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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Escolha pela coexistência – “Prazer”, da Cia Luna Lunera

Por Soraya Belusi

No início, era o texto. Soberano, ocupava lugar intocável no panteão das hierarquias teatrais. Depois, veio a cena. Esta, cansada de estar em segundo plano, assumiu o poder na virada para o século XX e tornou a palavra, antes inatingível, mais uma de suas servas. Algum tempo depois, foi a vez de um novo mandamento possuir o trono, o pós-dramático, aquele que rompe com a tradição do drama, cujo reino assume múltiplas facetas e possibilidades, aproxima-se do performativo, assume seu caráter processual e, muitas vezes, inacabado.

Essa definição sobre os embates na cena teatral do último século, breve e imprecisa, que não nos garante nenhuma espécie de porto seguro, é apenas um ponto de partida para nos aproximarmos de algumas das questões operadas em “Prazer”, mais recente espetáculo da Cia. Luna Lunera, que, após dois meses em cartaz em São Paulo, segue a temporada com apresentações na Mostra Oficial do Festival de Curitiba. À sua maneira, “Prazer” opera em sua construção com procedimentos e referências muito relevantes no que se convencionou chamar “teatro contemporâneo” (“pós-dramático”, “performativo”, etc), de questões, escolhas e tendências observadas em muitos trabalhos atuais.     

Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves formam o elenco de “Prazer” (Foto Adriano Bastos/Divulgação)
Há uma herança forte da tradição do texto dramático em “Prazer”. Resumidamente, a “historinha” é assim: quatro amigos brasileiros se reencontram em um país indefinido e, juntos, irão descobrir suas limitações, revelar seus segredos, omitir seus desejos, compartilhar a existência. Existe uma situação muito bem delineada, personagens caracterizados, conflitos, encadeamento de ações de forma a criar um sentido lógico. Mas, ao mesmo tempo, essa linearidade é constantemente interrompida por cortes, estranhamentos, tornando-se fragmentada. É nesta coexistência que reside tanto a potência, mas também a fragilidade de “Prazer”.
Inspirada pelo universo de Clarice Lispector, notadamente por “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, a companhia assume um olhar diante da vida, e da arte, como “uma tentativa de buscar a alegria”. Aqui, alerta o grupo, não se trata de ingenuidade e, sim, coragem.  “Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive, muitas vezes, é o próprio ‘apesar de’ que nos empurra para frente”, diz Ulisses a Lóri em certo trecho do livro. Assim como Lóri e seu percurso após o encontro com Ulisses são mostrados na obra da escritora, a Luna Lunera expõe em “Prazer” o seu percurso artístico, suas convicções.
Os personagens tentam iluminarem-se uns aos outros dentro dessa escuridão que é a alma e a existência humanas, espelham-se como se pudessem se enxergar refletidos no outro. Se num momento parecem assumir um naturalismo quase cotidiano, em outro, debatem-se com as palavras, correm delas, desviam-se para não serem derrubados.  Personagens que se revelam muito mais pelas citações de Clarice que vez ou outra se incorporam ao diálogo do que pela sua própria fala.
A mesma palavra que sustenta as paredes e cria sentido parece, no momento seguinte, assumir um caráter poético, inalcançável, borra-se como o passado. 
O mesmo acontece com o espaço que, sendo o mesmo, se desdobra em vários. Reprodução estilizada da sede da companhia, em Belo Horizonte, como acontece normalmente nos ensaios, torna-se um apartamento quando se puxa uma mesa que estava escondida na parede; vira carro se colocamos quatro cadeiras lado a lado; aeroporto se corremos de um lado para o outro ao som longínquo do avião. Mesmo com a permanência quase completa da quarta parede, de forma sutil, a metalinguagem está instalada. Assim como a comida, feita ali, em cena, de verdade. A intenção não é conferir o caráter de real, de ilusão, ao que se passa em cena; ao contrário. O pão de queijo terá seus ingredientes reunidos e assados diante do espectador, no tempo da encenação; ator e público compartilham o processo de sua feitura.
O caráter compartilhado da criação do grupo, no qual os próprios atores assumem também a direção e em grande parte a dramaturgia do espetáculo, confere, naturalmente ao processo, e consequentemente ao espetáculo, uma faceta polifônica, diversificada em discursos que muitas vezes se potencializam e, outras, confrontam-se ou se enfraquecem. Assim como a harmonia e a unidade, o choque e a tensão entre linguagens também está presente. 
Além disso, as relações estabelecidas durante a criação, com residências com artistas como Roberta Carreri, do Odin Teatret, Mário Nascimento, Eder Santos e Jô Bilac, trouxeram ainda mais contribuições para o trabalho, comprovando a sua vocação para o performativo e para o multidisciplinar. Tudo isso está em cena, criando outras camadas de percepção, de sensação, de relação com o espectador, que se vê na condição de mediador entre esses diversos momentos. É ele que, no fim, munido de tantos caminhos, estabelece as conexões entre os opostos na encenação e escolhe para onde quer ir. Há frestas para que ele participe efetivamente deste encontro. 

