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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Oficinão 2012: “Delírio & Vertigem”



Vertigem sob controle
por Marcos Coletta

Delírio & Vertigem, 15ª edição do projeto Oficinão Galpão Cine Horto apresenta dois espetáculos que somam 2h30 de duração, o que, de imediato, parece exigir disposição e causa certa hesitação a quem decide assistir. Não que espetáculos não devam durar mais que 1h ou 1h30 (ainda que a era virtual tenha nos deixado mais preguiçosos e impacientes a longos formatos), mas principalmente, ao levarmos em conta as particularidades de um projeto como o Oficinão. Todo ano, cerca de vinte atores com experiências e formações diversas são selecionados para vivenciar um processo de criação com um diretor escolhido pelo Galpão Cine Horto. Este diretor é responsável pela proposta do espetáculo e por sua condução ao longo do ano. No caso de 2012, a artista convidada foi Rita Clemente, atriz e diretora de reconhecida trajetória dentro e fora de Minas Gerais. A ela coube administrar os desejos, as ambições e as alteridades de dezessete atores (treze permaneceram até a estreia) na tentativa de compor uma obra com o mínimo de unidade estética e discursiva – tarefa complicada para qualquer diretor, considerando o número de profissionais envolvidos, o curto prazo e o fato do Oficinão ser esperado pelo público mais como um espetáculo profissional do que como uma pesquisa ou exercício artístico, como ocorre com os trabalhos de conclusão dos cursos profissionalizantes da cidade. Diante destes e de outros dificultadores, é sempre possível que os espetáculos do Oficinão frustrem público e atores participantes, alimentados pela grande expectativa em torno do projeto e por uma imagem construída ao longo de seus quinze anos.
Em Delírio & Vertigem, o ponto de partida são treze textos curtos do dramaturgo carioca Jô Bilac com evidente inspiração no universo rodrigueano, fator bastante propício no ano em que se comemora o centenário do autor. Esquetes de cunho cotidiano revelam estranhezas, manias e desvios hiperbolizados de personagens tragicômicos em situações recorrentes na obra de Nelson como a traição, a obsessão, a fetichização de objetos, a crítica à instituição familiar e à hipocrisia social. Mas, por que montar textos tão rodrigueanos e não um texto do próprio autor? Talvez pelo fato de que trabalhar a obra de um dramaturgo como Nelson (alvo de tantos equívocos teatrais) seja mais difícil do que um texto de um jovem dramaturgo contemporâneo, a quem é possível recorrer diretamente (Jô Bilac participou do processo, vindo a Belo Horizonte para alguns encontros). Isto não quer dizer que Clemente opta por um caminho fácil, mas elimina um obstáculo dentre outros tantos que compõe sua empreitada, podendo se dedicar a outros desafios. Encenar um “Nelson que não é Nelson” permite passear em seu universo sem aquele prejudicial pudor e temor tão insuflado por encenações, estudos e críticas que só serviram para transformar o autor que tocava em tabus em próprio tabu teatral. Outro ponto positivo da escolha está na grande quantidade de cenas curtas que propiciam diversos personagens e situações, dando flexibilidade e espaço equalizado para que treze atores possam mostrar seu trabalho, afinal, este é um dos principais objetivos para quem participa do Oficinão – se a intenção inicial do projeto era servir como laboratório de reciclagem para atores experientes, acabou se tornando uma oportunidade de prática, aprendizagem e inserção no mercado para jovens atores em formação que compõe a maioria dos elencos das últimas edições. Assim, o texto de Jô Bilac oferece ao espetáculo a agudez crítica e tragicômica de Nelson Rodrigues e se livra do peso de se encenar o próprio, além de oportunizar espaço igualitário aos atores. Com esta estratégia, Rita Clemente ganha maior propriedade para criar um ambiente aberto à experimentação e exploração do gênero, tentando aproveitar o melhor de seu elenco.
