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Horizonte da Cena

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Brinco de Ouro: O Funk como Potência Máxima da Arte Contemporânea

Brinco de Ouro: O Funk como Potência Máxima da Arte Contemporânea

por Bramma Bremmer

Crítica a partir do espetáculo Brinco de Ouro, da Cia Lá da Favelinha, apresentado em 16 de agosto de 2026 no Grande Teatro do Sesc Palladium 

A programação do Palco Giratório em Belo Horizonte, acompanhada em parceria com o Coletivo Horizonte da Cena, trouxe em seu terceiro dia a apresentação de Brinco de Ouro, espetáculo da Cia Lá da Favelinha. A montagem ocupou o grande teatro do Sesc Palladium, no domingo, às 18h, provocando um impacto cênico e sensorial arrebatador.

Ver os corpos periféricos, oriundos do Aglomerado da Serra, tomarem a cena de um dos principais equipamentos culturais da cidade carrega um forte sentido político e poético. Diante de um cenário marcado pelo avanço de discursos conservadores e tentativas recorrentes de criminalização do funk, frequentemente associado de forma estigmatizada à violência, o trabalho afirma a dança, o passinho e a sonoridade das favelas como expressões da arte contemporânea em sua máxima potência.

A realização evoca também uma reflexão sobre a historiografia da dança em Belo Horizonte. A trajetória da área na cidade é construída fundamentalmente por artistas negres – bailarinos, dançarinos e coreógrafos que, ao longo das últimas décadas, fundamentaram a linguagem local, ainda que a narrativa institucional insista por vezes em invisibilizar esse protagonismo. Brinco de Ouro reafirma esse legado ao projetar a dança preta e periférica para o centro do debate estético.

Sem invalidar a relevância de companhias históricas e de projeção internacional, como o Grupo Corpo ou a Cia de Dança do Palácio das Artes, o espetáculo impõe um questionamento direto ao campo artístico e ao público sobre os limites do que se reconhece e se valida como arte. A movimentação em cena destaca-se pela sofisticação técnica, aliada a um elaborado desenho de iluminação que valoriza a diversidade dos corpos presentes – com representatividade de mulheres e da comunidade LGBTQIA+.

A criação articula múltiplas linguagens e referências simbólicas, costurando diálogos entre o funk, a capoeira, o vogue e diferentes manifestações de religiosidade e espiritualidade. Entre os recursos de cena, sobressai-se a presença de um intérprete de Libras que traduz e dança a linguagem dos sinais no ritmo do funk, integrando-se organicamente à dinâmica das demais atuantes.

 

Foto: Ester Teixeira

A própria escolha do título carrega uma dimensão histórica que amplia a leitura da obra. O brinco de ouro, utilizado por pessoas negras durante o período colonial e, posteriormente, transformado em símbolo de resistência, reaparece aqui deslocado para os próprios corpos dos bailarinos. O ouro deixa de ser apenas um objeto de adorno e passa a significar presença, memória, ancestralidade e afirmação. O corpo periférico, tantas vezes associado pela narrativa hegemônica à falta, aparece em cena como aquilo que reluz, que produz linguagem e que reivindica seu lugar na História.

Esse gesto de ressignificação parece atravessar toda a construção do espetáculo. A favela não é apresentada como cenário de carência ou como território a ser explicado ao público de fora. Ela aparece como lugar de produção de cultura, de invenção estética e de elaboração de uma identidade própria. O funk, nesse contexto, não funciona apenas como trilha sonora ou referência musical, mas como uma tecnologia de criação e organização dos corpos. Os passinhos tornam-se dramaturgia, memória e discurso.

Também chama atenção a maneira como Brinco de Ouro tensiona a relação entre a cultura periférica e os espaços tradicionalmente legitimados pela arte institucional. Se por um lado existe uma conquista simbólica na chegada desses corpos ao palco de um grande teatro, por outro, a potência do espetáculo está justamente em não pedir licença para existir nesse espaço. A presença da Favelinha Dance não parece interessada em adaptar sua identidade para caber no imaginário de uma dança legitimada. É o próprio espaço que precisa se ampliar diante daquilo que a cena apresenta.

Essa tensão se torna ainda mais evidente na relação entre o funk e as linguagens historicamente reconhecidas pela dança erudita. O espetáculo não tenta transformar o passinho em uma espécie de “dança contemporânea” para que ele seja aceito. Ao contrário, afirma sua especificidade e demonstra que há sofisticação técnica, elaboração coreográfica e pesquisa de movimento em linguagens que durante muito tempo foram colocadas à margem dos circuitos institucionais. O que está em jogo, portanto, não é apenas ocupar o palco, mas deslocar os critérios pelos quais esse palco decide o que merece ser visto como dança.

