• Início
  • Categorias

    Hot Categories

    • conversações

    • podcast

    • críticas

    • coberturas

    • entrevistas

    • dossiês

    • ensaios

  • Quem somos
  • Contato
  • Ações
  • Parceiros

Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Deslocamentos e ironias vitais

Por Ivana Moura – Satisfeita, Yolanda? (*)
Foto de Manin Valentin
Um casal de noivos entra e dá uma volta em círculo no palco. Do lado direito, um grupo de músicos. Na segunda volta, ele coloca a mão no ombro dela e fala algo ao seu ouvido. Depois parece bêbado (da festa?). Mudam de posição, de ritmo. Outro homem com perna amputada e com muletas vai atrás. O barulho metálico das muletas grita. Depois de uma volta, ele pisa no vestido da noiva e congela. Continua o percurso. Pisa novamente no vestido dela e paralisa a cena, como numa fotografia. O homem das muletas chuta a mulher. Ela cai. E depois se agarra ao pescoço dele. É arrastada. Tenta se segurar a outras partes do corpo dele. Ele pula como sapo. Ela sobe no seu ombro.
Lembrei-me da canção O Quereres, de Caetano Veloso (“Ah! Bruta flor do querer / Ah! Bruta flor, bruta flor”). Esses desejos que se alternam, esses quereres em permanente deslocamento. Deslocamento, aliás, é uma chave de leitura para o espetáculo “Nós somos semelhantes a esses sapos…”, da companhia MPTA – Les Mains, les Pieds et la Tête Aussi (As Mãos, os Pés e a Cabeça Também), que apresentou em seguida o duo Ali.
As andanças pelo palco, em círculos primeiramente e em muitos outros desenhos. O deslocamento do eixo gravitacional provocado pela falta de uma perna de Hedi Thabet e que se expande para os outros dois bailarinos. A provocação do deslocamento do olhar do espectador. E ainda a projeção dos deslocamentos migratórios mundiais e suas questões de identidades, também ressaltadas pelo repertório musical (melodias tradicionais tunisianas e gregas – rebetiko) e a ascendência dos artistas.
O corpo mutilado vai à luta. Subverte lógicas. Desafia o outro. A linguagem física é rica de significações. Alteridade: um e outro no fluxo do desejo por uma mesma mulher, alternância equilíbrio/desequilíbrio dos corpos, desafio às leis da gravidade. Acrobacias de tirar o fôlego. Esses “sapos” borram fronteiras. Saem dos eixos em seus giros. Imagens de potência em constante construção – uma rainha gigante com três pernas ou o gozo da noiva lânguida, Artemis Stavridi, erguida sobre o corpo de Hedi Thabet. Com os movimentos acrobáticos e de dança contemporânea, “Nós somos…” explora a aventura de um triângulo amoroso plausível, que avança em oposições contraditórias no deslocamento do desejo.
Já em Ali, as muletas se transformam em objetos de ligação entre os dois homens. Cumplicidade, companheirismo, afeto entre Mathurin Bolze e Hedi Thabet. Eles se desafiam e confundem, se desdobram, se encaixam numa plasticidade comovente. O corpo pode ser outro, de outro modo, outro ser vivente. E o humor e a ironia permeiam os dois espetáculos. Mais grave em “Nós somos semelhantes…”, com suas ameaças de perda e mais vitalizante em Ali, com sua força e alegria de viver.
(*) Este texto integra as ações do Coletivo de Criticos na MITsp 2014 – Mostra Internacional de Teatro
Leia mais
12/03/2014 TAGS: Coletivo de Críticos, França, MITsp BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

Corpos em infinita multiplicação e mutação

Por Soraya Belusi – Horizonte da Cena (*)

Há algo de espanto em um primeiro momento. Sensação logo transformada em beleza a ser admirada. O que antes poderia soar como piedade cede lugar à comunhão, ao encontro com o outro, à celebração. A imagem da mutilação não se apresenta como obstáculo, mas sim potência, desviando o olhar da perda para a multiplicação dos corpos em cena. Juntos, performers e espectadores atravessam a fronteira da deficiência e da individualidade para chegarem ao território da eficiência só possível de ser alcançada na complementaridade. Movimento compartilhado entre todas as partes.
Fotos de Manon Valentin
“Nós somos semelhantes a esses sapos…” + Ali, programa de dois espetáculos apresentado pela companhia Les Mains, les Pieds et la Tête Aussi (MPTA), da França, na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), não se resumem a um tratado sobre a deficiência física ou sua “exploração espetacular”. O fato de um dos bailarinos ter perdido uma de suas pernas não é ignorado pelo trabalho (nem pelo público), mas também não é seu ponto principal ou final. É a partir desta ausência, porém, que se estabelecem os jogos de multiplicação e mutação dos corpos.
Tendo como ponto de partida um mote até mesmo banal, a relação de amor e ódio que cerca um triângulo amoroso, nasce uma dramaturgia corporal vigorosa, em que o arquétipo da perfeição do casal, em sua caminhada nupcial, é desestabilizada por um terceiro elemento, uma espécie de intruso que insiste em se fazer presente. Enquanto um a faz girar, o outro a faz flutuar, num jogo de oposição que os transforma assim em duplos complementares, que só se definem e existem na comparação com o outro.
Desestabilizar parece ser um verbo que permeia ambos os espetáculos: reverter expectativas, romper convenções, criar outros olhares ainda não experimentados para o que se entende por (e no) corpo.
Em Ali, o trio se desfaz e cede lugar a um dueto. Numa espécie de dança-duelo, Mathurin Bolze e Hedi Thabet se perseguem, se chocam, se debatem, se conectam, redescobrem seus próprios corpos.  O que antes era falta, torna-se soma. A presença constante de uma ausência. Parte-se das muletas como apoio e suporte para transformá-las em trampolins para grandes saltos, como extensões dos próprios corpos, que, mais que objetos, tornam-se também matéria, corpo, carne, membro.
Uma perna a menos se transforma em várias pernas a mais, como num milagre da multiplicação ou uma brincadeira de criança. São partes de um todo que só se constitui na hibridização desses dos corpos performáticos que dividem a cena, num movimento constante de mutação de formas, imagens, dinâmicas, perspectivas.