Naturalmente, um coletivo de atores que não se constitui um grupo de teatro, pois não possui um trabalho continuado, nem mesmo um plano artístico em comum, revela dissonâncias estéticas e técnicas. Alguns atores, mais amadurecidos, se mostram bastante à vontade e integrados com a obra, jogando habilmente com os elementos que a constituem e com o espectador – nestes momentos, o espetáculo ganha fôlego e a atenção do público. Já outros não conseguem se apropriar completamente da proposta de encenação ou expõe frágil atuação. Mas, é interessante notar como alguns atores que demonstram inconsistência em certas cenas dão grande salto qualitativo em outros momentos, o que diz muito sobre as identificações e os interesses artísticos pessoais. Rita Clemente dispõe com discernimento estes altos e baixos ao longo da ação dramática para que a plateia não seja vencida pela longa duração da peça. A diretora parece ter captado bem as potencialidades e deficiências de seu time e, ora coloca-os em lugares seguros ora propõe exercícios de risco, como ocorre na repetição de cenas da primeira parte na segunda parte da peça, utilizando atores diferentes e assumindo a inevitável comparação. De modo geral, o elenco constrói um corpo coletivo firme, coeso e homogêneo, ciente de que a prioridade está na qualidade da obra e não nas performances individuais.
Para auxiliar a direção cênica a alcançar uma unidade de linguagem diante de treze atores, dezesseis cenas e dois espetáculos, a direção de arte assume papel importante. Assinado por Luciana Buarque, antiga parceira do Grupo Galpão, o visual sóbrio, quase asséptico, dispõe poucos elementos cenográficos sobre piso e fundo de renda branca. Os figurinos monocromáticos fazem saltar o verde de alguns objetos e adereços. Correto e elegante sugere o onírico, estratégia inteligente já que no campo dos sonhos há lugar para qualquer multiplicidade e inverossimilhança, o que permite com naturalidade a grande gama de personagens, ambientes e situações presentes na peça. O visual sofisticado e bem-comportado chega a pedir mais ousadia e ruído em certos momentos, como quando se sugere um baile de carnaval de tom exótico e transgressor – um apontamento promissor que, infelizmente, não é desenvolvido. A escolha pela limitação de público (80 pessoas) e a disposição da plateia em corredor (bifrontal) sugere outra relação com o espectador, porém, tal proposição espacial não chega a se mostrar realmente essencial para a cena, nem explorada de maneira mais incisiva no que diz respeito a uma dramaturgia do espaço, mas condiciona o registro intimista e econômico de atuação e a sensação de profundidade resultante da disposição da plateia em conjunção com o piso/fundo contínuo.
Propondo um teor mais trágico, a primeira parte, Delírio, dispõe uma sequência convencional de cenas curtas, sem grandes ousadias dramatúrgicas, e recorre a um desfile de personagens na transição das cenas para tentar criar uma conexão harmoniosa entre as partes. Quando Delírio persegue um caráter mais grave, alguns momentos acabam soando pouco críveis ou ingênuos. É quando se desprende da pretensão de ser sério que o espetáculo se fortalece e mostra o seu melhor. Tal característica fica clara na terceira cena de Delírio e se intensifica na segunda parte, Vertigem, abertamente farsesca e cômica. No segundo espetáculo, o interessante jogo atoral de ver e ser visto faz o elenco transitar entre protagonismo, coro, plateia e figuração, em ritmo dinâmico e atraente, como na divertida sequência carnaval/avião/aeroporto/cinema que se desenvolve de forma virtuosa e surpreende o público. Ao longo de seus 60 minutos, Vertigem faz jus ao título, em trajetória vigorosa e espiralar amparada por uma estrutura acertada – outra excelente estratégia da direção em coloca-lo como a segunda parte, criando um nível ascendente de interesse da plateia, que lida bem com os 150 minutos totais.
Ao olhar para as duas partes como uma única obra (esta é apenas uma opção, já que as partes também podem ser autônomas), nota-se que o espetáculo se desenvolve sem ansiedade e aceita bem seus momentos mais frágeis, logo compensados pelas diversas potências reveladas. Texto, atuação e concepção cênica não se lançam a grandes arroubos e guardam suas qualidades no comedimento que valoriza os momentos de exaltação controlada e sutil ironia. Ao final, tem-se a sensação de que o espetáculo reflete um processo de real compartilhamento e trabalho coletivo, onde a heterogeneidade dos atores foi manipulada com controle e inteligência artística para que se elevasse a unidade da obra. Delírio & Vertigem se sustenta tanto como experimento processual quanto como espetáculo profissional, indo ao encontro dos fundamentos e objetivos originais que guiam o projeto Oficinão e indicando vida além do Galpão Cine Horto.

