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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Movimento de oposições do humano e da geografia

Por Soraya Belusi (*)
Migração, para o Teatro Invertido e seu espetáculo “Proibido Retornar”, é uma ação ao mesmo tempo externa e interna. À medida que se desloca geograficamente provoca também uma transformação de identidade. Ao contar a história de um retirante do interior de Minas Gerais que ruma à cidade grande em busca de melhores condições de vida (estudo e emprego), o trabalho se estrutura em um movimento constante de elementos colocados em contraponto, gerando oposições narrativas, estéticas e ideológicas.

Saga de um retirante até o colapso de sua identidade na cidade grande é mote da montagem (Foto de Marco Aurélio Prates)

 

 Dois universos coexistem na dramaturgia, mas não se estabelecem simultaneamente em cena. A cidade e o interior aparecem como dois mundos repartidos, opostos, impossíveis de conviver em comunhão. Essa dicotomia permanece no desenvolvimento de todo o trabalho, espalhando-se pelo texto, pela utilização dos objetos, pela luz, pela ocupação do espaço, pelo tom da atuação dos atores. A não linearidade do texto leva a um deslocamento permanente no tempo e no espaço da narrativa, já tão conhecida no imaginário coletivo. 
A teatralidade assumida na encenação demarca o local da metrópole, percebida em escolhas como o uso do microfone, do alto-falante, das luzes de néon, dos figurinos estilizados, pela linguagem quase técnica utilizada em maior parte do texto.  Quando guiados pelas lembranças do protagonista, os espectadores são levados a uma outra atmosfera, em que o estrondo das buzinas e britadeiras é substituído pelo longínquo ruído do radinho de pilha. A luz da lamparina assume o espaço dos letreiros de néon ou do farol da motocicleta. A frivolidade das relações da cidade grande entra em contraste com os fortes vínculos humanos.

 (Foto de Juliana Palhares)
 De alguma maneira, o grupo parece querer se debruçar em questões de complexidade como a tríade corpo-cidade-cultura, de cartografia como uma forma de apreender e compreender a cidade com o corpo. Mas, justamente pela oposição extrema desses dois universos propostos e de sua constante separação, o espetáculo acaba fixando o olhar ora numa visão às vezes romântica (quando se remete ao arquétipo do homem do interior e seu ambiente), ora radicalmente maniqueísta (quando se refere à selva sem saída das grandes capitais), diminuindo as possibilidades de problematização que poderiam ser estabelecidas pelo próprio espectador.
O jogo de oposições permanece na atuação, num constante movimento entre o ator-narrador e o ator-personagem, de formas de falar, de abordar o espectador. De um lado, a simplicidade interiorana, de outro, a hostilidade de um mundo de concreto.   
O público também é obrigado a deslocar-se de seu lugar habitual. A migração, nem sempre, é um movimento voluntário. Desapropriado de sua função habitual, o espectador vê-se no centro da ação, também personagem e agente desta narrativa. Impossível esconder o desconforto da convivência. Enquanto espectadores passivos dessa saga, parecemos nos identificar com o personagem e compartilharmos de sua tragédia. Mas, ao vermos no que ele se transformou (um mendigo cujo cheiro se torna insuportável), queremos mais é distância dele, mesmo que alguém, contrariando as expectativas, lhe dê um abraço.
(*) A jornalista foi convidada a cobrir o evento. Texto originalmente publicado no blog do Esquyna Latina.
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17/11/2012 TAGS: Belo Horizonte, Esquyna Latina, Proibido Retornar, Teatro Invertido BY: Luciana Romagnolli
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Mestiçagem de linguagens – Esquyna Latina I

Por Soraya Belusi (*)

 
Quando América nasceu, arrancada dos braços de sua mãe África, iniciou sua saga de abandono e exploração ao longo da história. Menina desprotegida, ingênua em seu desconhecimento de si mesma, permitiu-se ser manipulada (e endividada) por sua velha e colonizadora avó. O Mayombe Grupo de Teatro convida o público a testemunhar em “A Pequenina América e Sua Avó $ifrada de Escrúpulos” esta trágica (mas ainda esperançosa) fábula, impregnada de realidade, em um olhar particular sobre a história da América Latina.

Imagem de “A Pequenina América e sua Avó $ifrada de Escrúpulos” (foto de Pedro de Filippis)

As escolhas éticas e estéticas do trabalho parecem refletir, de maneira também estrutural, as opções e pontos de vista ideológicos/artísticos dos integrantes expressos no conteúdo crítico-poético-irônico do texto. Ao escolher a fábula-poética como base da construção da dramaturgia, o grupo abriu para seu próprio discurso e para a encenação uma série de possibilidade de linguagens, em que se permite a coexistência da narrativa e do fluxo de consciência, a presença de momentos mais próximos de uma atuação “realista” a outros mais próximos da performance,  a utilização do humor e do autodeboche e o objetivo de provocar reflexão, da inserção de dados históricos a inserção de citações contemporâneas (Nike, Silvio Santos, etc).