A quase ausência de elementos no palco (apenas um lustre e cadeiras) ressalta ainda mais o foco na escrita que nasce do corpo e para ele retorna. É na extrema fisicalidade que o trabalho encontra seu apoio. Assim como os elementos aos quais a própria companhia recorre para construir sua poética cênica, que agrega principalmente circo, dança e teatro, os corpos dos performers também assumem um caráter híbrido, estilhaçado, expandido, ampliado. Uma outra anatomia possível se configura no encontro e na metamorfose entre eles.
O virtuosismo em ambos os espetáculos deixa de ser mera exibição das habilidades técnicas dos bailarinos, embora estas sejam incontestáveis, para se tornar também possibilidade de reinvenção e reconfiguração corporal, na criação de formas não mais somente humanas, mas praticamente mitológicas, animalescas, em que os corpos se reorganizam, se fundem, se redefinem. Ao construir um vocabulário de movimentos que busca confrontar a gravidade e reelaborar a noção de equilíbrio, o grupo francês MPTA reconstrói a própria ideia de humano na contemporaneidade, quando o apoio solitário parece não ser mais uma alternativa possível.

(*) Este texto integra as ações do Coletivo de Criticos na MITsp 2014 – Mostra Internacional de Teatro

Leia mais
12/03/2014 TAGS: Coletivo de Críticos, França, MITsp BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

A fisionomia do olhar

Por Valmir Santos – Teatrojornal (*)
A face onisciente de Cristo no pé-direito do palco, do queixo aos fios de cabelo, justapõe as escalas do sagrado, do humano e do espaço cênico em Sobre o conceito de rosto no filho de Deus. A imagem de forte carga simbólica e de construção histórica evidente redundaria o título da obra não fosse ela mesma convertida em dispositivo seminal da companhia Socìetas Raffaello Sanzio. Seu diretor, Romeo Castellucci, enquadra apenas a cabeça em vez do gesto e parte do torso da pintura do renascentista Antonello da Messina que o inspira. O enigma dessa fisionomia estabelece um campo autônomo ao observador que para ela desviará em muitas passagens do espetáculo em busca de significações ou ressignificações talvez menos exasperantes do que aquela que enreda pai e filho. Em vão.
Foto de Ligia Jardim
No plano realista, eles acabaram de acordar. O velho interpretado por Gianni Piazzi senta para assistir à televisão enquanto o filho, por Sergio Scarlatella, já com o figurino do executivo prestes a sair para o trabalho, lhe prepara o café da manhã. Esse fragmento de cotidiano sai dos eixos com a prostração do pai, sem controle sobre as necessidades fisiológicas, e a consequente impotência do filho diante do estado primitivo do ser e da iminência da finitude. Alegoria dos embates divino e humano.
Ao retratar a compaixão em circunstâncias limítrofes (a limpeza das fezes e a colocação da fralda geriátrica ocorrem na cadência factual), Castellucci cuida em contrapor a presunção teatral. Ela está dada desde os primeiros longos minutos em que rastreamos a casa de móveis assépticos, de sofá, mesa, cadeiras, carpete e tudo mais tomado pelo branco, exceto o aparelho de TV de costas para o público e uma planta num vaso. Eis o set. Corpo arqueado, andar titubeante, o pai surge carregado por dois contrarregras vestidos de preto, feito manipuladores de bonecos. A partitura do filho que congela o gesto da mão estendida nas costas do pai na hora de limpá-lo ou um galão com o composto que sugere os excrementos em cena são indícios do artifício da arte ao vivo a sustentar o fio das presenças e dos mal-estares.
No segundo movimento do espetáculo a relação pai e filho, até então permeada pela parábola do sagrado, converte-se em instalação. A casa é desmontada aos olhos do espectador, menos a cama em que o pai está sentado, abatido, cabisbaixo, com o rosto entre as mãos. A narrativa ganha o contorno moral, ou seja, pertence ao domínio do espírito do homem. Crianças atiram objetos contra o Cristo de traços humanizados lá na Renascença (Kurt Cobain seria um bom modelo para encarná-lo), justamente quando a arte ganha perspectiva, dá margem para interpretações. A ação das criaturas imberbes despejando objetos de suas mochilas e atirando-os na direção da criatura icônica pode ser lida como um levante, à maneira de Jó, ou como uma figura de retórica contra as gradações do fundamentalismo na ordem global. É o futuro confrontando o passado arcaico aqui e agora.
A iconoclastia irrompe de vez no movimento final da apresentação, quando a imagem se faz verbo. Entre as razões de conduzir ou se deixar conduzido paira “o ser ou não ser” shakespeariano, reafirmando que a teatralidade é o que suporta essa aventura do olhar que desde a cultura grega atinava com o pensar e hoje padece do excesso de imagens a ver. Ver é passagem. O olhar adere e transforma. É sensorial.
Assim como os demais espetáculos que trouxe ao Brasil, a longeva Socìetas Raffaello Sanzio segue impactando nas composições plásticas e sonoras dos sentidos vitais.
(*) Este texto faz parte das ações do Coletivo de Críticos durante a cobertura da MITsp. 
Leia mais
10/03/2014 TAGS: Coletivo de Críticos, França, MITsp BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

