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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

coberturas críticas

O jogo cômico entre palco e plateia

O jogo cômico entre palco e plateia
— por Luciana Romagnolli —
Crítica de “Trueque”, da Cia. Animeé.
 
“Às vezes, o palhaço deve saber abrir mão do fenômeno cênico em prol da relação”, já disse Teotônio, o palhaço de Ricardo Pucceti, do grupo Lume, de Campinas. Estar aberto para o jogo exige um estado de presença e prontidão para o improviso, sem apego excessivo ao que se pretende fazer e mostrar, pois só nos vazios o jogo com o espectador encontra espaço para acontecer. Faz parte da arte da palhaçaria, portanto, uma interação direta com a plateia, a disposição à mútua afetação.

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Essa relação não apenas está presente, mas é a própria substância do espetáculo para crianças “Trueque”, apresentado pelas palhaças Mary En (Enne Marx) e Tantan (Tamara Floriano), da Cia. Animeé, de Recife, no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí. Tanto que as duas artistas dispensam a submissão a uma fábula organizadora ou mesmo algum fio narrativo que dê unidade à sequência de ações a serem desempenhadas em triangulação com o público. A dramaturgia de “Trueque” troca a história pelo jogo, na intersecção do circo com o teatro, e delega às músicas o quinhão de poeticidade que instaura o estado artístico. Com isso, faz do espaço somado de palco e plateia um território lúdico e permeável.
Só é possível que as afetações transcorram tão livremente entre plateia e palco em razão do grande carisma das palhaças, que encontram um tom entre a doçura e a marotagem visivelmente atrativo para as crianças (e para os adultos imbuídos do espírito infantil, que eram maioria na sessão realizada na cidade catarinense). Tantan e Mary En funcionam como uma dupla complementar e coesa, que floresce especialmente nos vocais expressivos da primeira. A cena de apresentação do nome da palhaça criada por Tamara Floriano é exemplo da potência do uso de referências musicais para provocar um efeito inesperado e, consequentemente o riso.
Juntas, então, as duas constroem uma atmosfera de cumplicidade com o público, encorajando a participação espontânea dos espectadores desde as menores idades. A naturalidade com que crianças sobem ao palco atesta que, sob a ação das palhaças, aquele se torna um terreno amistoso e a arte se aproxima da brincadeira. Para isso, contribui também o respeito ao tempo de resposta das crianças, não o ritmo acelerado ao qual nos acostumamos na rotina 24/7 (a expressão é do ensaísta norte-americano Jonathan Crary), mas uma dinâmica distendida.
Em raros momentos a dinâmica afrouxa-se como consequência da opção por “abrir mão do fenômeno cênico” um tanto mais. Ao menos, na visão desta adulta, foi o caso da sequência de mágicas e da cena que antecede o final, quando um grupo de espectadores é levado ao palco sem um propósito de ação claro. São momentos que não atingem a mesma carga criativa, embora sustentem o riso e a prontidão do espectador, que a esta altura já aderiu completamente ao jogo.

O espetáculo nasceu da vivência durante o trabalho em hospitais com os Doutores da Alegria. Pode-se imaginar que esta tenha sido uma contingência determinante para que a relação com o espectador sobressaísse. Ao mesmo tempo, fica uma sensação de que o trabalho pode ganhar ainda mais potência sensível se somar a essa admirável capacidade comunicativa uma elaboração mais poética das brincadeiras, como se vê na delicada, comovente e cômica sequência da morte do “biquinho”. Mesmo quando a dramaturgia se dispersa, porém, a música feita com aparente simplicidade em sinos e tubos e a oralidade elaborada com em texturas vocais e rimas imantam as atenções. Quem duvidaria da força cômica de um mero dabadabadu?

*Espetáculo visto em 09 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.
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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, infantil, palhaço, Recife BY: Luciana Romagnolli
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O fator matemático e o fator humano

O fator matemático e o fator humano

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Quase Tudo no Timing”, da Sua Companhia.

Timing is the answer to success.

“Timing” | Kevin Johansen

“Com Certeza”, “Palavras, Palavras, Palavras” e “Variações sobre a Morte de Trotsky”, as três peças curtas do dramaturgo norte-americano David Ives conectadas no espetáculo “Quase Tudo no Timing”, da Sua Companhia, de Itajaí, foram publicadas no Brasil em um único volume intitulado “Tudo no Timing”. O “quase” entra em cena, então, como o fator humano indomável agindo sobre a exatidão matemática da dramaturgia adaptada.

Gestada como um jogo matemático de variações – à semelhança da Teoria dos Muitos Mundos, segundo a qual para situação abrem-se dois mundos paralelos nos quais cada resultado possível se realiza –, a primeira cena leva ao extremo a precisão operativa. Marcelo Marquettti, Leandro Magalhães e Adriano Magalhães cumprem uma espiral de variações bruscas de um diálogo entre dois desconhecidos num café, com timing perfeito, que acentua o efeito cômico. Somam ao jogo de linguagem ainda outro com o espectador, concedendo-lhe a escolha dos gêneros que formarão o casal de personagens, tangenciando uma questão urgente de direitos humanos. Dessa interação direta dos atores com a plateia vem a imprecisão, que humaniza a racionalidade rigorosa da comédia arquitetada por Ives.

Quase Tudo no Timing 3

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Quase Tudo no Timing 2

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Quase Tudo no Timing

Quase Tudo no Timing

A cena sobre a morte de Trotsky repete a presteza da primeira, acrescida de ironia sobre a história política mundial e de um senso de absurdo, especialmente ao brincar com a impossibilidade de que um indivíduo possa ter consciência da perspectiva histórica de seus atos. Por usa vez, “Palavras…” parece ainda um tanto obscura para o grupo, seja na construção do ritmo (é o único não estruturado em variações combinatórias), seja por uma compreensão maior da ácida crítica social contida na fábula sobre a probabilidade matemática de um grupo de macacos datilógrafos escrever um dia, por acaso, “Hamlet”.

No tom geral do espetáculo, a crítica de viés operário depreendida dos dois últimos textos é sobreposta pela pegada pop e irônica sugerida no primeiro. É uma escolha pela comunicação viva e direta com o público, que de fato se concretiza. Mesmo que alguns momentos gerem a sensação de que se cumpre uma suposta dívida cômica com a plateia, o humor – irônico, sarcástico, debochado ou patético – dispensa concessões para encontrar seu espaço.

Música e referências cinematográficas contribuem para constituir a atmosfera descontraída, assim como a própria energia dos atores, desde o preâmbulo dançado até as discussões sobre como construir a próxima cena. Se as fábulas de David Ives ocupam o centro das atenções, as margens são invadidas pela encenação da encenação, ou seja, pelo compartilhar com o espectador dos mecanismos e bastidores da construção das cenas escritas pelo norte-americano – autor também de “A Pele de Vênus”, filmado por Roman Polanski e montado por Hector Babenco como “Vênus em Visom”.

É recorrente no teatro contemporâneo a cena que se arma em palco seminu, delimitado por um cercado de espectadores próximos o bastante dos atores para que haja afetação física direta. No chão, além das marcações, poucos objetos móveis. O microfone e o computador para operação de som e luz nos cantos, à vista. “Quase Tudo no Timing” investe nessa configuração – como também já foi feito pelo grupo Magiluth, do Recife, só para ficar em um exemplo com traços estéticos em comum, entre os quais certo deboche e a forma aberta de manejar o espaço cênico.

Chamo a atenção para essa coincidência não enquanto fórmula, mas, sim, como um tipo de concepção do palco análoga à tela em branco na paiting action. Ou (se a primeira comparação soar muito restritiva em tempos de hibridismo de linguagens) como um espaço vazio sobre o qual quase tudo é possível construir. É este o ponto nevrálgico: o processo de construção exposto ao público em paridade de importância com a fábula. Valorizar o processo em vez da obra acabada, mostrar-se fazendo, responde a uma ética antiespetacular do acontecimento teatral como um fazer coletivo, que desvela escolhas, idiossincrasias e falhas.

Em grande medida, trata-se de uma recusa à ilusão e à catarse própria da sensibilidade contemporânea. Embora não se possa dizer que a ilusão seja abolida – ela se reinventa, pois o jogo de improviso e espontaneidade depende do efeito de real, por vezes representado, tornando muito mais complexas as noções de realismo e ilusão. Pois é nessa tensão entre a representação e a presença que trabalham os atores da Sua Companhia. Marcelo Marquettti, mais identificado a uma atuação representativa; Adriano Magalhães, ao performer com tônus de presença.

São diferenças que aparecem especialmente quando atuam como macacos: Marcelo constrói o personagem com um registro vocal específico; Adriano concentra na movimentação corporal a citação ao símio e mantém na fala o tom do performer. Numa zona de trânsito entre os dois, Leandro Magalhães ainda mantém um vestígio representativo quando experimenta a espontaneidade, mas realiza a interpretação mais nuançada do espetáculo ao assumir a fala da mulher de Trotsky, no limiar delicado entre o aparecimento da personagem e o desaparecimento do ator.

Ainda que essas variações de registro de atuação de algum modo já estejam inseridas dramaturgicamente, talvez possível elaborá-las mais conscientemente para reforçarem o jogo do performer com a representação, que parece ser a matéria mesmo do espetáculo.

*Espetáculo visto em 11 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.

 

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18/08/2015 TAGS: David Ives, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Itajaí BY: Luciana Romagnolli
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Desafios no caminho para um humor subversivo

Desafios no caminho para um humor subversivo

— por Luciana Romagnolli —

O riso tanto tem potencial subversivo quanto conservador. A depender de como se constrói e para onde se direciona a comicidade, ela pode descobrir os absurdos e contradições humanos ou reiterar estruturas de poder, colocar mais argamassa para bem sedimentar um senso-comum em seu lugar acrítico de perpetuação do status quo. Eis o riso que entretém, proporciona alívio cômico às ilimitadas pressões da vida contemporânea, suficiente para que se retorne à rotina mais disposto a encará-la sem subversões nem revoluções. A distância entre o entretenimento simples e a arte residiria nessa adequação com a qual os projetos moderno e contemporâneo não coadunam, imersos como estão num regime estético que compreende a arte como deslocamento (crítico) da percepção.

Eis o desafio que se apresenta diante do Grupo Risco de Teatro, de Itajaí, primeiro espetáculo local a subir ao palco no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha. Como dar o salto do entretenimento cômico para um projeto artístico com potência para cumprir o objetivo de “um teatro de benefícios culturais e sociais” ao qual o próprio grupo se propõe, no qual o riso recupere seu poder de interferência crítica na percepção de uma dada realidade?

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Em qualquer dicionário, risco, quando não é traço, opõe-se ao previsível, transita pela instabilidade e incerteza. E, mesmo quando traço, pode ser incisão. O que vemos em cena afasta-se desse sentido incisivo da experimentação de uma disrupção poética. “Cem Dias” é uma comédia histórica perpassada por alívios cômicos garantidos por piadas de cunho sexual, que seguem a cartilha dos lugares comuns do gênero. A conexão entre a malandragem dos primeiros colonizadores e a corrupção generalizada em tempos sombrios de congresso sob os mandos de Eduardo Cunha fica encoberta pelas reentrâncias da trama, cuja atenção se concentra nas situações cômicas derivadas de estereótipo sexuais como o da mulher madura libidinosa e seus trejeitos afetados.

É claro que o vulgar e o grotesco também guardam grande potencial contestador se empregados com verve para colocar em crise os padrões e valores vigentes. Nesse sentido, a dramaturgia pode amadurecer e, em conjunto com a direção, encontrar estratégias para, sem perder a leveza juvenil do espetáculo, estabelecer uma troca perspicaz com o espectador.

 

Dito isso como uma provocação para o grupo a respeito de como pretende agir sobre o mundo com sua arte, cabe apontar a qualidade do preparo corporal dos atores e a fluência dos diálogos, que geram um entrosamento nas contracenas mais do que propício para os efeitos de comicidade. Não lhes faltam timing nem carisma para o jogo proposto. E, se as oscilações entre o dramático e o épico poderiam se beneficiar de uma maior liquidez, o cenário criado como uma caixa-fornecedora de objetos para a cena surge como estratégia mais contemporânea (sem que haja nisso uma necessidade de originalidade) para instaurar um jogo dinâmico de teatralidade, lúdico e algo inesperado

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18/08/2015 TAGS: cobertura, festival, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Itajaí, Santa Catarina BY: Luciana Romagnolli
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A desorientação humana pela remodelagem do espaço e do tempo

A desorientação humana pela remodelagem do espaço e do tempo

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “A Vida Dele”, da In-co-mo-de-te.

