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Horizonte da Cena

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críticas

Dor Vestida: falas de Si, falas do Outro, falas de Nós

Reflexões a partir da performance Dor Vestida, de Juhlia Santos.

– Por Marcos Antônio Alexandre – Faculdade de Letras-UFMG/CNPq

Dor vestida 1 pablo bernardo

Dor vestida 1 pablo bernardo

dor vestida 2 pablo bernardo

dor vestida 2 pablo bernardo

Dor vestida 3

Dor vestida 3

Fotos de Pablo Bernardo

“Entrega e presença. Não pensar para justamente estar, de fato, na ação. Isso é um convite. O que fazer com essa dor? Você tem? Imaginei, idealizei? Criar uma ideia que encobre com um véu a sua presença, que é encoberta por um véu, me desvia pra onde não faz bem. Existem desvios tenebrosos também. 29 garrafas de água, fonte diretas da vida. O buquê, a corpa no vestido branco, música. Um convite à imagem do movimento interno que passei, expurgando dores, prisões, horrores, tradições. Uma vivência que me reverbera por dentro, pra dentro, saindo até pra fora. Ponho meus medos líquidos, incrustados, a serem lavados nessa comunhão, conjunta sempre”.

Esta é a sinopse divulgada sobre Dor Vestida, performance idealizada e apresentada por Juhlia Santos na 7ª Edição da segundaPRETA no dia 25 de março de 2019. A atriz-performer mais uma vez trouxe para o evento, de forma forte, contundente e sensível, a temática LGBTQI+ para o palco, e, novamente, o faz de forma implicada com sua enunciação, com o seu lugar de fala, expressando-se artisticamente a partir de uma perspectiva de dentro, assim como o fez em Se os homens são feitos de barro, as mulheres são feitas da lama, em companhia de suas parceiras de cena Giovanna Heliodoro e Daniele Milena[1], demonstrando espaços pelos quais as suas corporeidades transitam e/ou tendem ser encaixadas socialmente, desconstruindo estes lugares e pautando irrefutavelmente como seus corpos devem ser visibilizados.

Teatro é experiência. Assistir Dor Vestida é uma experiência que afeta a plateia presente e para escrever qualquer texto faz necessário expressar o quanto me senti “afetado” pela presença da atriz-performer em cena. Como “espectador” deixei o teatro Espanca em estado de contemplação, meio silenciado e gritando muito internamente pelo que pude presenciar no espaço. O público disposto em círculo no espaço observa as vinte e nove garrafas de água (fonte diretas de vida, nas próprias palavras fornecidas pela sinopse), muito bem distribuídas também em forma circular no “palco”, e um pequeno banco com um buquê de flores brancas. O que viria a ser presenciado? Um ritual de iniciação?

Teatro é presença, teatro se faz no presente, teatro é jogo, teatro é rito. Para Patrice Pavis “[a] presença estaria ligada a uma comunicação corporal “direta” com o ator que está sendo objeto da percepção.”[2]. Esta comunicação corporal “direta” a qual se refere Pavis é o ponto central que o público teve a oportunidade de observar com Juhlia Santos em estado de performance-presença em cena. O que se vê é um fluxo constante de sentimentos múltiplos que são, como um coquetel molotov, lançados para a plateia que se sente bombardeada em todos os sentidos. A presença da atriz em si, gera e é provocadora de dimensões múltiplas e amplificadas de experiências. Seu corpo – ou falando com a artista, sua corpa – adentra o espaço (tra/re)vestido num enorme tecido branco que nos remete a um vestido de noiva, que se converte em uma imensa grinalda e que é imediatamente ressignificada pela plateia. O aqui e o agora da cena é experienciado em cada movimento provocado pelo corpo/corpa vivo em presença que implode os sentidos no (e do) espectador, exacerbando formas recônditas de subjetividades. De quem é esta dor? Dela, minha, nossa, de outres? O que está por trás de cada gestualidade trazida para a cena-ritual? Quem decretou que as mulheres trans podem ou não vivenciar, experienciar, e mesmo, sonhar com o matrimônio e os ritos das bodas?

A cena-rito das vinte nove garrafas potencializa ainda mais as dores que vão sendo corporificadas por meio do corpo da atriz em performance. Juhlia Santos ocupa todo o espaço, expande-se com sua presença, imprime com gestos fortes, lança o seu olhar fundo nos olhares perdidos da plateia, se joga com seu corpo pelo espaço rebatendo-se, tocando em seu corpo, em seu sexo como se estivesse bradando a sua existência para todos, a sua corporeidade. Evidencia-se a necessidade urgente de naturalização de seu corpo e de todas as suas companheiras. E isso é realizado convidando algumas pessoas presentes a pegarem uma das garrafas dispostas no espaço para lavar o seu corpo e todos o fazem, cada qual a sua maneira, de maneira intensa e cheios de emoção.

dor vestida 4

dor vestida 4

Por meio deste ato provocativo, assim com a atriz o havia feito em Se os homens são feitos de barro, as mulheres são feitas da lama quando ela e Giovanna entregam aos presentes panos brancos para limpar os seus corpos enlameados. Juhlia faz com que cada pessoa ali presente reviste o seu corpo e veja nele algo que transcende, e muito, a sua genitália sexual. “Ponho meus medos líquidos, incrustados, a serem lavados nessa comunhão, conjunta sempre.” Falar das simbologias da água – purificação, nascimento, vida – torna-se a meu ver irrelevante. É mais interessante deixar os caminhos abertos para as interpretações do leitor e de seus futuros espectadores.

A performance de Juhlia Santos, como tem demonstrado as poéticas dos corpos negros contemporâneos, além de mexer com as subjetividades e fazer emergir afetos e afetividades entre os presentes, cumpre com a função política de humanizar os corpos, as identidades e presenças dos sujeitos/corpas trans, como nos chama a atenção o professor e pesquisador Carlos Magno Camargo Mendonça:

As performances visuais de pessoas trans são narrativas de resistência em que o sujeito fala por si mesmo, coloca seu próprio corpo em ação. Essas narrativas negociam a relação dos sujeitos com o mundo, restabelecendo os padrões de subjetivação e combatendo o preconceito.[3]

Falar de si aqui é falar do Outro, é falar com o Outro, é falar com o Outro que habita o Nós…

FICHA TÉCNICA:

Performer: Juhlia Santos | Produtora: Giovanna Heliodoro | Duração: 20 min | Indicação etária: 16 anos

[1] Para ter acesso a meu olhar crítico deste trabalho, acesse https://www.horizontedacena.com/quando-os-corpos-e-as-corporeidades-implodem-os-olhares-as-palavras-e-os-sentidos/.

[2] PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 305.

[3] https://www.ufmg.br/festivaldeverao/2015/noticias/37161/.

03/07/2019 TAGS: #segundapreta, Belo Horizonte, Performance, teatro brasileiro, teatro contemporâneo, Teatro negro 0 COMMENT
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    Marcos Alexandre

    Marcos Alexandre é doutor em Letras pela FALE-UFMG, bolsista do CNPq e professor Titular da FALE-UFMG, na graduação e na pós-graduação.

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