Sobre a abertura do olhar nas imagens de arte

Por Daniele Avila Small – Questão de Crítica (*)
O espetáculo que abriu a programação da MIT, Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, de Romeo Castellucci, oferece uma ampla gama de chaves de leitura. Elaborar um texto crítico propositivo sobre esta obra – em poucas horas e em um espaço reduzido – demanda uma escolha radical. Diante da complexa trama de possibilidades que se abre diante do espectador, a proposta deste breve exercício de reflexão é puxar um único fio e apontar um caminho possível de reflexão sobre a peça, sem a intenção de esgotá-lo. Trato feito, puxamos o fio: pensar a presença do rosto de Cristo no fundo do palco como a construção de uma imagem dialética e como o espetáculo opera, com isso, uma proposição ética que nos fisga para dentro da obra. Por imagem dialética, entendo o conceito elaborado por Georges Didi-Huberman a partir de Walter Benjamim em livros como O que vemos, o que nos olha e Ouvrir Vénus. O que nos convida a trazer à tona um conceito para esta tentativa de diálogo com a obra é o próprio título, uma proposição teórica estranhamente elaborada. Pelo título, a peça nos diz que o que está em jogo não é uma trama nem um tema, mas um conceito. Assim, nos propomos a jogar com cartas do mesmo baralho.
Foto de Lígia Jardim
Em poucas palavras, podemos dizer que uma imagem pode ser pensada como dialética quando há nela algo que se dá a ver diante de nós ao mesmo tempo que nos escapa, um movi-mento incessante de ausência e presença que abre a imagem e faz com que ela se desdobre em constelações de imagens. O efeito da imagem dialética é a sensação de que ela nos olha – uma ideia presente em diversas declarações de Castellucci. Uma imagem dialética é uma imagem aurática, sendo o conceito de aura um aspecto importante da reflexão sobre as artes desde o texto de Benjamim A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. O rosto de Cristo, como pintado por Antonello Della Messina, projetado e ampliado no fundo do palco, articulado em simultaneidade com a cena do filho que limpa diligentemente as fezes do pai que sofre de incontinência, me parece ser uma materialização precisa da imagem dialética. Afinal, a imagem de Cristo é pura aura: é sempre presença e ausência ao mesmo tempo, um homem que também é deus, um corpo ressuscitado, um corpo que se faz hóstia, um corpo-conceito.
A sua representação visual é, para os cristãos de fé, como o próprio Cristo – daí a rejeição visceral que a peça provoca nos mais fervorosos. O que o espetáculo opera com a representação desse rosto é algo que dispara o vislumbre da aura: o “fato” de que aquela imagem nos olha, a eficácia do seu olhar. O imenso rosto de Cristo no fundo da cena nos oferece uma representação literal desse efeito estético. Se somos céticos na lida com a arte, vemos apenas a projeção de uma pintura como artefato de cenografia, e assim nós apenas olhamos. Mas, se nosso olhar está aberto para as imagens de arte na sua intensa complexidade, vemos a imagem do filho de deus – e essa imagem nos olha.
A presença do olhar do Cristo é a presença assombrada de um juízo constante. O que eu tenho a dizer sobre o conceito de rosto no filho de deus é que ele nos olha. Ao dar a ver a aura na imagem desse rosto, Castellucci alimenta a força para questioná-lo e, com um golpe, infiltra a negação no cerne da afirmação do seu poder sobre nós. O “não” que aparece, como um fantasma, na frase “o senhor (não) é o meu pastor” surge como contraponto desconcertante àqueles piedosos olhos de Cristo, com uma força plástica singular, e nos olha como se nos perguntasse, expondo uma ferida histórica, de que maneira aquela frase faz sentido para nós.
(*) Este texto integra as ações do Coletivo de Críticos na cobertura da MIT sp. 
Leia mais
10/03/2014 TAGS: Coletivo de Críticos, Itália, MITsp, Romeo Castellucci, Socìetas Raffaello Sanzio BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

Fissuras onde o invisível pode se materializar

Um desenho meticuloso de luz e sombra que ambiciona fazer ver o invísivel, instaurar tempos e espaços que não se conformam ao presente, criar presenças e mundos cohabitados pelo humano e seus vultos e estados d’alma. A fruição estabelecida pelos procedimentos escolhidos pelo diretor David Mafra para “devastidão”, de Andrew Knoll, privilegia mais aos olhos que aos ouvidos, mesmo quando o espectador está tomado pela escuridão.
A duplicidade se estabelece já na contraposição entre signos do etéreo e do concreto, como a fluidez da camisola e a rudeza da escultura de metal. Pequenos picos de luz apresentam um corpo feminino que, ao decorrer da encenação, vai dando lugar a outras formas possíveis, criadas pela manipulação direta da luz, que acentua apenas partes, lados, silhuetas, desfigurando a imagem inicial.
O som, como elemento também desta dramaturgia, aponta para mobilizações também de caráter criador, como presença vibratória e repetitiva, outras vezes ritual (pela oração), mas se fragiliza quando assume teor melodicamente reconhecível.
O rigor e a artificialidade presentes na encenação não reverberam para a apropriação da palavra, correndo o risco de deixar o texto em segundo plano, fragilizando a dramaturgia que detona todos esses mundos que se pretende construir com a evocação-invocação de tempos, espaços e vozes emolduradas em situações que são destruídas no segundo seguinte no texto de Andrew Knoll.
Os efeitos de provocar novos modos de subjetivação ao desestabilizar também o olhar se mostram eficientes embora tomem como ponto de partida recursos já experimentados à exaustão, como a utilização de lanternas manipuladas pelos próprios atores e o jogo de formas com o lençol. Mas a força das presenças (e imagens) que estabelecem é maior em alguns momentos que o reconhecimento do clichê, ou seja, borra-se a percepção do espectador, abrindo fissuras em sua racionalidade, tornando-o capaz de experienciar a potência para a alteridade.
por Soraya Belusi
Leia mais
07/03/2014 BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
entrevistas