**O espetáculo fará segunda temporada em 2013, na programação do Verão Arte Contemporânea.
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17/12/2012 TAGS: Belo Horizonte, Galpão Cine Horto, Oficinão, Rita Clemente BY: Luciana Romagnolli
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coberturas

Qual espetáculo você quer em BH em 2013?

“Luis Antônio – Gabriela”

No Cine Humberto Mauro, já se tornou tradicional a mostra Inéditos em BH, realizada geralmente no início do ano. A ideia é colocar em cartaz os filmes mais importantes da última temporada que simplesmente não passaram por nenhuma sala de exibição da cidade. Só assim se pôde ver, em 2011, “Tetro”, de Francis Ford Coppola, e “Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas”, pelo qual o tailandês Apichatpong Weerasethakul levou a Palma de Ouro; e, em 2012, “As Canções”, de Eduardo Coutinho; e “Singularidades de uma Rapariga Loura”, do veterano português Manoel de Oliveira. O cinema às vezes pode ser um bom exemplo…

Ao circuito de teatro, resta sonhar com uma mostra semelhante, que colocasse em cartaz nos palcos da cidade espetáculos que reverberaram país afora, mas não chegaram à capital mineira. No clima de fim de ano, já esperando o que virá, o Horizonte da Cena quer saber: Quais espetáculos brasileiros deveriam vir a Belo Horizonte em 2013?

Abaixo, segue a lista de sugestões que nós preparamos, com trabalhos dos quais só se ouviu a repercussão por aqui. Mas você pode escolher outro qualquer que prefira. Os comentários estão abertos para isso.

    “A Amante”

Deixe a gente saber sua opinião.

Daqui a alguns dias, vamos fazer a contagem dos mais votados. Só o primeiro espetáculo citado em cada comentário será contado.

E então, qual espetáculo inédito em BH você mais quer ver? Por quê?

  • A Amante, de Roberto Alvim
  • Adeus à Carne ou Go to Brazil, de Michel Melamed
  • A Marca d’Água, da Armazém Companhia de Teatro 
  • A Primeira Vista, de Enrique Diaz
  • Aquilo que Meu Olhar Guardou para Você, do Magiluth 
  • Assombrações do Recife Velho, de Newton Moreno
  • Cachorro!, do Teatro Independente
  • Circo Negro, da Cia Senhas
  • Esta Criança, da Companhia Brasileira de Teatro 
  • “O Jardim”

      “Esta Criança”
  • Isso te interessa?, da Companhia Brasileira de Teatro
  • Julia, de Christiane Jatahy 
  • Luis Antonio – Gabriela, de Nelson Baskerville
  • Madame B, de Cibele Forjaz
  • O Desaparecimento do Elefante, de Monique Gardenberg 
  • O Jardim,  da Cia. Hiato 
  • O Livro de Itens do Paciente Estevão, de Felipe Hirsch 
  • Os Bem-Intencionados, do Lume
  • Peep Clássico Ésquilo, de Roberto Alvim
  • Recusa, de Maria Thaís
  • Rainhas, de Cibele Forjaz
  • Strindbergman, de Marie Dupleix
  • Toda Nudez Será Castigada, de Antunes Filho
“Julia”

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14/12/2012 TAGS: Belo Horizonte, Enquete BY: Luciana Romagnolli
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#Miudezas: Brasileira, Noir e Vertigem premiadas pela APCA

Veja os premiados pela Associação Paulista de Críticos de Arte em 2012. 
“Isso Te Interessa?”, da Cia. Brasileira de Teatro, ficou de fora do FIT-BH em 2012. Foto de Elenize Dezgeniski.
TEATRO
Grande Prêmio da Crítica:Fauzi Arap, pela relevância na história do teatro brasileiro
Espetáculo: Isso te Interessa? – Cia. Brasileira de Teatro
Diretor: Antônio Araújo –  Bom Retiro 958 metros
Autor: Newton Moreno – Terra de Santo e Maria do Caritó
Ator: Eduardo Okamoto e Antônio Salvador – Recusa
Atriz: Dani Barros – Estamira-Beira do Mundo
Prêmio Especial: Projeto Peep Classic Esquilo – Cia. Club Noir

Votaram: Afonso Gentil, Carmelinda Guimarães, Celso Curi, Edgar Olímpio de Souza, Erika Riedel, Evaristo Martins de Azevedo, Gabriela Mellão, Jefferson del Rios, Luiz Fernando Ramos, Maria Eugênia de Menezes, Mauro Fernando, Michel Fernandes, Miguel Arcanjo Prado, Valmir Santos e Vinício Angelici
Em “Peep Show”, Roberto Alvim montou todas as tragédias de Ésquilo. O diretor nunca trouxe um espetáculo seu a BH.