A trilogia com que se inicia o percurso criativo do grupo gaúcho In.co.mo.de-te (Inconformada
Companhia de Moda, Design e Teatro) sustenta-se em textos do escritor estadunidense Paul Auster escritos à luz da obra de Samuel Beckett. “DentroFora”, segundo dos três e o que mais circulou pelo país até agora, inspira-se em “Hide and Seek”, de Auster — por sua vez, uma recriação direta dos “Dias Felizes” de Beckett. No espetáculo, homem e mulher estão ambos encaixotados e incapacitados de se verem, num contexto em que o consumismo acelerado no capitalismo tardio ocupa as lacunas do vazio existencial no pós-guerra beckettiano. O rigor formal da cena enclausura os elementos na beleza estática do quadro imóvel; não é somente Winnie quem está soterrada: luz, espaço e corpos aprisionam palavras ou são aprisionados por estas.

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A estilização acentuada do quadro cênico, proposta coerente com as artesanias que antecedem o teatro no nome da companhia gaúcha, aponta para um projeto de obra de arte total, no qual o cenário, a música, a luz e o figurino impactem sobre os significados e afetações tanto quanto o texto. Eis o traçado comum a “A Vida Dele”, espetáculo que encerra a trilogia austeriana e trata os corpos dos atores Liane Venturella e Nelson Diniz como esculturas no espaço, definidas pelo jogo de luz e sombras da atmosfera misteriosa inspirada na peça “Blackouts” e no romance “Fastasmas”, novamente de Auster.

Sob a responsabilidade da cenógrafa e iluminadora Cláudia De Bem, a luz atua no desenho do espaço, faz-se cenário, dita tempos, transforma situações, compõe quadros altamente gráficos, inspirados em clichês de histórias de espionagem, e embaralha as linhas curvas e soltas da dramaturgia. Enfim, aparece em primeiro plano como a força superior e oculta que, num mundo sem deuses, conduz as ações.

Pois é um mundo destituído de todo destino sagrado tanto quanto de qualquer possibilidade de sentido estável o que habitam os personagens Peter e Verdi. A fábula inventada pela dramaturga Michelle Ferreira a partir dos textos de Auster ilumina a previsibilidade e a falta de finalidade da vida humana, temas obviamente beckettianos. Como uma dupla de clowns (também o eram eram Didi e Estragon), de narizes proeminentes, Peter e Verdi, o astuto e o ingênuo, gastam as horas a espionar um desconhecido na nulidade de seu cotidiano. Ilustram a desorientação humana diante do tédio da existência e do despropósito do tempo, dentre outras leituras que uma obra aberta propicia a cada espectador.

Em meio a reviravoltas típicas de romances detetivescos, emerge a possibilidade de se pensar sobre a própria atividade da escrita, ocupação principal do desconhecido espionado (o ator Carlos Ramiro Fensterseifer), em variadas camadas. Da vida que se faz mais estimulante na imaginação do que na prática. Dos detetives que espionam o escritor ou do escritor que inventa personagens detetives que o espionam a escrever. E, ainda, do escritor que observa os personagens de outro autor para a partir deles compor sua obra, tal como Auster em relação a Beckett.

Diante dessa crítica ao cotidiano esvaziado, a estetização da cena e o investimento na teatralidade dos elementos contrastam criando uma forma marcadamente extracotidiana, cujo afastamento do real simboliza a recusa à banalidade do estar vivo. A musicalidade exerce função determinante para esse descolamento da margem de atuação do homem comum, ampliada pelo fazer artístico. Não somente a música em si, a remodelar o tempo assim como o faz a luz; mas a própria musicalidade nos tempos das falas dos atores, que coreografam as palavras, tanto quanto os corpos são coreografados no espaço. A habilidade em esculpir tempo e espaço por meio da ação da luz e do som sobre os corpos e o palco é um forte traço de personalidade do grupo desenhado já em trabalhos anteriores, e une as disciplinas específicas do artistas envolvidos em prol da teatralidade.

A considerar a apresentação vista no IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí, a partir da metade do espetáculo, à medida em que aumentam as contracenas entre os personagens, a encenação mostra alguma dificuldade em manter o rigor formal da engrenagem cênica criada, assim como os contornos do desenvolvimento narrativo de um pseudomistério que tende a se diluir na nulidade da vida. Para que o impacto não se disperse, merece atenção também a cena final, quando a repetição de um elemento nonsense pode restringir-se ao efeito pelo efeito, mais do que gerar desnorteamento.

*Espetáculo visto em 08 de agosto de 2015, em Itajaí/SC.

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18/08/2015 TAGS: Festival Brasileiro de Teat, Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, Rio Grande do Sul BY: Luciana Romagnolli
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Flutuações de uma relação circo-teatro

Flutuações de uma relação circo-teatro

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Vizinhos”, do Circo Zanni.

Há um padrão que se repete em “Vizinhos”, já visto nesta edição do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo no espetáculo “Um Café da Manhã”. Novamente estão o homem e a mulher em cena a cumprir suas atividades diárias e representar por meio de números circenses o doce e o amargo de uma relação. O caráter arquetípico dessa estrutura em comum requer uma afinação entre intenções e movimentos, além de alguma ruptura de expectativa do desenho modelar de um vínculo a dois, para superar a trivialidade e o esquematismo da equação “casal se conhece, se ama, briga e se separa”.

“Um Café…”, embora siga milimetricamente essa conta, faz o casamento das ações corporais à narrativa da vida por meio de metáforas sugestivas, mas bastante claras, das quais é possível depreender uma história delineada. “Vizinhos” já se move por uma dramaturgia mais aberta e difusa. Apesar de o título atribuir aos performers Maíra Campos e Daniel Pedro a relação de moradores de um espaço contíguo, as fronteiras não evidentes e a comunicação restrita à pantomima deixam o que se vê em cena no limite de uma relação de casal, para a qual de fato evolui.

No início a teatralidade é determinante do modo como cada um ingressa em cena investido de um personagem, num registro cotidiano que até estranha a corda amarrada no meio do apartamento. A cena só recusa o realismo pela decupagem de movimentos em marcação sincopada ditada pela música, a dança então prepondera entre as artes do corpo em jogo. Mas o elemento circense já se revela em detalhes, como a sombra na forma de uma lona de picadeiro projetada ao fundo e os cabelos armados de Maíra, uma imagem clownesca, assim como nas pequenas subversões de modos extracotidianos de realizar atividades como comer macarrão.

A arte circense explode quando a dupla envereda pelo equilibrismo e o corpo dela assume formas esculturais suspenso sobre a base de apoio dele, em momentos de intensa plasticidade. Logo se percebe que o espetáculo do projeto Artinerant’s está menos interessado na grande narrativa do que em compor breves momentos de representação da interação relacional entremeados pela demonstração da habilidade circense.

Disparados por ações teatralizadas, como o trocar de roupa sobre a corda-bamba, os números se estendem até que se desfaça o laço com a motivação originária e reste, em primeiro plano, a técnica. O desenho das ações, então mais impreciso, destitui-se do potencial simbólico. Vemos como Maíra é capaz de realizar uma abertura total de pernas sobre a corda bamba, girar em torno do eixo do quadril ou escorregar sobre o fio suspenso, por exemplo. O risco, a flexibilidade, a destreza e o equilíbrio sobrepõem outros sentidos possíveis.

Pode-se dizer que assim o circo ganha certa autonomia, sem que a dança e o teatro o sujeitem. Ao mesmo tempo, entretanto, está limitado a esses bolsões como respiros antidramáticos, numa estrutura que se tornará mais tributária da narrativa fabular em sua etapa final. Músicas como a versão flamenco-melancólica de “Você não Vale Nada”, cantada por Tiê, redimensionam a cena para um figurativismo atribuidor de sentidos imediatos, ao que o uso de máscaras como a de gado e de coelho convertem em uma atmosfera nonsense.

Depois de um início potente pela relação corpo-tempo-espaço-som, e certa indefinição posterior entre assumir a autonomia circense, investir na fábula ou encontrar o justo entrelaçamento de ambos, esse traço surreal confere novo vigor ao espetáculo, aquela ruptura com o esquema-padrão do romance à qual se fez menção no início deste texto – e ainda adiciona uma camada de humor.

Tal atmosfera se desfaz, contudo, perante a intrusão de uma gravação que comenta levianamente a relação conjugal entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, reduzindo os dois à anedota de amantes libertinos e cruéis – e nisso desconsidera em absoluto a produção intelectual de ambos que está intimamente ligada à esfera da sexualidade e da liberdade. Com essa recusa à complexidade do pensamento, a simplificação do comportamento do célebre casal se insere como uma legenda que tentará fechar os sentidos de leitura do espetáculo. Ainda em off, uma frase como “o ser humano só se safará se ao passar a mão no rosto reconhecer a própria hediondez” não encontra sustentação no que se viu até então em cena, e ainda aponta para uma desnecessária conclusão moralizante.

*Espetáculo visto em junho de 2015, em São Paulo.

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03/06/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Corpos esculpem o destino de uma relação amorosa em “Um Café da Manhã”

Corpos esculpem o destino de uma relação amorosa em “Um Café da Manhã”

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Um Café da Manhã”, do coletivo Um Café da Manhã.

O disparador do espetáculo “Um Café da Manhã” é um prosaico poema do francês Jacques Prévert (1900-1977) sobre um homem que, após servir-se de café com leite e fumar um cigarro, parte: “E saiu/ debaixo de chuva/ Sem uma palavra/ Sem me olhar”. Sem ater-se aos versos mais do que como sopros de sentido que poderiam se construir com uma teatralidade fundada na dança e no circo – em especial, na técnica do trapézio –, o coletivo de São Bernardo do Campo, com direção e roteiro de Ronaldo Cahin, compõe uma coreografia que vai do chão ao ar traçando os passos da atração à despedida de um casal.

A suspensão do parceiro amoroso, abandonado sem mais, é a primeira metáfora extraída do poema a concretizar-se visualmente em cena, já na cenografia de Natalia Vaz e Frederico Fillipi. Separados, no palco, o lado da mulher (a performer Ana Coll) e o do homem (Kadu Mendes), cada um é indiciado por um conjunto de objetos-ícones suspensos por cordas. Para ela, roupas, batom. Para ele, livros e jornal. Um espaço cindido pelo binarismo homem-mulher padronizado, que seguirá os clichês de gênero para desenhar uma pantomima facilmente reconhecível pela plateia por circunscrever-se às expectativas do mito do amor romântico, no qual cabe à mulher a dor pela falta de envolvimento emocional do parceiro. Nesse sentido, nada de extraordinário.

Os corpos é que o dizem, por meio de movimentos cotidianos realizados de modo inesperado – como a artista a amarrar os cabelos de cabeça para baixo, pendurada na argola, ou o performer a tirar e pôr os sapatos enquanto desenha formas com o corpo preso à corda em altitude. A forte teatralidade da encenação provém dessa passagem do ordinário para o extraordinário. Os próprios objetos circenses são ressignificados num regime de representação – a argola feita espelho, o trapézio como casa. E os movimentos adquirem um caráter sugestivamente metafórico, legíveis à medida em que se atribuam significados às coreografias solitárias cumpridas inicialmente pelos performers em seus trapézios e à união que se segue.

Enquanto ela permanece mais próxima do solo, cumprindo um fluxo de esculturas corpóreas que a põe repetidamente de cabeça para baixo com o peso sobre os ombros, e arrisca alguns movimentos aéreos na argola suspensa, ele sobe mais alto na corda à qual enroscado deixa-se cair, em movimentos que anunciam maior gosto pelo risco. Constroem-se assim as imagens das duas personalidades, por obra de que cada movimento seja mimese ou metáfora a compor pela linguagem própria do corpo uma narrativa mais ou menos clara.

A aproximação dos dois indivíduos solitários é igualmente narrada sem palavras, por uma partitura dançada que incorpora patins e, enfim, o trapézio duplo, seguindo uma progressão de risco. O emparelhamento dos corpos e a sincronia de movimentos traçam a trilha do casal, cuja dinâmica é regida pelo corpo masculino: o primeiro que avança, instantaneamente seguido pela mulher, a quem cabe interpor seu corpo ao dele para criar momentos íntimos. Ações e reações pontuadas pelas expressões faciais de Ana Coll, que humanizam a virtuose da coreografia.