Paulo André: vira-lata e gigante

Paulo André: vira-lata e gigante

Os Gigantes da Montanha_1293_20130513_0816 Paulo André entrou no Grupo Galpão para a montagem de “A Rua da Amargura”, chamado justamente pelo diretor Gabriel Villela. Duas décadas depois, quando Villela enfim volta a estrear um espetáculo inédito com a trupe mineira, o ator se sente desafiado a “justificar” sua entrada no grupo. E é o que faz como Batalha, roubando a cena com intervenções irreverentes e travestido de mulher durante toda a encenação de “Os Gigantes da Montanha”, texto de Luigi Pirandello. HORIZONTE DA CENA: Chama a atenção em “Os Gigantes da Montanha” seu personagem, que passa o tempo todo travestido. Isso já estava no texto do Pirandello? PAULO ANDRÉ – É do texto. Na estrutura das companhias italianas tem a primeira atriz, o primeiro ator, o segundo ator, o terceiro ator… e o genérico, que podia fazer papel tanto de homem quanto de mulher. Meu personagem é o genérico. Chama-se Batalha. E as possibilidades dos gêneros sempre foi muito querida pelo teatro e pela arte em geral, tem um lugar de divinização das pessoas que circulam entre as áreas. Mas a opção de ser o tempo inteiro travesti é do Gabriel (Villela). O texto não sugere nada. E em outras montagens às quais a gente assistiu, o Batalha aparece como um senhor. HDC: Já te disseram, e não sei se faz algum sentido isso, que você está parecido com o Rodolfo (Vaz), inclusive fisicamente? Que a sua máscara facial remete a ele de alguma maneira? E até mesmo na forma como “rouba a cena” num pequeno instante, numa cena que podia ser banal, o que ele fez muito bem em outros espetáculos? PAULO ANDRÉ: O Rodolfo é um clown. E o Gabriel me pediu isso de certa maneira, não para ficar parecido, mas para evocar esse espírito irreverente. É circo, tudo pra fora, não tem nenhuma psicologia, o texto nos permitia esse lugar. A gente ensaiou o tempo inteiro de nariz, só tirou nos ensaios abertos no Plug Minas. E é legal isso, as pessoas ligarem meu trabalho ao do Rodolfo, primeiro porque eu o adoro, e depois porque o Rodolfo fez um clown inesquecível, o Judas do “A Rua da Amargura”, além do próprio Mercúcio, do “Romeu e Julieta”. HDC: Vocês fizeram um trabalho associado de máscara facial e nariz de palhaço? PAULO ANDRÉ: O caso do nariz é que a máscara facial já pede por ele; ela te puxa para essa expressão. Quando se põe uma máscara, não se pode agir mais normalmente; a máscara te pede uma atitude que sem ela talvez você não tivesse. Usamos o nariz para trazer essa expressão e, ao tirá-lo, a máscara veio através do nariz, e vice-versa. E a gente termina o espetáculo com o nariz. Os Gigantes da Montanha_1293_20130513_0961 HDC: Além de o nariz ser uma autorreferência do próprio Gabriel (Villela) aos dois espetáculos anteriores que ele fez com o Galpão, o “Romeu e Julieta” e a “Rua da Amargura”, não é? Sem contar que foi a convite dele que você chegou ao Galpão, não foi mesmo? PAULO ANDRÉ: Um dia desses, eu até brinquei com ele falando: “agora a gente tem obrigação de justificar a minha entrada no Galpão” (risos). Fui chamado para ser assistente do Gabriel na “Rua da Amargura”, mas acabou que ele me deu um papel no espetáculo e não fiz a assistência mais. HDC: Qual era sua trajetória até então? PAULO ANDRÉ: Estava com 31 anos, era ator-freelancer. Bom, fiz o Oficina de Teatro, em 1983, com o Pedro Paulo Cava, que ficava ao lado do Dops. Fui aluno de Carmem Paternostro, Joaquim Costa, Luiz Paixão. Eu fazia parte de uma turma maldita, de terça e quinta à tarde – turma de dona, sabe? (risos) – que era a turma de Marcelo Castilho Avellar, Andrea Garavello. Na verdade, eram duas turmas malditas. Uma de terça e quinta, que eram alunos do Luppi, e a outra de alunos do Fernando Limoeiro, de segunda e quarta. Então, resolveram juntar essas duas turmas. E aí, naquele ano, fundamos o Experimentando o Palco, que começou em 1984. HDC: E qual era a sua ligação com o Gabriel? PAULO ANDRÉ: Então, nenhuma. Ainda sobre minha trajetória, em 1984 produzimos uma peça, tive que trabalhar, fiquei alguns anos sem fazer teatro. Aí depois voltei ao teatro e fui substituir um ator no “Antígona”, do Carlão (Carlos Rocha), na Cia. Sonho e Drama. E então fiz “Frank V” com Pedro Paulo Cava, “Casal Aberto”, com Andrea Garavello, e “Dois Idiotas Sentados Cada qual em seu Barril”, também com a Andrea e direção do Kalluh (Araújo). Foi um sucesso de critica, fizemos temporada em São Paulo e ganhei o APCA com essa peça. O público foi um fracasso em compensação (risos). Depois fiz “Cais do Porto”, direção do Ricardo Batista, e sei que nessa época fui parar na Sonho e Drama de novo. Até que veio o convite para o Galpão. HDC: E como você se relaciona com esses dois possíveis sucessos: o de público e o de crítica? PAULO ANDRÉ: Ah, o de crítica é mais fácil, eu acho. O sucesso de público é mais difícil. Antes de eu entrar para o Galpão, só “Casal Aberto” fez sucesso. Era outra época, na qual se o artista fizesse sucesso de público, vivia de bilheteria. Paulo André e Arildo. Foto de Bianca Aun. HDC: O Galpão viveu essa época? Já viveu de bilheteria? PAULO ANDRÉ: O Galpão era um caso à parte porque sempre