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19/03/2013 TAGS: Belo Horizonte, Luna Lunera BY: Luciana Romagnolli
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Singelas liberdades sufocadas pela guerra

por Julia Guimarães

Não é de hoje que narrativas documentais sobre as atrocidades da guerra ganham abordagens no teatro. Espetáculos recentes, como “O Palácio do Fim” e a Trilogia da Guerra, do Teatro Amok, além de peças importantes do século XX, como “O Interrogatório”, de Peter Weiss, são alguns desses emblemáticos exemplos.

Nesse sentido, o novo espetáculo do aclamado diretor paulista Nelson Baskerville junto com a Cia. Provisório-Definitivo se insere numa corrente já bastante explorada no teatro.

No entanto, “As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo”, que faz sua temporada de estreia no Sesc Consolação, em São Paulo, consegue fugir, ou melhor, tingir com outras tonalidades os lugares-comuns desse tipo de abordagem. E o faz justamente pelas escolhas dramatúrgicas e estéticas assumidas no novo trabalho.

A opção por eleger o ponto de vista de crianças e jovens de diversos países e períodos da história recente – como as duas Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã, os conflitos do Oriente Médio ou a Guerra do Iraque – privilegia tanto um discurso orgânico como libertário sobre o tema.

Os relatos foram extraídos de diversas fontes: os livros “Vozes Roubadas: Diários de Guerra”, de Zlata Filipovic e Melanie Challenger, o “Diário de Anne Frank”, além do documentário “Jardim Ângela”, de Evaldo Mocarzel, que apresenta o depoimento do jovem Washington e inclui a guerra do tráfico brasileira no mapeamento dos conflitos apresentados no espetáculo, ao dar voz a um garoto que lida, de um lado, com a pressão do tráfico, de outro, com a opressão da polícia.

A organicidade desses relatos surge justamente do fato deles serem ditos por quem muitas vezes ainda não teceu complexas elaborações sobre o significado da guerra, mas que a experimentou de forma aguda e igualmente perplexa. Assim, o desejo de liberdade, tão forte em crianças e jovens, cria um contraste humanitário sobre aquilo que os conflitos impõem.

Por outro lado, a universalidade esboçada na costura de tantas épocas e países, destrinchada em narrativas curtas, aponta para o pano de fundo comum a todas as guerras, expresso no início e no fim da peça: o desejo de ter aquilo que é do outro, a urgência da ganância.

É importante dizer que o espetáculo só consegue dar potência aos relatos por se ancorar em uma encenação de grande plasticidade e força poética, que constrói potentes imagens para os depoimentos sem medo de redundar, mas fazendo desse jogo um potencializador dos sentidos que realmente importam ao discurso da cena. A própria escolha por priorizar o épico em relação ao dramático, sem perder de vista a ação contida nas narrativas, favorece um ponto alto do espetáculo, que é seu ritmo fragmentário. 

Assim, o diretor Nelson Barskeville lança mão de bonecos, textos projetados, vídeos, além de uma iluminação primorosa, feita de tons em preto e branco, com luzes de led projetadas sobre o rosto dos depoentes, todos eles caracterizados com maquiagem pesada e expressionista. Se, por um lado, a intimidade dos relatos e a força das imagens contribuem para aproximar as histórias do público, por outro, a sofisticada teatralidade contida nos recursos citados acima também evita a adesão completa e favorece o distanciamento, muito bem-vindo nesse tipo de temática.

Igualmente distanciadora é a cenografia, que tem como moldura uma cortina de filó responsável por separar o público do espaço de encenação e garantir uma textura especialmente onírica e soturna ao espetáculo.

Através dessa encenação delicada, o espetáculo dá conta de uma abordagem que fala da guerra sempre na tensão com a perspectiva da liberdade. É o caso da cena final, extraída do “Diário de Anne Frank”, na qual quatro amigos comemoram um aniversário no porão onde estão escondidos dos nazistas. Agem em silêncio para não serem pegos: cantam, dançam, assopram velas, brindam a nova vida que estaria por vir. É o respiro contido de quem se nega a dobrar-se com a guerra, quando a sede por liberdade insiste em ser maior que o medo.
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15/03/2013 TAGS: São Paulo, Teatro Amok BY: Luciana Romagnolli
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#Miudezas – Yoshito Ohno vem a Minas em março

O dançarino de butô Yoshito Ohno, filho de Kazuo Ohno, vem a Ouro Preto e Tiradentes para o simpósio Corpolítico: corpo e política nas artes da presença, que ocorre de 12 a 15 de março. O evento pretende discutir a dimensão política colocada em cena pela presença corpórea do artista. 


Veja a programação completa e inscreva-se no site do simpósio.
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25/02/2013 TAGS: Ouro Preto, Yoshito Ohno BY: Luciana Romagnolli
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Nossas escolhas no Fringe

Atualizado em 24/03.

Agora a tarefa é mais exaustiva. Escolher o que ver entre as centenas de opções do Fringe. Nossa triagem chegou à lista a seguir. Esse é um post que precisa ser atualizado à medida que mais espetáculos forem vistos e novos burburinhos se formarem. Se isso acontecer, as novidades virão para o começo da lista! Aproveitem as sugestões e voltem para contar o que acharam.
Ps. Além desses, há muitos espetáculos fora desta lista que causam curiosidade ao menos: trabalhos vindos de rincões como Palmas (TO). Vamos garimpá-los?

