Por Bramma Bremmer
Crítica a partir do espetáculo No armário não cabe ninguém, do GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância (PR), apresentado em 18 de agosto de 2026 no Teatro Marília
O espetáculo No armário não cabe ninguém, do coletivo GPeTI, de Curitiba, integrou a programação do Palco Giratório na última semana, com apresentação no dia 18 de agosto de 2026, no Teatro Marília, em Belo Horizonte. O GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para a Infância – apresenta uma obra que, desde o título, já provoca associações e abre possibilidades de leitura.
“Não cabe ninguém” é uma expressão que imediatamente nos remete aos monstros que escondemos no armário. Mas o título também estabelece um diálogo possível com a comunidade LGBTQIAPN+, trazendo à tona a ideia de que muitas pessoas LGBTs ainda precisam viver no armário, sobretudo diante dos preconceitos, das violências e dos medos que atravessam suas experiências cotidianas. O espetáculo não precisa tornar essa leitura explícita para que ela esteja presente. Ela se constrói pelas imagens, pelos corpos e pelas relações que a obra coloca em cena.
Algo muito interessante, por se tratar de um espetáculo para as infâncias, é que a experiência teatral começa antes mesmo de as atrizes e os atores entrarem em cena. O público de crianças que chega ao Teatro Marília é recebido pela diretora do espetáculo, que realiza uma mediação apresentando alguns dos ritos do teatro e explicando palavras como espectador, plateia, atriz, ator, cenário, palco, figurino e dramaturgia.
De alguma forma, essa conversa inicial instaura os pactos, as regras e os combinados desse jogo teatral. Explica-se, por exemplo, a importância de que as crianças façam silêncio e respeitem as atrizes e os atores presentes em cena, mas sem inibir as reações espontâneas que podem surgir durante a apresentação, como risos e pequenos comentários. O que se busca não é um espectador passivo, inerte diante da experiência teatral, mas justamente uma partilha da experiência com as crianças.
Nessa apresentação do Palco Giratório em Belo Horizonte, a sessão contou com a participação de crianças de diferentes escolas públicas da rede municipal. Muitas delas, talvez, estavam indo ao teatro pela primeira vez. Esse dado destaca ainda mais o papel formativo e educativo do espetáculo e da própria ação de circulação promovida pelo Palco Giratório. A experiência de ir ao teatro, conhecer seus códigos e perceber que aquele espaço também pode ser ocupado pelas crianças é parte fundamental daquilo que a obra produz.
Fotos: Vitos Dias
A peça é bastante lúdica e utiliza bonecos e máscaras para construir seu universo. Três atuantes em cena dão vida a diferentes personagens que habitam um mundo futurista e pós-apocalíptico, no qual os monstros enfrentam uma espécie de ameaça que atravessa toda a sociedade. Em conversa posterior com as atrizes e os atores, descobrimos que essa situação também dialoga com a experiência da pandemia de Covid-19.
Diante dessa ameaça, os habitantes daquele mundo precisam fechar as portas e os ralos de suas casas para impedir que ela entre. Mas um descuido faz com que o ralo permaneça aberto e uma criatura desconhecida invada o espaço onde vivem Pi e Tatá. A partir da chegada dessa terceira presença, toda a dinâmica de vida do casal é alterada.
Pi e Tatá são dois monstros que convivem em uma sociedade na qual as normas de gênero não parecem operar exatamente como em nosso mundo. Um é azul, o outro é rosa, e os dois compartilham uma rotina que se transforma completamente a partir da chegada da criatura. O que poderia ser apenas uma narrativa fantástica sobre monstros e diferenças vai, aos poucos, revelando outras camadas.
A partir dessa transformação, relações e hierarquias começam a ser ressignificadas. Surgem situações de opressão e demarcações relacionadas a gênero, sexualidade e às próprias formas de convivência. Nada disso precisa estar necessariamente explicitado pela dramaturgia. O espetáculo fala sobre diferenças de maneira mais ampla, mas permite também uma leitura a partir da diversidade de gênero e sexualidade.
É interessante, nesse sentido, a presença recorrente da palavra “vale”. Os personagens vivem em um vale e fazem referência constante a esse território. Para o público infantil, a palavra pode permanecer simplesmente como parte da geografia fantástica daquele universo. Para o público adulto, porém, é possível estabelecer uma associação com a expressão “Vale dos Homossexuais”, utilizada em diferentes contextos dentro da comunidade LGBTQIAPN+. São camadas de leitura que podem coexistir no mesmo espetáculo e que chegam de maneiras distintas para crianças e adultos.
Essa possibilidade de leitura se torna ainda mais potente pela presença de três artistas LGBTQIA+ em cena. Uma das atrizes é uma pessoa trans, e essa presença também desperta a curiosidade das crianças. Durante a sessão, era possível perceber alguns comentários e questionamentos sobre sua identidade de gênero. Embora isso não seja exatamente o tema central do espetáculo, é muito interessante perceber como nossas corporalidades e nossas performatividades são, por si mesmas, produtoras de discurso.