A coerência das escolhas parece estar no acúmulo e na sobreposição das possibilidades utilizadas, numa espécie de mestiçagem de linguagens, caótica, porém, potente justamente por pluralidade. Quando reflete sobre o passado, a histórica da construção da identidade latino-americana e, consequentemente, do Brasil, o grupo pretende, simultaneamente, criar um discurso sobre o que vivemos no presente e sobre suas próprias escolhas.
Criando um possível paralelo com as idéias do geógrafo Milton Santos, em seu livro “Por uma Outra Globalização”, a estrutura do espetáculo (misturada, caótica, plural) reflete o que ele chamaria de sociodiversidade, fruto de um novo dinamismo na mistura de pessoas e filosofia, diferente da que se via na primeira metade do século passado, o que, segundo ele poderia ser um indício da possibilidade de uma outra ideia de globalização – expresso na fala final de América, da escolha por seguir seus próprios rumos e desvencilhar-se da sombra de sua avó.  
“De fato, se desejamos escapar à crença de que este mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: o da outra globalização”. (Milton Santos)
Neste sentido, os personagens, mais que terem uma “vida própria”, funcionam como reflexo de comportamentos e identidades, crenças, culturas, modos de pensar (seja quando representam a obsessão do consumo e das finanças do mundo atual, ou a exploração através da venda sexual, ou ainda a necessidade de um povo de confiar na e depositar suas chances de mudança na fé, ou ainda a existência de um pensamento hegemônico (imperialista e dominador) que manipula e assombra, desde a sua “descoberta”, todo um continente.  
(*) A jornalista foi convidada a cobrir o evento. Texto originalmente publicado no blog do Esquyna Latina. 


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16/11/2012 TAGS: Belo Horizonte, Esquyna Latina, Mayombe BY: Luciana Romagnolli
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#Miudezas

O Festival de Teatro de Curitiba abriu o cadastramento para participação da edição 2013 do Fringe, mostra paralela que costuma reunir centenas de espetáculos em sua programação durante os dias do evento. Os grupos mineiros (dentre eles a Cia. Clara, Espanca!, Invertido) são presença frequente na vasta lista de opções. Nas últimas edições, alguns coletivos foram chamados a integrar uma mostra especial dentro Fringe, com curadoria de Chico Pelúcio e parceria com o Cine Horto, o que garantiu a esses trabalhos “melhores condições de trabalho”, digamos assim. A 22ª edição do evento será realizada de 26 de março a 7 de abril de 2013. O Manual do Fringe e outras informações estão à disposição no site www.fringe.com.br. O cadastro deve ser feito até o dia 9 de dezembro.
 

Cena de “Por Elise”, do Espanca!, um dos grandes (e cada vez mais raros) momentos do Fringe
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16/11/2012 TAGS: dramaturgia, Editora Cobogó, Publicação BY: Luciana Romagnolli
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#Miudezas

Um novo espaço para a publicação de textos teatrais merece ser conhecido. A Editora Cobogó está publicando trabalhos atuais de autores brasileiros, pela Coleção Dramaturgia. Os mais recentes são o de Jô Bilac, “Alguém Acaba de Morrer Lá Fora”, e de Felipe Rocha, “Ninguém Falou que Seria Fácil”. Lembrando que Jô Bilac assina a dramaturgia do novo espetáculo do Oficinão do Galpão Cine Horto, “Delírio e Vertigem”, que estreia no dia 23 deste mês, e, ainda, é responsável pela orientação dramatúrgica de “Prazer!”, peça da Cia. Luna Lunera, cuja estreia será em São Paulo, no dia 30 de novembro. No fim de semana que vem, Jô estará na cidade ministrando uma oficina no Núcleo de Dramaturgia do Galpão Cine Horto. Felipe Rocha também é conhecido do público mineiro porque trouxe seus mais recentes trabalhos, entre eles o que agora foi publicado, a BH neste ano. Lembrando que Felipe integrou o elenco de “Ensaio. Hamlet”, da Cia. dos Atores, protagonizando alguns dos momentos mais  memoráveis do espetáculo.

Saiba mais sobre as publicações no site da editora.

Jô Bilac recebendo o Prêmio Shell de melhor autor por “Savana Glacial”. Foto de Marcos Issa/Argosfoto

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15/11/2012 TAGS: Fringe BY: Luciana Romagnolli
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Janela de Dramaturgia – Urgência por uma voz

