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| Rafael Spregelburd é ator, dramaturgo e diretor de Spam. |
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| O músico Zypce produz uma variedade de sons cambiantes. |
Espetáculo visto no dia 30 de março de 2014, no Festival de Curitiba.
por Soraya Belusi ::
| Cristina Banegas e María Onetto vivem mãe e filha em “Sonata de Otoño” (Fotos de Humberto Araujo- Clix Divulgação) |
A comparação não nasce à priori. É a relação que a própria obra, ao se colocar diante dos olhos do espectador, estabelece com sua fonte original que nos remete àquela experiência inaugural, criando parâmetros comparativos para o bem ou para o mal, considerando que uma outra “versão” ou “visão” pode sempre nascer quando um mesmo material cai em novas mãos. Não digo aqui de atender ou não a expectativas, embora estas me pareçam até certo ponto inevitáveis. O que pretendo é admitir, desde esse ponto, que as percepções a serem escritas estão sim impregnadas da primeira sensação que tive, como espectadora, da experiência de fruição dos filmes “Sonata de Outono”, de Ingmar Bergman, e “Bug”, de William Friedkin, que ganharam materialização nos palcos assinadas, respectivamente, por Daniel Veronese e Zé Henrique de Paula, apresentadas no Festival de Curitiba.
Não se trata aqui de comparar os filmes e as peças apenas como uma transposição de uma linguagem para a outra. Seria minimizar todas as implicações de criação que se instauram nesse procedimento. Mas, sim, de tentar perceber, através das escolhas artísticas dos espetáculos, de que maneira se aproximam ou se afastam do fator mobilizador de suas fontes originais, se ampliam suas leituras ou minimizam seu poder de impacto. A versão de Daniel Veronese para o reencontro entre mãe e filha, em que os rancores e amores se escancaram, parece não perder de vista, em momento algum, os elementos construídos pelo cineasta sueco. Ainda assim, o encenador e dramaturgo argentino consegue impregnar de incerteza as convicções daquelas personagens.
A frieza nórdica presente na obra cinematográfica transborda para a cena criada por Veronese seja pela palidez dos elementos que a compõem, com os móveis todos brancos, sem vida e diferenciação, seja pelo acúmulo de espaços em um mesmo plano, em que quarto, cozinha e sala estão todos lado a lado. Há algo de não-espetacular na opção de Veronese. O teatral, termo tão empregado no cinema de Bergman, não está em Veronese sobressaltado, a não ser nos corpos, nas falas e nos estados dos atores, característica que marca também a obra do sueco. A luz é estourada, branca, sem nuances, e as mudanças temporais e espaciais se dão pelos cortes no texto mais que pela ação dos personagens.
Esse procedimento teatral de Veronese parece sublinhar a construção psicológica do conflito entre mãe e filha, que não se viam há mais de 7 anos e cujo reencontro faz explodir uma série de questões reprimidas, silenciadas, amargadas. É como se neutralizasse o que é externo aos personagens-atores, opacizando o espaço, para lançar o foco sobre o que se passa no interior daquelas mentes e corpos. Nem mesmo a legenda em português, insistindo em adiantar os pensamentos e os diálogos, retira a força emocional que se estabelece das relações em cena.
Se associamos uma certa contenção aos comportamentos nórdicos e à direção de Bergman no que diz respeito à atuação, que mais esconde do que revela, é inegável que também remetemos à latinidade uma tendência ao extravaso, ao exagero e ao melodramático. Mas Veronese se afasta do sentimental ao optar pela carga emocional.
Os corpos de seus personagens revelam mais que escondem, parecem não ser mais capazes de se conter, como na obra cinematográfica. E as emoções surgem, assim, desmedidas, confusas, permeadas uma das outras, retirando as certezas que nós, espectadores, já tínhamos sobre a culpa e a absolvição daquelas personagens. Não é tão fácil mais distinguir quem é vítima ou quem é culpado. Instala-se a dúvida, a crise, a incerteza. “Sonata de Outono” nos apresenta, assim, novas camadas de percepção de algo que já conhecemos, sem com isso abandonar as potencialidades de sua referência anterior.
É de incerteza, inclusive, que se trata a obra cinematográfica de William Friedkin cuja matriz é a peça de Tracy Letts, “Bug”, que dá origem também à montagem do Núcleo Experimental, sob direção de Zé Henrique de Paula. Assim como Bergman não abandona seus protagonistas em sua Sonata, Friedkin leva às últimas consequências, com sua câmera, a construção artística da sensação de obsessão e paranoia que domina seus personagens. Uma espécie de fobia contagiosa, que passa através das telas para quem a compartilha, assim como contamina a mente de Agnes em sua convivência com Peter. Ambos encontram no outro a possibilidade de suprir suas demandas de medo. A relação amorosa aqui é que desencadeia essa aproximação paranoica, que se retroalimenta ao longo do tempo.
