetacular no palco – e assim, revalorizar hierarquias sobre o que merece ou não ser visto pelo público – como também uma declaração de amor à dança na sua dimensão mais democrática possível.

Não por acaso, canções do universo pop já desgastadas pelo apelo excessivo da indústria cultural ganham novos significados quando coreografadas pelos participantes de “Gala”: estabelecem uma linha de continuidade da dança pensada como arte e pensada como atividade da vida social e cultural, entre elas as tradicionais “festas de gala” – formaturas, casamentos, cerimônias de debutantes – nas quais a dança torna-se muitas vezes o principal elo entre os convidados.

E é nesse contexto também que as imagens de teatros exibidas no início do espetáculo evidenciam a potência da caixa preta para ressignificar dimensões a princípio banais da vida ordinária, a partir do gesto de deslocamento de ações que em si não possuem valor artístico (a exemplo do urinol de Duchamp), mas que, quando transpostas para o interior de uma caixa cênica, imediatamente adquirem teatralidade e, por consequência, novas leituras.

Ao mesmo tempo, os mecanismos encontrados por Jérôme Bel em suas recentes encenações – participações de amadores que repetem uma mesma ação/instrução cada qual à sua maneira – ajudam a criar certa distância do espectador sobre o que vê, necessária para a reflexão sobre o que atrai nosso olhar na cena. Seria a dimensão grotesca das singularidades – fator que muitas vezes faz de Jérôme Bel um artista controverso – ou a valorização de corpos que historicamente estiveram alijados dos palcos, entre várias outras possibilidades?

Independente da resposta – pois se trata de uma reflexão transferida a cada espectador – a estrutura criada pelo diretor francês permite que empatia e distanciamento convivam simultaneamente como possibilidades de fruição da obra, o que talvez seja um dos grandes méritos de uma estrutura cênica, a princípio, tão simples.

Em conversa após o espetáculo na apresentação do dia 9 de maio, Jérôme Bel afirmou a importância do público, em seus trabalhos, ter consciência de seu próprio olhar. “Você precisa saber o que está olhando e porque é tão confortável”, disse. E é nessa tensão que seu trabalho segue provocando o espectador a se perguntar como lida – no teatro e no cotidiano – com desafios da alteridade em seu mais diferentes âmbitos.

 

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11/05/2015 TAGS: Bélgica, Dança, Jérôme Bel BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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