por Luciana Romagnolli

Assis Benevenuto lê “Get Out” e Marina Viana, Marina Arthuzzi e Mariana Blanco leem “Silvia e os Outsiders” no segundo encontro da Janela de Dramaturgia. Foto de Filipe Costa Silva.
Uma urgência atravessa as dramaturgias de Marina Viana e Assis Benevenuto. Não a do ritmo acelerado, embora este seja caro a Marina. Urgem em dizer, em encontrar um lugar de enunciação que se pareça com um lugar no mundo. Dizer, afinal, é um ato performativo, uma ação sobre esse mundo. A urgência, portanto, parece ser a de como atuar em um mundo sobre o qual não se tem nenhum domínio, quando recusar o automatismo e a passividade são atitudes essenciais à sobrevivência.
Nessas dramaturgias, os personagens se diluem a não mais que películas com as quais se enfrentam situações forjadas. Sob eles, vibra a voz subjetiva de uma tentativa de autoria, num embate com a formação discursiva (articulação de discurso e ideologia) em que estão imersos, seus clichês e chavões, seus limites e imposturas.
A forma é do teatro, da fala-ação, mas a vontade é da música, do eu-lírico que expressa mais do que sentidos pela linguagem energética dos sons. É uma geração que não repete modelos simplesmente, mas busca o que a move e encontra razões e devires no teatro e em suas ferramentas – manuseadas com a liberdade dos deslimites. Faz uma dramaturgia dispersiva, em que o impulso de origem e o movimento que dele decorre importam mais do que chegar a algum lugar.
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Em “Silvia e os Outsiders”, Marina Viana retoma seu teatro-manifesto pela figura imprecisa de Silvia, portadora do sentimento de ser intrusa no mundo, buscando a autoafirmação entre coisas que não lhe dizem respeito e as que a formaram, ainda que involuntariamente. Como em outros textos seus, Marina transborda o caldeirão cultural em que sua geração cozinha, num movimento de identificação e estranhamento antropofágico-pop. Silvia alude às escritoras transtornadas que alargaram as possibilidades do ser-mulher. É Sylvia Von Harden, a poeta e jornalista alemã retratada por Otto Dix em cuja figura andrógina se espelha a aparência da autora-atriz. E é outras. Expressa-se entortando a lógica em perguntas e respostas fugidias que evocam as entrevistas feitas por e com Clarice Lispector, ora metafísicas ora inacreditavelmente prosaicas.
Uma menção à dublagem passa quase despercebida na descarga verborrágica que se instaura na leitura. Contudo, é significativa do processo dramatúrgico – e social – em que o discurso não é produzido originalmente por quem o diz. Ele se repete retirado de outro contexto e, nesse processo de apropriação, é ressignificado, embaralhando a noção de autoria e originalidade. O que Silvia-Marina tem em comum com Capitu, com o cerrado? Tatear essas relações é um modo de se inventar e se posicionar no tal caldeirão, mas os sentidos não se fixam, são instáveis e urgentes. A dispersão é um valor numa dramaturgia de links, cuja autoria e originalidade, se for interessante procurá-las, encontra-se na sua capacidade associativa, que revira o já-conhecido propondo-lhe outras perspectivas e convida a re-conhecer os clichês e chavões.
O deboche surge como uma atitude crítica de quem levanta bandeira sem a ingenuidade das ideologias fracassadas. A orgia partidária se metaforiza em uma sucessão de bebidas – o café, o leite, a coca-cola, a vodka – que descamba para o coquetel, o tudo-vale. Faz-se, assim, uma releitura politizada e crítica do mundo por um discurso imagético, com o teor de depreciação de quem não se leva a sério demais; uma releitura da cultura pop na qual se está inserido e uma reinvenção do feminino e de suas posturas possíveis, numa ambição de “pseudo-mártir das causas modernas perdidas e que agora só quer um resto de glamour, chegar ao recinto com alguma dignidade”.
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Se as duas Marinas, Viana e Arthuzzi, e Mariana Blanco fazem teatro como quem faz rock, com a postura desafiadora e um furioso despejar de ideias, sobrecarregado até a distorção, é também como música que Assis Benevenuto molda “Get Out”: título e refrão de sua peça. A melodia dele pode ser menos agressiva, mas comporta não menor potencial de combate. Contra o quê? O imperativo anglófono repetido à exaustão concentra uma multiplicidade de interpretações, com as quais o texto joga. Ele impulsiona para o movimento, ainda que indesejado; para o abandono de velhas ideias e comportamentos empacados no automatismo, nos lugares-comuns que de tão repisados já não apresentam relevo, clamando por tomadas de posição. Ao mesmo tempo, comporta uma questão existencial, a da impotência diante da hora da morte. De viés, nos implícitos, Assis nos indaga: Como viver se vamos morrer? Ou ainda: Isso que constitui a massa da vida, o que diz sobre a vida em si e sua essência efêmera? O teatro se reafirma como arte mais próxima da vida, em seu caráter transitório, passageiro e precário. E é tamanha a força desse teatro que sabe de suas idiossincrasias e justamente as sublinha.
Ter uma questão realmente mobilizadora para o criador garante, no mínimo, uma obra que não se acomoda nos moldes consagrados, mas busca suas próprias vias de expressão. Como dizer torna-se, então, parte do que se diz. E a dramaturgia de “Get Out” tateia formas. A certeza está na abordagem interpelativa do público, tomando consciência da presença compartilhada e reafirmando-a, para que se estabeleça o convívio, próprio das artes do teatro e da música. Em sua fala, Assis alterna momentos de evasão metafísica e abstrações, que tentam dar sentido ao informe, a observações tangíveis do cotidiano. E recorre a alguns ambientes cuja dinâmica materializa suas inquietações: o aeroporto serve ao medo da morte, assim como o set de cinema, à crise da representação. Desponta a batida do dedo indicador na têmpora enquanto fala do “sentir”. Sentimento e pensamento se friccionam nessa imagem-gesto, ecoando a confusão entre o sentir e o pensar, o abstrato e o palpável, o eu lírico e o épico.
Assis coopta espectadores para criar referências materiais para os personagens em torno de seu eu-diretor no set de filmagem criado pelas palavras – e aí é possível sentir um pouco dos limites da teatralidade numa leitura cênica, em que a atenção flutua difusa pelas histórias cruzadas, até que o texto imponha uma legenda ao previamente narrado. O bastidor do cinema funciona artificialmente como uma analogia para que o autor-enunciador prove seu ponto.
Como em “Outro Lado”, há múltiplas elaborações em torno das mesmas peças, trespassadas por mínimos comuns: a eventualidade da morte e sua inescapabilidade; a vida restrita ao aqui e agora de cada indivíduo, que se cruzam na apresentação teatral; a composição metalinguística que procura a representação por trás da representação, a mentira por trás da mentira, a imagem por trás da imagem. No extremo, toma a forma de um epílogo que se anuncia fora do jogo de representação, mas parece tão ficcional quanto tudo o que se disse e fez até então. Essa indistinção é sintomática da instabilidade do real sobre a qual a vida se sustenta.
*Texto originalmente publicado no blog Janela de Dramaturgia, em 1º de novembro de 2012.
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03/11/2012 TAGS: Belo Horizonte, Janela de Dramaturgia BY: Luciana Romagnolli
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As coisas não são como deveriam ser – FETO 2012

Por Soraya Belusi

Exatamente como as coisas deveriam ser: um cenário enigmático, uma bela composição pelo espaço, figurinos bem harmonizados cromaticamente, uma dramaturgia fragmentada entrecortada por situações de humor e elementos fantásticos, como a presença ausente de um camelo sem corcunda. Todos os elementos aparentemente “corretos” confluem para um grande resultado? Assim seria se as coisas fossem como deveriam ser, mas, não, como elas realmente são. É a partir do próprio argumento do espetáculo “Pessoas ou Coisas Podem Mudar o Mundo, mas Hoje Nada Aconteceu”, da Cia. dos Aflitos, que busquei dialogar com as escolhas realizadas pelos criadores envolvidos nas questões que me parecem mais problematizadas pela montagem, como a relação com o espectador, a quebra da ilusão teatral, a construção de uma dramaturgia própria, organizada de maneira fragmentada, utilizando-se como matéria-prima os relatos pessoais dos atores. 

