por Soraya Belusi
Crítica a partir do espetáculo Re te tei, da Tropa do Balacobaco, apresentado em Belo Horizonte, no 22 de agosto de 2026, no Sesc Tupinambás
Há muitas formas de lidar com uma tradição. Em “Re te tei”, espetáculo da Tropa do Balacobaco (Arcoverde-PE), ela aparece como algo que pode ser mexido, atravessado, misturado. Mamulengo, forró, samba de coco, boi-bumbá, embolada, teatro de rua e outras referências da cultura popular vão entrando no espetáculo sem a preocupação de serem apresentadas em sua forma original. São recortadas, transformadas, às vezes apenas citadas, em outras ganham mais espaço, convivendo umas com as outras na construção da dramaturgia.
Re te tei carrega em sua forma algo de um inventário contemporâneo das tradições populares. Mas em vez de apenas se contentar em catalogá-las e fixá-las, o espetáculo opta por reunir e embaralhar esse repertório, fazendo dele matéria para a construção de uma linguagem própria. O que interessa não é tanto apresentar cada uma dessas manifestações, mas explorar o que elas ainda podem produzir quando colocadas novamente em jogo pelo teatro. Nesse inventário, a tradição não chega intacta, porque ela já aparece atravessada pelo presente, pela experiência dos artistas e pelas escolhas da encenação.
Foto: Kaian Alves
A peça se apropria da linguagem do mamulengo para contar a história de Chico Catolé, um menino travesso e cheio de imaginação, capaz de inventar as mais mirabolantes histórias, criado pelas três Marias — Da Paz, da Luz e das Dores —, cantadoras de samba de coco. Entre uma invenção e outra, ele acaba se metendo com o temido Papa-Figo e, depois de enfrentá-lo em um duelo de rimas, recebe como castigo a condenação de se transformar também em papa-figo.
Para escapar da maldição, Chico parte pelo Sertão pernambucano em busca dos ingredientes de um remédio capaz de livrá-lo da maldição. É essa jornada que conduz a história e coloca o menino diante de diferentes personagens, lendas e referências do imaginário popular, enquanto tenta encontrar a cura e recuperar sua antiga forma.
Essa jornada conduz não apenas o menino Chico, mas também a plateia, a se encontrar com lendas, manifestações, canções, figuras da nossa cultura popular. Essa presença e a liberdade na forma de usá-la têm relação direta com o lugar de onde vem o grupo. Arcoverde, cidade do Sertão de Pernambuco, atravessa Re te tei. Está na música, nos ritmos, nas referências e, principalmente, na intimidade com que os artistas se aproximam desse universo. Há um orgulho evidente desse pertencimento, dessa conexão com o território, que o espetáculo não precisa anunciar para que seja percebido. São artistas que se reconhecem como herdeiros de uma tradição e que encontram na cena uma maneira de fazê-la circular.
Ser herdeiro, nesse caso, não significa repetir. Talvez seja justamente a proximidade com esse repertório que dê ao grupo a liberdade para mexer nele, combinar referências, alterar proporções, enfatizar algumas, apenas sugerir outras. O inventário que Re te tei constrói acaba sendo menos das formas da tradição do que das possibilidades que ela ainda oferece. Há uma transmissão em curso, mas uma transmissão que passa necessariamente pela transformação.
Foto: Kaian Alves
É nesse movimento que a relação com a infância encontra um caminho especialmente interessante. A cultura popular chega às crianças pela brincadeira. Brinca-se de mamulengo, de forró, de samba de coco, de teatro de rua. O verbo ajuda a entender a comunicação tão imediata que o espetáculo estabelece com elas. Há muita cor, música, movimento, humor, uma certa sapequice que percorre a cena e uma visualidade que rapidamente convida a criança para dentro daquele universo.
Re te tei encontra na própria tradição elementos que pertencem também ao território da infância, como o jogo, o ritmo, o boneco, a repetição, o exagero, os efeitos sonoros, a dança, a graça. E talvez um dos acertos do espetáculo seja que essas referências não chegam como conteúdo a ser apresentado às crianças. Elas são experimentadas em cena e a criança pode não reconhecer o nome ou a origem de cada manifestação, mas reconhece imediatamente a brincadeira.
Há algo especialmente potente nessa escolha quando se pensa na própria continuidade dessas tradições. Ao colocá-las em contato com uma nova geração, o grupo não entrega um repertório fechado sobre si mesmo. Entrega uma matéria que pode continuar sendo mexida. A herança deixa, assim, de estar associada apenas àquilo que se conserva e passa também por aquilo que se transforma.
Nesse sentido, o inventário contemporâneo proposto por Re te tei olha para trás sem fazer do passado seu destino. O vínculo com Arcoverde, o orgulho do território e a condição de herdeiros desse repertório convivem com uma disposição permanente para o jogo. É pela brincadeira que essas tradições voltam a circular e encontram as crianças. E é também por ela que o espetáculo sugere que uma tradição permanece viva quando continua capaz de ser reinventada.
Foto: Kaian Alves
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia, Encenação e Direção de Arte: Ney Mendes
Elenco (em BH): Danielly Lima, Everson Melo, Ney Mendes, Paulo Almeida, Thiago Campos, Yan Vinícius e Jullyano Jason
Música ao vivo: Jullyano Jason e Thiago Campos
Direção Musical e composições: George Silva
Iluminação, Técnico de Luz e contrarregra: Roosevelt Neto
Confecção de Figurinos: Sandra Lira
Social mídia: Thiago Campos