TEATRO INFANTIL
Espetáculo: Meu Pai é um Homem Pássaro – direção de Cristiane Paoli Quito
Direção: Eric Nowinski – A Linha Mágica
Texto: Marcelo Romagnoli – Terremota
Ator: Fábio Spósito – O Menino Que Mordeu Picasso
Atriz: elenco feminino completo de Bruxas, Bruxas… E Mais Bruxas!, do grupo As Meninas do Conto: Silvia Suzy, Lilian de Lima, Fabiane Camargo, Norma Gabriel, Lívia Sales,Danielle Barros, Fernanda Raquel, Cristina Bosch e Helena Castro
Cenário e figurino: Kleber Montanheiro – A História do Incrível Peixe-Orelha
Revelação do ano: os três atores/manipuladores de ‘Sonhatório’ – Gabriel Sitchin, Hugo Reis e Rafael Senatore
Votaram: Dib Carneiro Neto, Gabriela Romeu e Mônica Rodrigues da Costa


DANÇA

Grande Prêmio da Crítica: Luís Arrieta
Espetáculo: Baderna – Núcleo Luís Ferron
Bailarina: Paula Perillo – Ballet Stagium
Projeto Artístico: Piranha – Wagner Schwartz
Coreógrafo: João Saldanha – Núcleos
Trajetória de pesquisa em dança: Grupo Cena 11 – Carta de Amor ao Inimigo
Elenco: Cia. Dani Lima – 100 Gestos: Carla Stank, Eleonore Guisnet, Lindon Shimizu, Rodrigo Maia, Thiago Gomes, Tony Hewerton
Votaram: Ana Teixeira, Christine Greiner, Flávia Couto, Joubert Arrais, Helena Katz e Renata Xavier
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11/12/2012 TAGS: APCA, Cia. Brasileira, Club Noir, Teatro da Vertigem BY: Luciana Romagnolli
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críticas

A iminência do imprevisível contida na aparente normalidade

Por Soraya Belusi
Uma aparente sensação de normalidade parece estar permanentemente impregnada da proximidade de algo estranho acontecer. É justamente nessa intersecção que parecem se sustentar as breves histórias compõem “Delírio” & “Vertigem”, montagem que finaliza o processo do Oficinão do Galpão Cine Horto 2012, com direção de Rita Clemente e dramaturgia de Jô Bilac.
Personagens cruzam a história de outros em “Delírio” & “Vertigem”, do Oficinão (foto Guto Muniz)
As curtas narrativas do dramaturgo carioca, que ganhou destaque na cena nacional com trabalhos como “Cachorro!” e “Savana Glacial”, apropriam-se de situações cotidianas para evidenciar o absurdo nelas contidas, através de personagens que, em algum momento limítrofe, perdem o controle.  O tom quase realista adotado e alcançado pela atuação colabora para que esses “estados alterados de consciência” que avassalam os personagens se concretizem em cena.