Ao longo dos 60 minutos cronometrados para os alarmes soarem, o espetáculo parece carecer de uma seqüência de bons achados (como a imagem das quedas, a linguagem metafórica e circular, entre outros pontos) que, ao não serem explorados de maneira a ganharem força no decorrer da cena, tornam-se perdidos no tempo e no espaço. Um desses elementos pode ser notado logo na primeira cena. Ainda do lado de fora do teatro, o público é surpreendido por um ator/personagem que pede que escrevam cartas (a serem usadas posteriormente na encenação) com respostas para a seguinte pergunta: ‘como as coisas deveriam ser?’. Em seguida, surge um outro ator/personagem sugerindo que igualemos os horários dos nossos relógios e, metaforicamente, ‘sintonizemos nossos tempos’.

A questão é que, embora sejam muito fortes poeticamente, nenhum desses dois elementos (apenas título de exemplo) é reapropriado pela montagem de forma a justificar a relevância que lhe és dada anteriormente. As cartas viram frases soltas e quase inaudíveis ao fim da peça, apenas um ‘achado’ para encerrar o trabalho.  O efeito de realidade com o pedido de a plateia manter ligados seus dispositivos eletrônicos e programar o despertador também não agrega camadas simbólicas ao espetáculo da maneira como foi utilizado (sem contar que não funcionou, já que os despertadores parecem não terem tocado sincronizadamente).

Embora o elemento tempo esteja presente o tempo inteiro (seja nos relógios do cenário, no relógio de bolso do ser imaginário, no relógio que marca o tempo na sonoplastia), esse peso não se faz sentir na cena e na plateia. A proposta cíclica da dramaturgia enfatiza essa questão temporal, mas não dá conta de torna-la presente na cena e não apenas ilustrada. 

Este trabalho da Cia. dos Aflitos parece ser descendente direto de uma renovação no fazer dos grupos de teatro, influenciados pelo processo colaborativo e pela atuação de um ator-criador, trazendo consigo as potências e as limitações impregnadas a esse ‘modus operandi’ (como bem lembrado pelo professor Fernando Mencarelli em sua fala analítica). Os depoimentos pessoais dos atores não parecem dar conta da dimensão poética e complexa que a dramaturgia pretende alcançar. O invólucro parece dizer muito e, as entrelinhas parecem esconder mistérios, as arestas poderiam ser possibilidades de diálogo e interpretação do próprio espectador. Mas, no fim, os elementos parecem ter sido escolhidos para que o espetáculo fosse como deveria ser (em sua forma estética), e, não, pela real simbologia que carregam ao serem articulados lado a lado. A dramaturgia parece querer trabalhar em distintas camadas de diálogo com a plateia e com a história, no plano do imaginário (com a presença de uma espécie de ‘guardião do tempo’, da memória (com as imagens e indagações do que se passou), do presente teatral (na quebra com a ilusão e no contato direto com o espectador). Mas não alcança o objetivo de articula-los de forma a potencializar cada uma dessas possibilidades em cena.

A situação resumida na sinopse do espetáculo (a relação entre o casal e uma filha e a dificuldade de lidar com o tempo no que tange à necessidade da mudança) não se torna problematizada, tornando o espetáculo um exercício estético potente, mas ainda carente de uma maior elaboração dramatúrgica.

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29/10/2012 TAGS: Cia. dos Aflitos, FETO BY: Luciana Romagnolli
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Um bom argumento diluído ao longo do caminho – FETO 2012

Por Soraya Belusi

Os atores Hudson Muniz e Max Herbert tinham uma tarefa quase hercúlea para cumprir em “Até que o Teto Desabe”. Sem nenhum apoio externo, supervisão dos professores e/ou parcerias artísticas para partilhar funções na concepção do espetáculo – como os próprios artistas/estudantes relataram, tiveram apenas as salas da instituição de ensino para ensaiar –, os dois tiveram que se desdobrar em cena, na atuação e na direção do trabalho, além de serem responsáveis por todos os outros elementos que compõem a montagem. Esse contexto pode ser compreendido como um dos fatores responsáveis por certa irregularidade no entendimento dos conceitos que poderiam articular em prol da potencialidade do trabalho, o que se reflete na relação dos atores com o texto, com os personagens, com o espaço e com o espectador.

“Até que o Teto Desabe” apresenta dois personagens em uma situação-limite, que se vêem trancados dentro de um cofre de banco, encruzilhados pela chegada da polícia ou uma eminente desabamento. Este encontro de dois seres em total momento de desapego de suas máscaras (sociais e psicológicas) serve de pretexto para que o texto de Carlos Renatto aponte por diversos temas como o fracasso das relações humanas, medo, morte, violência. O argumento do espetáculo é muito forte e bem delineado, mas sua execução comete deslizes no percurso. 

