Por Guilherme Diniz
Crítica a partir do espetáculo Dandara na Terra dos Palmares, da Arte Sintonia Companhia de Teatro (BA), apresentado em 17 de agosto de 2026 no Teatro Francisco Nunes
Fotos: Fabio Bouzas
Dandara na Terra dos Palmares pertence àquele tipo de teatro que, dirigido às infâncias, recusa o ideário ainda persistente de que certos temas ou discussões devem ser evitados pela produção infantojuvenil e convida os pequenos a elaborar outras formas de pensar as violências que estruturam nossa vida coletiva. Assim, esta cena apresenta-se também como campo possível para o jogo livre de ideias e fantasias. As fabulações construídas com e para as crianças abrem perspectivas sobre o mundo que precisamos enfrentar e sobre o mundo que queremos, juntos, inventar. Nessa linha, o espetáculo da Arte Sintonia Companhia de Teatro (BA) integra uma constelação artística que cada vez mais se expande no teatro contemporâneo do país: as teatralidades e dramaturgias negras para crianças e jovens. Esse fértil conjunto de realizações busca nas histórias, brincadeiras e culturas negras os fios de suas poéticas, compondo paisagens narrativas, visuais e lúdicas imantadas pelos repertórios estéticos africanos e afro-brasileiros. Ao não reduzir as infâncias a uma experiência única (em geral branca, pequeno-burguesa, urbana, eurocentrada etc.), tais teatros reafirmam a pluralidade étnico-racial que nos constitui.
A montagem baiana apresenta-nos as peripécias de Dandara, uma carismática menina que vive um sério dilema: ela não gosta do próprio nome, nem tampouco se reconhece nele. Para ela, aquela palavra que a identifica não passa de uma desconfortável roupa que a obrigaram a usar. Logo, descobrimos que as causas de tamanha angústia estão na escola. Lá, seus colegas lhe disseram que Dandara, além de ser feio, seria nome de “escrava”: gente, supostamente, sem qualquer passado e que, para eles, apenas sofreu e apanhou nesta terra. A garota vivencia o que muitos de nós, adultos negros e negras, já experimentamos nas salas de aula, isto é, a crueza do racismo, cuja pedagogia cedo nos ensina a renegar nossos traços e saberes, apagando de nossos horizontes a existência de negras linhagens e tradições.
Acompanhamos, porém, o processo de transformação que se dá na mente e no coração de nossa protagonista. A autorrejeição inicial cederá espaço ao prazer de morar no próprio nome. Esse processo de ressignificação, no espetáculo, não se resume ao fortalecimento individual de sua imagem; ele também traduz um ato, singular e coletivo, de se reconectar com a vastidão da história negra no Brasil – um legado de lutas, belezas e muitas humanidades coloridas que também formaram esse país.
Ora, como a protagonista atravessa todo esse percurso? Da melhor forma possível: sonhando. A partir de um voo onírico, a menina Dandara pousa em Palmares, em fins do século XVII, onde conhece a guerreira Dandara, uma das grandes lideranças do emblemático quilombo. Conduzida por três leais companheiros (a Onça, o Macaco e o Lagarto), a jovem conhece uma história que lhe fora negada. O território palmarino não se apresenta como lugar de selvageria ou mero aglomerado de cativos fugidos. Antes, pelo contrário, ali a pequena encontra aconchego, laços de fraternidade e espaços de alegria. As cenas vão se desdobrando em comicidades entre amigos que se provocam, momentos de intensa musicalidade e dança; instantes de delicadeza quando todos contemplam as estrelas no céu. Pouco a pouco, a pequena compreende que Palmares foi construído por gente que também sonhou radicalmente com um outro mundo possível. Lembremos, com Beatriz Nascimento, que os quilombos materializaram sistemas culturais, sociais e econômicos alternativos à brutalidade colonial. Outro mundo possível.
O fulgor da montagem reside no seu desejo de reescavar o passado não como um dado imóvel, mas como um terreno do qual é possível extrair paisagens plurais e críticas a uma história hegemônica. Pela fantasia sonhada, os [ditos] limites entre passado, presente e futuro se desfazem. A criação não permite que os arquivos coloniais e seus limites cerceiem as possibilidades de reimaginar enredos e caminhos alternos. O salto está na invenção de imagens e narrativas que, partindo de um certo passado, acabam por relê-lo, redimensioná-lo ou mesmo contradizê-lo por meio de outros olhares e desejos. Sonhar com antigas e vindouras histórias é também ampliar nossa imaginação política a fim de forjarmos outras formas de viver.