É certo, porém, que o virtuosismo não ocupa o valor mais alto em cena, armada como está na hibridez entre arte circense, dança e teatro, todas linguagens agenciadas para contarem a história ordinária de modo extraordinário. Não se trata, então, de alcançar a ousadia fortemente amparada na técnica semelhante ao visto, por exemplo, no casal de trapezistas de “Acelere”, na abertura do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo. Se lá o trapezista carregava a parceira em grande altitude e por longo período sustentado somente pela nuca (sem rede de proteção), aqui a artista experimenta, apenas por segundos, a suspensão com o mesmo ponto de apoio, a pouco mais de dois metros do chão. Afinal, a técnica está a serviço da dramaturgia, não o contrário; e a atenção do espectador é partilhada entre o risco e o drama. Com a particularidade de que a estética do risco físico metaforiza o risco do encontro amoroso tematizado.

Numa encenação em que movimentos e elementos circenses concretos ganham outros sentidos, o mesmo ocorre aos abstratos. Sentimentos associados ao risco do picadeiro adquirem força de narrativa, e mesmo um rechaçado das expressões de acrobatas e equilibristas, como o medo, evidencia-se na expressão da personagem feminina. Assim como a confiança, tornam-se chaves-mestras na condução do destino amoroso.

O erro, então, assume igualmente uma significação dramatúrgica: a ruptura da sincronia – da sintonia ou ainda da confiança – entre o casal, expressa no olhar frustrado da mulher. Tanto é assim que a cena mais impressionante tecnicamente, a virtuose dos dois artistas cujos corpos se entrelaçam e disputam espaço no alto do trapézio, onde a rivalidade do casal se condensa na disputa pelas folhas de um jornal, um erro trivial, inesperado, prosaico, encerra a relação (e o espetáculo) sem maiores explicações. Tal como no poema de Prévert.

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01/06/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Domínios da incompetência

Domínios da incompetência

— por Luciana Romagnolli —

Crítica de “Exceções à Gravidade”, de Avner Eisenberg.

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Os clowns (…) sempre tratam do mesmo problema, qual seja, da fome: a fome de comida, a fome de sexo, mas também fome de dignidade, de identidade, de poder. Realmente a questão que abordam constantemente é de saber quem manda, quem grita. No mundo dos clowns só existem duas alternativas: ser dominado, resultando no eterno submisso, a vítima, como acontece na Commedia dell’Arte; ou dominar, assim surge a figura do patrão, o clown branco (o Louis), que já conhecemos. É ele que conduz o jogo, que dá as ordens, insulta, manda e desmanda.

Dario Fo. Manual Mínimo do Ator.

Lido à queima-roupa, o título acima pode iludir um desastre distante do que vemos de fato no espetáculo estadunidense “Exceções à Gravidade”, apresentado no Circos – Fesival Internacional Sesc de Circo. Igualmente longe, porém, está de ser falso. A contradição sobre a qual se move o veterano palhaço Avner não é outra senão a incompetência absoluta para as ações mais triviais, como acender um cigarro ou colocar o chapéu, frente não somente à destreza para pequenas acrobacias, equilibrismos e prestidigitações, como também à impressionante perícia para a falha. Afinal, não parece mais simples errar virtuosamente, com precisão de tempo, espaço e ritmo, do que equilibrar uma escada de metal sobre o nariz.

Sem a mínima máscara vermelha a recobrir a extremidade olfativa, mas trajado semi-à-paisana com chapéu, calças pretas e suspensório, o artista reinventa o protagonismo do nariz como ponto de suporte para o equilíbrio de jornais, penas e demais objetos. Inscrito na tradição dos palhaços mudos, cuja comunicação dá-se toda por pantomima, Avner insiste na repetição de uma nota só, a do erro, para então pegar a plateia no contrapé de um êxito insuspeitado. Suas habilidades surpreendem duplamente por não corresponderem às expectativas nem da imagem de um senhor de mais de sessenta anos, nem da comédia de erros de suas ações iniciais, dignas do convidado trapalhão de Peter Sellers. Para um artista do corpo, o encanto está justamente em fazer parecer fácil o que é difícil. E difícil, o que é fácil.

Se no correr dos séculos muitas vezes o clown se desvencilhou de suas raízes mais transgressoras, identificadas primeiramente com o grotesco e, num segundo momento, com a crítica da conduta humana, e trocou o incômodo de uma postura cruel e provocadora por uma atitude docilizada, eis hoje sua transgressão: como ser político, a recusa à tirania do alto desempenho em uma sociedade com horror à improdutividade. A virtuose da estupidez abre a rota fora do padrão. Pois não seria o gasto improdutivo o que há de menos homogeneizável no mundo?

Esta redução do humano à falha, à imperfeição, à ignorância – “paspalho diante da vida”, diria a pesquisadora Katia Maria Kasper –, personificada ao longo da história pela figura do palhaço ganha então outros matizes diante da habilidade de Avner na manipulação de objetos. À sua maneira, os faz dançar, tal como Chaplin com os pães, sejam pilhas de copos de plástico ou seu indefectível chapéu preto. Enquanto, no circo, o palhaço espanta o medo entre um e outro número de risco, por vezes repetindo satiricamente as acrobacias recém-vistas, quando se converte no dono absoluto do show, Avner concentra em reduzida escala aptidões de outros artistas de picadeiro, como o ilusionista e o equilibrista, e faz do palco de “Exceções à Gravidade” um microcosmo da diversidade circense. Menos ambicioso, claro, como melhor cabe à inadequação própria de um palhaço.

Outro traço distintivo dessa figura é o que Dario Fo chamou de “fome de poder”. Avner é a um só tempo tolo e dominador – uma espécie de fusão da tradicional dupla Branco (astuto e autoritário) e Augusto (ingênuo e desajeitado) num mesmo corpo, sendo que a dominação zombeteira do primeiro sobre o segundo recai também sobre a plateia. Esta é uma construção gradativa. O senhor carismático falseia ora expressões de medo ora de segurança, enredando os espectadores num trançado de sentimentos que vão constituindo a cumplicidade entre plateia e palco.

No controle da multidão à sua frente, Avner converte seu apetite por satisfazer os espectadores em ânsia destes por agradá-lo. O artista vira o jogo sutilmente lançando mão de estratégias como aumentar a luz sobre as cadeiras, fazer de um flash inapropriado um longo improviso e dirigir, como maestro, coros de vozes e palmas. É tal o seu domínio em ludibriar o público e, assim, conquistar sua adesão irrestrita, que até o último aplauso obedece à sua regência.

*Espetáculo visto em maio de 2015, em São Paulo.

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30/05/2015 TAGS: Circo, Circus - Festival Sesc de Circo, palhaço, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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coberturas críticas

Jérôme Bel estreia novo espetáculo no Kunstenfestivaldesarts, em Bruxelas

Jérôme Bel estreia novo espetáculo no Kunstenfestivaldesarts, em Bruxelas

– por Julia Guimarães –

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Crédito das fotos: Herman Sorgeloos.

Reconhecida por abrigar uma cena bastante expressiva do teatro e da dança das últimas décadas, a Bélgica possui também um dos mais importantes festivais de artes cênicas da atualidade, o Kunsenfestivaldesarts, em Bruxelas. Atualmente dirigido por Christophe Slagmuylder, o KFDA é conhecido por catalisar e valorizar renovações de linguagem na área, seja ao (co)produzir boa parte dos espetáculos que integram sua programação, seja ao mesclar em sua curadoria nomes consagrados da cena contemporânea com criadores pouco conhecidos do público. É esse tipo de estrutura que aparece em sua 20ª edição (8 a 30 de maio), que reúne tanto artistas de peso das artes performativas atuais – como Romeo Castellucci, Jan Lauwers e The Wooster Group – quanto nomes emergentes – caso da portuguesa Marlene Monteiro Freitas ou do sueco Marten Spangberg.

Entre os expoentes do primeiro grupo, está o criador francês Jérôme Bel, que estreou no festival seu novo espetáculo, “Gala”, na noite da última sexta (8). A exemplo da estrutura construída em obras anteriores, como “Disabled Theater” (que passou por São Paulo e Belo Horizonte em 2014), a nova montagem do diretor também explora uma dança feita por corpos não necessariamente treinados para dialogar com essa linguagem, na qual a fragilidade técnica e o erro surgem como modos de potencializar o caráter democrático da dança. No palco de “Gala”, 18 pessoas das mais variadas idades, tamanhos, pesos e etnias constroem uma estética na qual alteridade e coletividade surgem entrelaçadas.

Logo na primeira cena, uma tela de vídeo projeta fotos, em sua maioria extraídas do Google, de teatros espalhados pelo mundo. Vemos desde um minúsculo palco improvisado na praça de alimentação de um shopping até os pomposos teatros elisabetanos europeus, passando por espaços rústicos em que as cadeiras são substituídas, por exemplo, por troncos de madeira.

Nessas imagens, o poder da convenção-teatro se faz presente. A força de uma arquitetura criada para mirar e ser mirado diz respeito aos mecanismos mais básicos de instauração da teatralidade; neste caso, ela é produzida pela tradição de uma disposição espacial que configurou, no decorrer dos séculos, um imaginário em torno da linguagem cênica.

Nesse mecanismo inicial explorado pelo espetáculo, as escolhas de Jérôme Bel já deixam entrever dois elementos que colaboram para produzir uma espécie de distanciamento entre palco e plateia nos seus trabalhos: a excessiva repetição de uma mesma ação (nesse caso, mostrar imagens de teatros) e a ideia de explorar a diversidade a partir de uma unidade.

É um mecanismo semelhante que aparece nas cenas seguintes. A partir de palavras escritas em um bloco de notas disposto na parte da frente do palco, onde se lê uma sucessão de estilos ou referências de dança (balé, valsa, “Michael Jackson”…), um a um, os participantes executam algum movimento emblemático daquele estilo (o Grand Jeté, por exemplo). Já na segunda parte do trabalho, alguns dos bailarinos realizam coreografias criadas por eles próprios (entre esses, uma criança e uma cadeirante) enquanto os outros tentam copiar os passos.

A simplicidade da estrutura convida ao deslizamento do olhar: uma vez que os movimentos em si são universalmente conhecidos, o foco então recai para a maneira encontrada por cada corpo de realizar a ação. E em “Gala”, há tanto bailarinos amadores quanto profissionais. Assim como em “Disabled Theater”, a escolha por valorizar momentos individuais parece chamar atenção para a singularidades de corpos que, no cotidiano, muitas vezes passam despercebidos.

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Crédito das fotos: Herman Sorgeloos.

 

Se, por um lado, o trabalho corre o risco de se tornar uma versão cênica do tão questionado multiculturalismo – acusado de reduzir diversidades étnicas e culturais a uma espécie de slogan publicitário de “tolerância fake”, a exemplo das famosas e criticadas propagandas da marca de roupa United Colours of Benetton -, por outro, funciona, tal qual em outros trabalhos do diretor, como resistência ao caráter virtuoso e espetacular que tradicionalmente esteve atrelado às artes da cena.

Nesse sentido, “Gala” poderia ser visto também em diálogo com toda uma linhagem que busca entrelaçar arte e vida, seja como modo de valorizar um cotidiano antiespetacular no palco – e assim, revalorizar hierarquias sobre o que merece ou não ser visto pelo público – como também uma declaração de amor à dança na sua dimensão mais democrática possível.

Não por acaso, canções do universo pop já desgastadas pelo apelo excessivo da indústria cultural ganham novos significados quando coreografadas pelos participantes de “Gala”: estabelecem uma linha de continuidade da dança pensada como arte e pensada como atividade da vida social e cultural, entre elas as tradicionais “festas de gala” – formaturas, casamentos, cerimônias de debutantes – nas quais a dança torna-se muitas vezes o principal elo entre os convidados.

E é nesse contexto também que as imagens de teatros exibidas no início do espetáculo evidenciam a potência da caixa preta para ressignificar dimensões a princípio banais da vida ordinária, a partir do gesto de deslocamento de ações que em si não possuem valor artístico (a exemplo do urinol de Duchamp), mas que, quando transpostas para o interior de uma caixa cênica, imediatamente adquirem teatralidade e, por consequência, novas leituras.