Embora a dramaturgia apresente uma série de potencialidades, estas parecem se dissolver ao longo da encenação. O humor, por exemplo, arma que pode ser usada de maneira cortante para que o indivíduo reflita sobre si mesmo e suas limitações, torna-se banalizado justamente por sua hipervalorização. Imagens potentes (como um mundo prestes a desabar sobre nossas cabeças ou o fato de os personagens morrerem ‘esmagados pelo capitalismo’) diluem-se em meio a outras tiradas que apenas contribuem para o riso fácil do público, diminuindo assim o seu efeito de reflexão. Que o diga o texto do mineiro José Vicente, montado pela primeira vez em 1969, por uma trinca de grandes atores (Rubens Corrêa, Ivan de Albuquerque e Fauzi Arap), e, mais recentemente, revisto em projeto paralelo dos atores do Oficina de Zé Celso Martinez.

Cito a obra de Zé Vicente por uma série de razões: pela proximidade temática e da situação cênica e para servir de referência futura para os criadores envolvidos, artistas ainda (e constante e eternamente) em formação. Em “O Assalto”, escrito no auge da ditadura, Zé Vicente faz uma espécie de “acerto de contas” com sua própria visão de Deus, e “escancarava as conseqüências da devoção cega a um deus-mercado que a tudo rege nos dias que correm”, como afirma o crítico Valmir Santos quando da remontagem da peça em 2004. O texto tem como um de seus elementos sublimes a potência poética daquilo que não podia ser dito, mas que estava o tempo inteiro presente no subtexto, no que se vê sem se mostrar. “Revisitada após uma série de montagens, no segundo semestre de 1969, que obrigaram a crítica a rever seus critérios, a peça não perdeu nada da beleza e do impacto primitivos. Ela continua de pé com a sua intratabilidade, a aspereza de um estilo literário que se compraz nos desvãos e nas sondagens incômodas – essa violência, tão típica de hoje, que explode em rebeldia existencial, não afeiçoada a nenhuma disciplina, após a compressão de todos os condicionamentos sociais”, descreveu o crítico Sábato Magaldi sobre “O Assalto”, em 1970, no “Jornal da Tarde”.
Na montagem dos alunos TU, Os atores se relacionam com os personagens de forma a executa-los muito próximos de suas próprias características cotidianas, configurando um pseudonaturalismo que não contribui para a potencialidade da cena. Uma situação-limite (a aproximação da morte ou da cadeia) gera a presença de uma tensão que precisa reverberar no espaço, na luz, na paisagem sonora, no corpo dos atores/personagens; falta o tônus necessário, carece de um estado, de uma presença cênica para que esta ficção se concretize no espaço entre o palco e a plateia. Na condução da montagem, esses elementos tendem a aparecer muito mais na descrição que na ação. O público tem esses elementos dados pelas palavras, pelo que os personagens dizem, e não pelo que fazem (mostram, apresentam).

Esse jogo de entra-e-sai (da ação dentro do cofre para os comentários diretos com a plateia), como que um recurso para romper a ilusão teatral, desfavorece a ação cênica, dificultando ainda mais a construção da situação que se pretende estabelecer cenicamente. Além disso, os momentos de aparte parecem apenas sublinhar questões que já estavam mais que explicadas na cena, tornando-se, assim, tanto quanto ilustrativas apenas.

Os personagens e seus contrastes aparecem sem desenhos concretos (dramatúrgico, físico e cênico), minimizando o impacto deste encontro improvável entre dois universos díspares: o do homem que nada tem a perder e o do menino filho de banqueiro que sempre teve tudo e pôs tudo a perder.

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29/10/2012 TAGS: Belo Horizonte, FETO BY: Luciana Romagnolli
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Crise de identidade na busca de uma linguagem – FETO 2012

Por Soraya Belusi

“A dança-teatro tem-se valido de todos os ingredientes de uma encenação teatral (…) na esmerada coordenação de todos os materiais cênicos. Disso resulta a criação de uma fábula e de uma dramaturgia que contam uma história – a partir das ações simbólicas das personagens, que permanecem em seu papel e são condutoras da dramaturgia. O gestus social, mais que os gestos individuais ou psicológicos, é o que conta: o movimento jamais é puro e isolado”.

A definição de Patrice Pavis, em seu “Dicionário de Teatro”, para a corrente da criação cênica contemporânea que definiu-se conceituar como dança-teatro – fruto de um processo iniciado ainda por Laban e seu discípulo, Kurt Jooss, no início do século XX, e sintetizada na obra de Pina Bausch e seu no Tanztheater Wuppertal – pode servir como ponto de partida para estabelecer pontos de problematização sobre a maneira de apreensão do conceito que parece tão presente na construção do espetáculo “Chá de Casa Nova”, da Cia. Cacos de Luz, de São João del Rei. 

Uma leitura menos atenta da definição de Pavis poderia levar a uma identificação imediata entre as proposições do espetáculo e a conexão com os elementos que estabeleceram a base da linguagem experimentada pela coreógrafa alemã (embora Pina não gostasse que limitassem sua criação definindo-a como coreografia). Mas, numa proposta de tentar dialogar com os signos propostos pela encenação percebe-se uma concepção que, embora tenha os ingredientes necessários, não consegue reuni-los de maneira simbólica e dramatúrgica, para alcançar o que Jooss definiu como dança drama, duas linguagens que vão ao encontro uma da outra, gerando um terceiro fruto artístico. “Na dança dramática, as ideias de movimento estão fundidas com a ideia dramática, e a fusão desses dois elementos cria uma nova entidade, a dança-drama, cujo assunto é o pensamento do criador cristalizado em ação e em personagens humanos que agem e sofrem” (JOOSS apud SCHILICHER, 1993, p. 32, tradução da autora).