Sirê Obá

Categoria: Aposta.
Por que ver? Indicação de Giordano Castro, ator do Magiluth (PE): uma diretora nova da Bahia, que tem um trabalho interessante com orixás.

A sobrancelha é o bigode do olho – Uma Conferência do Barão de Itararé.
Categoria: Visto.
Por que ver? Um bom ator, Márcio Vito, e os petardos do Barão de Itararé.

“Viúva porém honesta”.

Eu não sou cachorro!
Categoria: Aposta.
O que esperar? Gabriel Gorosito dirige Moa Leal num texto de Fernando Bonassi. Gorosito e Moa atuaram juntos em “Henfil!”.

Vazio é o que não falta, Miranda
Categoria: Aposta.
O que esperar? Godot e Beckett pelo Teatro Inominável, mesma companhia de “Sinfonia Sonho”. Leia entrevista com diretor aqui.

Viúva porém honesta
Categoria: Aposta.
O que esperar? Os pernambucanos do Magiluth, de quem se viu ano passado “Aquilo que Meu Olhar Guarda para Você” e o solo “Um Torto”, no encalço de Nelson Rodrigues.

Árvores abatidas ou para Luís Melo
Categoria: Visto.
Por que ver? Pelo virtuoso trabalho da atriz Rosana Stavis e pela oportunidade de pensar a autofagia na cena artística curitibana.

Cristiano, o cão louco

“Cristiano, o cão louco”.

Categoria: Aposta.
O que esperar? Depois do potente trabalho da Obragem no solo “As tramoias de José na cidade labiríntica”, o ator Eduardo Giacomini se junta a Leandro Daniel Colombo, que impressionou no solo “The cachorro manco show”.

Espasmo
Categoria: Aposta.
O que esperar? Marcos Damaceno (diretor de “Árvores abatidas”) monta um texto de Gabriela Mellão (repórter de teatro da Folha de S. Paulo e ex-crítica da Bravo!), novamente com Rosana Stavis no elenco.

Memória cala-te já!
Categoria: Aposta.
O que esperar? O inusitado de uma coprodução Londres-Piauí.

A festa
Categoria: Aposta.
O que esperar? Outra parte da trilogia ‘A máquina do tempo (ou longo agora)’, do grupo OPOVOEMPÉ, que participa da Mostra Oficial com “O espelho”. Leia entrevista com a diretora aqui.

Monstro – Parte 1 (Calamidade) e Parte 2 (Hecatombe)
Categoria: Aposta.
O que esperar? O colega português Jorge Louraço Figueira, que é dramaturgo e trabalhou recentemente com Cibele Forjaz, recomenda o grupo, seu conterrâneo.

Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial
Categoria: Visto.
O que esperar? Misturados aos garçons e frequentadores de um bar, os atores fazem das histórias de David Foster Wallace breves abismos que se ouvem no anonimato da multidão. Com Rodrigo Bolzan, ganhador do Shell por “Oxigênio” (da Cia. Brasileira).

Formas de brincar & Hasard
Categoria: Aposta.
O que esperar? Trabalhos de rua do grupo ERRO, um dos mais respeitados de Florianópolis.

A incrível história de Marileide e Michael Jackson
Categoria: Aposta.
O que esperar? Novo espetáculo da Pausa Cia. Assim como “Eu não sou cachorro”, traz texto de Fernando Bonassi e atuações de Gorosito e Moa Leal, aqui com Rosana Stavis no elenco também.

Circo Negro
Categoria: Visto.
Por que ver? Espetáculo da maturidade artística da CiaSenhas a partir de um texto provocativo do argentino Daniel Veronese.
Leia mais aqui.

“Em breve nos cinemas”.

Em breve nos cinemas
Categoria: Aposta.
O que esperar? Novamente David Foster Wallace, desta vez pelo Teatro de Breque, da diretora Nina Rosa Sá, que emula linguagens cinematográficas.

Família Loveborgs: os russos transcomunicadores
Categoria: Aposta.
O que esperar? Espetáculos cênico-musical com o músico André Abujamra, a atriz Greice Barros (CiaSenhas) e mais 8 artistas.

A noite devora seus filhos
Categoria: Visto.
Por que ver? Outro texto do argentino Daniel Veronese, desta vez sobre as memórias de um evento trágico, conduzidas com cuidado pelo grupo mineiro Paisagens Poéticas.
Crítica por Soraya Belusi aqui e por Luciana Romagnolli aqui.

Os ancestrais
Categoria: Visto.
Por que ver? Grace Passô, do Espanca!, resgata esse texto de sua juventude (anterior a “Amores surdos”) e o amplia em contato com o grupo Teatro Invertido, que ela dirige pela primeira vez. A situação de uma família soterrada proporciona imagens marcantes, acentuadas pelo cenário de Fernando Marés e pelo trabalho corporal dos atores.