Em todos os seus trabalhos anteriores, Rita Clemente buscou em suas encenações formas que traduzissem o conteúdo, que fossem ao mesmo tempo não apenas embalagens para o que se quer dizer, mas, também, discurso. Neste, as escolhas formais da encenadora já começam nessa opção por dividir um espetáculo em duas partes (ou seriam dois espetáculos?), abrindo ao espectador a decisão final de interpretá-las como unidades complementares de um todo ou células totalmente independentes uma da outra. 
Porém, a ideia de que um contém o outro (explicitada, por exemplo, nas formas do quadrado e do círculo desenhadas no programa do espetáculo) parece guiar a encenação. Essa poderia ser uma chave de entendimento para a presença de uma cena de “Delírio” ser retomada sem nenhuma “justificativa” aparente, por outros atores, em “Vertigem”.  Ao mesmo tempo que separa, em dois espetáculos distintos, essas noções de espaço público e privado que guiam as histórias, Rita Clemente promove durante a encenação o entrelaçamento dessas esferas,  causado, entre outros elementos, pela presença permanente de personagens que faziam parte da história anterior ou que ainda viriam a narrar suas existências. A questão é que essa escolha da encenação, que poderia gerar ecos interessantes também na problematização do entendimento que temos dessas esferas, não encontra respaldo nas histórias apresentadas na segunda “parte”, ao apenas retomarem os dilemas e conflitos já apresentados sem acrescentar a eles uma outra perspectiva.
Os elementos de cena reforçam a ideia de atemporalidade (foto de Guto Muniz)
Cenário e figurino parecem também ressaltar a ideia de indefinição no tempo e no espaço. Os personagens compartilham o mesmo espaço de ação, com a inserção de um ou outro elemento necessário à sua narrativa. Tudo parece cotidiano em um primeiro olhar, mas essa sensação é quebrada com sutis pitadas de estranhamento, evidenciadas, por exemplo, no deslocamento das sobrancelhas com a maquiagem ou ainda pela exclusão das cores e a opção pelo preto e pelo branco (com algum verde).
Delírio e vertigem, como definidos no dicionário, são ambos estados mentais. O primeiro insiste em admitir como verdade aquilo que é negado pela evidência, enquanto o segundo inclui a impressão de que tudo ao redor esteja girando. As personagens de Jô Bilac parecem estar entre um e outro, percorrendo os extremos do sentimento, perdendo o controle. Mas, quando mostradas uma após a outra, passa-se a esperar o absurdo contido na próxima situação a ser apresentada e, com isso, a possibilidade de nos espantarmos e surpreendermos com suas atitudes corre o risco de se diluir.
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10/12/2012 TAGS: Belo Horizonte, Galpão Cine Horto, Oficinão, Rita Clemente BY: Luciana Romagnolli
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Mostra de Dramaturgia Sesi-PR – Uma geometria estruturante para as relações humanas

por Luciana Romagnolli

“Fractal”. Foto de Cayo Vieira.

As relações estabelecidas no espetáculo “Fractal” remetem à célebre frase sobre a impossibilidade de se banhar duas vezes no mesmo rio, pois já são outros as águas e aquele que nelas se banha, com a qual o filósofo pré-socrático Heráclito cravou o conceito de devir como a eterna transformação a que estão sujeitas as coisas do mundo. 
Um pequeno punhado de acontecimentos relacionados à vida romântica, familiar e trabalhista repete-se na peça escrita por Patrícia Kamis, mudando de sentido a cada novo contexto em que uma fala ressurge.

A dinâmica dos acontecimentos, portanto, importa mais do que eles em si. São, afinal, variações de temas do senso comum – histórias conhecidas sobre gravidez, falta de dinheiro, solidão na velhice e demais frustrações, mas que parecem novas a cada um que as vive pela primeira vez. 

O passo além do óbvio está na estrutura criada pela autora para evidenciar o fluxo transformador do tempo, que impede a restituição de uma experiência por mais que se assemelhe à interior. Patrícia Kamis constrói seu texto emulando a forma de um fractal, um tipo de estrutura geométrica usada para descrever fenômenos da natureza. O fractal se define, em linhas gerais, pela repetição de um mesmo padrão em qualquer escala dentro de uma complexidade infinita – como é o floco de neve. A arquitetura linguística que se inspira nessa geometria gera uma partitura coreográfica repetida ciclicamente pelos quatro atores em cena.

Na encenação de Jean Carlos de Godoi, a complexidade varia (como no fractal), assim como o contexto (como propõe Heráclito) desde uma sequência inicial centrada somente no movimento coreográfico ao som de um ruído prolongado até a inserção de falas que vão se cruzar em diálogos e sugerir situações.

O teatro se torna lugar de uma experiência sobre a estrutura da vivência humana, vista com o distanciamento e a crueza de quem radiografa as arestas de uma edificação. Trata-se de uma estratégia que evidencia relações interpessoais fundamentais, ao mesmo tempo em que opera uma simplificação no modo como as apresenta.

O palco se reveste de branco do cenário à luz, o que resulta em uma impressão de assepsia. É nesse espaço vazio e desterritorializado que a partitura coreográfica se cumpre e as falas esboçam vidas, em jogos de cena que se desfazem com a mesma rapidez com que se formaram. Nessa proposta, as emoções germinadas nos eventos permanecem em segundo plano. As atuações transitam entre a neutralidade e o despertar efêmero de sentimentos individualizados, sem que as subjetividades se delineiem com nitidez. Na economia de imagens assumida na encenação, sobressai o jogo derradeiro de acende-apaga de lâmpadas comuns, que transcrevem plasticamente a dinâmica dos fluxos entre os atores.  