A dramaturgia, aparentemente aberta, parece não se definir por quais códigos de encenação operar. Como em um jogo de “liga e desliga”, o espetáculo tende a caminhar numa divisão entre “momentos de dança” e “momentos de teatro”. Ao contrário do que pregava Jooss (citado acima), o trabalho parece optar por relances em que a partitura corporal/coreográfica eleva-se como fio condutor, mas sem atingir o plano do simbólico, do representativo, do movimento com significado. Neste sentido, o trabalho do ator e do bailarino não funcionaria em momentos distintos da cena, como se dá na montagem, mas, sim, coexistiriam em cena. “Ela confronta a ficção de uma personagem construída, encarnada e imitada pelo ator, com a fricção de um dançarino, que vale por sua faculdade de inflamar a si próprio e aos outros através de (…) seu desempenho cinestésico”.

No objetivo de levar à cena (apresentar, representar) a história de uma família em que os indivíduos deixam revelar suas fraquezas, traições, medos e desejos, “Chá de Casa Nova” recorre aos “fundamentos” da dança-teatro sem que, com isso, consiga potencializar o trabalho em questões dramatúrgicas, de atuação e ou/estéticas. Em vez de esses elementos atuarem de modo a potencializar um ao outro, parecem justamente se anularem, impedindo que o espectador decifre em que código se dará a representação (tendo, como exemplo, essa constante estrutura estabelecida no espetáculo de uma cena realista seguida por uma de dança).

Em vez de nos revelar uma família com todas as suas idiossincrasias e complexidades, e indivíduos problematizados pela dor – como parece propor a sinopse -, a condução da montagem não consegue nos apresentar solidamente quem são os personagens da história? (Claro, identificamos pai, mãe, filho. Mas não é oferecido ao espectador quadros mais completos: quem de fato são? O que cada um representa nesse coletivo? Qual o conflito entre eles? Estabelecem algum tipo de relação?). Com isso, os atores (em seus momentos realistas!) não conseguem compor um painel que vá além da ideia do clichê (tanto física quanto dramaturgicamente), dos personagens conhecidos nos dramalhões – da mulher que trai, o traído que mata, os filhos que sofrem, a cunhada que tinha um desejo reprimido pelo cunhado, e assim por diante).

O tango, escolhido como base para a trilha sonora, despotencializa ainda mais a construção de uma atmosfera de tensão e sexualidade, o que parece ser a ideia inicial do espetáculo. O tango-contemporâneo acaba levando a montagem o tempo inteiro para a ideia do melodrama. O espetáculo confunde o espectador utilizando referências do melodrama (personagens-tipo, histórias trágicas e apaixonadas, interpretações exageradas), mas sem assumi-lo como linguagem de fato, o que leva, em alguns momentos, o espectador ao riso da forma que ele não é bem-vindo, digamos assim.

Assim como nos trabalhos de Bausch, elementos de real e de teatralidade existem em cena no espetáculo, mas parecem ser significantes sem significados. Por exemplo, a escolha de deixar todos os personagens de tênis poderia ser lida tanto como um elemento de teatralidade (à medida que poderia ser um símbolo da ideia de se assumir um figurino para causar certo distanciamento no espectador) quanto de real (como elemento que pertence à vida cotidiana dos atores). Mas esse e outros signos (isso se repete em outras escolhas formais do trabalho) não ganham nenhum contorno na montagem; parecem estar em cena sem muita razão de ser. Embora tenha se aprofundado na pesquisa e na re-elaboração de fundamentos e conceitos tão caros às artes cênicas contemporâneas, “Chá de Casa Nova” esbarra na crise de identidade justamente ao tentar buscar sua própria linguagem.

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29/10/2012 TAGS: FETO BY: Luciana Romagnolli
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Adocicado sim, mas sem perder a contundência – FETO 2012

Por Soraya Belusi

Ter um texto de Newton Moreno como base para a encenação é ao mesmo tempo um desafio e um presente. Nas rubricas que antecedem o texto, o escritor e diretor pernambucano, um dos nomes mais inventivos e produtivos da atual cena da dramaturgia brasileira, propõe a peça como um exercício para um ator-contador. “Daqueles que reúnem um grupo ao redor da fogueira ou embaixo de uma árvore com uma viola/sanfona, pontua suas histórias com as músicas e acordes que saem de seu instrumento”.

Obra premiada com os prêmios Shell e APCA, “Agreste (Malva-Rosa)” já foi levada aos palcos sob a visão de Marcio Aurélio, tendo sua qualidade dramatúrgica enfatizada e ressaltada pela montagem. Recentemente, voltou à cena sob a direção de Stephane Brodt e Ana Teixeira. Em ambos, a linguagem não faz concessão ao regionalismo que a fonte nordestina da história poderia impregnar, mas faz dela, assim como a fábula de Newton, trampolim para tocar em questões arcaicas e universais, de extremos, gêneros, do amor e da sexualidade. 

A encenação de Alice Stefânia multiplica essa referência de um único condutor da fábula para oito narradores-personagens distribuídos no elenco que forma o elenco da Casulo Dramaturgia de Atores. No palco, quatro músicos recebem o público ao som típico da rabeca do sertão do país. Os tons crus da cenografia e da iluminação revelam ao fundo redes que formam uma espécie de emaranhados de casulos, de onde nascem (surgem) uma série de bichos-homens do agreste que dá título ao texto.

Newton fala de uma história de amor cujo perigo parecia pairar antes mesmo de acontecer. Inspirado nas histórias que ouvia de mulheres-lavradoras do interior de seu Estado, cujo desconhecimento acerca de seus próprios corpos e sexualidade era imenso, Newton apropriou-se da figura da mulher que se finge/(tra)veste de homem (recurso tão conhecido na obra de Guimarães Rosa) para falar de um amor incondicional, que se basta, de um casal praticamente apartado do convívio social. Cujo único abalo é a ignorância alheia, coletiva, a descoberta da sexualidade do outro.