O figurino também participa dessa operação. Bermudas, croppeds, óculos Juliet, chapéus e correntes, elementos associados à estética das periferias e apropriados por outros segmentos sociais, são devolvidos à cena como marcas de pertencimento. A escolha de colocá-los em corpos periféricos dentro de um teatro tradicional produz uma inversão interessante: aquilo que muitas vezes é consumido como tendência quando deslocado para outros corpos retorna à sua origem e afirma sua dimensão cultural e política.

No encontro entre funk, capoeira, vogue, religiosidades e outras referências, Brinco de Ouro constrói uma cena que não se organiza pela pureza de uma linguagem. Sua força está justamente na mistura, na capacidade de fazer diferentes manifestações culturais coexistirem sem que uma precise apagar a outra. É uma dramaturgia do corpo que se constrói pela acumulação de memórias e pela reinvenção permanente dos códigos que atravessam a experiência periférica.

Há ainda algo especialmente significativo no fato de o espetáculo ser resultado de um processo coletivo de criação. A experiência de artistas que já dominavam os passinhos é deslocada para uma estrutura de longa duração e para um palco de grandes dimensões. Esse processo não apaga a origem da linguagem, mas exige que ela encontre novas formas de organização. A passagem do pequeno para o grande, do baile para o palco, não significa necessariamente abandonar a rua. Talvez seja, justamente, uma maneira de levar para dentro da instituição aquilo que a instituição historicamente não soube reconhecer.

Sob a direção do coreógrafo e bailarino Léo Garcia, artista com atuação de destaque no cenário nacional e parcerias com nomes da música como Anitta, a Cia Lá da Favelinha consolida a força criativa que emerge do Aglomerado da Serra. Ao transformar o próprio corpo em ouro, a obra afirma que a riqueza da favela não está apenas nos objetos que dela podem ser extraídos ou nas tendências que serão apropriadas pelo mercado, mas na inteligência criativa de seus artistas, na memória de seus territórios e na capacidade de transformar experiência em linguagem.

Foto: Wallan Santos

Ao ocupar o circuito do Palco Giratório, a Cia Lá da Favelinha reafirma que a circulação de uma obra também pode ser uma forma de deslocar imaginários. Levar o funk, o passinho e os corpos periféricos para diferentes palcos brasileiros significa ampliar as possibilidades de encontro entre públicos e linguagens. E, nesse movimento, Brinco de Ouro não apenas ressignifica a favela: ressignifica também o próprio lugar da dança dentro daquilo que entendemos como arte contemporânea.

 

 

Bramma Bremmer é artista de Belo Horizonte, transitando entre o teatro, o cinema e a literatura. Desde 2016 é cocriadora e atriz em diferentes projetos da Plataforma Beijo, entre eles os espetáculos Projeto Maravilhas, Encanto dos Insetos e Fazer Festa com o Perigo, além da mostra Quarta Kuir. É coordenadora de comunicação do Centro Cultural Galpão Cine Horto desde 2022 e já atuou em diferentes curtas e longas-metragens no audiovisual brasileiro. Participou como crítica teatral em mostras e festivais na cena mineira, e atualmente é também curadora e coordenadora geral do Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.

 

FICHA TÉCNICA

Direção e Coordenação Geral: Kdu dos Anjos

Direção Artística e Concepção: Léo Garcia

Intérpretes Criadores: Dudu Sorriso, Fidelis, Mr. Jhones, Samy Oliveira, Tiphany Gomes, Vitinho do Passinho, Negona Dance

Assistência de Direção e Produção: Ester Teixeira

Ass. de Produção: Cauã Reis

Figurino: Remexe: Carla d´la, Iara Drummond,  O Corre das Linhas: Camille Reis

Ass. Figurino: Camille Reis, Halisson Naninne

Iluminação: Veec Santos Operação Régelles Queiroz

Mixagem, Masterização e Operação de Trilha: Faew Faew

Cenografia:  Verônica Souza – Na Tora Design

Fotografia Still: Ester Teixeira

Gestão Administrativa e Financeira: Marcella Mourão

Comunicação: Sacode Comunicações e Artes

Direção Criativa e Estratégica: Samuel Carrasco

Assistência de Produção: Yasmim Mansur

Design: Izabela Santiago e Sherman Benks

Gestão de Mídias Sociais e Impulsionamento: Keziah Ferrer

Assessoria de Imprensa: Diogo Locci e Angelina Colicchio

 

24/08/2026 TAGS: #dancacontemporanea, #teatrocontemporâneo, Palco Giratório, Sesc MG 0 COMMENT
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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