Ao mesmo tempo, os mecanismos encontrados por Jérôme Bel em suas recentes encenações – participações de amadores que repetem uma mesma ação/instrução cada qual à sua maneira – ajudam a criar certa distância do espectador sobre o que vê, necessária para a reflexão sobre o que atrai nosso olhar na cena. Seria a dimensão grotesca das singularidades – fator que muitas vezes faz de Jérôme Bel um artista controverso – ou a valorização de corpos que historicamente estiveram alijados dos palcos, entre várias outras possibilidades?

Independente da resposta – pois se trata de uma reflexão transferida a cada espectador – a estrutura criada pelo diretor francês permite que empatia e distanciamento convivam simultaneamente como possibilidades de fruição da obra, o que talvez seja um dos grandes méritos de uma estrutura cênica, a princípio, tão simples.

Em conversa após o espetáculo na apresentação do dia 9 de maio, Jérôme Bel afirmou a importância do público, em seus trabalhos, ter consciência de seu próprio olhar. “Você precisa saber o que está olhando e porque é tão confortável”, disse. E é nessa tensão que seu trabalho segue provocando o espectador a se perguntar como lida – no teatro e no cotidiano – com desafios da alteridade em seu mais diferentes âmbitos.

 

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11/05/2015 TAGS: Bélgica, Dança, Jérôme Bel BY: Luciana Romagnolli
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Primeira visada ao teatro sul-mato-grossense

Primeira visada ao teatro sul-mato-grossense

— por Luciana Romagnolli —

Panorama crítico a partir da mostra Boca de Cena 2015.

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Apresento aqui uma série de reflexões e questionamentos sobre o teatro praticado atualmente no Mato Grosso do Sul, a partir da apreciação dos espetáculos participantes da Boca de Cena – Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro, realizada entre os dias 24 e 29 de março de 2015 em Campo Grande, assim como dos debates e seminários promovidos dentro da programação. Desde o início, esclareço ser fundamental que se tome este texto pelo que ele é: um olhar de fora. Uma cena se organiza pelas necessidades e pulsões intrínsecas aos seus componentes; enquanto o olhar de fora está sempre sob o risco de ser colonizador – ao alertá-lo, pretende-se convidar quem lê a se apropriar destas palavras na medida em que fizerem sentido para si, antropofagicamente.

Esclareço ainda que parto de uma expectativa bastante específica: a possibilidade de se intensificar a relação entre a cena sul-mato-grossense e a do restante do país. Uma relação bastante incipiente ainda, haja vista que é parca a circulação de espetáculos oriundos de Campo Grande e do interior do Mato Grosso do Sul pelos demais estados brasileiros. Não são rotineiramente vistos em festivais, não fazem parte de um circuito nacional nem se conhecem os jovens talentos do estado em outras regiões do país. Falta-lhes visibilidade. É somente nesse sentido, isto é, como uma provocação para que a produção local articule-se na discussão mais ampla sobre arte e sobre teatro contemporâneo, que posso aqui indicar algumas ausências notáveis no teatro sul-mato-grossense a partir do escopo delimitado.

Uma primeira constatação parte justamente das discussões presenciadas nos seminários, nas quais foi possível perceber uma preocupação reforçada da classe teatral sul-mato-grossense com as funções política e didática da arte. Isso se explica em parte pelo atual contexto de mobilização política, quando os artistas do estado unem forças no movimento SOS Cultura; e em parte como tentativa de conquistar fomento para a produção teatral e a formação de público pela via da educação. Em ambos os casos, a busca por legitimar a importância do teatro dentro da sociedade dá-se por meio de fatores externos – a política, a educação, a assistência social –, empregados para a demarcação de território em uma sociedade que não valoriza suficientemente a cultura e arte (pensando a primeira como o que nos constitui enquanto senso comum e, a segunda, como o estado de exceção), e, portanto, como forma de angariar recursos financeiros para a arte.

As motivações são justas, é clara a importância de se consolidar essas relações com setores diversos da política pública e da iniciativa privada. Ainda mais quando a própria secretaria estadual de cultura está atrelada a outros campos com os quais não partilha especificidades: turismo, empreendedorismo e inovação. Entretanto também é fundamental para o desenvolvimento artístico da cena teatral sul-mato-grossense o investimento na dimensão estética da arte e o reconhecimento de sua importância na sociedade a partir de suas próprias qualidades e circunstâncias, sem a necessidade de que a legitimação lhe seja externa nem que seja regida por uma lógica de mercado e consumo. Não se quer com isso pregar o distanciamento entre arte e sociedade num sentido despolitizador; ao contrário: ao defender a autonomia da arte, o que se defende (como Herbert Marcuse) é que a arte possa transcender as relações sociais e subverter tanto a experiência ordinária quanto a consciência dominante, constituindo uma realidade distinta, quiçá oposta, da nossa, que amplie nossa percepção e campo de possibilidades.

Além disso, reafirma-se o valor específico da arte na sociedade, isto é, o valor da experiência estética. Como diz o crítico Luiz Camillo Osório no livro “Razões da Crítica”, “uma experiência autônoma significa apenas, e isto já é muito, que nada vai legitimar a arte de fora, mas isto não impede que ela esteja sempre ligada a um fora, apontando para além dela mesma, para um mundo em comum que é o seu território de sentido” (2005: 31). É próprio da arte a elaboração livre e autônoma do mundo. Uma potência de criação simbólica e performática, na qual forma é conteúdo, e pela qual se produzem efeitos de sentido, deslocamentos da percepção, experiências significativas. Entender a arte como um modo próprio de criação e percepção do mundo – um saber – pode restituir-lhe seu valor singular: o valor do sensível.

Quanto à questão estética, chama a atenção na programação do Boca de Cena a baixa emergência de problematizações relativas à crise da representação e à crise do drama, duas questões interligadas que há décadas vêm dominando as discussões sobre arte/ teatro contemporâneo, seja pela ação das vanguardas modernas e de encenadores diversos, seja pela influência da performance, e que deram origem a formulações sobre teatro como campo expandido (Ileana Diéguez), pós-dramático (Hans-Thies Lehmann), performativo (Josette Féral) e/ou crise sem fim do drama (Jean-Pierre Sarrazac), entre outras. Como a cena sul-mato-grossense se insere nesse debate artístico mais amplo? Em que medida ela se articula com o cânone, mesmo que seja para desconstruí-lo ou negá-lo?

O que se questiona, aqui, é como a produção teatral do estado responde, elabora, recria a sociedade contemporânea – seus modos de percepção, organização social e relação específicos –; e se relaciona com o espectador contemporâneo; considerando todas as transformações e reflexões que emergiram desde o projeto moderno e, posteriormente, com o pós-moderno ou hipermoderno e suas experiências diversas de tempo, espaço, sujeito e comunidade – que não são formulações academicistas somente, mas as quais sentimos no nosso cotidiano. As referências supracitadas, fique claro, não são modelos a reproduzir. Ao contrário: responder a elas pode significar justamente contradizê-las.

O que interessa nas tendências contemporâneas do teatro não são as respostas prontas, mas as questões, inquietações e problemas latentes e legítimos de um dado contexto tempo-espacial – o que elas dizem sobre nós hoje. Elas somente se tornam formulaicas se os procedimentos forem repetidos pelos seus efeitos, sem o percurso investigativo que os originou – as inquietações, os processos, a pesquisa, as feridas que os geraram. Cabe a cada artista imerso num tempo-espaço questionar as causas, mirar suas próprias feridas e encontrar respostas particulares, singulares, intransferíveis – nesse sentido, originais. Mas olhando também para fora, em diálogo com o mundo, sem perder-se no labirinto de si mesmo. Pode parecer haver uma contradição nesse gesto de chamar um grupo de artistas à discussão sobre arte contemporânea se tal debate não nasce espontaneamente nas práticas e vivencias do grupo. Mas é uma contradição falaciosa: quando um núcleo se fecha sobre si, e se retroalimenta, é preciso descerrar as portas para o exterior.

No Mato Grosso do Sul, falta uma zona de troca mais ampla e intensa com a arte teatral do país e do mundo. Seria proveitoso se um festival como o Boca de Cena se abrisse a produções de fora, oferecendo novos referenciais artísticos (e, simultaneamente, de modos produtivos) aos olhos dos artistas locais. Talvez uma ação como essa possa sofrer resistência de grupos que, desprovidos de recursos financeiros suficientes para a própria sobrevivência, oponham-se a que a verba pública destine-se a profissionais de outros estados. Ampliar o montante investido seria justa solução para essa questão – e seria um passo para que a intensificação do diálogo com outras cenas culminasse na circulação também de obras sul-mato-grossenses por outros estados.

Complementarmente, fragilidades na atuação, na dramaturgia, na direção, na cenografia, no uso de vídeos etc. deixam visível a falta de espaços de formação sistematizada que deem suporte para o aprimoramento profissional e aprofundamento das investigações de artistas-pesquisadores. Seria favorável para o amadurecimento da cena sul-mato-grossense, em quantidade e qualidade, o investimento em núcleos de formação continuada. (…)

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Visões

A partir daqui, abordarei aspectos que se destacaram na programação do Boca de Cena 2015. Um deles é a questão temporal: formas de tratar o passado e o presente. Um número significativo de espetáculos opta por temas, textos e tipos de atuação que retomam períodos anteriores da história do teatro, seja o início ou meados do século XX ou mesmo séculos antes, sem realizar uma operação de apropriação a partir do presente. Quando esse resgate do ontem faz-se com reverência, destituído de comentário, crítica ou posicionamento dos artistas que o realizam a esta altura do século XXI, tende a oferecer uma experiência de repetição – ou museificação, no sentido da preservação de um passado às afetações do tempo, correndo o risco de engessamento e de certa ingenuidade nostálgica ou anacrônica.

Esta é uma problemática a se considerar, observando as especificidades de cada obra, diante de trabalhos como “Rubens Correa – Um Grande Artaud de Aqui” e “Tristão e Isolda”. Frente a “Tristão e Isolda”, da Cia. Última Hora de Teatro (Dourados), além de algumas especificidades técnicas de atuação relativas à baixa audibilidade das falas, há de se prestar atenção a uma questão de base: qual o propósito de se encenar hoje a tragédia de Isolda e Tristão, um dos mitos fundadores do amor romântico idealizado? A pergunta não é retórica; não pressupõe que não haja propósito – pelo contrário: mitos fundadores costumam ser fonte abundante para retornos e revisões –, mas pede que se formule uma resposta não ingênua, isto é, que não desconsidere as transformações sociais (e afetivas e perceptivas etc.) e a ação do tempo. Nesse sentido, pode-se dizer que falta uma apropriação contemporânea dessa história que lhe confira uma perspectiva singular, seja pelo tratamento dramatúrgico, pela linguagem da encenação e da atuação ou, preferível , pela articulação de todas essas instâncias de modo que faça sentido para o grupo.

“Contemporâneo”, aqui, não designa um estilo em si, mas uma abertura dos poros, dos sentidos, para o presente e as suas fissuras, as suas sombras. De preferência com um gesto crítico. Ou, como diria o filósofo italiano Giorgio Agamben, contemporâneo é aquele que consegue neutralizar as luzes de seu tempo e perceber o escuro, “significa ser capaz de não apenas manter fixo o olhar no escuro da época, mas também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós”. Sob tal digressão, paira uma pergunta complementar à anterior: a quem satisfaz uma arte que conforma e não transforma?

Voltando à peça, há de se pensar que para uma plateia carente de teatro, uma montagem-padrão de um texto clássico é um deleite. Mas e quanto a plateias que já se confrontaram com outras Isoldas, Julietas, Rosalindas, Ofélias…? Como furar o tecido da repetição e apresentar-lhes algo que reavive o olhar?

No solo “Rubens Correa – Um Grande Artaud de Aqui” (de Campo Grande), homenagem de Espedito di Montebranco ao ator Rubens Corrêa feita por intermédio de Antonin Artaud, a questão temporal também pode ser considerada em distintas camadas. A começar pela fala do ator. A impostação e o ritmo da fala carregam as marcas predeterminadas da sala de ensaio, onde se fixou a forma de dizer o texto, prejudicando a escuta. O que idealmente se buscaria seria a presentificação das palavras, a sensação de que o que o ator diz é pensado/decidido no agora, está vivo. Há uma sustentação excessiva da cena no discurso, numa palavra que não é corpo, que não se torna experiência. Essa escolha a distancia do ideal artaudiano de recusa do domínio da palavra sobre a cena, sobretudo porque também a gestualidade está desprovida de uma qualidade de presença forte. Presença essencial para a afetação dos espectadores (uma referência nessa discussão atualmente é a pesquisadora alemã Erika Fischer-Lichte).