Um dos artifícios da montagem de Alice Stefânia é justamente tornar palatável essa narrativa a um público infantojuvenil, de certa maneira adocicá-la, mas sem retirar-lhe a contundência, a poesia e o humor corrosivo.  Se os códigos são acessíveis ao público, não são, por isso, menos sofisticados, como as imagens arcaicas a que parecem se remeter as partituras criadas no fundo das cenas, a utilização das partituras de ação física e vocal (como na cena da ladainha coreografada, por exemplo). 

A música é aliada constante da encenação. É ela que pontua cada momento da narrativa, suas transições e retomadas, cria o ambiente sertanejo da contação de histórias, dialoga diretamente com os atores na composição da cena. A ideia de personagem não existe, fazendo com que o elenco se reveze entre os diversos elementos da história e potencializando a força do conjunto do grupo.
Os elementos da cultura popular nordestina são muito presentes na encenação, o que pode, em alguns momentos, dar uma leitura dramatúrgica presa a uma visão regionalista. Mas esse risco acaba sendo equilibrado pelas poucas mas relevantes imagens arquetípicas, até chegar ao fim redentor dessa tragédia, em que a cena final remete à sacralidade de uma “Vênus Dormindo”.

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29/10/2012 TAGS: FETO BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Entre a fruição plena e o déjà vu – FETO 2012

Por Soraya Belusi

“Na verdade, não tenho a certeza de que exista. Sou todos os autores que li, toda a gente que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados.”
(Jorge Luis Borges)

A marca que algumas obras de arte perpetuam em seus contextos é inegável.  Recortando este universo e limitando-o à mais recente história do teatro brasileiro, é obrigatório passar, nos últimos 20 anos, pela contribuição estética, teórica e processual que coletivos como o Teatro da Vertigem, o Grupo Lume e a Cia. dos Atores, só para citar três dos mais relevantes,  deram ao pensamento teatral contemporâneo brasileiro. Este último, sintetizado criativamente pelo diretor Enrique Diaz, somou à sua lista de grandes espetáculos, em 2004, a criação de “Ensaio.Hamlet”, montagem ovacionada pela classe e pela crítica, que instaurou, condensou, toda uma ‘forma de fazer’ da trupe carioca – sistema criativo que voltaria a inspirar o grupo, em “A Gaivota”.

“Na verdade, não tenho a certeza de que exista. Sou todos os autores que li, toda a gente que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados.”
(Jorge Luis Borges)
A marca que algumas obras de arte perpetuam em seus contextos é inegável.  Recortando este universo e limitando-o à mais recente história do teatro brasileiro, é obrigatório passar, nos últimos 20 anos, pela contribuição estética, teórica e processual que coletivos como o Teatro da Vertigem, o Grupo Lume e a Cia. dos Atores, só para citar três dos mais relevantes,  deram ao pensamento teatral contemporâneo brasileiro. Este último, sintetizado criativamente pelo diretor Enrique Diaz, somou à sua lista de grandes espetáculos, em 2004, a criação de “Ensaio.Hamlet”, montagem ovacionada pela classe e pela crítica, que instaurou, condensou, toda uma ‘forma de fazer’ da trupe carioca – sistema criativo que voltaria a inspirar o grupo, em “A Gaivota”.

Natural, por isso, que uma geração inteira de jovens artistas tenha assistido e apreendido o trabalho monumental de releitura e apropriação empreendido por Diaz e seus companheiros de grupo. E, se não viram, muito provavelmente ouviram os relatos da habilidade da encenação de Diaz em levar para a cena, de maneira metalinguística, a configuração de um ensaio para a montagem de “Hamlet”, de William Shakespeare. Código este que abre espaço para que formas narrativas contemporâneas trabalhem a serviço dos atores para que contem a história do Príncipe da Dinamarca.

Mas por que falar tanto de “Ensaio.Hamlet” se este texto pretende dialogar com outro espetáculo, no caso, “Horácio”, do Grupo Tarja? Porque, para mim, foi indissociável a fruição de um com a imediata comparação com o outro. Até que ponto nos impregnamos daquilo que vemos? Qual a ideia de originalidade que se faz na arte contemporânea? Qual o limite entre plágio e homenagem? Se o resultado artístico deste ‘contágio’ é relevante, importa ‘seu grau de parentesco’? O próprio Shakespeare não teria sido “acusado” de plagiar autores menos conhecidos de sua época? Como interpretar o que disse Jorge Luis Borges (citado acima) neste caso?

Tomemos como provocação a obra de Walter Benjamim e sua reflexão acerca do conceito de aura na obra de arte.   Em seu texto “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, de 1935, Walter Benjamin define aura como “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja” (BENJAMIN, 1994, p. 170). Seus principais elementos são a autenticidade e a unicidade.  A autenticidade da obra de arte dependeria, então, da materialidade da obra, do substrato físico que a envolve, a partir do qual se desenrola sua história, e no qual ficam registradas as transformações físicas e as relações de propriedade pelas quais ela passa. A reprodução não consegue levar consigo o testemunho da história gravado no substrato original, autêntico, o que provoca, segundo Benjamin, a perda da autoridade e do peso tradicional da obra de arte. Para ele, a autenticidade da obra de arte aurática é única e não pode ser reproduzida.

“Horácio” é um espetáculo criado em 2011, dos cariocas do Grupo Tarja, formado por Marcio Vito e Larissa Rodrigues (que dirigem esta montagem), além dos atores Felipe Sut, Ian Capillé, Lorrana Mousinho, Luisa Reis, Luiz Phillipe Tavares, Rach Araújo, Raisa Mousinho, Rodrigo Reinoso, Tainá Louven, Thiago Monte, que se conheceram no curso de artes cênicas da Unirio. A dramaturgia do espetáculo se sustenta na ideia de que Horácio, o amigo de Hamlet, escuta seu pedido ao fim da peça de que sobreviva para contar sua história. É ele quem conduzirá o público pela vingança trágica do príncipe da Dinamarca. Esta é a deixa para que a encenação seja conduzida de maneira a romper com o formato tradicional, aceitar a fragmentação, o comentário com a plateia, a atualização, a crítica pelo humor. Elementos que o trabalho, até certo ponto, manipula com maestria.

