• Início
  • Categorias

    Hot Categories

    • conversações

    • podcast

    • críticas

    • coberturas

    • entrevistas

    • dossiês

    • ensaios

  • Quem somos
  • Contato
  • Ações
  • Parceiros

Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

críticas

Breves apreciações de Frag#3, Emilia e Hamlet

por Luciana Romagnolli ::

Frag#3 Aproximación a La Idea de Desconfiaza, texto de Rodrigo García, com o Pitoustrash

Frag#3 Aproximación a La Idea de Desconfiaza, texto de Rodrigo García, com o Pitoustrash

“Frag#3” expõe prazer e degrado pelo consumo

“Frag#3 Aproximación a la Ideal de Desconfianza” coloca o público em condição de alerta, ao privá-lo do acomodamento na poltrona e demandar um trânsito pelo espaço para decidir o que ver, enquanto três polos de ação ocorrem simultaneamente, a partir de cada ator-performer. O consumismo liga-se a certo automatismo da rotina contemporânea, como alvos das críticas proferidas pelo texto de Rodrigo García e pela encenação da companhia PitouStrash. Lá estão as fast-food, mas também controles de videogame e máquinas fotográficas num disparar incessante (espelhado pelas câmeras de alguns espectadores), a indagar como consumimos o tempo, qual tipo de experiência de vida nos proporcionamos.

A opção do grupo por abdicar das legendas e deixar fruir os textos em francês, espanhol e portunhol desloca o foco de atenção das palavras e seus sentidos para o ato performático de dizê-las e para a os corpos presentes. Isso é positivo na medida em que é baixa a qualidade de escuta das palavras naquela espacialidade aberta e repleta de estímulos, e a legenda romperia a espontaneidade da fala. Além disso, o que se ouve é um discurso crítico contra o consumismo e o capitalismo que não alcança a elaboração poética e irônica mostrada por García em “Gólgota Picnic”.

Como cena, “Aproximación” também não repete o impacto sensorial do espetáculo anterior de García, dirigido por ele mesmo. Contudo, sua força visual e performática reside na tomada da ação pelos atores e no modo como eles inscrevem o consumo nos próprios corpos, gerando imagens de sensualidade e asco, que levam ao paroxismo a relação de prazer e degrado entre o corpo e o consumo. A imagem derradeira de um carrinho de supermercado em chamas ganha caráter de libertação ao abrirem-se as portas da sala teatral para o mundo externo, e a música sacra sobrepõe associações entre uma devoção ao consumo e seu sacrifício final, em crítica  ao lugar venerável que o consumismo ocupa em nossos tempos.

 

Emilia, do Timbre 4, direção de Claudio Tolcachir

Emilia, do Timbre 4, direção de Claudio Tolcachir

Drama familiar desestruturado

“Emilia” envolve o espectador na intimidade de uma família para contar uma história de fracassos. A personagem-título é o elemento invasor, a partir do qual se lança um olhar externo sobre a conjunção disfuncional entre pai, mãe e filho, construída a princípio pelo estranhamento incrustado na rotina do trio, até que aos poucos revelem-se desacertos que conduzam a um final trágico. O ato extremo cometido pelo pai e a atitude de Emília frente a ele – só sugerida – compõem uma dramaturgia que parece querer provar uma tese, expondo o contraste entre a indiferença no núcleo familiar e a aptidão ao sacrifício da ex-babá que retorna. Entre o desamor e o amor incondicional.

A história se adensa pelas atuações verossímeis que variam com sutileza entre o familiar e o estranhado, de modo que cada personagem guarde um drama complexo para si, do qual somente parte escape à vista. A ambientação em um reduzido quadrado cercado de pilhas de roupas e caixas elimina o excesso de realismo para concentrar na essencialidade emocional do melodrama. O teatro de Claudio Tolcachir é o desse drama desestruturado. Um contador de histórias que requer a imersão na ficção e a reação catártica, ainda que deixe lacunas à reflexão .

 

Hamlet, do Berliner Ensemble

Hamlet, do Berliner Ensemble

Berliner Ensemble faz Hamlet chafurdado em sangue

Fundado por Bertolt Brecht (1898-1956) e já dirigido por Heiner Müller (1929-1995), o Berliner Ensemble apresentou no sábado o espetáculo mais vigoroso desta edição do FIT-BH. “Hamlet” é uma apropriação original da tragédia de Shakespeare, a qual o diretor alemão Leander Haussmann aproxima de subgêneros do terror como o “gore”, pela exposição violenta de vísceras, e o “splatter”, pelos espirros de sangue. O exagero de cérebros e tripas arrancados precipita-se em humor.

O grupo estrutura as quase quatro horas de espetáculo irregularmente e o constrói com elementos brechtianos. As cenas são pontuadas por canções folk (e um Nick Cave como música-tema) executadas didática e ilustrativamente por “anjos” em branco e preto. O prólogo e o epílogo acrescentam camadas de distanciamento crítico das emoções da tragédia, com um olhar irônico (por vezes, escrachadamente cômico) sobre os acontecimentos.

O Hamlet criado pelo ator Christopher Nell é artífice de uma barbárie e chafurda em sangue. Desde o princípio, sua loucura é acentuada até que transborde na irracionalidade de quem destroça Polônio. Esta escolha dramatúrgica dispensa instantes de aguda lucidez vistos em interpretações que colocam em dúvida o quanto sua sanidade foi afetada e o quanto ele apenas o simula. Em troca, reforça a leitura de que a perspectiva que se tem da história é o delírio do protagonista.

A favor desse entendimento, pesa o apagamento dos demais personagens, que não apresentam a complexidade de seus próprios dramas. A maior perda, nesse sentido, é a solução para a morte de Ofélia, cujas imagens poéticas do texto não se convertem em cena. A propósito, as falhas na legendagem prejudicaram especialmente a personagem. Em contraponto, a cena da descoberta do suicídio por Hamlet é plasticamente bela e emocionalmente intensa, como o são os melhores momentos da encenação.

Focada no espetacular, a dimensão política do texto se esvazia na encenação feita pelo grupo herdeiro do teatro crítico brechtiano, transposta para o olhar distanciado proporcionado pelo prólogo e pelo epílogo sobretudo, e pela recusa à catarse que o exagero debochado da violência manifesta.

 

 

24/05/2014 TAGS: Alemanha, Berliner Ensemble, FITBH 1 COMMENT
SHARE
Leia mais

Comente Cancel Reply

Anita Mosca fala sobre o caráter internacional de “La Cena”

Enrique Diaz sobre "Cine Monstro": "A gente é sempre duas pessoas ao mesmo tempo"

  • categorias

    • capa
    • coberturas
    • Conversações
    • críticas
    • dossiês
    • ensaios
    • entrevistas
    • podcast
    • Sem categoria

Relacionados

coberturas Guia de datas e horários para o FITBH 2014

críticas “Isso É para a Dor” expande sentidos com linguagem do absurdo

entrevistas Jimena Castiglioni esclarece inclusão de montagem local na grade internacional do FIT

coberturas As 15 escolhas do Horizonte da Cena neste FITBH

entrevistas Gorki: “transgredir limites torna-se norma”

críticas ‘‘Tijuana’’ e o espectador em estado de liminaridade

Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

Siga-nos nas redes

Horizontedacena

Horizontedacena

Horizonte da Cena
Direitos Reservados © 2017 - 2019 Horizonte da Cena