Outra cisão temporal se dá no contraste da cena reverencial à tradição da história do teatro com a projeção em vídeo de uma entrevista (documental), que se insere como uma quebra de linguagem e de temporalidade, com função estritamente didática, sem proposição estética. É como se a legitimação do espetáculo viesse de fora: da importância de Artaud, da importância de Rubens Corrêa, das explicações fornecidas na entrevista. Não se constrói na cena. Por outro lado, o tratamento reiteradamente reverencial aos dois – Rubens e Artaud – deixa pouca margem ao espectador. Quando o arrebatamento é antecipado pelo ator em cena, tende a obliterar que a plateia o sinta por si, exposta que está já ao efeito, não à causa. Exemplo é o momento em que se anuncia o diagnóstico de Aids com pausa dramática, queda de um pano vermelho e o acender de uma luz também vermelha: a redundância pode ser um modo de subestimar o espectador, prendê-lo a imagens-clichê, fechar – em vez de abrir – sentidos.

Sobre Rubens Corrêa, o crítico de teatro Yan Michalski certa vez escreveu que foi “talvez o último (ator) – e o único da sua geração – remanescente da estirpe dos monstros sagrados, em função da aura de magia e de sagrado que cerca a sua presença cênica e o seu conceito do ofício de ator. Mas um monstro sagrado visceralmente moderno, familiarizado com todos os desdobramentos da arte teatral na atualidade”. Eis o desafio.

Vemo-nos então diante do infantil “Branca de Neve”, espetáculo urdido a partir de procedimentos comuns à pós-modernidade, como o pastiche e a intertextualidade. Claro está que não basta aplicar procedimentos ditos contemporâneos sem um pensamento de base. Mas comecemos pelo mais interessante: a camada narrativa adicionada pela presença dos dois elfos (poderiam ser Sininho e Peter Pan?), que contam e comentam a história, entremeando-se aos personagens da fábula-título. Eles acrescentam pontos de vista – inclusive críticos – ao desenvolvimento da trama mais que conhecida, empregando humor físico, gags e a empatia com o público para fazer a ligação entre o eixo extraficcional e o intraficcional.

As referências arroladas – “a rainha não me representa!”, afazeres domésticos como os de Cinderela, músicas pop etc. – até certo ponto contribuem para essa somatória de camadas, para abrir links, multiplicar leituras, aproximar os adultos também. O acúmulo é tanto, que a certa altura já não produz insights mas a saturação de uma set list acelerada de rádio FM, entupindo a fábula infantil do mesmo tipo de fast food cultural a que já está exposta 24h por dia nos meios de comunicação de massa. Caminho acrítico para o embrutecimento da sensibilidade infantil, mais uma vez a criança exposta a uma concepção comercial de entretenimento, cuja lógica da rapidez na apreensão – contrária à contemplação fruidora – privilegia o superficial, desaloja o enigma.

Na contramão está “Dedo Verde”, espetáculo que carece de precisão na manipulação dos bonecos e na sincronia musical para pontuar os movimentos, entretanto apresenta uma rica combinação de linguagens de formas animadas para contar o público infantil uma história dentro de outra, fornecendo estímulos (visuais, sonoros, textuais etc.) variados para a percepção infantil, de modo lúdico, brincante, e ainda com a adição de uma perspectiva contemporânea trazendo novas camadas de relação social e relação com o público por meio da história do menino que lê o livro cuja fábula é encenada. Em espaço mais íntimo e próximo dos espectadores e com apuro na execução, o trabalho só tem a crescer.

Voltando à “Branca de Neve”, há ainda que se notar o bom-mocismo da lição de moral – frequente em obras que pretendem entregar uma ideia fechada ao espectador, na linhagem didática, da qual não escapa também Dedo Verde – em discrepância com o descuido no tratamento de tópicos como o respeito aos mais velhos, o bullying e o barateamento das intervenções cirúrgicas. De novo, é pertinente indagar: quer-se uma arte que transforme ou conforme? Não cabe somente ao espetáculo respondê-lo, mas também à curadoria.

Quanto a essa questão, a das escolhas curatoriais, voltarei a abordar adiante de um ponto de vista mais amplo. Contudo, é inescapável considerá-la já ao tratar de espetáculos como “Tudo Porã por Aqui” e “O Experimento Tirésias”. Não faria sentido, num contexto como o nosso de borramento das fronteiras entre as artes, recusar a priori a presença de performances mais identificadas à poesia ou à mágica em uma mostra dita de teatro. A reflexão é sobre a implicação desses cruzamentos. Assim, ao situar um trabalho como o do poeta Emmanuel Marinho em “Tudo Porã por Aqui” numa mostra de teatro, o olhar que se lança sobre ele passa a observar as dimensões da teatralidade e da performance que não seriam necessariamente esperadas em um sarau, por exemplo, e as quais não estão desenvolvidas na apresentação, realizada em forma de recital ao ar livre. Por certo o aedo e o rapsodo estão na matriz da arte grega, e por mais que se pense em termos do teatro pobre de Grotowski ou no palco vazio de Peter Brook, há qualidades de presença e ritmo, de manejo do espaço e do tempo, de gestualidade e de vocalização da palavra que são próprias do teatro (como campo expandido) e não se encontram na obra do poeta. Não seria justo analisá-la por critérios teatrais, mas é numa mostra de teatro em que está inserida.

O que nos leva a “O Experimento Tirésias”. Embora Rick Thibau apresente-se como mentalista e se diga diante de um público que não é o dele fazendo algo que não é teatro, a escolha curatorial o coloca sob a perspectiva de olhar do teatro e o que vemos é uma performance extremamente bem-sucedida em termos de presença cênica. Thibau tem habilidade de dominar as atenções como quem domina o tempo e o espaço, ao modo como Fischer-Lichte caracteriza a presença “forte” de um performer. Voz potente, carisma e timing para o humor são qualidades que sustentam o entretenimento da ampla plateia. A ilusão se concretiza como se nem ceticismo nem niilismo nem crise da representação tivessem havido na história do Ocidente. Diante de um espectador infantilizado (o depoimento de ao menos um espectador mencionava o “sentir-se como uma criança”), apartado da racionalidade e entregue à ilusão a ponto de questionar no pós-espetáculo se as leituras de pensamento eram “reais”, não vejo o que questionar na performance em si, visto que cumpre seus próprios propósitos.

Pode-se, isto sim, refletir se a função da curadoria de um evento público tão central para o teatro sul-matogrossense é impulsionar projetos que visem primordialmente ao entretenimento (com perfil de venda para público empresarial, como foi mencionado a respeito de Rick Thibau em um debate), ou, ao contrário, apresentar trabalhos que despertem o senso estético e o senso crítico do espectador por meio de proposições artísticas originais (no sentido da investigação e da experimentação); sem deixar de levar em conta as implicações políticas de cada escolha – seja por adormecer os homens e despertar as crianças, ou o oposto.

No extremo oposto está “Tekohá”, do grupo Imaginário Maracangalha. A espetacularidade recua diante da necessidade de expressão/ação política sobre a realidade imediata, dentro de um regime histórico. O objetivo é claro e límpido, o despertar os homens para injustiças sociais por meio de um teatro político popular relacionado ao agit prop, promovendo uma politização da rua e de seus frequentadores. Daí a força do discurso, que se compõe de fragmentos de textos jornalísticos ou de outras fontes pré-existentes articulados coerentemente. Ao mesmo tempo, contudo, arma-se a teatralidade cuidadosamente, desde o cortejo que angaria espectadores até o jogo de cena feito coletivamente, a partir de poucos elementos e composições simples, cuja forma é/reitera o conteúdo de ação coletiva popular propagandeado.

Nesse teatro de núncia, certo de sua função no mundo, a dinâmica dos corpos intercambiando a sustentação do grupo diz tanto quanto as palavras, certeiras, no chamado à indignação conjunta. A política está além da denúncia, que se nela se bastasse seria puro panfleto; está também nas ações e formas que esse conjunto humano apresenta diante de outros seres como eles.

“Verdades Inversas” é mais um exemplo de teatro de rua politizado, por caminhos estéticos muito distintos. Ao assumir a antiga Estação Rodoviária como cenário, o grupo Flor e Espinho trabalha o site specific: explora as relações do espetáculo com o espaço tanto no sentido arquitetônico e físico, quanto social e comportamental, apropriando-se deles e impregnando a dramaturgia com as características prévias daquele ambiente, de modo que o espectador seja afetado para além do que é encenado, pelo simples estar ali e as implicações do reconhecimento daquele lugar.

Essa é uma experiência potente para a aproximação com a problemática dos homens e mulheres em situação de rua, polo forte de uma dramaturgia que se constrói sobre pares binários: pobreza e riqueza, loucura e hipocrisia, essência e aparência. No outro extremo está a imprensa, ou melhor, a espetacularização da notíciamercadoria. Aos representantes dos primeiros, tratamento onírico, campo livre para o imaginário e a recepção criativa do espectador. Aos representantes da mídia, tratamento paródico numa chave grotesca, que joga uma lente de aumento sobre um problema social para fazer a crítica dele, suprimindo nessa operação as contradições que tornam complexa a situação. A redução opera como uma simplificação com consequências que devem ser consideradas dentro dos propósitos do grupo; assim como a lição de moral direcionada ao adulto deve ser repensada num teatro que não pretenda se colocar acima do espectador a ponto de dizer-lhe o que deve pensar, e sim estimulá-lo a refletir.

A depender das escolhas dramatúrgicas e estéticas, o efeito pode ser o contrário do que se parecia propor. “O Bote da Loba”, do Mercado Cênico, transita nessa zona instável. O drama psicológico montado a partir do texto de Plínio Marcos prega a libertação sexual feminina, mas as ferramentas para isso incluem a violência e o olhar fetichista masculino sobre uma relação sexual entre duas mulheres. Nada menos libertador para o dito “segundo sexo” do que internalizar esse olhar do homem sobre a sexualidade feminina para buscar o próprio prazer.

Então, se há o mérito de abordar de frente, sem pudores, a repressão sexual e a recusa do prazer à mulher, falta uma perspectiva feminista (há de se ter o amadurecimento de encarar o termo sem preconceito) – algo que se percebe especialmente em dois momentos: quando a vidente esbofeteia a cliente, apenas reproduzindo a violência do homem contra a mulher; e na cena do ato sexual, tanto pelo já mencionado olhar fetichista masculino sobre a intimidade de duas mulheres quanto pelo fim antes do orgasmo, novamente sem de fato superar a repressão do gozo da mulher. Num espetáculo todo construído em torno de uma questão tão definida, essas sutilezas pesam enormemente, pois são elas que direcionam os sentidos do discurso. O título acena para uma possível ironia no próprio intuito libertador manifesto nos diálogos, mas essa seria uma perspectiva ainda mais complicada de submissão do feminino.

“Guardiões” trouxe um teatro menos dependente do texto, explorando outras possibilidades do ator em cena. Os corpos respiram, assumem formas, criam imagens, fazem dramaturgia, manejam objetos e transformam o espaço. O drama surge diluído e fragmentado – dentro do regime da crise sem fim do drama, que alargou suas fronteiras e seus possíveis – e um tratamento no texto poderia fortalecer as relações entre os tipos (mais que personagens) e as temporalidades, delineando as diferenças e repetições. Construída justamente pelos corpos dos atores, a animalidade do bicho humano é o sentido mais forte propagado no espetáculo, por meio de uma movimentação mimética viva.

A particularidade da questão ambiental contada do ponto de vista do sertanejo dentro de uma história universal sobre instintos humanos conjuga-se à poeticidade do texto, entre o dramático e o lírico, e da movimentação dos atores. Essa plasticidade gerada pelos corpos, porém, não encontra equivalência na luz e no cenário, cuja crueza e textura artificial colocam o humano animalizado em uma espécie de laboratório asséptico, apartado da natureza com a qual se relaciona no campo simbólico.

Nesse contraste, a projeção de imagens cria ruído na cena, indefinida entre funções ilustrativa, explicativa ou onírica e desarticulada dos corpos, enquanto a janela de projeção oval gera tensão contínua pela dificuldade de se dar sentido àquela forma e pelo desencaixe dela em relação ao fundo quadrado muito mais amplo. Problemas estes em parte relacionados à falta de recursos financeiros para o investimento em tecnologia, uma questão a ser considerada mais amplamente no meio teatral sul-mato-grossense, em vista de o conjunto de espetáculos apresentados na Mostra Boca de Cena não apresentar, em caso algum, experimentos tecnológicos mais elaborados. Longe de ser uma necessidade, parece, nesse contexto, uma impossibilidade. Subtrai-se, assim, da criação teatral do estado todo um campo de experimentações com a virtualidade e a desterritorialização que tem sido muito frutífero nacional e internacionalmente – trabalhos da diretora carioca Christiane Jatahy estão na vanguarda desta investigação.