“Horácio”, muito provavelmente, não existiria não fosse “Ensaio.Hamlet”. O primeiro parece ser substrato do segundo. Uma “reprodução”, salvo todas as devidas proporções, que, embora muito bem realizada tecnicamente, não carrega a “aura” que tem o original. “A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica”, dizia Benjamim. O espetáculo do Grupo Tarja tem muitas qualidades como experiência teatral se o analisarmos isolado do contexto cultural que o gerou, mas as semelhanças com o trabalho da Cia. dos Atores são tantas que tendem a soar como contaminação excessiva. 

Não se trata de questionar as referências e as possíveis citações que o espetáculo tenha. Algumas delas muito sutis e bem-empreendidas, como a escolha de uma atriz para viver o protagonista, remetendo à montagem protagonizada por Claudia Abreu ou a carnavalização de outro momento, remetendo ao “Ham-let” de Zé Celso.

Os pontos de intersecção entre a obra da Cia. dos Atores e do Tarja já começam pelo espaço cênico. Os atores estão em cena, numa espécie de arena, quando o público entra. Cadeiras e outros elementos contemporâneos (óculos escuros, guitarra, capacete) e referências pop (como a maquiagem escorrendo pelos olhos) preenchem o espaço.  A relação que estabelecem com o texto também é muito similar, atualizando-o, comentando-o, ironizando-o. “Você acredita em Hamlet de cavalo branco?”. As semelhanças continuam ao longo da encenação (a forma como a música e a água são utilizadas no afogamento de Ofélia, os atores lendo trechos da peça, espada de desenho animado, lembrando o Power Rangers…), mas citá-las todas aqui seria um exercício exaustivo e desnecessário – até porque esses pontos de contato estão nos olhos de quem vê, no caso, os meus. 

Independentemente das conclusões quanto à proximidade ou não dos espetáculos (se essas semelhanças entre as duas montagens forem propositais e se tratarem de uma contaminação-homenagem, foram até muito bem feitas), “Horácio” atinge relevante resultado em suas propostas cênicas. A imagem clássica de Hamlet carregando a face da caveira dá início à apresentação. Mas essa construção é logo interrompida pela apresentação de que aquele é Horácio e que ele será o narrador da história. Esse pequeno deslocamento dramatúrgico proporciona uma série de recursos à dramaturgia e à encenação, como os comentários que este personagem faz ao longo da trama, numa função próxima ao do coro da tragédia, os apartes com a plateia,  a síntese de trechos que não serão ‘encenados’, o jogo ator/personagem que estabelece com os outros integrantes do elenco. Em alguns momentos, esse recurso é utilizado excessivamente, cabendo ao personagem funcionar quase que apenas como um “ponto” que sopra o texto ou faz pequenas piadinhas. Nesses momentos, se enfraquece. Gera empatia com o público, mas nem sempre acrescenta camadas à dramaturgia.

As composições de alguns atores se destacam no equilibrado elenco. Polônio aparece com sua bestialidade e infantilidade ressaltada pela interpretação do ator que lhe dá vida. Na pele do protagonista, a atriz mantém o vigor e a perturbação física que o personagem demanda, cabendo a ela os momentos mais “emocionais” da montagem. Em contrapartida, falta à caracterização da rainha o entorpecimento diante da realidade, tão bem ilustrado no breve momento da cena dos óculos escuros, os quais ela insiste em usar para não enxergar um palmo à sua frente. Cláudio também requer de algo mais para se mostrar tão sanguinário.

O humor é um dos pontos mais fortes da abordagem dada pelo espetáculo, como no momento em que morre Polônio, em que se estabelece uma convenção com o público. O único senão é que este elemento é repetido à exaustão em outras cenas (“morri!”), como se o grupo tivesse se empolgado com o resultado (riso) conquistado junto ao público.

Os símbolos também são utilizados de maneira inteligente e divertida. Os olhos são marcados pelo luto, simbolizado pela maquiagem preta, numa possível alusão de que aqueles personagens derramaram muitas lágrimas, ou ainda quando Hamlet se mostra tão ensimesmado em sua vingança que usa um capacete. A marchinha de Carnaval na cena do banquete de Cláudio, enquanto Hamlet diz que o hábito de beber e dançar já deixou o país famoso em terras estrangeiras, nos remete diretamente ao próprio Brasil. O grupo de atores formando o espectro do pai do Hamlet, além de uma bela imagem, remete aos coros gregos, espécie de “consciência” que insiste em assombrar Hamlet.

“Horácio” materializa em cena algumas questões caras ao teatro contemporâneo no Brasil: o processo colaborativo dos grupos, a relação com os clássicos e a construção de dramaturgia própria, as múltiplas técnicas a serviço do trabalho do ator, a relação com o espaço e com o espectador, resolvendo, em sua maioria, de maneira inventiva as propostas que levanta. Mas, cada espectador traz consigo, para o encontro teatral, seu próprio repertório. Minha relação com o espetáculo foi, em vários momentos, interrompida por uma sensação de “acho que já vi isso antes… e mais bem feito”. Até que ponto eu é que não estava excessivamente assombrada por “Ensaio.Hamlet”?.  É inegável a marca que alguns espetáculos deixam.

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29/10/2012 TAGS: FETO BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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