– por Luciana E. Romagnolli –
Entrevista e comentário crítico a partir de “Multidão”, de Eduardo Ramos e Amanda Leal, visto no Teatro Novelas Curitibanas.
Antes
Há uma vertente do teatro contemporâneo que vem se interessando há ao menos duas décadas pelos efeitos de convidar à cena sujeitos sem experiência prévia nessa arte.
Um espetáculo célebre por esse procedimento é “The show must go on” (2001), do coreógrafo francês Jérôme Bell, cujo elenco subvertia o padrão físico e de desempenho associado a artistas da dança. Na base desse gesto, podemos encontrar a recusa à arte como exercício de virtuose hiperespecializado e restrito a poucos eleitos. O palco se abre a sujeitos que dele permaneciam apartados. A dimensão criativa da vida se apresenta a qualquer um.
Alguns os chamaram de especialistas do cotidiano, como nos trabalhos do grupo alemão Rimini Protokoll. Eles estiveram no Brasil, entre outros, com o “100% São Paulo”, propondo um jogo-amostragem mais estatístico do que subjetivo da população paulista.
Outros grupos extraíram algo do singular de cada sujeito para a criação, como o peruano Teatro La Plaza ao adaptar “Hamlet” a partir das vivências de pessoas com Síndrome de Down, em espetáculo que passou por São Paulo e Curitiba.
Ou, ainda, como a peça paulista “Amadores”, da Cia Hiato, com sua estrutura de show de calouros em que episódios da história pessoal são apresentados por uma dezena de amadores atraídos por um anúncio no jornal, entre atos de alguns atores da companhia. A articulação proposta pelo diretor e dramaturgo Leonardo Moreira valorizava a estrutura ficcional de toda narrativa e o impacto das histórias de superação no entendimento íntimo que tenta dar sentido à vida de cada um.
Detenho-me nesses exemplos e sugiro a leitura da pesquisa de doutorado da crítica Julia Guimarães Mendes sobre o assunto. A abertura da cena para os não artistas também acontece em peças conviviais, em que os espectadores, de distintos modos, são convidados a alguma atuação, alguma partilha que implique seus corpos, falas, memórias (este foi o assunto da minha pesquisa de doutorado).
São modos de criação que revisam a concepção dicotômica entre artistas e não artistas estruturada na herança ocidental. Uma separação que não encontramos, aos mesmos moldes, em outras matrizes culturais, como a ameríndia e a afrodiaspórica, em que o ritualístico sobrepõe o espe(ta)cular. Também nas tradições populares essa divisão pode ser menos estanque. E, embora a cultura pop tenha alçado ao panteão o artista-celebridade, daí também advém a promessa ao estilo Andy Warhol de 15 minutos de fama para cada um.
Multidão de uns
Entre essas forças que separam e religam vida e arte, situo “Multidão”, o novo trabalho dos artistas curitibanos Eduardo Ramos e Amanda Leal, que estreou em 21 de agosto no Teatro Novelas Curitibanas. O elenco mistura profissionais e amadores em uma proposição cênica muito próxima à da Hiato (resultante de uma chamada pública, uma oficina e relatos pessoais), senão pelas precárias condições econômicas de se fazer teatro em Curitiba, onde um edital de fomento hoje destina meros R$ 20 mil a uma produção teatral.
Em cena, esse agrupamento provisório e plural se posiciona frente à plateia para partilhar, uma a uma, breves narrativas extraídas das experiências vividas, entremeadas pela presença de um cavalo azul. O mote vem de um episódio ocorrido em um hospital psiquiátrico Italiano, onde o cavalo azul de madeira tornou-se símbolo de resistência à desumanização no tratamento dos internos. (Leia o artigo aqui). Sob os discursos nostálgicos, oníricos, ansiantes dos amadores que realizam a vontade de fazer teatro pela primeira vez, subjaz uma afirmação da humanização como avesso da segregação radical justificada pela inadequação, ineficiência ou inutilidade numa sociedade neoliberal.
