• Início
  • Categorias

    Hot Categories

    • conversações

    • podcast

    • críticas

    • coberturas

    • entrevistas

    • dossiês

    • ensaios

  • Quem somos
  • Contato
  • Ações
  • Parceiros

Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

coberturas Sem categoria

Idealismo, loucura e justiça social

Por Daniel Toledo

Crítica a partir do espetáculo Sancho Pança – O Fiel Escudeiro, do Palhaço Piruá (RN), apresentado em 19 de agosto de 2026 no Teatro Marília

Fotos: Bruno Martins  

I

Publicada em 1605 pelo espanhol Miguel de Cervantes, a obra Dom Quixote é geralmente apontada como o primeiro romance moderno da literatura europeia. Ao propor uma sátira aos romances de cavalaria que faziam sucesso naquele contexto, a obra traz como eixo central uma improvável combinação entre idealismo e loucura.

Idealismo e loucura são também elementos centrais da peça Sancho Pança – O Fiel Escudeiro, concebida pelo ator e palhaço Rodrigo Bruggemann (o Palhaço Piruá), em parceria com o diretor argentino Wálter Velásquez, no qual o fiel escudeiro de Dom Quixote assume os papeis de narrador e protagonista. A montagem de Bruggemann e Velásquez é a sátira da sátira, ao transportar a conhecida história do cavaleiro andante ao universo do circo e estabelecer múltiplos diálogos com o Brasil da atualidade.

A ação se passa em um curioso picadeiro, que combina elementos de campo de guerra e hospital de campanha: no proscênio, temos cones, cerca elétrica e arame farpado; no fundo do palco, biombos hospitalares criam uma espécie de “coxia multiuso”, assumindo diferentes funções e visualidades ao longo do espetáculo.

Logo nos primeiros instantes da apresentação, entretanto, percebemos tratar-se, na verdade, de um antigo manicômio – estrutura abolida no Brasil a partir da Lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001, que substituiu o modelo de isolamento em hospícios por um sistema de cuidado em liberdade, priorizando a integração dos pacientes de saúde mental às suas comunidades de origem e à sociedade em geral. A esse respeito, elementos como uma camisa de força, choques elétricos e medicações são trazidos à cena a partir de uma abordagem que termina por gerar o riso da plateia e que talvez mereça, nesse sentido, algum tipo de revisão.

Com o desenrolar da trama, felizmente, a loucura parece ser ressignificada justamente a partir do idealismo de Sancho-Piruá e seu suposto mestre Dom Quixote, destacando suas lutas contra inimigos poderosos que vão desde “gigantes corporativos” até a vaidade, o machismo, o autoritarismo do Estado e a fragmentação das lutas sociais. A dimensão crítica do espetáculo não se volta, portanto, à hipotética loucura dos idealistas, mas à fixidez de estruturas sociais que tentam enquadrar como loucos aqueles que acreditam na possibilidade de mudança.

II

A narrativa tem início com uma bem-humorada perseguição com ares de Velho Oeste, em que Sancho-Piruá e seu cavalo – na verdade, um humilde burrinho – tentam escapar de tiros e sirenes de polícia. A primeira cena acontece na borda superior dos biombos hospitalares, criando a sensação de um teatro de fantoches. Com auxílio de trilha, iluminação e efeitos sonoros, instaura-se um movimentado jogo de aparições e desaparições. Ao fim da caçada, a cena se abre ao público e rapidamente nos tornamos cúmplices e aliados do nosso palhaço-protagonista.

Somos transportados, então, pelo personagem ao suposto manicômio que nos serve como abrigo temporário – e tratados pelo escudeiro como se fôssemos seus companheiros nessa internação. Transitamos, a partir de suas palavras e das situações propostas, entre breves passagens que remetem ao confinamento presente de Sancho-Piruá e uma sequência de flashbacks que rememoram suas aventuras ao lado de Dom Quixote, por meio de referências diretas à obra de Cervantes, temperadas com bom humor e crítica social.

Dentro da dramaturgia, também há espaço para situações inventadas, como uma inusitada entrevista de emprego para a vaga de escudeiro do cavaleiro andante. Mesmo sem demonstrar grandes talentos para o combate e a cavalaria, Piruá supera uma caricatura do mosqueteiro Portos e acaba ganhando a vaga pelo valor que atribui à lealdade e ao companheirismo.

Nesse caminho, destaca-se a notável habilidade de Bruggeman ao transitar entre os diferentes personagens que atravessam a história. Além de Portos, o mosqueteiro, o ator dá vida ao marido de Dulcineia, legítimo representante do machismo dentro da narrativa, e ao próprio Dom Quixote, que ganha ares de Darth Vader, em uma das muitas referências pop que atravessam o espetáculo e atribuem novos sentidos à obra de Cervantes.

Fazendo uso de habilidades que remetem diretamente à palhaçaria, a encenação também se destaca pelo jogo corajoso que estabelece com a plateia. Em determinado momento, dois homens são convocados à cena para darem vida aos famosos moinhos de vento que são convertidos em gigantes pela loucura de Dom Quixote. Mais adiante, uma mulher sobe ao palco para interpretar Dulcineia. Em ambas as situações não há constrangimento, mas efetivamente um jogo entre o palhaço e seus colaboradores, permitindo que as próprias regras sejam questionadas e encaradas com humor e liberdade.