Cabe ao espectador duvidar do que vê, do que ouve, mas também do que entende como normal. Aos poucos, este é também desestabilizado de sua convicção sobre a paranoia alheia, é também ele “possuído” (tradução dada ao título do filme no Brasil) pela dúvida. Há algo realmente acontecendo ali? Sem esse questionamento interno, também paranoico, a potência da obra parece não se efetivar, como acontece na montagem teatral apresentada no festival.

| Foto de Jorge Mariano – Clix divulgação |
E, numa primeira percepção, as escolhas de encenação parecem não favorecer o contágio que Tracy Letts permite com seu texto. O conflito psicológico cede lugar à comicidade daquela situação, que, absurda por princípio, resvala no risível quando se abre mão totalmente de torná-la crível. A paranoia ganha contornos (luzes, números musicais, registros de atuação excessivamente estranhados) de mera alucinação, o que a desqualifica à priori. Alguns efeitos visuais só reforçam essa percepção, como as marcas exageradas pelo corpo que parecem ser feitas de canetinha ou ainda as luzinhas que piscam na tentativa de demonstrar a infestação. Parece não haver aqui espaço para o questionamento da lucidez ou loucura dos personagens, nem mesmo do público, para o qual é negado o direito de duvidar, inclusive, de si mesmo.
O Horizonte da Cena viajou a convite do festival.
por Luciana Romagnolli ::
| O ator Marcelo Olinto em cena de “Como estou hoje?”, escrito e dirigido por João Saldanha. |
Cesar Augusto, diretor de LaborAtorial, o ator Marcelo Olinto e o dramaturgo e diretor João Saldanha, de Como estou hoje?, falam dos espetáculos trazidos ao Festival de Curitiba pela Cia. dos Atores e da nova fase do coletivo carioca depois da saída do diretor Enrique Diaz.
De que maneira as questões da moda se relacionam à condição do ator em Como estou hoje?
João Saldanha: A moda como manifestação e conduta está próxima de toda e qualquer expressão artística e comportamental. Acredito que pela disposição de viver múltiplas identidades em períodos distintos da existência humana, o ator se veste e se despe com a mesma fluência que nós seres comuns trocamos de roupa, nas mais diversas ocasiões, condizendo ou não com o ambiente, dependendo, é claro, do que caracteriza sua personalidade para o desempenho de sua personagem.
Marcelo Olinto: No caso de Como estou hoje, se dá pelo meu gosto particular por moda, afinal, trabalho também como figurinista. E a simbiose entre o ator, o seu corpo e a roupa que o envolve já desperta múltiplas possibilidades.
A dramaturgia de Como estou hoje? se baseia em alguma pesquisa específica?
João Saldanha: A dramaturgia foi erguida pelo encontro com o ator Marcelo Olinto e suas afinidades com o mundo da moda a partir da vivência e de seus interesses pessoais. Suas opiniões sobre o texto determinaram todo o ritmo das ações e me influenciaram no olhar para a vida naquele momento, em especial. Os meses de junho e julho de 2013 no Rio de Janeiro foram marcados pelas ações e condutas da população que reivindica por uma melhor qualidade de vida. Então, posso dizer que o trabalho está cercado de indignação e posturas que admiramos e repudiamos no ser humano. É isso, a pesquisa decorreu dos fatos que estavam acontecendo naquele momento, e que para nós, artistas, são de um valor desmedido.
Marcelo Olinto: O que aconteceu foi a junção de forças em torno de um trabalho colaborativo. Por acompanhar a trajetória profissional do João, me vi várias vezes tomado e inspirado por seus projetos e por conta disso desejava partilhar com ele uma criação. Então, a partir dos nossos desejos, foi desenvolvido um texto escrito especialmente para o trabalho pelo próprio João, que nunca havia escrito para teatro antes.
Como pensa o lugar do espectador e a relação de convívio que se estabelece com ele?
João Saldanha: O espectador é sempre atravessado por imagens e palavras que importam e significam, suas reações são as mais diversas, isso quando ele está atento para essa experiência viva que é o teatro. Nesse lugar de encontro tudo é possível quando ele se permite entrar, quando está disposto, então nós do lado de cá estamos sempre querendo surpreender para acionarmos essa disposição no outro, pensamos nas mais diversas possibilidades, nos ritmos, nas ações, na entonação e claro, no sentido desse fazer teatral que é capaz de modificar vidas e condutas. O que é negociado é justamente a partilha de um momento único, onde somos todos estimulados a uma outra ideia de temporalidade, um lugar de afecções.