O brilho, contudo, se esvai quando a dramaturgia de Antônio Marques abre mão da abordagem poética para encaixar discursos diretos, palavras de ordem e análises sociológicas a respeito das desigualdades raciais no Brasil. Eis um deslize clássico nos teatros para as infâncias, ou seja, abandonar a artesania dramatúrgica em prol da mensagem. Evidentemente, não é a presença do debate racial que fragiliza a montagem, mas os momentos em que ele deixa de ganhar elaboração estética. Aí, o conteúdo surge duro e frio, bem distante dos trechos mais luminosos em que a fabulação cênica fomenta sutilezas, imagens e poesias contrárias, por si só, aos mais perversos estereótipos raciais. A cena em que as duas Dandaras sambam juntas, por exemplo, é das mais divertidas e sensíveis. Se na escola a menina é alvo das discriminações, e se no mundo colonial a guerreira é perseguida, naquele instante, em meio às palmas, às gargalhadas e ao som do pandeiro, a beleza do existir é reafirmada. As violências não apagam os sóis (ainda que o tentem). Passado e presente dançam.
Pelo menos na sessão a que assisti, a plateia reagia mais calorosamente às passagens matizadas pela musicalidade do que àquelas em que o texto assumia um tom mais expositivo e didático. A direção musical de Emille Lapa e Natalyne Santos constrói, de modo vibrante, as ambiências festivas, evocando elementos melódicos e rítmicos do samba, do ijexá e do funk. A maior parte das canções originais também vai na mesma linha, abordando, com sensibilidade, as discussões raciais, além de compor, fluentemente, as sequências narrativas do espetáculo. Nas coreografias, o efeito era irresistível. Em questão de segundos, já se podiam ver mãozinhas erguidas, cabeças ziguezagueando de um lado para o outro e gargalhadas a ecoar. Não sou só eu. O especialíssimo público do espetáculo – as crianças, é lógico! – parece dar um recado: quanto mais a peça confia nas linguagens criativas, na fabulação e na estória, mais ela nos preenche.
Fragilidades aqui e acolá (gags e piadas menos precisas, morosidade no ritmo de certas cenas, iluminação por vezes estroboscópica e hiperbólica) são, em boa parte, compensadas pelo vívido elenco que, física e vocalmente, sustenta um espetáculo constituído por ágeis entradas e saídas, numerosas canções e deslocamentos rápidos pelo palco. Em especial, Yandra Góes e Denise Correia, respectivamente a pequena e a grande Dandara, desenham interações bastante delicadas entre a menina e sua ancestral, sobretudo nos momentos em que as duas compartilham ternuras, conhecimentos e aspirações.
Em saborosa conversa após o espetáculo, a equipe nos contou da longa estrada da Arte Sintonia Companhia de Teatro, que, desde 1998 (ano de sua fundação), participa ativamente da vida cultural do país, produzindo espetáculos e ações formativas. É interessante perceber, pelo relato dos integrantes, que o grupo viveu um processo semelhante ao da própria Dandara: ao longo dos anos, foi amadurecendo e aprofundando seu pertencimento racial, delineando sua negrura política e artisticamente, transformando-se, enfim. Dandara na Terra dos Palmares é apenas a primeira parte de uma trilogia, ainda por se fazer, a respeito da épica palmarina. Por aqui, só podemos esperar que o grupo continue a irrigar o campo dos teatros negros no Brasil. Para todas as idades.
Ficha técnica
Texto e produção: Antônio Marques
Direção, cenário e figurinos: Agamenon de Abreu
Canções, arranjos e direção musical: Emille Lapa e Natalyne Santos
Direção coreográfica: Cristiane Florentino
Elenco: Yandra Góes, Denise Correia, Gilson Garcia, Leonardo Freitas, Diogo Lopes Filho e Natalyne Santos
Preparação vocal: Manuela Rodrigues
Iluminação e operação de luz: Luciana Liege
Concepção de maquiagem: Lívia França e Agamenon de Abreu
Adereços: Agamenon de Abreu, Zoíla Barata, Sueli Garcia, Ricardo Vieira, Natalyne Santos e Gilson Garcia
Equipe de montagem: Nilson Xavier e Clenyton Moura
Sonoplastia e contrarregra: Clenyton Moura
Assessoria jurídica: Arlane Abreu
Assessoria de imprensa: Biz Comunicação Integrada