III

Mesmo que haja apenas um ator em cena, são múltiplas as atmosferas e os ritmos que se instauram em Sancho Pança – O Fiel Escudeiro. Nesse sentido, chama atenção o uso intenso de trilha e efeitos sonoros, operados em cena por uma espécie de DJ-enfermeiro. Sob o comando de Adriel Bezerra, as paisagens sonoras criadas por Gabriel Souto incluem sons de espadas e efeitos de voz, passando por músicas que lembram filmes de ação e outras que remetem a programas de auditório.

Ainda sobre a trilha, é também marcante o uso da famosa canção Amigo, popularizada na voz do “rei” Roberto Carlos. A própria imagem do cantor, a propósito, se faz presente na encenação, constituindo-se como mais um elemento pop que aproxima a obra espanhola do universo cultural brasileiro. Roberto Carlos é o grande líder do imprevisível reino onde vive Sancho-Piruá. Ao longo da obra, loucura torna-se sinônimo de luta política, mas também de liberdade poética.

Certa pirotecnia visual também contribui para a permanente transformação da cena, a partir de uma ampla gama de efeitos de luz e objetos que atravessam o palco e movimentam a narrativa. Enquanto pernas de pau servem como apoio para enfrentar gigantes, um jogo de dardos define a sorte de Dulcineia. Máscaras animadas representam prisioneiros injustiçados, e um boneco de posto serve como algoz de Sancho-Piruá em uma hilariante cena de luta.

Para além de toda a diversão contida no espetáculo, a montagem ainda se apresenta como uma celebração da amizade e da solidariedade. Ao compartilhar as aventuras vividas ao lado de Dom Quixote e também as saudades deixadas após sua morte, o palhaço destaca de modo contundente e afetivo a forte relação de companheirismo estabelecida com seu mestre e companheiro de trincheira.

Felizmente, em grande parte pelo carisma de seu intérprete, Sancho-Piruá parece não ter dificuldade em encontrar novos companheiros no próprio público. Ao despedir-se, reforça junto às crianças e aos adultos presentes a importância de nos unirmos contra a opressão.

Não por acaso, no encerramento do espetáculo, borram-se mais uma vez as fronteiras entre palco e plateia. Com tampas de panelas em punho, somos convocados a celebrar o idealismo louco de Dom Quixote e perpetuar sua luta contra injustiças e hipocrisias que seguem vigorando nos dias atuais.

*

Ficha técnica

Sancho Pança – O Fiel Escudeiro (2016)

Direção e Dramaturgia: Walter Velázquez
Elenco: Rodrigo Bruggemann (Palhaço Piruá)
Assistentes de Direção: Alex Cordeiro e Rogério Ferraz
Direção de Movimento: Ana Claudia Viana
Figurino e Cenografia: Ricardo Cerqueira (In memoriam)
Cenotécnico: Rogério Ferraz
Assistente de Cenografia: Irapuan Junior e Juca Santos
Trilha Sonora: Gabriel Souto
Desenho de Luz: Ricardo Sica e Sandro Paixão
Operador de Luz: Sandro Paixão
Operador de Som e Contrarregra: Adriel Bezerra
Identidade Visual: Martín Acosta
Design Gráfico: Rodrigo Bruggemann e FilipeAnjo
Ilustrações do Programa: Clarissa Torres Audiovisual
(O homem que inventou Dom Quixote): Carito Cavalcanti
Fotografia: Bruno Martins, Luana Tayse, Vitória Oliveira e Flora Queiros
Produção de Mídias: Claudia Mariana (Mariaboa Produtora)
Produção Executiva da Montagem e Estreia: Carol Carvalho e Renata Marques

Coordenação de Produção: Talita Yohana (TAYÓ Produções)

Agradecimentos especiais a toda equipe que esteve junto na montagem e temporada de estreia (2016) e na circulação do espetáculo (2017 a 2023): Operador de Luz: David Costa;
Operadores de Som e Contrarregras: Wendel Gabriel, Maurício Motta e Vitor Teixeira.

 

 

28/08/2026 TAGS: Dom Quixote, Palco Giratório, palhaçaria, teatro brasileiro 0 COMMENT
SHARE
Leia mais

Comente Cancel Reply

No Armário Não Cabe Ninguém: Infâncias que inventam outros futuros

Saudação

  • About Me

    Daniel Toledo

    Pesquisador, criador e crítico em artes cênicas e artes visuais. Mestre em Sociologia pela UFMG.

Relacionados

críticas Herdar o futuro

críticas Um aceno à obra de Torquato Neto

coberturas críticas 20º Festival Cenas Curtas // 1ª Noite: Cena-Espetáculo

críticas Qual o peso de uma Tragédia?

críticas por uma performance queer com o início do fim ou de beckett, até a última ponta

críticas Memórias d’água

Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

Siga-nos nas redes

Horizontedacena

Horizontedacena

Horizonte da Cena
Direitos Reservados © 2017 - 2019 Horizonte da Cena