se dedicou mais aos projetos de rua, principalmente nessa fase inicial do grupo, nas suas primeiras décadas. Era inclusive uma postura política, de ocupação, em um momento de abertura no Brasil. HDC: Quando o Gabriel desistiu de ter você como assistente e resolveu te dar um papel? PAULO ANDRÉ: Era o que eu mais queria na vida! Não queria fazer assistência de Gabriel, mas foi a forma que cheguei até lá. No fundo, queria mais era fazer alguma coisa no espetáculo, e acabei fazendo várias coisas: José de Arimateia, um anjo e outros. HDC: Aliás, por certo ângulo, você é um coringa no grupo, não é? Sempre que falta alguém, você vai lá e assume com competência o lugar. Exemplo: o Chico não vai mais fazer o “Romeu”, lá vai você! Ou a Inês não pode fazer o “Till”, e você assume. PAULO ANDRÉ: Faço parte de uma companhia e tenho que estar aberto para as demandas dela. Se precisar de alguém para fazer, vou lá fazer. HDC: O bom é que isso nunca te estigmatizou num único papel. PAULO ANDRÉ: Isso não estigmatiza ou estigmatiza por si só. Isso é parte do meu DNA de ator. Apesar de ter começado em grupo, fui freelancer durante um bom tempo. Outro dia, o Marcos Coletta, ator e pesquisador que vai fazer o mestrado dele sobre formação no teatro de grupo, me chamou para a banca de apresentação do projeto dele, e achei bem apropriado ele ter me escolhido porque sou tão sem raça, tão vira-lata (risos). Fiz oficina de teatro, e não escola, e fui para a vida, e acabou que minha formação mesmo foi no Galpão, embora tivesse mais de 11 anos de carreira quando me juntei ao grupo. Eu me sinto formado lá, e o Galpão também tem essa cara sem raça, um grupo no qual os atores têm que ser coringas mesmo. E é bom para o ator não ter cara, se eu tivesse, jamais faria o filme do Cao Guimarães e do Marcelo Gomes (“O Homem das Multidões”, ainda em fase de pós-produção). HDC: E essa história de “justificar a entrada no Galpão”? Em que sentido você diz isso? PAULO ANDRÉ: O Gabriel uma vez disse: “esse grupo não tem veado, nunca vi grupo de teatro que não tem veado” (risos). Tinha o Arildo (Barros), mas que é bicha de época e não valia (risos). Mas, falando sério, achei ótimo esse reencontro com o Gabriel. Quando digo justificar minha entrada é porque eu não tenho nenhum talento especial, essa coisa da raça que a gente estava falando, que justificasse minha entrada no Galpão. Eu não era músico, não era circense, não era bailarino, não era palhaço. Agora, uma coisa que eu tenho é disciplina, uma disciplina fodida. Acho mesmo que o talento é moldável, principalmente em teatro. HDC: Quando você diz justificar sua entrada, sente que em “Os Gigantes da Montanha” – no qual você magnetiza o público com suas pontuais, mas precisas entradas no palco – você realiza isso artisticamente? Você percebe que vem, com trabalhos consecutivamente consistentes, aumentando seu patamar no grupo e como artista? PAULO ANDRÉ: Aumentando o patamar como artista é algo que eu sinceramente sinto, sim. Mas não só agora, sinto que venho conquistando isso. Mas isso vem pela própria atitude dos meus colegas de grupo. Eles contam comigo para as coisas acontecerem. Isso é um amadurecimento de artista. Agora, essas atitudes irreverentes são tudo também da direção. O Gabriel pede isso e a peça também. Ela trata de realidade misturada com sonho, e a gente propõe essas loucuras no ensaio e dão certo porque o texto pede isso da gente. Agora, o ator trabalha com dois paradoxos: liberdade e cerca. Quanto mais cerca, mais liberdade tem que ter. 0978_Till_20100228HDC: Você comentou mais cedo, antes da entrevista, que o Gabriel não tem mais paciência para o dia a dia da sala de ensaio. Como foi a dinâmica de “Os Gigantes da Montanha”? PAULO ANDRÉ: Ele é um grande criador, um artista naquela acepção da palavra mais antiga, com um pensamento muito barroco, muitas vezes temperamental, mas genial ao mesmo tempo. Então, ele trabalha criando o tempo inteiro. Agora, o teatro não é feito somente com momentos de genialidade, precisa da rotina, da repetição, e ele não tem paciência mais para ficar batendo texto, repetindo música. HDC: A Francesca Della Monica trabalhou com vocês a espacialização da voz. Ela já havia trabalhado com o Galpão antes? PAULO ANDRÉ: Não, foi a primeira vez. A Francesca fez com o Gabriel “Hécuba”, “Macbeth” e o “Sua Incelença…”. E ela é muito talentosa, é professora de antropologia da voz. HDC: Como essa técnica se aplica na rua? PAULO ANDRÉ: A espacialização é algo que se dá nos seis horizontes, diferentemente da projeção, que é para frente. Não se trata de esforço físico, mas de dramaturgia. A voz é dramaturgia. A ação é feita nos intervalos (da fala) e não na coisa em si. E isso tira um peso. Ela trouxe a cura! Quem é aluno dela é o Dario Fo, ela o curou. E é uma figura apaixonante. HDC: Embora você tenha uma faixa etária similar aos colegas de Galpão, você aparenta uma jovialidade, um lado bem mais pop dentro do grupo. PAULO ANDRÉ: Sou completamente influenciado pela cultura pop. Nasci nos anos 60, é impossível não valorizar isso nas minhas referências, sendo que a erudição veio com o tempo. Minha casa era muito rica nesse sentido. Minha mãe