Marcelo Olinto: O espectador é convidado a participar de uma experiência visual, corporal e verbal. Quanto mais próximo for este convívio, mais interessante o trabalho ficará.

| LaborAtorial tem texto de Diogo Liberano, direção de César Augusto e Simon Will e atuação de Marcelo Valle. |
A sinopse de LaborAtorial fala que o texto traz uma “renovação do olhar sobre o real” e sobre mudanças de paradigma que influenciaram o homem contemporâneo. Poderia explicar melhor quais seriam essas influências de que o espetáculo trata e como são trabalhadas no espetáculo? É um jogo de construção e desconstrução de espaços/situações/ideias?
César Augusto – Retirando do contexto onde esta frase se insere, isso tudo soa profundamente pretensioso. Mas, vamos lá (risos): Partimos do princípio de que o personagem (neste caso, o próprio ator) ao se colocar em questão, se examina e procura através de procedimentos por ele mesmo construídos respostas para as suas inquietações, sejam elas artísticas, humanas ou políticas. Uma vez tendo a plateia como cúmplice, acreditamos que levantamos possíveis caminhos para situações que são, de certo modo, vivenciada por todos constantemente. No dia a dia, nas escolhas profissionais, no modo com que tratamos o próximo, e por aí vai. Esta possível autopsia ficcional ganha contornos muito pessoais e acredito que esta relação com o indivíduo é ponto nevrálgico para se lidar com o “ser” contemporâneo. Utilizamos e nos inspiramos em artistas que influenciaram muito o trabalho, entre eles William Kentridge, Bruce Nauman e Rafael França, vídeo-artista dos idos anos 70, que mereceu muita atenção durante o processo de construção do nosso trabalho.
Fala-se ainda em uma dramaturgia baseada em traços biográficos – são do ator, do autor do texto ou num jogo entre eles?
César Augusto – Este trabalho foi feito a oito mãos, quatro cabeças (com vários colaboradores), e isso fez com que, de certa forma, cada um de nós dentro da criação do espetáculo fosse extensão do outro. Eu dirigi a peça junto com Simon Will, do grupo anglo germânico Gob Squad. Diogo Liberano, dramaturgo, e Marcelo Valle, ator, formaram voz e pensamento em simbiose, um desaguava no outro na forma do fazer e de lidar com as situações. Fizemos esta peça em três etapas para conseguir chegar aos sete procedimentos que compõem o espetáculo. Marcelo se desdobra em mais dois para dar conta das suas possíveis, e por vezes fictícias, polaridades. O jogo, se é que esta palavra dê conta, prefiro “experimento”, se estabelece em cada etapa enfrentada e exposta pelo ator/personagem que, desde o início, é ele mesmo. Tudo está claro desde a chegada do público e, dentro desta possível trajetória, cada momento, cada observador, inclusive o próprio objeto de estudo, o próprio ator, são partes fundamentais para se construir este quebra cabeça.
Quais mudanças mais significativas se pode esperar/sentir na Cia, dos Atores nessa nova fase, sem a figura do Enrique Diaz?Marcelo Olinto: A saída da Drica Moraes e do Enrique Diaz com certeza foi muito sentida. Mas, ao mesmo tempo, nos fez repensar sobre nossa parceria, impulsionando-nos para novos desafios. O resultado disso? A produção de três novos trabalhos com criadores da melhor qualidade e ao mesmo tempo reforçamos os nossos laços artísticos e pessoais. Estamos vivendo, com certeza, um grande momento.
César Augusto – Nosso trabalho desde a formação da Cia. dos Atores sempre foi extremamente colaborativo em cada processo de criação. Assim aprendemos a lidar com o texto, a interpretação, cenário, produção, figurinos e por aí vai. E, exatamente por isso, pouco ou quase nada muda a não ser o prazer de tê-lo junto dentro deste modo de trabalho. Nosso último trabalho juntos já tem muito tempo. Depois, iniciamos uma série de trabalhos individuais aos quais demos o título de Autopeças. Estas “peças” ganharam asas e participaram de várias temporadas, juntas, separadas, em ocupações, como foi o caso do Festival de Curitiba, quando ocupamos o Teatro Paiol. Este já era o prenúncio de que precisávamos mudar, criar outros caminhos. Nos admiramos todos e sabemos que tanto juntos quanto separados somos e seremos referências para nós e para muitas gerações. Construímos um legado, mas não precisamos ser subservientes a ele. Muito pelo contrário… Dentro destas circunstancias, Enrique e Drica (Moraes) resolveram que era hora de cortar o vínculo com a companhia. Isso foi forte, contundente, mas profundamente orgânico.
A partir daí, o destino, as coincidências, a necessidade de estarmos ainda juntos, até mesmo para cumprir as demandas importantes referentes a patrocínio, nos deu condições para dar conta das mazelas das perdas e das desconexões. O resultado foi além do esperado. Comemorando 25 anos de história, criamos três rebentos lindos e que andam com suas próprias pernas: “Conselho de Classe”, uma parceria com Jô Bilac, “Como estou Hoje”, outra parceria com o coreografo João Saldanha, e o “porque” desta entrevista – “LaborAtorial”. Vale citar que a nossa sede, localizada na Lapa, na famosa escadaria de ladrilhos, chamada Escadaria Selaron, agora se chama Sede das Companhias e, até nisso, estamos proliferando. Agora gerida pela Cia. Dezequilibrados, estamos lá dividindo o espaço com eles e a nova, e muito interessante, Cia. Pangeia. Como se percebe temos muito que fazer e, assim, trilhamos a nossa história.
No caso desses três trabalhos da Cia. dos Atores que vêm ao festival, haveria uma preocupação política em comum com o momento socioeconômico do país?
César Augusto – Não, os espetáculos têm independência total nas escolhas, sejam dramatúrgicas, estéticas, políticas. Claro que, como fruto de criações contemporâneas, existem coincidências que reiteram nosso trabalho e afinidades artísticas.
por Luciana Romagnolli ::
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| Rafael Spregelburd é ator, dramaturgo e diretor de Spam. |
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| O músico Zypce produz uma variedade de sons cambiantes. |
por Luciana Romagnolli ::
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| Spam. |
Ator, diretor e dramaturgo argentino de projeção internacional, Rafael Spregelburd traz ao Festival de Curitiba um ópera falada apocalíptica, Spam, sobre a virtualidade do mundo atual. Abaixo, ele fala criticamente da apatia social e dos efeitos da crise econômica e política sobre o teatro argentino.
Somos nostálgicos de uma ordem desinflada, que parece estar sendo abandonada, mas pessimistas sarcásticos de uma ordem por vir, prenha de ameaça e desumanização.
Em nossos dois últios trabalhos conjuntos (“Apátrida” y “Spam”), Zypce e eu temos tratado de construi sensivelmente um teatro que nos interesse. Não somos puristas das categorias de ópera nem de teatro puro. O importante é sempre gerar uma convivência interessante e dinâmica com o público real.
Quais aspectos do mundo contemporâneo são evidenciados no espetáculo?

Como a crise política e econômica da Argentina está afetando o teatro do país?
Não há crise econômica que pareça poder derrubar o teatro na Argentina. A maior de que me recordo (a de 2001) propulsionou um enorme movimento de criadores e público: salas, museus, centros culturais nunca estiveram tão cheios, tão ativos, tão povoados de espectadores necessitados de convivência dentro dos parâmetros da arte. Mas penso que às vezes acontece o contrário: as sociedade muito estáveis que conheci, muito assentadas sobre sua razoável estabilidade sociopolítica, às vezes carecem de teatro e isso não parece representar um problema para ninguém. Me impressiona muito o caso da Suécia – um país que me parece magnífico em muitíssimos sentidos, onde eu gostaria de viver minha velhice e criar meus netos, mas onde o teatro contemporâneo praticamente não é feito. O teatro das sociedades ordenadas vive de exprimir os eternos modelos de seus exíguos clássicos. O de países em crise ferve o tempo todo e trata de gerar respostas imediatas, torpes às vezes, balbuciantes, mas definitivamente muito coloridas.
por Luciana Romagnolli

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| Fotos de Annelize Tozetto. |
Está na base do processo criativo do grupo carioca Teatro Inominável deixar as inquietações que o movem determinarem a forma do espetáculo a ser criado. Foi assim com Sinfonia Sonho (Fringe 2012), ao narrar o massacre de alunos em uma escola recorrendo a fragmentos poetizados de atuação: o grupo respeitava uma distância dos acontecimentos, ciente de que seria impossível compreender o horror. Já Vazio É o Que Não Falta, Miranda (Fringe 2013) tomava os desacertos e a inconclusão de Esperando Godot como elementos estruturantes, de modo que a máxima beckttiana “tentar de novo; falhar de novo; falhar melhor” se transformava num jogo de improvisações.
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| Diogo Liberano, o diretor. |
Há uma grande aposta do grupo no poder do simbólico e em que o espectador busque além do palco as conexões e os sentidos, como na cena em que o nome de Gleisi Nana (ativista carioca morta em um incêndio após denunciar a ameaça de um policial) é citado sem contexto. Se o ator capta o espectador pelo olho, logo o perde na prolongação desta ação a cada um dos indivíduos presentes na plateia. Cenas como esta ou o longo silêncio sustentado por uma atriz prescindem ainda de ritmo e de presença para surtirem outro efeito que não o desligamento entre palco e plateia.por Luciana Romagnolli

O paranaense Marino Jr. apresenta seu trabalho como diretor na Mostra Contemporânea do Festival de Curitiba pela primeira vez. Em Tumba de Cães, ele monta o texto da italiana Letizia Russo,ambientado em um mundo esgotado pela guerra. Saiba mais na entrevista abaixo.
Veja informações sobre o espetáculo aqui.
Gostaria que começasse comentando o contexto de produção do espetáculo. Faz parte de uma pesquisa ou de um tipo de linguagem que a cia. Metáfora já vinha desenvolvendo? O que impulsionou esse projeto?Há muito gostaria de apresentar ao público brasileiro um espetáculo que pudesse mostrar algo produzido pela cultura italiana e que fugisse de qualquer clichê. Tenho enorme influência e admiração pelo teatro italiano contemporâneo. Morei por duas vezes na Itália e pude acompanhar de perto a cena daquele país que, de certa forma, reflete muito da estética cênica europeia. Os centros de produção de lá trocam
muitas informações entre si além de coproduzirem seus espetáculos, o que é fundamental para nosso setor. Tive um primeiro contato com a autora em 2003 quando assisti a uma montagem de um texto seu no Teatro Cavalerizza em Reggio nell’Emilia. Em 2011, quando colaborei junto ao Piccolo Teatro di Milano, fiz uma pesquisa a respeito dos autores italianos que haviam sido traduzidos para o português. Um dos nomes que apareceu como expoente da cena italiana foi justamente a Letizia Russo, que em 2001 com apenas 21 anos, havia vencido o prêmio Tondelli, (o mais prestigiado prêmio de dramaturgia na Itália) com “Tomba di Cani”. Em 2013 o texto me foi trazido pela atriz Andressa Medeiros, que faz parte da montagem, e participamos de uma leitura dramática dentro do Mia Cara Curitiba, evento que apresenta de muitas formas a cultura italiana. O resultado positivo nos impulsionou a dar andamento em um projeto de encenação. Tal projeto só poderia acontecer através da Metáfora, que se trata de um coletivo de profissionais cênicos, diretores e atores do Teatro Lala Schneider, que se forma para atuar em projetos semelhantes a este.
Li a Letizia Russo dizer que o que interessa a ela no teatro é explorar os pontos de vistas de diferentes pessoas. Isso faz sentido para o espetáculo Tumba de Cães? Se sim, como essas perspectivas distintas aparecem na dramaturgia?
Sim. Uma das tantas características da dramaturgia dela é a complexidade das personagens. A experiência de vida e a história de cada uma delas fazem com que elas tenham pontos de vista muito diferentes e distintos entre si. É justamente isto que as torna tão reais. São pessoas, absurdamente vivas, assombradas por problemas do presente e também por fantasmas do passado que põem pra fora lentamente suas angústias e conflitos. Tem uma frase dela que explica um pouco seu método de trabalho em Tumba de Cães: “Porque escrevi? Porque aquilo que faço é observar. Entender não é que me interessa tanto”. Fico pensando: as pessoas fazem coisas boas e más de acordo com seus critérios morais. Quando o público vier ao teatro irá perceber que: um esperado término de uma guerra em um determinado país pode ter significados muito distintos sob a ótica de cada uma das personagens.
Como você se apropria do texto dela para criar a encenação?Dando ao público pontos de vista distintos para a ação. A cenografia e a luz criadas por João Luiz Fiani quebram a inércia da cena. Assim, o ponto de vista do público ao acompanhar a narrativa nunca é o mesmo.
Todavia este é um espetáculo de texto e interpretação. Fico pouco confortável em utilizar a palavra encenação, uma vez que pode indicar uma ampla proposta estética. Não que não haja, mas como artista e pela experiência que tenho ao longo de tantos anos acredito que a matéria prima do teatro de prosa é e sempre será o texto. O ingrediente principal. E quando você tem a oportunidade de dirigir um espetáculo a
partir de uma matéria prima de qualidade, você deve ter cautela com as escolhas que faz. No caso deste espetáculo tenho procurado valorizar o subtexto, aquilo que não está escrito e que não é dito pelas personagens. Os conflitos que elas carregam, mas que não colocam para fora. Vai parecer paradoxal, mas posso dizer que se a direção conseguir ser discreta aos olhos do público e sutilmente inventiva na forma como apresenta o espetáculo teremos atingido o objetivo maior da montagem.