Para mim, enquanto atriz, crítica e espectadora, essa presença também produz uma reflexão sobre a minha própria infância. Quando eu era criança, não tive a oportunidade de assistir a um espetáculo como No Armário Não Cabe Ninguém, com uma temática tão próxima das questões da diversidade e, sobretudo, não tive a possibilidade de enxergar no palco uma outra atriz trans travesti.
É impossível não pensar no que significa para uma criança trans ou para uma criança que está começando a elaborar suas próprias percepções sobre gênero e diferença encontrar essas corporalidades em cena. As crianças de hoje recebem essas presenças de outra maneira. Talvez não seja possível medir imediatamente os efeitos desse encontro, mas o simples fato de uma criança poder perceber que existem diferentes formas de existir e ocupar o palco já amplia seu repertório de mundo.
A sessão transcorreu de maneira bastante tranquila. As crianças estavam atentas e concentradas no espetáculo, envolvidas pela narrativa e pelas imagens produzidas em cena. Outro diferencial importante é a presença da audiodescrição, que atravessa toda a obra. Ao mesmo tempo em que vemos as ações e os corpos das atrizes e dos atores, acompanhamos uma narrativa praticamente integral do espetáculo ao longo de sua duração.
Esse recurso amplia as possibilidades de acessibilidade e de comunicação com diferentes públicos e, de alguma maneira, também reforça uma característica central da obra: a ideia de que variadas formas de perceber e experimentar o teatro podem coexistir. A acessibilidade aparece integrada à experiência, e não como algo externo a ela.
No Armário Não Cabe Ninguém também estabelece diálogos reconhecíveis com referências da cultura pop, como o filme Monstros S.A., da Pixar, e a série Que Monstro Te Mordeu?, da TV Cultura. A aproximação com esse imaginário dos monstros ajuda a criar uma porta de entrada acessível para as crianças, ao mesmo tempo em que o espetáculo desloca essas figuras para questões mais complexas sobre convivência, identidade e diferença.
No fundo, talvez seja justamente essa uma das maiores potências do espetáculo: falar de assuntos complexos sem acreditar que as crianças precisam ser afastadas deles. A ludicidade não aparece como uma forma de esconder as questões, mas como uma maneira de aproximá-las do público. Os monstros, nesse sentido, deixam de ser apenas criaturas fantásticas e passam a funcionar como possibilidade de pensar o que fazemos com aquilo que consideramos diferente.
E talvez o armário do título seja também o lugar de tudo aquilo que uma sociedade tenta esconder. Corpos, identidades, desejos, diferenças e modos de existência que, durante muito tempo, foram empurrados para espaços de silêncio. Mas há uma afirmação importante no próprio título: não cabe ninguém ali. Não há espaço suficiente para esconder todas as diferenças que existem e insistem em aparecer.
É nesse sentido que No Armário Não Cabe Ninguém expande as infâncias e aponta para outros futuros. Um futuro em que não precisemos ficar preses e escondides em armários, mas possamos celebrar as diferenças, as diversidades e as múltiplas formas de existência. Que as crianças que assistem a No Armário Não Cabe Ninguém possam imaginar, sonhar e tornar presentes outros futuros.
Bramma Bremmer é artista de Belo Horizonte, transitando entre o teatro, o cinema e a literatura. Desde 2016 é cocriadora e atriz em diferentes projetos da Plataforma Beijo, entre eles os espetáculos Projeto Maravilhas, Encanto dos Insetos e Fazer Festa com o Perigo, além da mostra Quarta Kuir. É coordenadora de comunicação do Centro Cultural Galpão Cine Horto desde 2022 e já atuou em diferentes curtas e longas-metragens no audiovisual brasileiro. Participou como crítica teatral em mostras e festivais na cena mineira, e atualmente é também curadora e coordenadora geral do Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Gabriela Valcanaia, Lucas Buzato e Vinícius Précoma
Direção: Gabriela Valcanaia
Elenco: Mate Bertucci, Vinicius Medeiros e Vinícius Précoma
Direção de movimento e preparação corporal: Ane Adade
Preparação vocal e consultoria de trilha sonora: Edith de Camargo
Trilha sonora original: Duca
Iluminação: Nadja Naira
Figurinos, cenografia e bonecos: Vinícius Précoma
Cenotécnica: Ottiniel Caetano
Costura: Rose Matias e Dora Peron
Sapatos: PortoFree Calçados
Operação de luz: Mi Sugiyama e Carol Vaccari
Operação de som: Karina Rozek
Contrarregra: Gabriella Santos
Projeto gráfico: Mical Kairós e Barbara Rodrigues
Projeto de mediação: Gabriela Valcanaia e Karina Rozek
Consultoria em acessibilidade para pessoas com deficiência visual: CASA Consultoria
Produção: Gabriella Santos
Realização: GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância