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19/02/2013 TAGS: Festival de Curitiba, Fringe BY: Luciana Romagnolli
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Nossas escolhas no Festival de Curitiba

Atualizado em 24/03.

Nesse primeiro post, vamos reunir nossas escolhas do que ver na Mostra Oficial do Festival de Curitiba. São sugestões de espetáculos que já vimos ou nos quais apostamos. O que acham?

Cine Monstro Versão 1.0.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Enrique Diaz com colaboração de Marcio Abreu, encontro entre dois dos mais inventivos encenadores do Brasil. Além disso, Enrique Diaz estará também em cena e a montagem marca a “estreia” das coproduções no Festival de Curitiba.

Esta Criança
Categoria: Visto.
Por que ver? Renata Sorrah traz seu potencial dramático à encenação da Companhia Brasileira de Teatro, que elegeu um texto francês contemporâneo que trata com crueza relações familiares e é dirigido por Marcio Abreu estabelecendo vínculo forte com o espectador.
Crítica por Luciana Romagnolli.

Ficção.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Depois de “Escuro” e “O Jardim”, que a tornaram prestigiada em São Paulo, a Cia Hiato continua sua pesquisa calcada em uma dramaturgia fragmentada e complementar em “Ficção”.
Crítica por Dinah Cesare.

“Ficção”

Haikai.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Alvim e Nena formam uma dupla inusitada, no melhor sentido que o adjetivo contém. Ela, referência na cena curitibana, e ele, já há alguns anos habitué da cidade, onde tem disseminado sua proposta de dramáticas do transumano.

Horses Hotel.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Alex Cassal é um dos artistas envolvidos na revigorada produção carioca de teatro. Fez, entre outros espetáculos, “Ninguém Falou que Seria Fácil”, do Foguetes Maravilha, e colaborou com a dramaturgia de “Otro”, de Enrique Diaz. Aqui, avança na relação entre a cantora Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe.

Maravilhoso.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Texto do Diogo Liberano, de Sinfonia Sonho; direção de Inez Viana. Promete uma combinação entre a escrita rigorosa e ácida de Liberano e a inventividade e o humor característicos de Inez.

“O Espelho”.

O espelho.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Pela inventividade do coletivo OPOVOEMPÉ na relação com o tempo e com o público.
Crítica de Luiz Fernando Ramos.

O Homem Travesseiro (SP)
Categoria: Aposta.
Por que ver? Indicada a sete prêmios na última temporada paulistana, traz à cena premiado texto de Martin Mc Donagh.

O Líquido Tátil.
Categoria: Visto.
Por que ver? Pelas afinidades estéticas e temáticas entre o Espanca! e Daniel Veronese e pela atuação sobretudo de Grace Passô.

Os Bem-Intencionados.
Categoria: Aposta.
Por que ver? Grace Passô dirigindo os atores do Lume a partir de uma reflexão acerca de sua condição de artistas.
Crítica de Luiz Fernando Ramos

Prazer.
Categoria: Visto.
Por que ver? A Luna Lunera retoma seu exercício colaborativo na direção e na dramaturgia, dessa vez incluindo no processo estímulos de artistas diversos. Tendo como inspiração fragmentos de obras de Clarice Lispector, o resultado é uma cena múltipla de linguagens e sentidos, mas que, nem por isso, perde seu contato direto com o espectador.
Reportagem de Soraya Belusi e crítica de Gabriela Mellão.


Recusa.
Categoria: Aposta.
Por que ver? O espetáculo dirigido por Maria Thaís, com dramaturgia de Luis Alberto de Abreu, se apoia no trabalho dos atores Eduardo Okamoto e Antonio Salvador, indicados ao Shell, para mergulhar na cultura ameríndia.

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19/02/2013 TAGS: Festival de Curitiba BY: Luciana Romagnolli
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Desvio para o familiar

“Esta Criança”

por Luciana Romagnolli

Para uma conversa que pode ser a derradeira, a filha se senta em uma cadeira de madeira padrão, dessas que se tem em casa. O pai se acomoda em uma versão miniatura do móvel, daquelas feitas para quartos infantis. Nessa desproporção entre idade e tamanho está um elemento crucial do novo espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro. “Esta Criança” embaralha quem é a criança e quem é o adulto nas relações familiares. Em outras palavras: mostra que se é, ao mesmo tempo, adulto e criança, filho e pai.

Não à toa, a atriz Renata Sorrah não se limita às personagens mães. Nem Giovana Soar, duas décadas mais jovem, faz somente sua filha. Assim como elas, Edson Rocha e Ranieri Gonzalez transitam por distintas idades nas dez cenas curtas escritas por Joël Pommërat. Cada uma sintetiza, com um olhar bruto para os afetos, emoções relativas ao convívio familiar.

São muitos os pontos de estreitamento possíveis com o espetáculo anterior da companhia, “Isso Te Interessa?”, tantos quantos são os que se distanciam. De novo, a família é vista de uma perspectiva ampla, com atenção às fissuras do que se suporiam serem relações de afeto e proteção. Uma cartela de culpa, medo, raiva, rancor, expectativa, frustração e amor, suscetível à irregularidade da pungência de cada micro-história.

A diferença está no tom. A crueza que em “Isso Te Interessa?” se mostrava na nudez dos atores e na própria estrutura das falas, em Esta Criança toma o sentido de crueldade. E se revela em tons sombrios e nas atuações, com emoções carregadas e reações histéricas. Marcio Abreu aproveita o potencial dramático de Renata Sorrah; em troca, a atriz adere à lógica de encenação do diretor, configurando um verdadeiro encontro.

O espetáculo toma outra dimensão pelos efeitos de presença desencadeados desde a cena inicial, quando do breu total vai se revelando a atriz sobre um chão enviesado. Essa primeira imagem se assemelha ao desfecho da instalação “Desvio para o Vermelho” (sem o efeito de cor) do artista plástico carioca Cildo Meireles, exposta no Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim (MG) – uma pia torta envolta em breu. A sensação imediata para o espectador é de perda da referência física de mundo fundada num horizonte estável – provocada pela conjunção do cenário de Fernando Marés com a luz de Nadja Naira.

“Esta Criança”.

Outro momento de intenso efeito de presença ocorre quando os atores confrontam a plateia com olhares penetrantes, que evocam identificação e gravidade. São estratégias que permitem transcender a racionalidade do retrato familiar hostil para alcançar uma relação bem mais direta e desestabilizadora: entre as pessoas que compartilham aquele espaço. Entre artistas e público.

A atenção crescente que a companhia vem recebendo país afora tem raiz na aptidão para eleger textos contemporâneos que reelaborem temáticas universais em estruturas singulares, e para deles retirar os parâmetros do que será visto em cena, do cenário à atuação. Ao mesmo tempo, a situação de encontro com o público é trabalhada nas sutilezas, pelo endereçamento de falas e olhares. Aí reside muito da atualidade e da relevância do grupo: em estabelecer um vínculo forte tanto com o texto quanto com o espectador.

*Espetáculo visto em dezembro/2012, no Rio de Janeiro. Texto originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo, em janeiro/2013.

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19/02/2013 TAGS: Cia. Brasileira, Festival de Curitiba BY: Luciana Romagnolli
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Momentos de plenitude em quatro projetos em “eterno processo” – breves relatos

Por Soraya Belusi (*)

Roberto Audio em cena de “Bom Retiro 958 Metros” (Foto Flávio Portella) 
Foram quatro dias intensos de imersão em propostas muitas vezes diversas, opostas, divergentes, mas todas elas marcadas – e por isso a minha escolha em vê-las na rápida passagem por São Paulo – por sólidas trajetórias de seus criadores, independentemente do tempo de ofício e da projeção que alcançaram. É comovente (emocional e artisticamente) presenciar e compartilhar momentos de plenitude no percurso de artistas capazes de levar o espectador a experiências teatrais tão singulares.
O primeiro encontro deu-se nas ruas do Bom Retiro, bairro do centro da capital paulista conhecido pela tradição têxtil, que, mais que palco, é o ponto de partida e de chegada de toda a dramaturgia do mais recente espetáculo do Teatro da Vertigem, “Bom Retiro 958 Metros”. Depois da primordial dica de um amigo de que deveria assistir à peça em dia de semana, foi possível vivenciar as fricções entre espetáculo e o cotidiano do bairro, potencializando um ao outro, ambos se ressignificando, contradizendo-se.
A ideia de dramaturgia do espaço aqui parece explodir e se redimensionar, determinando todo o desdobramento da cena, dos recursos de iluminação ao delineamento dos personagens, da relação com o espectador, este, “obrigado” a se relacionar com os ocupantes deste lugar perdido no tempo  na memória, corrompido no seu ideal romântico, dando lugar a consumistas obsessivos, mendigos, imigrantes escravizados. A pesquisa no que tange à ocupação do espaço urbano alcança imagens sublimes, como a dos clientes abrindo as portas do “templo” do consumo ou do trem projetado sobre o fantasma de uma noiva que se mistura com a passagem do trem real, entre várias outras.   
A condução do espectador pela ação dramática e pelo espaço também atinge soluções eficazes como os carrinhos de som e transporte de materiais, tão comuns ao cotidiano do bairro, incorporados à encenação. Ao mesmo tempo em que se vê o trabalho hercúleo de produção que tal trabalho demanda, percebe-se um momento de grande maturidade de um coletivo que se propõe a dialogar, ocupar e desestabilizar nossa relação com a cidade e com nossa própria noção dos limites do teatro.  
Mas isso não tem nada a ver com o trabalho do Antunes Filho, alguém poderia argumentar. Sem querer aqui defender paralelos, o que une o Vertigem ao encenador paulista é a capacidade que ambos têm de oferecer experiências plenas ao espectador – é disso que se trata o texto. No ano do centenário de Nelson Rodrigues, Antunes revisita a obra do dramaturgo e a si próprio em “Toda Nudez Será Castigada”. Talvez não fosse necessário lembrar, mas Antunes, com montagens como “Nelson Rodrigues – O Eterno Retorno” e “Paraíso Zona Norte”, deu novos contornos à leitura da obra rodriguiana.   
O funeral de Geni por Antunes Filho (Foto Emidio Luisi)
A encenação de “Toda Nudez…” convida o pequeno Nelson para abrir a cena, a voz do dramaturgo em off, como se estivesse presente enquanto a ação se desenrola. Em sua direção, Antunes imprime um ritmo frenético à história, deixando a cargo dos atores que, com o mínimo de recursos, ocupem o espaço, construam a cena, o clima, a dinâmica da cena, imprimindo à cena um equilíbrio entre o rigor e a espontaneidade.  
Esses dois elementos também estão presentes no novo trabalho de Newton Moreno e Os Fofos Encenam. Em “Terra de Santo”, a dramaturgia consegue trafegar entre a quase naturalidade da cena inicial, uma manhã no cotidiano de um canavial, ao rigor quase ritualístico imposto às cenas seguintes.
Depois de “Assombrações do Recife Velho” e “Memória da Cana”, o grupo dá desdobramento às suas pesquisas, desta vez focando nas relações entre a cana de açúcar e a construção histórica, social e religiosa nordestina e brasileira. O coletivo reuniu vasto material de pesquisa e, a partir do Pentateuco – os cinco livros do Antigo Testamento –, evoca a dimensão do sagrado com origens nas religiões cristãs, judaicas, indígenas e africanas, permitindo aos atores apropriarem-se da ideia de presença e de performatividade.
A dramaturgia de Newton abraça o espectador, que está sempre amalgamado pela encenação, seja no momento mais naturalista, quando compartilha com os cortadores de cana uma boia-fria, seja quando é convidado a entrar no mundo do divino e do metafísico, no plano do indefinível.
   