O espetáculo se apresenta como um drama, contudo, passa-se em um mundo apocalíptico. Como esse mundo é retratado pela linguagem visual do espetáculo e pelo tipo de atuação? Podemos esperar um drama no sentido clássico?Tem duas informações importantes para nós e que estão presentes no texto da Letizia: “ação em tempo presente” e o “não lugar”. Isso nos ajuda a eliminar qualquer tipo de clichê sobre o macrotema apresentado: a guerra. Sim é um mundo apocalíptico. Como poderia ser o Afeganistão e o Iraque de 2002, a Síria e a Palestina de hoje ou o Vietnã de 1975. Ou quem sabe um futuro conflito de grandes potências militares disputando hegemonia no leste europeu ou no norte da África. Então a genialidade do texto e por consequência da nossa montagem, foi ter como objetivo principal os dramas individuais das personagens que se transitam por este contexto mais amplo, da guerra. Visualmente falando a ausência, ou melhor dizendo, a escassez de elementos auxilia a criar a atmosfera vazia que o espetáculo necessita. Com relação à
atuação temos sim, um drama, quase familiar, onde as personagens munidas de grande força dramática demonstram paradoxalmente uma disposição para superar a situação limite de constante espera onde: “os anos voam, mas as horas não passam”. Uma espera pelo fim. Um fim que nunca chega. Exatamente como em “Final de Partida” de Beckett. Isso por si só já diz que não se trata propriamente de um drama clássico, mas a essência está lá.
Como está sendo trabalhar com Ranieri González?
Ranieri é um amigo de longa data. Temos uma história muito bacana. Estivemos juntos em Aurora da Minha Vida, com direção de Gabriel Villela, em 1997 pelo TCP/Guaira. Depois entre 1998 e 2000 ele atuou em vários espetáculos conosco. Mas a escolha não se deu por amizade e sim pela singularidade de seu trabalho. Quando o convidei no dia seguinte ele apareceu com o longo texto cheio de anotações. Um profissional dedicado, criativo, preciso e talentoso. Algo raro no teatro atualmente de hoje. O fato de estar trabalhando com textos de grande importância na cena atual contou também. A forma inteligente como conduz seu trabalho está ajudando a desenvolver o processo de forma mais ágil e até sensível. Seu personagem, Johnny, praticamente não sai de cena e conduz toda a história. Ele cuida de sua mãe cega (Simone Klein) e mantém um relacionamento com a vizinha Mánia (Andressa Medeiros) de onde deriva a maior parte de seus problemas na ação.
Se pensarmos nas recentes ondas de calor e frio acima da média e outras mudanças ambientais, assim como nas manifestações populares desde junho, quais paralelos traça entre o espetáculo e o momento atual?
Sempre que se fala sobre guerra a maior parte dos brasileiros mantém uma postura distante, até certa forma alienada. Nossa história de poucos conflitos bélicos não ajuda a formar uma opinião crítica sobre conflitos espalhados pelo mundo. É como se vivêssemos em uma ilha. A peça mostra que a manutenção da guerra em países em conflito é muito importante sob aspectos muito sombrios. Mais importante do que um tratado de paz. Além disso grande parte dos conflitos que acontecem hoje no planeta não são por razões sensatas, ou críveis sob a nossa ótica ocidental. O texto aborda isso de forma categórica: “Querem algo pelo que lutar? Esqueçam Deus. A água é Deus e nossa senhora”. Tenho a plena convicção de que em razão do desequilíbrio climático, em breve o mundo passará por uma escassez de recursos naturais. O crescimento populacional desproporcional à quantidade que planeta consegue produzir alimentos será um ponto crucial para sobrevivência da espécie humana. Este dois fatores somados deverão aumentar os conflitos entre nações, principalmente aquelas vizinhas. Basta que olhemos para a Ucrânia, onde um pouco desta teoria parece estar sendo ensaiada. Um país dependente do gás russo, mas onde a vontade popular se manifesta de forma mais forte desejando um alinhamento com a cultura ocidental. Ou o que dizer do conflito da Síria? Afinal entendemos mesmo os motivos para aquilo? Todavia, nosso espetáculo mostra que mesmo nestes conflitos, em uma situação extrema, as pessoas continuam vivendo, comendo, dormindo e traindo umas às outras. Enfim, acho que no nosso “tempo presente” o que menos há é escassez de paralelos entre o espetáculo e o mundo de hoje.
De que maneira os territórios do Ceará e de Porto Alegre estão presentes no espetáculo? E as condições sociais e culturais de travestis e transformistas são semelhantes nesses dois extremos do país?
Como foi a pesquisa para o espetáculo? Que situações observou, o que mais atraiu seu olhar, o que o quebrou expectativas ou as reafirmou?