*Crítica originalmente publicada no site do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR, em dezembro de 2012.

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10/12/2012 TAGS: Curitiba, Mostra de Dramaturgia do Sesi BY: Luciana Romagnolli
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Mostra de Dramaturgia Sesi-PR – Poema cênico materializado em corpos sob o barro e a luz

por Luciana Romagnolli

“Parido”. Foto de Cayo Vieira.
Entre muitos trabalhos vistos nesta Mostra de Dramaturgia do Sesi-PR, nos quais a força propositiva se concentrava no texto dramático, e o cerne da encenação era ativar pela fala as subjetividades contrastantes que habitavam aqueles mundos linguísticos inventados, “Parido” desponta pela potência de sua teatralidade. O autor e diretor Don Correa mobiliza recursos de luz, espaço e movimento para constituir sua poética e provocar no espectador sensações de estar no mundo distintas.
Os seres míticos que os quatro atores evocam em cena resistem a se tornarem imitações de pessoas reais ou a se individualizarem. São portadores de uma carga trágica, associada à trajetória humana do nascimento até a morte e às experiências fundamentais do amor e da guerra.
Tal percurso existencial se apresenta pela figura de Doro – de quem se vislumbra fragmentos de vida desde o parto. Contudo, Doro funciona não como sujeito unificado, mas uma síntese de todos: a corporificação da condição humana, compartilhada pelos que estão ao seu redor, seja pai, filho, inimigo, amante. Uma totalidade que é reiterada por formações de coro entre os atores.
Um dos pilares das Dramáticas do Transumano, conforme propostas por Roberto Alvim, é justamente conceber o teatro como a arte de elaborar outros desenhos da condição humana, para além das ideias hegemônicas. Don Correa trilha essa vereda no texto de “Parido”, elaborado como uma espécie de poema cênico.
Por um encadeamento particular, que recusa a narrativa e desarticula o diálogo, as falas evocam acontecimentos essenciais de uma vida que se sabe trágica e em constante mutação: a consciência do devir. Essa mirada em direção ao futuro se fixa no olhar sustentado pelo ator Sávio Malheiros, um dos momentos em que a construção corporal adensada do elenco produz um vibrante efeito de presença sobre o espectador.
É na materialidade da cena, afinal, que essa experiência particular de humanidade proposta por Don Correa se realiza e produz sensações, deslocando o público de seu olhar habitual sobre o mundo. Com uma função que se confunde à do figurino, a maquiagem redesenha os corpos dos atores recobrindo-os de lama ou argila. O elemento terra, assim, os religa à origem perdida do humano. Sob o efeito de uma luz amarela, quente, outro estado de consciência é sugerido.
O espaço cênico se configura plasticamente como uma cruz de luz sobre a qual os três homens e a mulher assumem posições determinadas, mantendo uma distância significativa entre si. São como mundos apartados, sem a possibilidade de verdadeiro encontro.
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09/12/2012 TAGS: Curitiba, Mostra de Dramaturgia do Sesi BY: Luciana Romagnolli
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Mostra de Dramaturgia Sesi-PR – A natureza irracional sob a polidez

por Luciana Romagnolli
“Um Rosto que Espreme”. Foto de Cayo Vieira.


A escrita teatral de Anna Johann é uma descoberta desta Mostra de Dramaturgia do Sesi-PR, na qual se viu montagens de suas peças “Um Grito que” e “Um Rosto que Espreme”. A morbidez e a crueldade com que ela revira a ordem estabelecida da instituição familiar, em textos que tomam a forma de monólogos cruzados ou diálogos desconstruídos em encadeamentos inesperados, define as bases de um estilo particular.


Eis uma obra autoral, com potencial para mais se desenvolver, e destoante na produção de teatro curitibana. Dentro da qual já começa a se formar uma galeria de tipos reincidentes: a criança ferida, a mãe leviana, os pais violentos. Antes de constituírem personagens delimitados, são seres que vão se constituindo pela linguagem, através de falas carregadas de contradições e instabilidades.

O universo fantasmagórico de “Um Grito que”, ambientado num cemitério e tratado em tom sinistro pelo diretor Thadeu Peronne, dá vez ao microcosmo de uma família moradora de um condomínio em “Um Rosto que Espreme”, na qual a natureza caótica e perversa desponta sob a superfície de polidez.