Para conhecer um pouco das ideias que instigaram a criação de “Multidão” até a estreia no Teatro Novelas Curitibanas, em agosto, fiz algumas perguntas a Eduardo Ramos. Leia as respostas abaixo e, na sequência, um comentário crítico a partir de uma apresentação vista.
Primeira pessoa
Luciana E. Romagnolli (LER) – Qual foi a inquietação inicial para o projeto Multidão, sobretudo para a criação com base em vivências de pessoas sem experiência prévia na atuação teatral?
Eduardo Ramos (ER): Já compõe minhas pesquisas o trabalho com não atores em cena. No meu primeiro espetáculo, em 2013, intitulado “terraço”, havia uma não atriz de apenas 8 anos de idade. Na época, eu tinha como referências a pesquisa de duas companhias: Societas Rafaello Sanzio (ITA) e La Tristura (ESP). Junto desta não atriz, Larissa Chapelski, fiz outros 2 trabalhos, “Origem” (2017) e “Krio” (2018). Ainda em 2018 participei de um espetáculo como ator, chamado “Tutorial”, no qual deixávamos a dramaturgia com lacunas abertas, junto ao público e um não ator convidado sem saber o que iria acontecer durante a trajetória da obra.
A inquietação é antiga, e sinto que existe um olho do furacão de o teatro ainda ser um espaço onde pessoas dizem coisas e outras escutam. No mundo em que vivemos hoje, me encanta poder trabalhar com vozes muitas vezes apagadas, com histórico apagado, ali no palco, e que isso possa gerar uma espécie de serviço que às vezes esquecemos de exercitar como cidadãos.
LER – Como você entende a relação entre a arte, a teatralidade e a vida ordinária? As falas em “Multidão” transmitem um efeito de autenticidade que viria da “realidade”, embora adquiram estrutura de ficção ao serem narradas e encenadas por aqueles sujeitos. Ao mesmo tempo, a implicação deles no que dizem propicia uma cena avivada. Como foi o tratamento da dramaturgia e da direção para isso?
ER: Um dos nossos interlocutores de “Multidão”, o Mauro Zanatta, disse lá no início do processo pro elenco: “Esvaziem. Contem suas histórias. Para esvaziar.”. E, nesta simples e precisa frase, sinto que existe uma fricção do que vem a ser arte, em especial o teatro junto da vida ordinária. Precisamos dizer o que sentimos, o que nos atravessa, para que inclusive nossas próprias narrativas ganhem algum tipo de significado. No teatro não é diferente.
Em “Multidão”, criei junto de Amanda Leal, uma estrutura, pra além das histórias escolhidas pelo elenco, de camadas simbólicas relembrando do porquê estamos fazendo isso, qual seria nossa perspectiva quando enunciamos a palavra multidão. Antes do processo, pesquisando o conceito da palavra, tão abordada por diversos nomes da sociologia, chegou até mim um artigo publicado pela USP sobre uma das grandes revoluções da psiquiatria moderna, no Hospital San Giovanni em Trieste, Itália.
A narrativa de artistas estimulando residentes do hospital e dando-lhes autonomia sobre suas criações, inclusive a de escrever uma carta em primeira pessoa para um cavalo conseguir escapar do abate, me emocionou muito. E, a partir dela, desdobramos a história do cavalo azul, pra que pudesse ser um elo em comum sobre tantas singularidades, pessoas de outros países, culturas distintas, ligadas aos sonhos que carregamos.
Tive um grande apoio de outra interlocução, que foi o Thiago Amaral, da Cia Hiato (SP), que passou três dias em sala de ensaio, fortalecendo a unidade da encenação e dramaturgia. O processo foi curto, de apenas dois meses. Os primeiros 30 dias foram um intenso período de sensibilização e mediação de como gerar conforto e amparo pra histórias tão caras.
LER – “Multidão” faz pensar sobre as implicações entre estética e ética. Tenho me interessado na questão do que se entende por ética no teatro contemporâneo. Para você, como essas duas dimensões se articulam nas proposições dessa obra?
ER: Tivemos, desde o período de seleção, um grande cuidado para que não impuséssemos algumas imagens já como expectativa de pra onde poderia ir esta encenação. Trabalhamos imensamente a escuta. E, antes de criar fios condutores para as histórias e até figurinos, que foram escolhidos pelo próprio elenco, abrimos mão de qualquer tipo de controle, para a construção de um pequeno e breve coletivo que contribuiu de ponta a ponta na concepção da obra.
LER – Embora seja tecida de vivências particulares, a dramaturgia insiste em algumas questões em comum: a loucura, a infância, a inutilidade. Essas me parecem questões importantes pois “devolvem” a dignidade ao que o capitalismo marginaliza. Você pode comentar?
ER: Fico feliz pela reflexão que já faz na pergunta, pois a presença da loucura, infância e inutilidade perpassa diversos pontos que levantamos para refletir junto ao público. O verbo “humanizar” está muito em voga. Ouvimos muito sobre procedimentos privados trazendo como tema e branding o “tratamento humanizado”. O capitalismo se alimenta como um buraco negro de toda e qualquer causa a fim de lucro.
No processo, falamos muito sobre quais “chãos” ruíram na vida de cada um. E uma das conclusões foi que o chão da infância, por exemplo, é preservado ao menos por um instante. E nela mora um diálogo de imensa importância quando trazemos histórias verdadeiras em um palco, em uma espécie de preservar aquilo que seja um diálogo tão ou o mais sincero, e que, dele, podemos extrair tutano pra seguir adiante.
LER – O espetáculo realiza uma passagem do discurso reivindicativo para a proposição de uma nova imaginação ao encenar um aniversário ansiado. Como você entende a função política no teatro, nas suas possibilidades de propor transformações sociais?
ER: Fizemos em “Multidão”, no teatro, aquilo que gostaríamos de fazer ou que fosse a realidade aqui fora. Que as diferenças pudessem se diluir à medida que a proximidade, convivência com o outro, seja quem for, ampliasse a igualdade em todos os sentidos possíveis. Andamos pelas ruas, e desviamos o olhar para aquilo que não nos agrada imageticamente, ou porque nos impuseram uma porção de construções sociopolíticas.
Quando fazemos um espetáculo, temos a expectativa de que as imagens ali apresentadas possam reverberar por muito tempo nas pessoas. Por isso trazemos proposições como a das memórias que não gostaríamos que acabassem, as lembranças que criam sentido pras nossas vidas e a possibilidades de inventar futuros possíveis. Ao lançar todas essas ideias, o quão somos responsáveis pela vida/narrativa alheia, tão próxima, e que a partir do momento que a gente verdadeiramente vê quem está diante de nós, quais escolhas tomamos a partir deste encontro.
Saídas

Há algum tempo as peças que mais me interessam são aquelas das quais saio com vontade de viver. Parece uma categoria estética ingênua, banal, mas defendo que não. Resulta da implicação dos artistas, do seu desejo investido no trabalho criativo. Mais ainda: quando esses trabalhos causam indagações sobre como queremos viver, na solidão e na sociedade, cada um, com sua singularidade, em suas parcerias. Entendo ser isso o que a arte faz muitas vezes: semear perguntas. Estranhar algo estabelecido e instigar outros arranjos possíveis para os corpos e os discursos. Vivificar.
Com esse preâmbulo, acerco-me da “Multidão” de uns que o espetáculo curitibano reúne, a partir da premissa de que o teatro é uma função humana. Contudo, quem pertence à categoria humano e quem fica de fora dela?, eis uma indagação necessária para pensarmos as políticas segregatórias na História dessa dita Humanidade. E a humanização, enquanto processo civilizatório, requer uma adequação social a um status quo também econômico? Em nossos tempos, a uma lógica de mercado? O improdutivo é, ainda, considerado humano? O que se impõe, a partir desse modelo social, ao vivo? A inutilidade condenaria à morte? Pensemos no que não serve ao neoliberalismo pois não cumpre suas demandas – embora talvez seja essa uma função crucial nesse sistema: a ameaça mortífera aos improdutivos. Vamos à peça.
Com músicos na lateral do palco e o elenco alinhado ao fundo, em cadeiras frontais para o público, cada artista amador aguarda sua vez de atrair as atenções para si, compondo uma outra plateia de tipos plurais. Há alguns estrangeiros, reconhecíveis pelo acento. No entanto, num sentido mais amplo, há uma certa posição estrangeira comum aos que ocupam a cena pela primeira vez ali. À margem do grande sistema da arte, encontram uma proposição cênica aberta a fazer dramaturgia dos relatos oriundos de suas vivências particulares com as famílias, trabalhos, parcerias, temores e desejos.
Assim, cada amador inventa uma vida para si, convocando a cumplicidade do olhar e da escuta do outro, aqueles com quem contracena e o público. Os propositores afirmam que essa escrita coletiva se deu de modo mais livre do controle dos veteranos dos palcos, e essa inexperiência, elaborada em apenas dois meses de processo, fornece os contornos poéticos da obra. A um tempo, seus limites e sua vivacidade.
Ouvimos, então, um homem de barba branca, camisa magenta, gravata estampada e terno azul royal com fru-fru mais claro na costura da manga ao ombro (figurino escolhido por ele), com dicção particular, contar de sua profissão como catador de materiais recicláveis.
É também ele quem empresta a voz ao cavalo azul que percorre narrativas díspares, alinhavando as ficções.
Ameaçado de extermínio em um hospital psiquiátrico, onde ganhara imprevista importância como via de escape ao embotamento resultante das práticas de violência segregativa à loucura, o cavalo move os ânimos. Internos se organizaram para reivindicar, por meio de uma carta escrita em primeira pessoa equina, a sobrevivência daquela figura lúdica em madeira.
As histórias contadas não são necessariamente extraordinárias, nem mesmo singulares. Há a garota que sonha em ser eleita num concurso de beleza da escola, aquela que se nutria dos contos de princesa até fazer as pazes com a figura da bruxa. Anseios comuns, únicos para cada um que os viveu plenamente. Há relatos de violências mais diretas, elaborados de maneira a dar um passo além da dor, concretizando imaginações para o que foi subtraído dessas vidas, como a figurinista que se veste de uma infância lúdica que não pôde experienciar ou a travesti que antecipa uma celebração ameaçada pelas estatísticas.
A loucura e a infância, a inexperiência e a inutilidade, esses estágios desvalorizados, subestimados, segregados pela lógica hiperprodutiva do neoliberalismo, são acolhidos em “Multidão”. Dessa maneira, o espetáculo filia-se ao que venho chamando de ética do vivo. Uma ética, não um sistema moral, pela qual os sujeitos implicam seus corpos na defesa e afirmação da vida, entendida como mais do que uma categoria biológica, uma abertura à invenção. Do instituído ao instituinte. Do classificável ao inclassificável.
Esse é um trabalho que requer insistência, atenção aos detalhes, às sutilezas, ao imprevisto que desenhou cada trajetória e àquele que pode modificá-la. Requer mais tempo, pesquisa, ensaios. Eis a dura contradição em que estamos metidos: requer mais recursos econômicos para que o humano não se restrinja a um recurso.
Nestes três anos em que voltei a circular pela cena teatral curitibana, fica explícito o impacto do pouco investimento público no teatro (e outras artes). E uma desmobilização generalizada. Mas as generalizações, via de regra, são inexatas. As plateias se veem bastante cheias. O teatro ainda vive (?).




















