A pesquisa consistia, principalmente, na montagem do espetáculo a partir de três pontos. Primeiro, um laboratório/pesquisa de campo onde eu deveria me travestis e circular pela cidade de Porto Alegre para ambientes como teatros, padarias, super-mercados, restaurantes e hotéis, bem como acompanhar o trabalho de travestis nas ruas de prostituição e casas de show transformista. Segundo, colher registros de artigos, literatura, histórias contadas. Terceiro, uma oficina de teatro para travestis, sendo este o que mais me interessou, pois o mesmo foi realizado ao longo de dois meses no PCPA (Presídio central de Porto Alegre, o segundo no país com ala só para travestis e seus companheiros). No presídio eu fui tocado pela possibilidade de dignidade, pois a partir do momento que foi permitido às travestis e seus companheiros exercerem dentro do presídio o afeto, e a possibilidade delas exercerem sua sexualidade, houve uma grande mudança na conduta e aceleração no processo de reabilitação.
O presídio foi minha grande experiência, pois ao mesmo tempo que me fez perceber a importância dessa ação, também me causou angústia ao retornar pro Ceará e ver que no meu estado essa realidade no sistema carcerário é cruel e desumana.
A sua história pessoal está inserida no espetáculo de alguma forma?
A todo instante. O espetáculo é um revelar-se, trata-se de uma exposição do Silvero. Nele sou capaz de abrir minhas experiências, tentar levar o espectador aos ambientes por onde percorri e presenciei as situações, além de expor questões bem pessoais como a minha sexualidade na infância, na família e na sociedade em que vivo.
Como se estrutura a linguagem cênica?
Particularmente eu considero um espetáculo antropológico – autofágico – esquizofrênico. Eu não tenho como engessa-lo em um gênero teatral. O que mais me satisfaz nesse trabalho é a capacidade, enquanto artista, de ter verdade e liberdade com o público. Fazer um teatro onde tudo que é dito é real e sincero.

Repito a pergunta acima, mas em relação à sua análise sobre quais as condições do país para atrizes travestis ou transexuais.
Por Luciana Romagnolli e Soraya Belusi
A pergunta é: o que ver no Fringe? Faço abaixo minhas escolhas depois de uma olhada atenta no guia. Mas uma olhada nunca é o bastante. Por isso, este é um post sujeito a alterações e, sobretudo, a riscos. Assumir alguns riscos, afinal, é o caminho para se escapar do comodismo. Então, vamos às indicações e apostas:
A PEREIRA DA TIA MISÉRIA
Raro espetáculo do interior do Paraná a ganhar o Prêmio Gralha Azul. Informações aqui.
DESTINO DE DUAS VIDAS OU TRÊS
O interesse aqui está no texto do argentino Rafael Spregelburd, um dos principais artistas do teatro daquele país atualmente, de quem se verá na Mostra Contemporânea o espetáculo Spam. No Fringe, a direção fica por conta de Lubieska Berg. Informações aqui.
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| Billie. |
BILLIE
Agora radicado em São Paulo, o diretor curitibano Alexandre França dá forma poética à biografia de Billie Holiday, representada por Cássia Damasceno, integrante da Companhia Brasileira. Informações aqui.
| Descartes com Lentes. |
DESCARTES COM LENTES
Solo de Nadja Naira, da Companhia Brasileira. A atriz dá corpo e cria uma profusão de imagens para a escrita inesgotável de Paulo Leminski. Se ainda não viu, não perca. Informações aqui.
DO CÃO FEZ-SE O DIA
O dramaturgo e diretor paranaense Marcelo Bourscheid se inspira no universo do escritor Valter Hugo Mãe. Informações aqui.
DONA MACBETH
Novo trabalho do diretor paranaense Rafael Camargo, com três décadas de carreira no teatro. Informações aqui.
DUAS CRIATURAS GRITANDO NO PALCO
A curitibana Cambutadefedapata (de Henfil, Já!) estreia um texto inédito do dramaturgo Manoel Carlos Karam, com direção de Gabriel Gorosito. Informações aqui.
DUAS DA MANHÃ
O diretor curitibano Diego Fortes, da Armadilha, contrapõe o início e o fim de um amor. Informações aqui.
EMILIANO
Não sei vocês, mas eu fico muito curiosa em ver um trabalho do Paraguai, esse país aqui ao lado e que reduzimos a estereótipos. Informações aqui.
ENTRE NÓS – UMA COMÉDIA SOBRE DIVERSIDADE
A montagem, que integra a Mostra Baiana, problematiza a questão da homossexualidade no teatro. A peça se constrói como uma grande pergunta, que, pouco a pouco, vai sendo respondida pelos personagens. Leia crítica assinada por Júlia Guimarães aqui.
GAFANHOTO
Destaque do Fringe no ano passado com “Parido” e “Zero”, Don Correa assina a direção de “Gafanhoto”, trabalho que nasce sob a coordenação do projeto desenvolvido por Roberto Alvim no Sesi-PR. Leia crítica de Soraya Belusi aqui.