Ainda nestes breves relatos sobre momentos de plenitude, incluo uma experiência no mínimo intrigante para o espectador “iniciado”.  Um dos destaques das últimas temporadas na cena paulistana, Roberto Alvim tem feito barulho (literalmente) com sua pesquisa que envolve “princípios” próprios no que tange à dramaturgia, encenação e trabalho do ator, propostas condensadas em trabalhos como “Prometeu” e “Sete Contra Tebas”, que integram o projeto “Peep Classic Ésquilo”, de seu Club Noir.    
Cena de “Prometeu”, uma das montagens do projeto Peep Classic Ésquilo (Foto Julieta Bacchin)
Vou tentar resumir (tarefa impossível) o que se passa: o espectador é conduzido respeitosamente até a sala de espetáculo (num charmoso café na rua Augusta). Um quase breu toma o espaço quando a ação se inicia. Os atores, todos com vestes pretas quase que dos pés a cabeça e Prometeu encapuzado, estão milimetricamente posicionados no espaço, um grande cubo preto vazado sob um fundo branco (ou seria um fundo branco aparente sobre um cubo vazado?). Essa imagem sofrerá pequenas modificações. Os atores permanecem quase que sob total penumbra, movem-se poucas vezes, como que em movimentos de peças de xadrez, únicos momentos em que a luz se modifica.
É a voz que parece conduzir tudo. A tentação de fechar os olhos e entregar-se ao breu total parece irresistível. Mas e se algo acontecer, deve se perguntar o espectador. É na palavra, na articulação, no poder de ocupar o espaço e construir o tempo com o som que parece residir a principal potência dessa investigação do Club Noir. Um poder de síntese, de limpeza de informações para o espectador, de extremo rigor e radicalidade no ato de se contar uma história.
  
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18/02/2013 TAGS: Antônio Araújo, Antunes Filho, Club Noir, Os Fofos Encenam, Roberto Alvim, São Paulo, Teatro da Vertigem BY: Luciana Romagnolli
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Ilusões românticas em “Bata-me” e “Entre Nebulosas e Girassóis”

por Luciana Romagnolli

“Entre Nebulosas e Girassóis”.

Por mais distintos que sejam em seus caminhos éticos e estéticos, os dois espetáculos que estrearam dentro da programação do Verão Arte Contemporânea neste início de ano em Belo Horizonte – “Entre Nebulosas e Girassóis” e “Popwitch (Bata-me)” – mantêm no horizonte o ideário comum do amor romântico, monogâmico, compartilhado ao longo de toda vida por parceiros de quem se idealiza também a beleza física, o caráter nobre, os sentimentos sublimes e a pureza de conduta (sobretudo da mulher, virginal, cuja sexualidade é confinada), numa associação com os valores morais da cristandade.

“Entre Nebulosas e Girassois”.

Esse é um ideal que o grupo Teatro Adulto resgata em “Entre Nebulosas e Girassóis” do romantismo aos modos do Werther de Goethe (a propósito, inspiração de seu espetáculo anterior, “A Última Canção de Amor deste Pequeno Universo”). E que o diretor Diego Bagagal herda das fábulas infantis de princesas e dos contos de fadas (como já fazia em seu anterior “Poplove”) para “Popwitch”. A distinção maior entre essas criações está no posicionamento que adotam.

