por Soraya Belusi
Crítica a partir do espetáculo “Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos”, do Coletivo Gompa (RS), apresentado em 20 de agosto de 2026 no Grande Teatro do Sesc Palladium
Há uma ideia de infância que os adultos parecem relutantes em abandonar. Uma visão até um tanto poética, que projeta uma perspectiva de um tempo protegido, solar, feito de descobertas, brincadeiras e uma espécie de felicidade implícita anterior às complicações da vida. Vista de longe e, sobretudo, retrospectivamente, a infância costuma ganhar os contornos de uma época de ouro e de plenitude. Como se medo, solidão, inadequação, abandono, rejeição e a experiência dolorosa de não pertencer fossem aprendizados reservados para depois.
“Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos”, do Coletivo Gompa (RS), recusa essa idealização sem, para isso, abrir mão da fantasia. Inspirado no “Frankenstein”, de Mary Shelley, o espetáculo dirigido por Camila Bauer faz um teatro para crianças sem amenidades. Isso não significa um teatro sem delicadeza; pelo contrário. É justamente pela delicadeza com que a montagem reconhece a complexidade da experiência infantil que ela encontra uma maneira de falar às crianças sem subestimá-las, protegê-las excessivamente ou reduzir o mundo àquilo que nós, adultos, imaginamos que elas sejam capazes de compreender.
O espetáculo do grupo gaúcho integrou a programação deste ano do Palco Giratório e foi apresentado em Belo Horizonte no dia 20 de agosto, no Sesc Palladium, para uma plateia de centenas de crianças – a maioria advindas de escolas públicas da cidade. A peça retoma o clássico escrito no século XIX como ponto de partida para falar de rejeição, bullying, idealização e abandono, a partir da história de Victor, um menino considerado tímido e esquisito, com um talento excepcional para as ciências e que um dia, cansado de tanto ficar sozinho, assim um tanto sem querer, acaba criando a Criatura para lhe fazer companhia. No entanto, a Criatura não corresponde exatamente ao que Victor havia imaginado — afinal, quase nada na vida se molda inteiramente aos nossos desejos.
Se no romance de Shelley uma criatura feita de pedaços é lançada ao mundo para experimentar a solidão, a rejeição e o desejo desesperado de pertencimento, o Gompa percebe a potência desse mito para falar de uma experiência muito anterior à vida adulta: a descoberta, nem sempre indolor, de que existir é também descobrir-se diferente diante do olhar do outro e que, ao mesmo tempo, o outro não pode viver preso para ser exatamente da maneira que queremos.
A montagem constrói essa trajetória a partir do cruzamento de diferentes linguagens, articulando narração, teatro, dança, artes visuais e uma trilha sonora original para recriar livremente o universo de uma obra frequentemente apontada como um dos marcos da ficção científica. E é nesse clima mais gótico e fantasmagórico que a peça começa, ainda antes de as cortinas se abrirem, com um ruído estranho e efeitos de luz que parecem saídos de “Stranger Things”. Os gritinhos agudos e persistentes de medo e êxtase vindos da plateia são tão intensos que é quase impossível ouvir as primeiras frases da personagem narradora que adentra o palco, meio que escondida por uma penumbra. Mas, aos poucos, a energia do público foi da euforia à atenção, capturados por essa estranha figura, da qual saem máscaras do peito.
Foto: Vilmar Carvalho
Mas se o grupo gaúcho não infantiliza as crianças na temática e no conteúdo da dramaturgia, também não ameniza na forma, na estética, levando a linguagem do estranhamento às últimas consequências e, muitas vezes, tomando partido do humor para alcançar esse objetivo. Em cena, predominam os tons de vermelho, presentes em um painel formado por diversas placas separadas, e o azul pontual em figurinos, objetos cênicos e tecidos. Cores primárias que nos remetem a ideias, e temperaturas, opostas: a quentura do sangue e a frieza de um ambiente “laboratorial”. É dessas estruturas que se revelam as partes, os pedacinhos, ao longo do espetáculo: as pernas dos pais que se separam, as cabeças que Victor coleciona, o próprio Victor, que aparece inicialmente diante da plateia como metade máscara, metade corpo.
A conexão com público infantil se estabelece de forma bem eficiente nos momentos em que efeitos e truques de mágica reforçam essa percepção de anormalidade e de algo sobrenatural em cena – como um coração que bate sozinho no peito, o esqueleto de brinquedo projetado no fundo do palco, o copo que flutua sozinho ou a ilusão na cena da levitação.
Mas o que mais chamou minha atenção em cena é como a plateia reagia de forma efusiva principalmente às cenas de teor menos verbal e mais corporal, digamos assim. A dramaturgia, além da narração, é fortemente construída com elementos do teatro-dança, na relação entre os dois personagens – Victor e a Criatura. Tanto que, até certo momento da peça, apenas a narradora fala no espetáculo. Victor só adquire voz após a existência da Criatura e ao mesmo tempo que ela.
E, a cada vez que os atores-bailarinos se movimentam de forma não-habitual em cena, utilizando todos os recursos técnicos para criar imagens disformes do que se convenciona como o corpo humano, a reação das crianças era imediata, com palmas, pés batendo no chão. Como se respondessem no e com o próprio corpo ao que estava acontecendo no corpo dos intérpretes e personagens em cena.
Foto: Vilmar Carvalho
Se a criatura de Mary Shelley é marcada, antes de qualquer coisa, pela aparência, pelo olhar do outro que transforma aquele corpo em algo monstruoso, e ele é o único que parece diferente de todos os outros, em “Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos”, a deformação deixa de ser apenas sinal de monstruosidade e se transforma em possibilidade lúdica e cênica. Pernas se desprendem, cabeças são colecionadas, corpos se desarticulam, levitam, assumem formas improváveis.
Se “Frankinh@” começa falando das dores da infância e de descobrir-se diferente diante do olhar do outro, termina encontrando justamente nessa diferença uma possibilidade de alegria. Uma alegria que não apaga a dor, e talvez seja essa a maior delicadeza de um espetáculo que escolhe falar à infância sem amenizá-la.
Foto: Vilmar Carvalho
FICHA TÉCNICA:
Elenco: Fabiane Severo, Liane Venturella e Thiago Ruffoni
Direção: Camila Bauer
Direção de movimento: Carlota Albuquerque
Dramaturgia: Camila Bauer e Marco Catalão
Colaboração dramatúrgica: Liane Venturella
Sonografia: Álvaro RosaCosta
Pianos e voz: Simone Rasslan
Cenografia: Elcio Rossini
Adereços: Elcio Rossini e Liane Venturella
Iluminação: Ricardo Vivian
Figurino: Daniel de Lion
Maquiagem: Marília Ethur
Colaboração artística: Douglas Jung, Jéferson Rachewsky, Luana Zinn, Pedro Bertoldi e Renan Villas
Psicóloga convidada: Camila Noguez
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Direção de produção: Fabiane Severo
Realização e Produção: Coletivo Gompa
Fomento: Prêmio SESC de Artes Cênicas