é professora, minha tia era cantora de ópera, meu avô era envolvido com teatro e fundou um colégio. Eu tinha muitas referências eruditas e populares no mesmo lugar. Em 1963, para se ter uma ideia, já tinha televisão lá em casa. Eu escutava ópera, lia gibi, levava enciclopédia para o banheiro (risos). HDC: Esse duo, erudito e popular, é muito associado ao Gabriel e ao Galpão. E, neste espetáculo específico, o texto é mais difícil do que, por exemplo, “Romeu e Julieta”, que também trazia o popular e o erudito, apesar de ser um trabalho para a rua também. Como vocês trabalharam isso? Porque é de novo o Gabriel Villela, na rua, com Galpão, mas com outras instâncias de dificuldade envolvidas. PAULO ANDRÉ: Eu acho que “Os Gigantes da Montanha” é um texto rico porque tem muitas camadas de entendimento. Quem está atrás de um entendimento cartesiano, aristotélico, do início-meio-fim, fica um pouco frustrado talvez. Mas tem tantos outros níveis, que isso pode não ser problema, mesmo na rua. Eu acredito que não será. A fábula do Pirandello é inacabada. Ele, provavelmente, iria acabar de escrever a peça, voltar lá no início, rever tudo e ver se estava certo. Mas não acabou, não reviu e é isso. Isso abre os sentidos. Eu acho que o espectador de rua é naturalmente aberto para isso, e, quando começa a peça, o espectador é catapultado para outra esfera, que não é a de novela. Não tem como ele ficar nesse lugar, porque vai ser tão desinteressante para ele, que só lhe resta ir embora.Romeu e Julieta 13© Glenio Campregher HDC: Você ainda não teve a chance de viver muitos protagonistas no Galpão, embora tenha tido experiências adoráveis como o Seu Coisinha, de “Um Trem Chamado Desejo”. Como se dá isso no grupo e como você percebe essa sua capacidade de chamar a atenção mesmo sem tantos papeis de destaque? PAULO ANDRÉ: Eu nunca fui um ator genial. Aos poucos, tive que batalhar muito para chegar ao patamar que estou hoje, a custo de muito esforço. Eu sempre soube o meu lugar e o lugar dos protagonistas que eu fiz para o Galpão. O Seu Coisinha tinha um apelo muito popular, que o Visconde, do “Partido”, não tinha porque trabalhava com forças opostas a essa simpatia do Coisinha. Eu sinto que esses personagens vêm com a força que eles têm que ter. O Galpão não é feito de protagonistas, lá o trabalho é pelo espetáculo. Todas essas engrenagens estão à frente de qualquer vaidade. E isso não é demagogia, eu aprendi isso lá dentro. Nunca vi nenhum deles ter esse tipo de atitude, nem Teuda, com todo carisma, nem Eduardo, carregando o grupo no muque. Eles só me mostram o contrário. O protagonista é consequência, não pode ser a busca, a não ser que você seja outro tipo de ator. E dentro da ideia do grupo, eu tenho funcionado (risos). HDC: Seus personagens de maior projeção no grupo guardam um lado do cômico e do patético. Mesmo dentro do “Tio Vânia”, que exigia uma atuação mais realista e contida, você trazia esse elemento. PAULO ANDRÉ: Eu lido bem com o patético, eu gosto. Agora, fazer o “Tio Vânia” foi um prazer tão grande, principalmente porque unimos dois personagens da história no Teléguine. E a Yara (de Novaes) fez uma cirurgia plástica perfeita, e a gente juntou os dois sem perder as características próprias de cada um. A Yara me deu uma chave muito importante, no primeiro dia de ensaio, que foi me dizer que eu não precisava ser muito caxias. O personagem era deslocado, de outra época. O Marcelo Castilho Avellar fala disso muito bem na crítica dele ao espetáculo: ele apontava que o Teléguine não está no lugar onde está Vânia, nem a mãe, nem a Soninha, o que era ressaltado claramente nas diferenças de interpretação. A Mariana (Muniz) quase no naturalismo, o Toninho (Antonio Edson) na transição, e o Teléguine já está instalado no passado muito remoto, ele é um móvel da fazenda que ficou e não tem como jogar fora. HDC: “Os Gigantes da Montanha” conta a história de uma companhia que não tem mais lugar no mundo cotidiano, com uma linguagem defasada no tempo, sem público, e que vai parar naquele lugar onírico. É curioso pensar isso montado pelo Galpão, que ainda mobiliza o público, contado aos milhares, mas que, ao mesmo tempo, teve uma repercussão menos entusiasmada com seus projetos voltados ao Tchékov, com “Eclipse”, principalmente. Esse paralelo é possível de ser feito? PAULO ANDRÉ: O Galpão é uma companhia que tem muitos compromissos: com o público, com os patrocinadores, mas, principalmente, com os artistas que formam o grupo. E a gente não pode ser feito só de sucesso, com 5000 pessoas. A gente é feito de “Eclipse” também, porque é isso que vai dar estofo para a gente, e não esse sucesso de Praça do Papa apenas. Mas, se a gente abre mão de um lado, começa a ficar capenga, fica folclórico, deixa de ser grupo de teatro. O “Viagem a Tchékov” foi riquíssimo para a gente, um lugar onde a gente ainda não tinha estado. E é para isso que a gente faz arte, para estarmos em lugares onde ainda não estivemos e para trazer outras perspectivas de nos olharmos dentro do grupo também. Não estar voltado para resultados tão grandes traz outro lugar para mim no grupo, por exemplo. por Soraya Belusi e Luciana Romagnolli

Leia mais
07/03/2014 BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

A pulsão sexual não-padronizada como temática

Por Soraya Belusi

Ao debruçar-se sobre a obra de Raquel  Schaedler, “Ela”, apresentada em 2012 na MOSTRA DE DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO DO SESI-Curitiba, a crítica Luciana Romagnolli ressaltou a presença de um “jogo de forças entre o feminino e o masculino e suas distintas pulsões sexuais, colocando em evidência a difícil relação daquela mulher com o desejo, o corpo e o sexo”. Em seu novo projeto artístico, “frenesi”, Raquel parece reafirmar esta opção temática, procurando fazer saltar de sua dramaturgia espectros de desejo que se configuram como tentativa de um possível desenho outro para a condição do feminino em que os arquétipos da mãe, filha, esposa e puta não são mais suficientes.

Foto de Elenize Dezgeniski

O masculino se estabelece como presença ao ter sua ausência ressaltada, pela relação sempre apartada espacial e temporalmente. Permeia as enunciações, toma-as para si, empresta suas falas ao outro, como sombra que paira nos monólogos articulados dessas vozes femininas.

Ainda que pretenda problematizar (deslocar, instabilizar) o senso comum, permanece o jogo entre pólos, feminino-masculino, violência-carinho, gozo-dor. O tabu, marcadamente instalado pelo incesto e pelo estupro, passa de interdito a desejável, numa inversão dos valores morais estabelecidos, mas ainda os tomando como referencial para traçar o caminho inverso, como se reforçando-os pelo seu oposto.

“frenesi” mantém-se ainda na esfera do (padrão) cultural e do cogniscível, ainda que exploda o enunciado em várias vozes-corpos. Tão assimilado (cultural e socialmente) quanto os arquétipos citados anteriormente (a mãe, filha, etc) me parecem ser os que se pretende instaurar.  O deslocamento, nesse sentido, não promove trânsito, e sim, na fixação (afirmação) de outro ponto de vista.

A encenação encontra momentos de instauração, em que imagens-síntese parecem se estabelecer, como a cena citada por Marcio Abreu na conversa após o espetáculo, em que a mobilização de uma luz verde incidindo sobre o corpo desenhava uma silhueta indefinível, e a cena em que as três atrizes, caminhando para frente em direção à plateia, projetam formas no fundo da cena criando sombras que parecem oprimir o espectador. Nestes momentos, não há apenas uma inversão do estabelecido, mas sim um desenho não-identificável da condição humana (feminina ou não) que parece se desvelar.

Leia mais
09/12/2013 TAGS: Curitiba, Mostra Sesi de Dramaturgia BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

Do desejo de desfiguração de volta à figuração

Por Soraya Belusi

Um questionamento: “não há espaço para a alegria?”, disse, não exatamente com essas palavras, um homem que assistia à palestra sentado na plateia. Fazia sentido também para mim como espectadora essa questão colocada por ele, afinal, como situações-limites, o êxtase e o prazer (e ao lado deles o riso e o humor), assim como a dor e morte, também poderiam ser experienciados em outros desenhos da condição humana ainda não inventados.

Foto Elenize Dezgeniski

A escrita de Ana Johann em “histórias de cachorros e outros animais” carrega esse elemento que ainda não havia sido explorado em outras dramaturgias vistas nesta Mostra de Dramaturgia e Encenação do SESI-Curitiba. A reação (e adesão) da maioria da plateia presente na apresentação parece confirmar essa presença da leveza e da ironia. Porém, a maneira com que se lida com esses elementos parece reforçar o caráter figurativo e muitas vezes dramático da obra teatral, recorrendo-se a referenciais facilmente reconhecíveis pelo espectador, logo reforçando os pontos de vista que já conhecemos, o que acaba por fragilizar o mundo outro que a dramaturgia de Ana Johann pretende instaurar.

A narrativa, fragmentada e às vezes com toques de realismo fantástico, serve de base ao texto, entrecortado por diálogos coloquiais, numa espécie de escrita rapsódica (como definida por Sarrazac em “O Futuro do Drama”) num deslocamento de discursos, “entrelaçado de temas”. O humano, aqui, não é quem impõe seu olhar sobre o mundo e o real, mas sim uma árvore, cuja visão de tempo e espaço se fundamenta (ou poderia se fundamentar) em outros princípios que não os nossos. Um universo em que vida, morte, violência não carregam sentidos plenos, cujas palavras para descrever poderiam ainda não ter sido encontradas.

Em alguma medida, a dramática de Ana Johann aponta para este lugar. Mas não o alcança com plenitude ao optar (e reforçar) uma espécie de humanização da linguagem, personificando o discurso da árvore.  Não há a efetivação do embaralhamento, da transitoriedade, do rompimento da linguagem.

Isso se reforça na maneira como a materialização da narrativa e dos diálogos se apresenta, que não se desprende da noção de representação. Os modos de subjetivação que poderiam despontar se configuram ainda como personagens, que vão sendo representados pelos atores, com a utilização da voz e do corpo em um referencial que bordeja o ilustrativo e, algumas vezes, o infantilizado,  levando o que seria uma potência de desfiguração de volta à figuração.