A questão a ser colocada como provocação primeira aos dois trabalhos é: o que perpetua essa visão do amor tantos anos após a revolução sexual, para dizer o mínimo? Quando os questionamentos feministas e gays já desestabilizaram os fundamentos do patriarcado e a posição central e absoluta do homem heterossexual como o padrão saudável a ser seguido? Quando o machismo e o controle sexual sobre as mulheres vêm sendo desconstruídos em favor de novos valores afetivos e sexuais? Em suma, após termos entrado em um processo de transformação da intimidade, como o define o sociólogo Anthony Giddens justamente no livro “A Transformação da Intimidade”?

“Entre Nebulosas e Girassóis” (do qual, aviso, assisti apenas ao ensaio geral e, portanto, não tecerei comentários sobre a encenação por ora) sustenta-se na idealização romântica do outro. O espetáculo do grupo Teatro Adulto coloca em cena a figura de um homem maduro e ensimesmado em seu pessimismo, o que o impede de se aproximar da jovem por quem se sente atraído. Sua estratégia, frente à presumida incapacidade de ação no mundo real, é projetá-la em um sonho no qual ele aparece mais jovem e belo, e ela, com a perfeição frágil e asséptica de uma bailarina de caixinha de música.

Somente nesse mundo onírico eles podem viver o amor. Ainda assim, trata-se de um amor pudico e marcado pela ingenuidade, aferrado àquele ideal sublime de conduta: um amor a ser vivido debaixo de uma chuva colorida e que será corrompido à medida que os personagens sonhados adquirirem independência e consumarem sexualmente a paixão. Essa negação do real – e da carne – praticada pelo protagonista comporta um traço de anacronismo difícil de se conciliar com o ethos adulto contemporâneo.

“Popwitch (Bata-me”). Foto de Guto Muniz.

“Popwitch (Bata-me)”, por sua vez, já se alinha às libertárias reflexões sobre gênero que desestabilizam justamente o padrão heteronormativo. Na pele de uma bruxa-trans-brasileira, o diretor e ator Diego Bagagal cria uma comédia irreverente e sarcástica, que mira contra relações de poder cristalizadas entre os sexos – e atinge, como efeito paralelo indissociável do modo como essa ética se construiu, essas mesmas relações no contexto político de dominação entre Europa e Brasil.

O inquietante é pensar por que o humor crítico de Bagagal ainda se sustenta sobre ilusões românticas das mais acríticas, como se muito pouco se tivesse avançado socialmente e sexualmente para além das expectativas fabulescas. Este é um paradoxo em sua obra, já delineado em “Poplove” e acentuado em “Bata-me” à medida que o espetáculo apresenta uma encenação mais rigorosa e sedutora que a do anterior – sobretudo pelas performances de Rosa Antuña como a princesa-bailarina (personagem análoga à de “Entre Nebulosas e Girassóis”) e do próprio diretor como a transexual-protagonista.

“Popwitch (Bata-me”).

As fórmulas do príncipe encantado e da mulher-princesa já não estariam por demais gastas na cultura pop ocidental, onde proliferam modos de desconstrução desse imaginário? Hollywood não sabe mais qual subversão infligir às personagens de contos de fadas para que guardem ainda algum atrativo comercial; nem resta novidade em ensaios fotográficos sensuais e/ou sádicos com brancas de neves e Cinderelas distorcidas. O cansaço em torno desses temas se deve à sensação de que já foram revirados, desconstruídos e criticados, de modo que não há centelha nova que os faça reacender. Aí se encontra o limite que “Bata-me” parece se autoimpor. Ainda que avance na visão libertária de sexo e gênero, ao zombar do imaginário principesco continua atado aos mesmos velhos paradigmas e padrões obsoletos.

Parece inevitável, tanto pela proximidade temática quanto temporal de suas estreias, remeter “Bata-me” ao filme “Doce Amianto” (leia crítica de Marcelo Miranda aqui), de Guto Parente e Uirá dos Reis, apresentado na Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro. Também o longa-metragem tem como protagonista uma transexual, sem que essa condição se sobreponha à sua identidade como mulher e aos seus sonhos românticos. Talvez a maior diferença esteja no modo como a própria Amianto se relaciona com suas fantasias românticas: nunca sucumbe acriticamente a elas, debate-se, recusa-as, numa obra que adere à sensibilidade da protagonista sem repetir indiscriminadamente padrões de conduta.

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15/02/2013 TAGS: Belo Horizonte, Diego Bagagal, Teatro Adulto, VAC BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Mediações para acessar o trauma

por Luciana Romagnolli

“A Noite Devora Seus Filhos”, montagem da companhia mineira Paisagens Poéticas para um texto de Daniel Veronese, coloca outra vez em questão a possibilidade de construção de uma representação para o trágico, para o trauma. Este é um problema que tem inquietado muitos realizadores no teatro recente. A principal referência é “Villa” (leia a crítica), de Guillermo Calderón.

Aquele espetáculo, apresentado no FIT-BH 2012, discute diretamente a ética relativa à reprodução do horror da ditadura chilena, num embate entre a necessidade de perpetuar o ocorrido para evitar seu esquecimento (e sua repetição) e a recusa ao sensacionalismo, consciente dos limites da imagem e da palavra para recriarem uma experiência passada. Em outra medida, “Sinfonia Sonho” (leia a crítica), do carioca Teatro Inominável, também aborda cautelosamente um evento trágico, descrente das possibilidades de reconstituição e de compreensão do horror.