Uma visão menos textocêntrica do teatro é encontrada também em “Os Olhos que Tivemos”, do Núcleo Teatral Isadora (de Dourados). Não que o texto não ocupe posição central no espetáculo, mas pela íntima articulação com todos os demais elementos cênicos, a seu modo igualmente produtores de efeitos de sentido e de presença. Esse olhar global para a cena, cuidadoso das implicações dramatúrgicas de cada camada composicional – luz, cenário, objetos, corpos, música etc. – cria uma atmosfera densa, em que as partes somam-se, dialogam e afetam-se mutuamente, proporcionando uma experiência sensível mais completa. O texto original tem as qualidades da escrita poética, lacunar na abertura de espaços para o espectador, e da inter-relação entre o individual e o coletivo dentro de um regime histórico que resgata os sentimentos envolvidos na colonização do país por imigrantes europeus. A história social e a história familiar reconectadas numa chave lúdica, em que mesmo a morte é tratada com ternura.

A beleza dócil emerge como valor em um sistema cênico regido pelo afeto, por isso mesmo hábil em estabelecer uma relação de cumplicidade com o espectador, ainda que a contraparte seja a renúncia ao peso, à gravidade, ao sentido trágico. Tal cumplicidade se intensifica pela ênfase no eixo extra-ficcional (o da relação palco-plateia), sobretudo pelos olhares expressivos da atriz Roberta Ninin, condensando emoções direcionadas a contaminar espectador a espectador, tanto quanto a configuração espacial permita a proximidade da relação olho no olho. Nessa dança sublime de corpos, palavras e notas musicais, a suspensão é um signo essencial. Suspensos os barcos de papel que fazem do espaço cênico um espaço simbólico, suspensos (e sobrepostos) os tempos entre os quais fluem os personagens, suspensos os gestos de uma partitura coreográfica que gera efeitos sinestésicos e cinestésicos – afetações de presença, para além da produção de sentido. Corpos poéticos que são corpos-cenários, em meio ao êxtase dos objetos: barcos e violoncelo vibram.

A cena toda decupada em quadros revela um cuidado formal, apolíneo, que responde ao caos social com uma composição controlada e, em certo sentido, idealizada. A arte praticada como elevação dos sentidos e sentimentos. Por trás disso, reside uma ética colaborativa de criação, pela qual é conferida autonomia aos elementos da cena e, consequentemente, espaço criativo para os artistas da luz, do espaço, da música. Um trabalho desdobrado por múltiplos olhares mas unificado pela perspectiva da diretora, modus operandi a ser estimulado na cena teatral sul-mato-grossense justamente pela autonomia criativa que permite a cada uma das artes implicadas no teatro.

“O Baixio dos Doidos” trouxe o universo urbano pop à cena, em um solo que agencia um procedimento forte na cena teatral brasileira hoje, a autoficção ou a elaboração dramatúrgica a partir de depoimentos pessoais dos atores, dentro de uma das principais vertentes do teatro internacional contemporâneo que são as teatralidades do real. Nessa linhagem, não deixa de fora alguns clichês como o café preparado em cena, que age sinestesicamente sobre o espectador despertando o olfato geralmente esquecido no teatro, ou a inserção de uma música poderosa no rádio/vitrola/Ipod do personagem, ou a decoração impecável do apartamento.

A encenação sustenta-se demasiadamente no texto, construindo uma atmosfera empática de intimidade com o personagem e usufruindo das qualidades da escrita de Begèt de Lucena, tanto quanto restrita à sobrevalorização do literário acima do dramático, e pelo desafio próprio à autoficção: como tornar universal e extraordinário o que é ordinário e particular? Extraordinário não é necessariamente algo incomum, grandioso, e sim um modo de olhar que desloque o comum. A narrativa da separação de Begèt está no limiar, um texto inteligente de um artesão das palavras permeado por certa autocomplacência do elogio à fossa; capaz de gerar identificação no limite da trivialidade.

Tratada como questão auxiliar, a memória familiar aprofunda em alguma medida o drama, enquanto a direção mostra potência de ultrapassar o lamento individual quando, por exemplo, refaz uma cena em diferentes modulações, deixando que a dimensão cênica mostre sua força sobre o texto. Cabe ainda comentar duas questões relativas à relação extraficcional: palco – plateia. Por um lado, a construção de uma relação mais próxima com o público pela presença de um pequeno grupo de espectadores no palco, cercando o cenário, esbarra na marcação predominantemente frontal do ator. Por outro, a dramaturgia ganha universalidade justamente no endereçamento para o espectador da possibilidade de transformar qualquer vida em narrativa.

A implicação do espectador no acontecimento teatral reforça-se pela necessidade de mobilidade física no espetáculo “E o Meu Cabelo Arrepiou”, da Cia. Maria Mole, de Corumbá. O grupo ocupou algumas salas da Estação Ferroviária com uma história de terror, gênero pouco explorado na produção teatral brasileira – um dos principais representantes é a Cia. Vigor Mortis, de Curitiba, dirigida por Paulo Biscaia, cuja pesquisa privilegia a linguagem do Grand Guignol. A Maria Mole tem a particularidade de construir a experiência do terror, centrada no prazer do medo, por meio de uma dramaturgia espacial que coloca o espectador na posição vulnerável de deslocar-se geograficamente (se comparada à segurança da cadeira na plateia, de onde a fruição atrofia a musculatura com exceção dos ouvidos e dos olhos) e aproximar-se fisicamente das figuras monstruosas que povoam as narrativas.

Como nas atrações do antigo teatro de feira popular, ou uma versão mais elaborada de um trem-fantasma, o grotesco é o procedimento-chave agenciado para abalar os corações no limite entre a vida e a morte. E o Meu Cabelo Arrepiou sustenta essa experiência em um pout-pourri de microcontos de terror, pílulas-clichê do gênero que geram mais uma sucessão de sustos do que aprofundam uma história. Nesta apresentação de encerramento da Mostra Boca de Cena, escolhas relativas à produção prejudicaram a experiência. O principal problema foi a quantidade de público acima do que o espaço cênico comportava, consequentemente, para parte dos espectadores era impossível enxergar os atores. Outra complicação em decorrência desta – e da opção por deixar o ambiente quente – foi que algumas pessoas (ao menos duas: esta crítica e uma outra espectadora) passaram mal ou saíram antes para evitar mal-estar. São detalhes externos à obra, mas que interferem de forma determinante na sua fruição.

É necessário colocar em questão tanto fragilidades do processo criativo vinculadas à carência de formação e de trocas com a produção nacional e internacional, quanto os caminhos da curadoria. São dois polos independentes, mas que se afetam mutuamente. Por um lado, é importante que seja feito um investimento de recursos materiais e esforços humanos no aprimoramento da criação dramatúrgica, do trabalho do ator – um ator-criador – e na construção colaborativa que valorize os diversos elementos cênicos, para o que é fundamental a promoção de debates sobre perspectivas contemporâneas desses temas e o intercâmbio com artistas experientes de Mato-Grosso do Sul e do restante do país. Só um teatro com condições de trabalho continuado e de investigação de linguagens e meios expressivos pode alcançar formas de excelência e originalidade.

Por outro lado, cabe à curadoria de uma mostra como a Boca de Cena reunir um conjunto de trabalhos que, sem almejar a perfeição, sejam propositivos, arrojados e consistentes em suas elaborações estéticas, e não se submetam à lógica comercial de entretenimento, proporcionando aos artistas e espectadores sul-matogrossenses o contato com a experiência artística e suas particularidades.

É pelo acúmulo de experiências estéticas que se forma um espectador qualificado – e (por que não?) um artista qualificado. Daí a importância da formação estética do cidadão, pressupondo a ampla capacidade de um ser humano se relacionar por si mesmo com a arte, à qual uma mostra como a Boca de Cena pode estimular abrindo sua programação ao contato com produções de outros estados e à dimensão formativa e de reflexão crítica.

*Artigo produzido para a Fundação Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul.

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01/05/2015 TAGS: Boca de Cena, Campo Grande, festival, Mato Grosso do Sul, panorama BY: Luciana Romagnolli
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entrevistas

Jorge Dubatti: teatro como acontecimento convivial

Jorge Dubatti: teatro como acontecimento convivial

— por Luciana Romagnolli —

Entrevista originalmente publicada na revista Urdimento, v.  2, n.  23, dez. 2014.

Em seu empenho por traçar uma filosofia do teatro, o ensaísta, crítico e teórico argentino Jorge Dubatti reconhece que, assim como a arte em geral, o teatro passa por um processo de “desdefinição” com a emergência de acontecimentos artísticos fronteiriços desde o início do século XX; contudo, apesar dessa desdelimitação  com  outras artes e com a vida,  Dubatti  identifica ainda “uma  singularidade na teatralidade que é sua estrutura matriz” (2007, p. 14) e que o diferencia de outras manifestações culturais também fundadas na representação, como o cinema, a televisão e o jornalismo. Essa singularidade é “o resgate do convívio”, ou seja, “a reunião sem intermediação tecnológica – o encontro de pessoa a pessoa em escala humana” (Dubatti, 2007, p. 20) em uma “encruzilhada espaço-temporal cotidiana” (2007, p. 43).

(…) Na entrevista abaixo, realizada em fevereiro de 2014, no Centro Cultural de la Cooperación, localizado no centro da cidade de Buenos Aires, o teórico argentino relaciona sua ontologia teatral às possibilidades de dramaturgias conviviais, à crítica de teatro e à necessidade de uma mudança de paradigma na pesquisa sobre teatro cartografada que o entenda não como linguagem tão-somente, mas também como acontecimento

Luciana Romagnolli e Mariana Muniz – Se pensarmos a dramaturgia fora do logocentrismo como um conceito expandido que inclui a articulação de sentidos e efeitos num espetáculo, é possível pensar o convívio como elemento que pode ser trabalhado pelo dramaturgo e pelo diretor, de modo que se possa evidenciar a relação de convívio no espetáculo?

Jorge Dubatti –  Como você disse,  o conceito de dramaturgia se ampliou  enormemente, do ponto de vista do sujeito produtor, do sistema de referência, da edição etc. Acaba de sair no Chile um trabalho meu sobre esse tema. Dentro dessa ampliação, entraria o que podemos chamar de dramaturgias conviviais. São aquelas dramaturgias que, seja pela liberdade que tem o ator para interagir com os espectadores ou pela imposição do convívio sobre o material da cena, produziriam um caso particular. Digamos que o ator deixa de ser uma simples tecnologia do diretor para transformar-se em um gerador de acontecimento convivial, que implica produção de dramaturgia.  Nesse  sentido,  creio  que  a  dramaturgia  convivial  é  vivida  todo  o  tempo, inclusive nos espetáculos em que o ator está determinado a cumprir com um determinado protocolo de representação do texto ou a cumprir com as instruções de um diretor, porque o convívio produz modificações. Se alguém medir a duração de uma obra em cada sessão, verá que nunca é a mesma. Por outro lado, há mudanças na ordem dramatúrgica não só pela dinâmica de convívio, mas também pela dinâmica de produção de  poiésis  – a  poiésis  produtiva, segundo a terminologia da Filosofia do Teatro. Nesse  sentido,  há de  se distinguir  dois  tipos de  dramaturgias  conviviais. Um tipo seria aquela que é natural do acontecimento convivial e vai acontecer sempre, mesmo que o ator trabalhe com quarta parede e se isole do mundo, essa dramaturgia vai estar em funcionamento. Outro tipo são casos muito particulares de distintas poéticas que trabalham com o que podemos chamar de uma “dramaturgia do ator em convívio”, no qual o ator interage permanentemente ou aproveita os estímulos. É como na  Commedia dell’Arte  ou no teatro de rua ou em algumas poéticas particulares. Na Argentina, temos a poética do clown, da improvisação e da comicidade, que são muito abertas à dramaturgia da produção de convívio a cada noite. Há vários grupos que têm essa poética instaurada. Um caso que eu nomearia como exemplar é do La Banda de la Risa, que trabalha com uma margem muito forte de dramaturgia convivial, modificando permanentemente as apresentações com estratégias que são muito parecidas com as da  Commedia dell’Arte, como o canovaccio e a construção de lugares inesperados dentro dessa dramaturgia.

