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Horizonte da Cena

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Arte como EPI: como lidar com materiais tóxicos para criação?

por Ana Luisa Santos e Daniel Toledo

No contexto atual, temos testemunhado a acentuação de uma cena de criação artística marcada por temas relacionados à memória, à história e à sociedade: temas que podem ser considerados ”tóxicos” – no sentido de traumáticos – por proporem, a partir de diversas manifestações, a elaboração de situações, eventos e acontecimentos da realidade, sejam individuais ou coletivos, abordando-os como materiais de pesquisa e composição.

Temas tóxicos não faltam: notícias de guerras e outros formatos de conflitos armados, genocídios, aumento do número de feminicídios, transfobia, violência contra imigrantes, tragédias ambientais e humanitárias, epidemia de doenças mentais, além dos inúmeros casos de manifestação da ideologia supremacista branca e de racismo. Para completar, caberia considerar ainda outros tipos de materiais tóxicos ligados à conjuntura atual, como as estratégias de teatralização utilizadas, historicamente, por movimentos, representantes eleitos, seguidores, discursos e manifestações políticas do espectro ideológico da ultradireita.

Esse contexto pode nos conduzir à imagem do Equipamento de Proteção Individual (EPI), supostamente recomendável, portanto, também para agentes culturais e espectadores, frequentemente expostos a Experimentos Poéticos Intensivos (EPI’s) de encontro teatral, tendo em vista os critérios curatoriais mais observados atualmente no desenvolvimento e na seleção de trabalhos artísticos em diferentes linguagens.

Hoje, artistas são comumente impelidos(as) e convocados(as) a lidar com a realidade social e histórica em seus processos de criação, enfrentando o desafio de compor seus trabalhos com materiais simbólicos muitas vezes carregados de violência. Hoje, artistas são estimulados(as) a empreender projetos que, por meio da arte, se voltam a processos coletivos de reparação, resistência e luta por representatividade.

Profissionais da cultura, incluindo artistas, mas também agentes culturais, produtores (as), técnicos (as), gestores (as), curadores (as), arte-educadores (as) e críticos (as) atuantes em toda a cadeia produtiva da economia criativa, bem como os públicos em suas diversas formas de composição, estão, portanto, lidando com o desafio da audiência, da leitura e do testemunho de obras e projetos que perpassam a compreensão da arte como espaço de reivindicação, de denúncia, de revisão histórica ou de busca por visibilidade.

Como, afinal, lidar com o passado colonial? Como lidar, a partir de diferentes perspectivas, com as questões de raça e gênero? Como tratar a temporalidade e o futuro diante da emergência climática? Essas e outras perguntas têm funcionado como motes para investigações coletivas apresentadas em forma teatral e/ou performativa para o público em suas diferentes configurações de audiência, a partir de materiais, gestos e imagens criados, por exemplo, em contextos de luto, de perda e de elaboração política.

Crédito da imagem: Ji Elle/Wikipedia/Reprodução

 

Experimentos Poéticos Intensivos (EPI’s)

Como forma de lidar com materiais tóxicos durante processos de criação e recepção, Arte como EPI pode nos conduzir a algumas imagens e procedimentos. Podemos vislumbrar, por exemplo, o uso de diversos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), como capacetes, macacões, luvas, máscaras, óculos, botas, cintos de segurança e outros equipamentos vestíveis ligados à proteção no universo do trabalho, seja para o elenco/performers em cena ou em ação, ou ainda para o público/audiência, em jogos de composição com o figurino – como elemento de cena – e com todo o espaço do acontecimento artístico. É preciso ou pode ser interessante usar um EPI’s para assistir a uma peça de teatro?

Retomando elementos do teatro brechtiano, podemos pensar também em experimentações de configuração espacial, como tribunal, fórum e assembleia, trazendo perguntas e respostas entre elenco/performers e entre elenco/performers e público/audiência. Uma possível pergunta: como podemos nos “proteger” coletivamente? Ou ainda: como proteger nossos desejos coletivos?

A esse respeito, podemos considerar historicamente o desenvolvimento dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), a partir do levantamento da trajetória trabalhista e do processo de industrialização no Brasil, quem sabe relacionando-os à história da psicanálise, com relação aos mecanismos de defesa e proteção da psiquê, como a negação, a denegação, o recalque, a repressão, bem como os conceitos de luto, elaboração, sublimação. Afinal, seria possível proteger-se dentro – ou fora – do teatro?

Também poderia caber, neste contexto, considerar referências históricas em arte da performance, com destaque para os múltiplos trabalhos desenvolvidos com materiais “tóxicos” ou ”contaminantes”, como sangue, fezes, produtos químicos e açúcar refinado, entre outros.

Recorrendo ao campo dos estudos decoloniais e contra-coloniais, tão em voga em nossos tempos, podemos nos voltar a diversas cosmologias indígenas e afrodescendentes que têm desenvolvido, historicamente, pensamentos e reflexões em torno de conceitos como o Antropoceno, tal como considerar esforços da crítica cultural contemporânea em torno da noção de real, dos estudos de gênero e da interseccionalidade no campo das artes.

Em busca de percepções mais concretas, podemos pensar em entrevistas com artistas em formação e/ou em atividade no Brasil atualmente, de diversas linguagens, em torno dos procedimentos utilizados para lidar com as temáticas da agenda curatorial contemporânea – ligada justamente aos processos decoloniais e às questões de raça, gênero, meio ambiente e saúde mental, entre outros temas correntes.

Em meio a tantos elementos tóxicos, o que se tem, certamente, é uma percepção da falência da modernidade no que diz respeito aos paradigmas mais conhecidos da civilização ocidental, como a democracia representativa liberal burguesa, o antropocentrismo, as ideias de progresso, nação e povo, a imprensa livre, os direitos das minorias e a falácia do estado de bem-estar social.

Arte como EPI: Experimento Poético Intensivo é uma crítica-dramaturgia: uma aproximação em relação ao que está sendo produzido contemporaneamente no campo das artes cênicas no que diz respeito aos procedimentos, às temáticas, aos processos e às formas de compartilhamento das obras com o público/audiência, em diálogo com aspectos mercadológicos, curatoriais e acadêmicos que, ao mesmo tempo, revelam e resumem possibilidades de criação, leitura e existência.

 

12/08/2025 TAGS: Ana Luísa Santos, arte contemporânea, crítica, crítica de artista, Daniel Toledo, decolonial 0 COMMENT
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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