INSONE
Espetáculo de dança vindo do Espírito Santo, percorreu o Palco Giratório no ano passado. Informações aqui.
MELHOR IR MAIS CEDO PULAR DA JANELA
Com texto e direção de Leo Moita, o espetáculo foi um dos destaques da Mostra de Dramaturgia do Sesi Curitiba, em 2012, projeto sob a coordenação de Roberto Alvim. Leia crítica de Luciana Romagnolli aqui.
NÃO VEJO MOSCOU DA JANELA DO MEU QUARTO
O núcleo paulista Corpo Rastreado se inspira na obra de Tchékov As Três Irmãs. Direção de Silvana Garcia e com a atriz curitibana Sol Faganello (ex-Armadilha). Informações aqui.
O MALEFÍCIO DA MARIPOSA
Espetáculo ganhador do Gralha Azul, principal prêmio teatral do Paraná, em 2012. Texto de Federico García Lorca. Informações aqui.
O CIRCO DE SOLEINILDO
Sensível trabalho circense vindo da Bahia e que questiona o lugar desta arte hoje. A cena curta foi um dos destaques do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. Informações aqui.
| Obscura Fuga da Menina… |
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| Os Gigantes da Montanha. |
PARA POE
Entre as atrações do Coletivo Pequenos Conteúdos, Para Poe se destaca pela pretensão de misturar o universo de Edgar Allan Poe com zumbis e estética anos 1980. Com Thiago Inácio e Clarissa Oliveira, dois veteranos do TUC. Informações aqui.
TRÊS POR QUATRO
No elenco, Davi de Carvalho, que atua com Diogo Liberano em Vermelho Amargo (veja abaixo) e Dominique Arantes, colaboradora do Teatro Inominável (RJ). Informações aqui.
UM ROSTO QUE ESPREME
A escrita teatral de Anna Johann é uma descoberta da Mostra de Dramaturgia do Sesi-PR, em 2012. Neste trabalho, com direção de Diego Fortes, a autora lança um olhar sobre o microcosmo de uma família moradora de um condomínio. Leia crítica de Luciana Romagnolli aqui
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| Vermelho Amargo. |
VERMELHO AMARGO
O carioca Diogo Liberano (que estreia Concreto Armado na Mostra Contemporânea) fez a dramaturgia e dirige nessa adaptação da obra do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, que tem em cena Davi de Carvalho, Daniel Carvalho Faria e Luiz Paulo Barreto. Informações aqui.
WHISKY E HAMBURGUER
Vamos ver a nova criação de Mario Bortolotto sobre anseios masculinos na maturidade. Informações aqui.
#ZEQPOP
A diretora curitibana Andrea Obrecht (que trabalhou com a Pausa Companhia) dirige o texto de Adriano Esturilho, com Ciliane Vendrusculo (da CiaSenhas) no elenco. Informações aqui.
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| Diogo Liberano, à direita. |
Em dois anos, o carioca Diogo Liberano já deixou suas marcas no Festival de Curitiba. Em 2012, passou pelo Fringe com Sinfonia Sonho, do grupo Teatro Inominável; em 2013, voltou à mostra paralela com Vazio É o que Não Falta, Miranda e escreveu Maravilhoso, espetáculo que esteve na Mostra Contemporânea. Nesta edição, é possivel ver mais do trabalho do ator, dramaturgo e diretor em franca ascensão no teatro brasileiro. Liberano estreia Concreto Armado na Mostra Contemporânea no dia 26 de março, com o Teatro Inominável; assina a dramaturgia de LaborAtorial, um dos três espetáculos trazidos pela Cia. dos Atores; e ainda leva ao Fringe sua versão para Vermelho Amargo, adaptação do romance do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, morto em 2012. Na entrevista abaixo, ele comenta os três trabalhos e outras ideias sobre teatro.
Esse parece ser um espetáculo feito “no calor da hora”, sem uma maior possibilidade distanciamento por estarmos vivendo agora as consequências prévias e expectativas sobre a Copa. Como isso é trabalhado na linguagem do espetáculo e o que implica eticamente em sua construção?

Investigamos física quântica, budismo, astrologia, economia compartilhada, poesias inúmeras, hibridismos… Um leque de olhares que, quando postos sobre o corpo do ator, revelaram novos horizontes. De alguma forma, o espetáculo – e a dramaturgia – buscam colocar em cheque (sem nenhum desejo de destruição) alguns valores que nos acompanham e que já se tornaram hábitos. É um experimento sobre si mesmo, mas voltado para o outro.

Talvez tudo isso seja só um desejo meu que nem chegue a acontecer de fato. Mas o meu trabalho é também sobre o que não se vê, sobre o incerto, sobre apostas… Tudo isso tem sido um ponto crucial da minha investigação artística