Luciana e Mariana – O segundo tipo de dramaturgia convivial, você relaciona ao  ator.  Com  outros  elementos,  como luz  e  cenário,  também  seria  possível  criar  esse tipo de poética da dramaturgia convivial?

Jorge Dubatti – Sim. O que creio é que o específico do teatro, seu núcleo central, é o ator. Há cenas neotecnológicas em que se produzem combinatórias, mas o que  não  se  pode  subtrair  é  o  ator.  Ele  verdadeiramente  é  o  gerador  da  ação,  da  poética e do acontecimento. Isso seria a refutação da teoria de Josette Féral. Féral diz que a dramaturgia é o olhar do espectador. Então eu poderia, neste momento, estar olhando para você e pensando nesta entrevista como uma obra de teatro. Não. A poiésis  teatral diz que se trata de uma ética dialógica, uma política dialógica. Quando alguém vai ao teatro, vai compartilhar com outro. Não está fechado em seu próprio crânio. Uma ética dialógica seria entrarmos em acordo de que eles (os atores) vão produzir  poiésis  e nós  vamos observar  e  nos integrar  numa  poiésis  convivial. Essa  é a grande diferença entre uma definição geral de  poiésis  e uma definição específica do teatral.  Caso  contrário,  o  teatro  perde  sua  singularidade.  É  claro  que  existem  zonas de liminaridades, cruzamento e perda de limites. Mas a singularidade (do teatro) é haver uma “figura de ação”  que comece a  produzir  poiésis  e, a partir  daí, detonar  todo o mecanismo. Essa figura é o ator.

Luciana e Mariana – Faz sentido dizer que, quando o teatro evidencia a poiésis convivial, reitera sua importância na atualidade?

Jorge Dubatti –  Absolutamente.  É  claro  que há  uma  grande  variedade  de  poéticas e, dentro de uma ética do científico (estou trabalhando muito esse tema), tenho que valorar e respeitar todas as poéticas.

Luciana e Mariana – Ou seja, ser um espectador “politeísta”, como você diz em “Filosofia do Teatro I”.

Jorge  Dubatti –  Exatamente. Chamo de cânone da multiplicidade. Um artista pode dizer o contrário: só é arte o que eu faço. Mas um cientista não pode fazer isso. Se sou investigador, tenho que reconhecer tudo que está acontecendo e aceitar que há muitas formas de fazer teatro. Mas há algo interessante que é um núcleo de teatro, com estabilidade, que provém da Antiguidade e segue vigente. O acontecimento é efêmero,  mas  a  memória  não.  Há  uma  memória do  teatro  que  segue  funcionando  e teria a ver com  esse núcleo central. O núcleo  fundamental, como  disse Grotowski e também Peter Brook, estaria dado no sistema de convenção do século V a.C, com a tragédia  e a  comédia  gregas  e os  mimos  romanos.  Nesse  sentido,  gosto  muito  de  usar a palavra teatro.  Muitos perguntam  por que  não falar em “artes  cênicas”.  O problema com as artes cênicas é que todo mundo se apropriou da palavra cena: a sociologia, a literatura, as artes digitais. Eu teria que separar artes cênicas conviviais e não conviviais. A palavra teatro, usada no sentido de origem, não o moderno, implica todos os  elementos  dessa  estabilização  da  linguagem teatral  que  continua  vigente  até  hoje. Teatro  significa lugar, um mirante, onde alguém vai ver algo que aparece. Por outro lado, há a atividade de olhar. Portanto, na palavra teatro estão inscritos o território, o objeto observado e o observador. Voltando ao núcleo, as combinatórias são infinitas, especialmente depois do choque das vanguardas, muito estimulante para se ler a História [do teatro]. Por que não sustentamos que o primeiro ator foi Homero? Ali havia convívio,  poiésis  e expectação. Se fizermos todo esse protocolo de regresso à História e voltarmos a pensar nos processos, além da multiplicidade aparece um elemento irrenunciável, que é o ator. Há um grande dramaturgo argentino, Mauricio Kartun, que diz: o teatro é um corpo. O que está dizendo é: o teatro é um corpo de um ator que produz acontecimento e estabelece uma ética dialógica com o espectador. Nesse sentido, creio que as luzes, a cenografia, a música, são todos elementos muito importantes, mas são acessórios porque, como diz Grotowski, poderíamos tirá-los e o acontecimento se produziria. Então, eu instalaria dois corredores teóricos. Um seria de quantas possíveis combinatórias há dentro das linguagens teatrais: infinitas. E outro corredor teórico seria o que não pode faltar no acontecimento teatral: a reunião dos corpos viventes produzindo  poiésis  em convívio, onde haja geração corporal de  poiésis  e expectação. Seriam duas pertinências diferentes, como dizem os estruturalistas. Por isso, no fundo, a dramaturgia convivial é constitutiva do teatro. Em  alguns  casos  pode  ser  sistêmica,  porque  se  busca  estimular  esse  convívio,  em outros casos não, mas ainda assim está presente.

Luciana e Mariana – Falta se pensar mais sobre o espectador e a experiência de expectação na teoria de teatro?

Jorge Dubatti –  Você está tocando em um tema que, para mim, é um tema-chave. Nós temos armado uma epistemologia do teatro baseada na ideia do teatro como linguagem.  Uma  ideia  da linguagem  como  um  corpo  que  produz  signos  e  que  são expectados por outro corpo que produz sentidos através desses signos. Toda a teoria básica é a da comunicação. Mas há outra coisa que é importante e é justamente a convivialidade. O grande problema em que nos encontramos é que há de se armar uma epistemologia da convivialidade, não da linguagem, porque a linguagem não necessariamente é o que ocorre no acontecimento. Se estou observando um corpo que produz acontecimento, de golpe me abstraio porque o relaciono com alguma coisa e deixo de perceber os signos. Onde fica a teoria de que houve comunicação ou que esse signo produziu recepção em mim? Nesse sentido, temos que reinstalar um campo epistemológico, que muitas vezes foi tapado pela vontade de certeza da semiótica. Por exemplo, leio um texto, analiso os signos desse texto e os projetos ao funcionamento  do espetáculo,  pensando  que  foi  isso  que  se passou.  A  epistemologia do convivial implicaria ver como fracassa a linguagem. Beckett disse: tenta de novo, fracassa de novo, fracassa melhor. Tenho que ver onde fracassa a teoria semiótica porque é aí que estou entendendo a singularidade do teatro.

Luciana e Mariana – O que não é texto, mas é acontecimento.

Jorge Dubatti –  Sim. Tenho que poder pensar o acontecimento pelo que ele é, não pelo que deveria ser enquanto linguagem semiótica. Não digo que não há linguagem, mas que, no acontecimento, há muito mais que linguagem. E o acontecimento, como pertence à cultura vivente, implica categorias epistemológicas muito importantes,  como a categoria  do perdido,  da ignorância – porque  há coisas que  vou ignorar. Trabalho com espectadores todas as segundas, na Escola de Espectadores, de março a novembro, e estou disposto a não saber o que se passou porque o acontecimento é muito mais intenso do que os relatos posteriores ou uma estatística. Uma coisa que me parece muito importante – e estamos tratando de aprofundá-la – é aceitar que o acontecimento teatral nos enfrenta com um limite. E que esse limite não se pode negar nem se pode tapar. O que a semiótica fez foi negar e tapar os limites, pensando que se estudamos as cadeias de signos, estudamos o acontecimento. Estamos nas portas de uma nova maneira de entender as coisas, onde nos colocamos num lugar de reconhecimento e de fracasso.

Luciana e Mariana – Essa é uma tarefa para o pesquisador e uma tarefa para o crítico?

Jorge Dubatti  – Totalmente.

Luciana e Mariana – Como fazer isso? Como falar do acontecimento?

Jorge Dubatti  – Uma coisa importantíssima é começar a ter categorias que reconheçam  a  realidade  do  acontecimento,  como  a  categoria  do  “teatro  perdido”. Quando vou falar do teatro como crítico, eu falo no passado, não no presente. Estamos falando do perdido, mesmo que o tenhamos visto há dez minutos. Isso implica em primeiro lugar que, a partir dessas categorizações, formulemos do que podemos falar e do que não podemos falar. Quando reconhecemos aquilo do que podemos falar, aparece um monte de questões que se instalam em certos parâmetros. Eu tenho, como crítico, dez grandes parâmetros que têm a ver com um trabalho sobre auto-observação e observação do acontecimento. Trabalho muito com a ideia de auto-observação, o relato do que passou comigo. O acontecimento em princípio é um laboratório de auto-observação tanto para o artista quanto para o espectador e para os técnicos. Há de se habilitar o lugar do técnico. Na Argentina, agora chamamse técnicos-artistas, porque se reconhece que estão fazendo algo muito importante para a  poiésis. A técnica é tão protagonista quanto o trabalho do ator e do espectador. Então, auto-observação e construção de discursos sobre essa auto-observação, tanto pelo espectador, quanto pelo técnico e pelo artista. Começam a aparecer categorias, observações históricas, regularidades, reflexões de todo o tipo sobre as conexões  com  a  história  e  o  comportamento.  Mas  tudo  isso  baseado  no  reconhecimento de uma ignorância. A ignorância qual seria? O objeto se perde. Estudar um vídeo não é estudar um acontecimento. Tem-se que estar dentro do acontecimento. E outro tema muito  importante é a excepcionalidade do acontecimento.  Posso entrar no teatro drogado, feliz no meu mundo, e o espetáculo me parecer maravilhoso porque estou disposto a que seja maravilhoso. Ou o contrário: entro após uma má notícia, de que estou doente, não sei, estou desesperado e odeio o espetáculo porque o relaciono a isso. São muito importantes as categorias da auto-observação, da autodisciplina, da autoconfiança. E algo tão importante quanto é alcançar um lugar trans-subjetivação como espectador, não apenas o subjetivo. Está muito relacionado à ideia da morte: se eu não estivesse hoje aqui, a apresentação igualmente estaria acontecendo. Posso abstrair a minha própria presença e pôr em jogo a observação, não como um sujeito afetado por ela, mas como algo que está acontecendo na minha ausência. Isso implica um exercício epistemológico. No teatro nem tudo é subjetivo. Se estou sentado e a meu lado uma senhora está morrendo de rir, posso observar isso como uma instância objetiva do acontecimento. Simultaneamente, na ordem subjetiva, posso dizer que não me interessa, me incomoda, posso valorar o que está acontecendo.  São  muitas  estratégias  distintas  —  passei  o  verão  escrevendo  sobre  isso. Outra estratégia é uma espécie de diálogo com pessoas ausentes no acontecimento. Sabe quando Eugênio Barba diz que pensa o espetáculo para seis espectadores – uma criança, Borges, um músico, um cego etc.? Essas pessoas não vão ao acontecimento,  mas  Barba o  está  construindo  a partir  de um  lugar  de pergunta,  tirando-o  da instância estritamente subjetiva dele. Eu sempre fantasio que vou ao teatro com dois amigos – que obviamente não vão -, o Martin Esslin, crítico criador do conceito de teatro do absurdo, e Susan Sontag, a intelectual americana. Sempre me pergunto o que estariam  vendo  eles  que  eu  não  estou  vendo.  Trata-se  de  pensar  não  só  o  que  estou vendo, mas o que poderia estar vendo e o que deveria estar vendo. Então, abre-se um monte de possibilidades à pergunta sobre os convívios, relacionadas à auto-observação,  à observação  do outro e  a instâncias  imaginárias  que permitam  fazer  ao acontecimento perguntas que não se faria por sua própria subjetividade.

Luciana e Mariana – Se pensarmos na processualização de espetáculos, característica do pensamento de vanguarda nas artes, pela qual se traz elementos do processo criativo para a obra, há uma relação entre essa prática e o convívio?

