– Por Victor Guimarães –
Crítica ao espetáculo Kintsugi, 100 memórias do LUME Teatro, visto no dia 25 de agosto de 2025 no CCBB-BH.
Enquanto entramos na sala, um vaso de cerâmica nos espera, iluminado, no centro do palco. Ao fundo, é possível divisar uma série de objetos, entre malas e instrumentos musicais. Duas atrizes e dois atores se aproximam, de pé. Um deles toma o vaso nas mãos e o lança violentamente contra o chão de taco. Um baque seco, contundente. Dois pedaços disformes. Rapidamente, alguém varre os cacos, outro recolhe os restos e se põe imediatamente a emendar o objeto quebrado numa mesinha instalada num dos cantos. O revezamento nessa tarefa se dará ao longo de todo o espetáculo, enquanto todos se engajam num jogo multiforme de colecionar memórias, reviver experiências, transformar anedotas próprias e alheias em matéria teatral.
Kintsugi, 100 memórias parte de uma pesquisa de campo sobre o mal de Alzheimer e de um mergulho na história de quarenta anos do LUME Teatro, tradicional núcleo de pesquisa teatral da UNICAMP. Ao longo de duas horas, quatro integrantes do grupo se revezam na disposição de objetos variados no palco, entre caixas de costura e fotografias, peças de roupa e coleções de moedas, enquanto contam histórias fragmentárias em tom confessional. Esse furor anedótico, que se materializa numa multiplicação de relatos breves e no chão inteiramente coberto de pequenos objetos ao final da noite, é contrabalançado por duas séries de rupturas: numa, eles refazem canções ou partituras físicas de outros espetáculos da história do grupo; noutra, os quatro se revezam na reencenação de várias versões para uma mesma noite traumática em 2009, uma festa regada a saquê e comida japonesa que descambou para uma briga homérica em que o grupo quase se rompeu.
Kintsugi, 100 memórias encontra um equilíbrio instável para energias cênicas aparentemente irreconciliáveis. De um lado, o colecionismo, que trata a memória como relíquia a ser preservada, num esforço contra o esquecimento e um respeito genuíno pelo detalhe de cada anedota. O tom aqui é despojadíssimo, os atores usam os nomes próprios, contam histórias sem culpa. De outro, há um mergulho inquieto na estrutura formal do trauma, que oferece um dispositivo cênico arrojado: a cada nova versão para a famigerada noite, ora apenas ligeiramente diferente da primeira, ora uma transfiguração delirante, a rachadura iminente brilha como buraco, como falta que faz tropeçar a linguagem. A noite traumática só pode ser rodeada, dita e redita, mas nunca traduzida inteiramente. O trauma insiste com seu vigor de fantasma, e os cacos que sobram do estilhaçamento são mais belos que a integridade de qualquer objeto intacto.
O movimento do LUME é comparável ao gesto memorialístico que o Grupo Galpão empreendeu há alguns anos, em espetáculos como De Tempo Somos (2014) e Nós (2016). Se o primeiro honrava a história do grupo de maneira festiva e celebratória, em um sarau com as canções que marcaram a trajetória do Galpão, o segundo fazia do olhar para dentro uma oportunidade nova de saltar no abismo da linguagem teatral. De certa maneira, Kintsugi, 100 memórias faz as duas coisas no mesmo espetáculo: não se furta à celebração, mas tampouco se rende a uma linguagem apaziguadora. Há um tom geral de despojamento, com uma iluminação discreta e noturnos de Chopin que atuam quase como uma cama sonora imperceptível, chamando atenção para si apenas em momentos muito precisos.
A parcimônia de tudo – da luz à disposição dos objetos, dos figurinos à música –, no entanto, guarda a promessa de uma rachadura sempre iminente. Há muita coragem, de saída, em partir não de uma grande conquista, não de um momento fundacional do grupo, mas de uma noite em que quase tudo se rompeu – e pelos motivos mais mesquinhos, individualistas, desses que ficam de fora de qualquer biografia autocelebratória. Esse despudor atinge os estertores perto do final, quando os atores se lançam em uma batalha de insultos uns aos outros, como se deixassem extravasar todas as paixões tristes, todos aqueles desejos reprimidos de aniquilação do outro que qualquer convivência longeva sempre carrega consigo. No corte abrupto entre essa cena e a canção que vem a seguir, no contraste sublinhado entre a violência extrema e o lirismo mais delicado, constrói-se um momento de raríssima beleza, desses que, sozinhos, fazem valer uma peça inteira.
Ao final do espetáculo, o que resta do trabalho paciente de restauração do vaso quebrado não é o objeto original restituído à perfeição, mas uma obra nova em que a marca do restauro tem seu próprio brilho. A rachadura é consagrada ao máximo, dignificada a ouro, como na técnica medieval japonesa que inspira o título. Nesse caso, contrariando o ditado popular, melhor, muito melhor a emenda que o soneto. Kintsugi, 100 memórias aposta ainda na integridade como horizonte possível, mas faz valer a fratura como um ruído bom de se ouvir.
Ficha Técnica
Criação: Ana Cristina Colla, Emilio García Wehbi, Jesser de Souza, Pedro Kosovski, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini
Direção: Emilio Gracía Wehbi
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Atuação: Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini
Desenho Sonoro: Janete El Haouli e José Augusto Mannis
Projeção Acústica: José Augusto Mannis
Iluminação: Eduardo Albergaria
Orientação Coreográfica: Jussara Miller
Fotografia: Alessandro Soave e Arthur Amaral
Realização: LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais – UNICAMP