Ainda presente, o caráter fantasmagórico se insinua nessa obra de modo mais sutil. O diretor Diego Fortes o concretiza erigindo a cena como um quadro figurativo, expressionista, e criando uma analogia entre a tela de um animal de caça, isolada ao fundo do palco, e os seres que habitam o espaço cênico.


Tal qual o animal pintado, os integrantes da família podem ser presa e caçador. E permanecem em sua impossibilidade de movimento real: o espectador os encontra já em suas posições ao adentrar o teatro e não os verá se deslocar até que saia após os aplausos. Esse efeito final, que confunde o público habituado ao pacto convencional de fim de espetáculo, avoluma a dimensão da obra apresentada, prolongando seus efeitos.


A analogia com o quadro se estende às máscaras de longas orelhas usadas pelas crianças. Elas se vinculam à proposição de que a natureza (irracional) é mais forte, professada em um noticiário trágico intermitente. Os filhos, nesse sentido, estão mais perto da natureza animal do que os pais, já culturalmente moldados. O que não impede de a irracionalidade dominar os adultos também: seja pela violência ou pela sexualidade. É notável que o fato de uma das crianças “aprender” uma nova língua, inventada, acena também para esse processo de aculturação que formata uma ideia de sujeito.


Diante de uma obra que começou vinculada ao leve humor nonsense de “Café Andaluz” e, desde então, tateava modos de agravar o tom e experimentava formas para ganhar relevância, como experimentado em “Jornal da Guerra contra os Taedos” e “Os Invisíveis”, o diretor Diego Fortes alcança um maior refinamento formal associado à contundência de discurso com “Um Rosto que Espreme”.


Ainda parece possível fortalecer tanto as conexões entre os discursos, quanto as presenças extrafamiliares, para além do clichê da mulher sensual e da apresentadora de noticiário. Mas já se vê em cena uma qualidade sagaz de ironia, necessária ao jogo de forças em questão – como na trilha sonora nostálgica e feliz, que evidencia a perfeição aparente da família-modelo.

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08/12/2012 TAGS: Curitiba, Mostra de Dramaturgia do Sesi BY: Luciana Romagnolli
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Mostra de Dramaturgia Sesi-PR – Os estranhos que há em nós

por Luciana Romagnolli

“Melhor Ir Cedo Pular da Janela”. Foto de Cayo Vieira.

Um suspiro pesado a ressoar no escuro gera as primeiras imagens e sensações sobre um possível suicida no espetáculo escrito e dirigido por Leo Moita: “Melhor Ir Mais Cedo Pular da Janela”. Como se fosse uma forma de nascimento, o som inaugura e preenche o espaço cênico. Entre as sombras, vislumbra-se o homem e a mobília austera de uma sala. Um cenário que permanecerá imutável, enquanto os transtornos e as evoluções em torno da tentativa de tangenciar a morte acontecerão na fala do ator.

No trajeto ínfimo que ele cumpre sobre o palco, pontuando com seu deslocamento físico a transição de planos dramatúrgicos, sua fala se estilhaça em outras vozes. O monólogo se transforma em um diálogo travado no interior da consciência humana.

Assim, desencadeia o que se pode chamar de um estado esquizofrênico. Muito próximo à ideia de rompimento com as noções de eu e de identidade cultural que Roberto Alvim defende nas “Dramáticas do Transumano”, como uma alteridade radical. Numa frase da peça: “O mundo era essa outra pessoa estranha em nós”.

Como autor e encenador, Moita opta por bloquear a produção de imagens no campo visual. A estética da penumbra, associada ao trabalho de Alvim, impõe-se sobre o cenário quase intocado pelo corpo do ator, sugerindo um transbordamento da cena para além desse mundo cotidiano, morto em seu automatismo paralisante.

A encenação depende da virtuose do ator para se realizar. Val Salles domina e varia suas emissões vocais de modo a invocar um mundo do qual não se consegue ter pleno conhecimento, mas que instaura percepções sobre a vida e a morte por vieses insuspeitados. É da fala que todo o potencial imagético e sensorial brota, numa arquitetura linguística polissêmica e desestabilizadora dos sentidos, que não se fecha em uma lógica racional.

As vozes distintas (que, no texto original, previam dois atores em cena) estranham-se em fluxos de sentidos movediços, deixando o espectador cinestesicamente ligado àquele corpo e às modulações vocais, sem uma interpretação unívoca.

Por caminhos instáveis, Moita consegue essa desestabilização da ideia de uma consciência una ou centrada. E opera um descentramento da razão para fora do campo das relações sociais ou interpessoais.
A incisão que faz na subjetividade não é a dos sentimentos catalogados de um sujeito estável, mas uma cisão interna do ser e do outros, esses estranhos que o conformam. E aos quais dá voz.

*Crítica originalmente publicada no site do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR, em dezembro de 2012.
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07/12/2012 TAGS: Curitiba, Mostra de Dramaturgia do Sesi BY: Luciana Romagnolli
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#Miudezas – Espanca! lança livros em RJ e BH



“Por Elise”, “Amores Surdos”, “Congresso Internacional do Medo” e “Marcha para Zenturo” saem pela Editora Cobogó. Confira as datas do lançamento: 

Rio de Janeiro:
Teatro Ipanema
Dia 14/12 (6ª), às 21h, após sessão gratuita de Por Elise

Belo Horizonte:
Teatro Espanca!
Dia 18/12 (3ª), com festa.

 .

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06/12/2012 TAGS: Grupo Espanca!, Publicação BY: Luciana Romagnolli
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Mostra de Dramaturgia Sesi-PR – Metáforas para o descontrole

por Luciana Romagnolli

“Blow me Up… ou… Sobre a Natureza dos Homens-Bomba”. Foto de Cayo Vieira.


“Blow me Up…ou…Sobre a Natureza dos Homens-Bomba” cruza discursos desesperados de pessoas inábeis em lidar com o caótico, o frustrante e o imperfeito da vida, quando o que desejam é controle e garantia.

O homem, a mulher e a criança dividem o palco sem chegar a configurar uma família. Cada um carrega suas obsessões, manifestas em falas sustentadas por metáforas e concretizadas em objetos com os quais se ocupam – também detentores de uma função simbólica na encenação dirigida por Nika Braun.  

O desvencilhamento familiar é, antes de tudo, uma escolha dramatúrgica. Tão assoberbados estão os três com suas angústias que se fecham em suas próprias cascas. O ovo – esse invólucro de proteção aparentemente perfeito – emerge como uma das muitas metáforas elaboradas pelo dramaturgo Max Reinert sugerindo estados emocionais. Elas se associam em possíveis conexões entre si, como a do homem-bomba com a bomba relógio e com um homem que pode explodir a qualquer momento.

Porém, os três atores não funcionarem como uma família no palco é também efeito das escolhas de direção, que não concretiza um vínculo entre eles no desenho de movimentos e na articulação das falas. Têm-se breves monólogos interrompidos e continuados, moldados pela estrutura de fragmentos e redundâncias do texto, e frágeis são as tentativas de fazê-los reverberar entre si no espaço da cena.

Há de se considerar o desafio que um texto como esse, sem ação nem conflito no sentido clássico, impõe a quem pretende encená-lo, quando toda ação que se tem é a das falas sobre o mundo. Mesmo a imobilidade poderia funcionar como solução cênica. Contudo, depende do rigor formal na construção dos corpos (estáticos ou moventes) e na modulação das vozes. A carência de tal rigor na direção de atores e no trato com o texto dificulta que as potencialidades criativas contidas em “Blow me Up” se realizem.

Rubia Romani é a atriz que melhor trabalha esse potencial – e, não à toa, a mais experiente em cena. A sobrecarga emocional incessante exigida dos atores encontra nela a habilidade de corporificar as emoções, dar-lhes carne. Uma presença e um domínio de atuação que o resto do elenco ainda não conquistou. O que limita a reverberação das falas, sobretudo nas transições de tempo e sentimentos inseridas nas partes finais do espetáculo, resultando pouco nítidas.      

Outro aspecto a ser repensado é a relação com os espectadores. É certo que, ao adaptar o espetáculo para o palco do Teatro José Maria Santos, que estabelece uma relação frontal com o público, algumas opções precisaram ser feitas. Contudo, barrar o acesso a toda a área central da plateia para abrir espaço à projeção de imagens coloca o projetor em situação de prioridade sobre o espectador – relegado à visão enviesada das bordas das fileiras.

*Crítica originalmente publicada no site do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-PR.

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06/12/2012 TAGS: Curitiba, Mostra de Dramaturgia do Sesi BY: Luciana Romagnolli
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