Na montagem mineira, a experiência traumática sofrida por uma garotinha é comunicada ao espectador através de (no mínimo) uma dupla mediação, lançando a atenção — como nos casos dos espetáculos acima citados — sobre estratégias de abordagem do horror. Nada mais coerente como reação ao sensacionalismo crescente com que esses casos têm sido tratados em meios de comunicação e artísticos, que carregam um prazer sádico pela catarse, pelo sentimentalismo e pelos detalhes escabrosos. Que sirva de exemplo recente a reprodução de vídeos gravados pelas vítimas do incêndio em Santa Maria.

“A Noite Devora seus Filhos”. Fotos de Guto Muniz.

Fora do campo da reencenação da tragédia, “A Noite Devora Seus Filhos” elege como principal operação a narrativa. É por meio da fala, na construção tateante de discursos incompletos e desencontrados, que as memórias do trauma vão se estruturando e revelando o acontecimento vivido. O risco assumido da verborragia praticada é que as palavras se percam no espaço entre palco e plateia, de modo que já não se acompanhe seus sentidos e partes do quebra-cabeças fiquem para trás. Embora isso tenda a ocorrer em momentos do espetáculo, o modo como a personagem se apresenta sugere que as palavras são mais importantes para ela mesma do que para o espectador. A este, cabe mais testemunhar a maneira como elas servem à construção de uma narrativa própria para aquela vida, com a qual organize sua identidade diante da memória das experiências passadas.

Essa questão da identidade sustentada ao longo do tempo de uma existência se evidencia na duplicação da personagem em duas atrizes de idades distintas, confinadas num mesmo espaço onde suas palavras se sobrepõem, coincidem e se completam. Como escrevi quando a obra ainda se tratava de uma cena curta, daí se intui que aqueles abalos do passado não a abandonam em nenhuma etapa da vida, são sempre um filtro em sua relação com as pessoas e coisas ao redor; e noções como futuro e passado perdem a sua clareza. De alguma maneira, aquela mulher ficou presa ao evento da infância, como sugerem as grades do cenário.

Quanto à possibilidade de comunicação do trauma ao espectador, este é reconhecidamente “inenarrável”. Nem por isso, deixa de ser dito. Em meio a um cenário que se desconstrói e apresenta uma sucessão de ruídos e quebras, no intuito de chamar o espectador à racionalidade, as atrizes progressivamente abandonam a fala distanciada e o gestual comedido para concentrarem em uma cena a libertação da energia represada, num discurso catártico: um lampejo, fugidio, de acesso ao horror experienciado.

Sobre essa elaboração narrativa da personagem, contudo, o grupo dispõe mais uma camada mediadora: dedica-se à desconstrução da cena, sabotando a possibilidade de o espectador aderir completamente à narrativa. Para tanto, usa os tais ruídos e quebras, que operam sobre o tempo e sobre a lógica (a entrada anacrônica de um celular; a Fanta servida como chá; etc). Mais do que isso, escancara o processo de construção do espetáculo trazendo à vista das atrizes e do público os agentes de luz e de som. Nesse sentido, radicaliza em relação à cena curta, permitindo que eles extrapolem suas funções e surjam em cena também como atores, reafirmando, assim, o caráter artificial e de construto do que é apresentado.

É interessante ainda notar a diferença de estrutura desse para outros textos do dramaturgo argentino que têm sido montados no país – sobretudo “O Líquido Tátil”, pelo Espanca!, e “Circo Negro”, pela CiaSenhas (PR). Enquanto este se organiza como um texto-manifesto resistente à realização cênica e provocativo em relação à condição do ator; e o outro aponta para as pulsões recalcadas num núcleo familiar dentro de uma história linear em forma de drama corrompido pelo absurdo; “A Noite”… absorve aspectos da estruturação da memória, nessa forma narrativa livre da linearidade, e coloca a intimidade familiar em conflito com uma problemática social.

*Espetáculo visto no Verão Arte Contemporâneo, em Belo Horizonte, em janeiro/2013.

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08/02/2013 TAGS: Belo Horizonte, Daniel Veronese, Paisagens Poéticas, VAC BY: Luciana Romagnolli
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coberturas

Três escolhas no VAC 2013

por Luciana Romagnolli

O Verão Arte Contemporânea acabou, mas temos alguns textos a publicar sobre os espetáculos vistos. Neste ano, a programação do VAC foi o refúgio necessário diante das escassas opções de bons espetáculos teatrais na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

A começar pelas minhas escolhas (obviamente subjetivas) no VAC 2013:

“As Rosas do Jardim de Zula”
“A Noite Devora Seus Filhos”
“Delírio & Vertigem”.

Três espetáculos para serem vistos e revistos em qualquer temporada que façam, pois rendem boas experiências e discussões (logo iremos a elas).

“As Rosas do Jardim de Zula”.

PS. Infelizmente, não consegui ver o outro trabalho da Cida Falabella, que foi apresentado em apenas uma data.

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04/02/2013 TAGS: Belo Horizonte, VAC BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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