Jorge Dubatti  – A grande pergunta que se deve fazer é o que eu posso conhecer de um convívio. O convívio é um objeto de estudo evanescente, absolutamente imprevisível.  Muitas  vezes  é  difícil  predicar  algo  sobre  esse  objeto.  Então  aparece uma pergunta epistemológica interessante: quais são os limites de conhecimento do convívio enquanto objeto? Dentro dessa grande pergunta há uma em particular que seriam os estudos dos processos de convívio. Podemos dizer que cada convívio é absolutamente  diferente  de  outro.  Posso  encontrar  regras  de  regularidade,  mas  talvez o mais interessante não seja  a regularidade, mas aquilo  que o convívio  muda. Espetáculos que me interessam muito, vejo-os mais de uma vez. É impressionante não só como eu mudo na relação com o acontecimento já tendo visto o espetáculo uma vez, mas também como muda o acontecimento pela nova composição do público e pelo estado dos atores. Isso já foi muito dito: a apresentação nunca é a mesma. Mas há  de  se  produzir  categorias.  Temos  que  partir  da  ideia  de  que  estudar  os  convívios implica estudá-los micropoeticamente. Não vou estudar todos os convívios porque não poderei estar lá. Se, dentro de todos esses convívios, seleciono um, aí estarei estudando uma micropoética em particular. Questiono muito as observações dos críticos  – e  me  incluo  – valorando  um  espetáculo  pelo que  se  passou  numa apresentação com outros críticos [na plateia]. Há que se poder nomear certos critérios. Tenho pelo menos dez grandes critérios: efetividade, historicidade, poeticidade etc. Mas o mais importante  é  o micropoético:  reconhecer cada convívio  e cada acontecimento como único e singular e não necessariamente representativo dos outros. Há algo que contradiz a investigação: tratamos de generalizar algo que não se pode generalizar. A relação está dada por uma circunstância, um momento, uma tensão de relações absolutamente micro, não esse modelo abstrato. Por isso sempre que estudamos o convívio peço aos espectadores que digam que dia foi, em qual apresentação, se esteve presente  ou não, sobre  qual vídeo está trabalhando  e que esclareça que está trabalhando sobre um vídeo porque é uma observação extremamente relativa. Sinto que, de tudo que se escreveu sobre teatro, trabalhou-se sobre generalidades, sobre sistemas. E a sensação é que nos acontecimentos essas generalidades não necessariamente estão presentes. Por exemplo, fui a uma apresentação em que espectadores aplaudiram de pé e depois ouvi de outra em que os espectadores dormiram, saíram na  metade.  Estamos  falando  do  mesmo  objeto?  São  dois  objetos  diferentes:  um  convívio e outro convívio.

Luciana e Mariana – Na Escola de Espectadores, são quantos anos de trabalho?

Jorge Dubatti  – Quatorze anos.

Luciana e Mariana – E, nesses anos, o que você pôde sentir de como os encontros  semanais  podem mudar a relação  desses  espectadores  com  o  teatro  e  a  sua  com esses espectadores?

Jorge Dubatti –  É um fenômeno muito complexo. Comecei com oito pessoas na escola e há seis que continuam vindo em 14 anos. Neste momento, a escola tem 340  frequentadores.  Encontram-se  pessoas  com  respostas  muito  distintas,  histórias diferentes de relação com teatro. Gente que vem com estrutura muito armada, vai ver teatro comercial e nega, vai ver teatro independente e mesmo que seja uma porcaria encanta-se. São cabeças muito diferentes, 340 tipos distintos. Mas o que eu vejo como função da escola é que possa construir o que gosto de chamar de espectador  companheiro.  É  um  ponto  contrário  ao  espectador  emancipado  de  (Jacques) Rancière. O espectador companheiro está disposto a dialogar com o que acontece, tomando a instância objetiva do espetáculo, de reconhecimento do que está acontecendo ao redor, e estabelecendo um diálogo entre o que se passa com ele, com os outros e com o artista, nessa instância trans-subjetivada de colocar-se em outro lugar. A escola multiplica a vontade de escuta, de atenção a outras pessoas do convívio e aos artistas. A escola gera conhecimento, o frequentador que vem há dois ou três anos está muito  preparado para ler linguagens diferentes. Gera uma  mudança muito forte no boca a boca. Se gostam do espetáculo, os 340 se multiplicam por dez rapidamente, há uma rede de oralidade. Gera um movimento de público para o espetáculo.

Luciana e Mariana – Como você desenvolve a pedagogia teatral na Escola?

Jorge Dubatti  – O que eu sempre digo: é uma escola, não é um clube. Não é um lugar de debate aonde cada qual vem dizer o que lhe ocorre. Há uma franja educativa. Eu dou  aulas com um critério  construtivista,  não condutivo.  Não lhes digo o que têm que pensar ou fazer. Eu lhes dou ferramentas. Por exemplo, suponhamos que vejamos um “Hamlet” dirigido por Daniel Veronese. Na primeira hora da Escola, vou dar ferramentas para compreender o texto de Hamlet, compreender a tradução sobre a qual se está trabalhando, ver uma tecnologia da reescritura (o que chamaríamos  adaptação),  conectar  com  o  pensamento  e  a  poética  de  Veronese  e  do  que seria um Shakespeare em sua historicidade. Em nenhum momento digo se devem ou não gostar. Eles brigam muito comigo. Digo para verem algo e voltam dizendo que é uma porcaria. Peço que se deem tempo. Já aconteceu de me dizerem que um espetáculo é um desastre e, sete anos depois, o mesmo espectador me dizer que agora entende porque foi ver tal coisa. Isso é uma aprendizagem e uma abertura que tem muito a ver com a vontade de abrir a cabeça. Gosto muito de falar em amigabilidade, disponibilidade espiritual com os acontecimentos. Na segunda hora, vêm os artistas, o diretor,  o dramaturgo,  o produtor,  os técnicos,  e o que fazemos  é escutá-los  muito atentamente.  Não  dizer-lhes  o que  nós  pensamos  mas  escutar o  que  eles pensam.  E fundamentalmente as perguntas são: como trabalharam, como veem o mundo, por que fizeram isso, quais os principais procedimentos e perguntar muitos detalhes. “Na cena do monólogo tal, você faz de costas. Por quê?”. Sempre aparece a ideia do diálogo com o artista. Uma ideia de companheiro – que vem do latim, compartilhar o pão. O convívio é justamente a mesa, uma reunião para beber e comer. Tenho uma espécie de classificação dos contramodelos de espectador, os que eu não recomendo, e dentro deles está justamente o não-companheiro, o espectador assessor, credor, carrasco. São distintos tipos de espectadores que reconheci e, quando aparecem, trato de lhes trazer consciência. Já se passaram na Escola casos incríveis, como trazer um mestre de trajetória impressionante, que se digna a vir conversar conosco, e nem começou a falar quando uma senhora levantou a mão e disse que o espetáculo não lhe interessou porque é uma merda. Isso seria o espectador carrasco, combativo, que não vai disposto ao diálogo, mas para violentar. Isso é muito midiático, está na televisão, muita gente pensa que isso é o protagonismo. Alguns espectadores da Escola me disseram que vão lá questionar e criticar os artistas. Não se trata disso, se quiserem, que abram um blog e escrevam o que queiram. A Escola é um espaço de diálogo em termos de companheirismo. Às vezes, isso me custa muito. As pessoas têm uma tendência à violência e não sabem dialogar, mas quando isso acontece, eu o freio, porque não é a função da Escola. Não é ensinar o que se tem que pensar ou as conclusões, mas exige da pessoa a disponibilidade de receber ferramentas. Uma dessas ferramentas é tratar de entender a cabeça do artista, o que ele quis e propôs. Depois, considere se conseguiu ou não.

Luciana  e  Mariana  –  No  Brasil,  há  uma  escola  em  Porto  Alegre.  É  possível  se pensar em escolas em outras cidades?

Jorge Dubatti  –  Um  grupo  me  chamou  para  abrir  em  São  Paulo.  Creio  que  sim. Vivendo em Buenos Aires, que é uma grande capital teatral, comecei com oito pessoas e com muita resistência. Ninguém entendia que teria que estudar para ser espectador  –  eu  dizia,  claro que  tem  de  estudar,  eu  vivo estudando  para ser  um  bom espectador. Não entendiam do que teriam aulas. Sinto que isso já se instalou aqui. No Brasil, a Escola de Porto Alegre começou com 150 pessoas. Já está criada a expectativa. Fez-se uma  reunião  no Festival Santiago  a Mil e se falou da Escola  de Espectadores de Buenos Aires. Mas creio que em São Paulo já há um rapaz, o Flávio Desgranges, que está  fazendo escola de  espectadores, mas nas escolas de educação  básica. São duas coisas distintas.  Não trabalho com  escolas, trabalho com espectadores. Estamos armando um módulo para trabalhar com as escolas, mas sou muito crítico da forma que se está trabalhando neste momento porque não creio que se deva transformar o espetáculo e o acontecimento em um espaço pedagógico. Tem que ser puro espaço de gozo. Levar as crianças para que se divertir, desfrutar, como uma excursão. E que não se transforme em uma aula, como de literatura.

Luciana e Mariana – Seu livro será publicado no Brasil?

Jorge Dubatti  –  Aparentemente,  sairia  uma  introdução  à  Filosofia  do  Teatro,  publicada  em  São  Paulo  pelo  Sesc.  Estou  terminando  a  versão  e  vou  mandá-la,  terá de ser revisada, aprovada, traduzida. Tomara! Me encantaria porque estou viajando muito ao Brasil, tenho conexões com universidades de distintos lugares e vejo que estamos na mesma coordenada. Estamos em uma etapa de abertura epistemológica a uma consideração do teatro a partir de um outro lugar. Gosto muito do pensamento cartografado. Não se trata de impor um novo paradigma universal, como a semiótica  pretendeu  ser.  O que  se trata  é de,  problematizando  as  questões,  estudar os  contextos  locais.  Eu  estudo  Buenos  Aires  e  a  partir  daqui  produzo  um  pensamento teórico. Me parece que o mesmo têm de fazer Brasil, Uruguai, Córdoba. E isso está acontecendo. É uma ideia de uma cartografia radicante. No Rio se estuda uma coisa, em Buenos Aires outra, em Córdoba outra, em estreita relação com o teatro que vemos. Senão, gera-se essa coisa espantosa é termos de falar sobre o que está se passando na  Alemanha, quando  não é o  teatro que  vemos. Isso  nos obriga a  não termos objeto  de  estudo,  a  repetir  a  bibliografia  e  a  desconhecer  nosso  próprio  objeto  de estudo. Uma cartografia radicante diria: tenho que pensar o teatro a partir do que eu sei. Tive uma entrevista com um grande pesquisador francês que levei à Universidade de Buenos Aires, e ele disse aos alunos: “Porque vocês viram Planchont…”. Não. Ninguém viu. Ele me olhou: “não conhecem Planchont?” Chegou um momento em que me disse que não poderia prosseguir. Eu lhe disse para falar de teatro, não das obras que ele viu,  porque eles falariam  das obras que eles  viram. Uma cartografia radicante implica conhecer a própria territorialidade e estabelecer diálogos de conexão com França, Alemanha, com todo lado, mas a partir do que se conhece, dos acontecimentos. Não tenho porque estar falando de Bob Wilson, vou falar do que vejo esta noite e daí vou produzir pensamento e me conectar com toda a bibliografia mundial. Essa é uma mudança muito importante porque começamos a reconhecer que temos que falar  do que  se  passa e  não do  que  deveria  estar  passando. Falei  disso  com  o Lehmann em Porto Alegre, num encontro sobre Bertolt Brecht, conversamos nos almoços, caminhando pela rua. Disse-lhe: “o conceito que você trabalha de pós-dramaticidade não me serve para pensar o teatro de Buenos Aires, o teatro que eu vejo não é o que você diz”. E ele me respondeu uma coisa muito sensata: “Eu nunca falei do teatro de vocês,  estou  falando  do  que  eu  vejo  lá”.  Isso  me  parece  muito  importante,  devemos começar a falar de coisas concretas, e claro, depois ouvir atentamente ao Lehmann para ver se o que ele diz tem a ver com o que vivemos. Nos congressos, muitas vezes, sinto  que  estamos vendo uma  coisa  e falamos de  outra.  Acabamos  de ver  uma  obra de teatro em que há personagem, história, dramaticidade e, depois, analisamos esse espetáculo falando de pós-dramaticidade e morte do personagem. Não tem nada a ver com o que vemos. A América Latina tem uma missão agora: começar a falar do que se passa nos teatros locais. Tenho que falar de Buenos Aires. E você tem que falar do teatro do seu lugar. E, claro, conhecer toda a bibliografia mundial.

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08/02/2015 TAGS: Argentina, Convívio, dramaturgia convivial, Jorge Dubatti BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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