Leia mais
07/12/2013 TAGS: Curitiba, Mostra Sesi de Dramaturgia BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

A tentativa de condensar o tempo da eternidade no último segundo

Por Soraya Belusi

Sob um forte breu, apenas um vulto. A imobilidade de seu corpo sem face, revelado lentamente pela luz que lhe confere forma, carrega a força de um tempo mitológico, sem possibilidade de fixação no espaço. A face, quando revelada, assume um caráter mortuário, com sua veste negra e ainda manchada pelo pó. Como uma voz bíblica, anuncia a morte como o início da criação, a gênesis de um futuro: a imagem do fim e do início dos tempos.

Foto Elenize Dezgeniski

Articulando-se como um poema cênico, “Coração de 29 polegadas”, com texto e direção de Léo Moita, instala em sua primeira imagem a abertura temporal que parece ambiciar no cruzamento entre o último momento de vida e o primeiro da eternidade. Essa força, porém, vai se esvaecendo nos momentos subsequentes, com a palavra perdendo o seu poder de materialização no espaço, na instauração de presenças, barrando o desafio de elaborar outros desenhos da condição humana que poderiam se realizar.

Através de uma construção que rompe a narrativa, desarticula o diálogo (ainda que se utilize dele) e abandona a localização espaço-temporal, o texto aponta para a alteridade, ainda que não a alcance plenamente em seu projeto artístico. Parece ainda dialogar com “Esperando Godot”, de forma indireta, tomando a espera como tema e problemática, e direta através de citações rearticuladas (“vamos embora?”, “não podemos, nós estamos aqui”…), e da presença do duplo complementar como síntese de toda uma humanidade.

As transições e deslocamentos (rítmicos, temporais, espaciais, de subjetivações), embora se manifestem nas pontadas que não se pode controlar, se fragilizam por não serem potencializados na mobilização dos recursos de luz (com exceção das imagens inicial e final), que agem ainda de maneira imperativa sobre o sentido, gerando atmosferas diferentes, mas ainda não mundos inaugurais. O elemento sonoro (o vento, os sinos, o chiado) aparece aqui como potencialmente simbólico em alguns momentos, carregando a iminência da destruição-nascimento, a potência do devir.

Leia mais
06/12/2013 TAGS: Curitiba, Mostra Sesi de Dramaturgia BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
críticas

Vozes que não alcançam a multidão

Por Soraya Belusi (*)
É com um pé cravado no dramático, no pensamento hegemônico, no cotidiano do senso comum e na linguagem estabelecida que se apoia a escrita de Alexandre França em “a multidão num mínimo espaço de tempo e fúria”. Porém, os procedimentos adotados em sua dramaturgia apontam para uma problematização deste referencial, aparentemente para utilizá-lo como um discurso inicial a ser desmoronado ao fim (durante) da fruição da obra. Para isso acontecer de maneira mais potente e autoral, porém, sua realização cênica demanda também um grau de inventividade singular, própria e particular, que ainda não se realiza com total concretude na encenação. 

Fotos Elenize Dezgeniski
“Qual linguagem pode dar conta de um homem?”, se questiona (e nos questiona) o dramaturgo, instaurando-se também como presença. “Um homem”, “uma situação”, “sua linguagem”, parece elencar o autor os elementos com os quais pretende construir seu jogo linguístico na tentativa de complexificar justamente as percepções unívocas e imutáveis.

O sujeito (mesmo que colocado em crise e alguma instabilidade) ainda se apresenta como identidade reconhecível (definida por sua condição social, modo de falar e relações que estabelece com as outras identidades): o guardador de carros, o playboy, a velha fumadora de crack e seu filho. O percurso da autoridade do sentido para a alteridade radical (a morte do “eu cultural” para a possibilidade de encontrar o “outro”), proposta por Roberto Alvim e que inspira as criações do núcleo de maneira evidente, encontra algum lugar no embaralhamento dessas subjetividades iniciais proporcionado pela fala, efetivando-se principalmente na composição de Muhammad el Chab, numa cohabitação de vozes que proporcionam a instauração de outros tempos e espaços.

O desencaixe (que impede a morte para o nascimento de algo novo) parece residir num certo engajamento emocional (dramático) nas outras atuações, o que impede a palavra se despregue do sentido, deixe de ser significado para se tornar significante. Com isso, o que antes apontava para a complexidade, polissemia e desmoronamento, acaba sendo  reafirmado pela forma imposta ao conteúdo. As vozes (pré)instauradas na sua dramaturgia, no entanto, aparecem cenicamente fragilizadas em sua potência de transmutação, instalam-se como tipos imutáveis, que reproduzem o status quo e julgam-se uns aos outros, explicitando “a fúria e o medo” que dão título ao trabalho, mas raramente alcançando a “multidão”. O “sempre talvez” não se estabelece, e o discurso termina por reafirmar a realidade, e não inventando outra.

“Um homem é um homem”, dizia Brecht. “Um homem não é um homem”, nos instiga Alvim. “É humilhante” “ser homem”, responde França, em sua tentativa de inventar sua própria poética, que parece transitar, neste trabalho, entre o ideario do drama e do transumano. É sobre forjar novas estratégias e singularidades (instaurar novos mundos) que se desenvolve as atividades formativas do núcleo. Isso se dá em menor grau na encenação, que tende a reproduzir modelos de seu mentor (com a espacialização em formação triangular, as estratégias de lidar com a luz ou a ausência dela, a repetição dos padrões nas modulações de voz), abrindo mão da invenção, de seu próprio modo de “esculpir no tempo e no espaço”.
Leia mais
06/12/2013 TAGS: Curitiba, Mostra Sesi de Dramaturgia BY: Luciana Romagnolli
SHARE
Leia mais
Previous 1 … 17 18 19 20 21 22 23 … 32 Next

Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

Siga-nos nas redes

Horizontedacena

Horizontedacena

Horizonte da Cena
Direitos Reservados © 2017 - 2019 Horizonte da Cena