Por Guilherme Diniz
Crítica do espetáculo Azedo, visto no dia 26 de setembro, no Teatro Wanda Fernandes, no Galpão Cine Horto, durante sua temporada de estreia
“[…] Mas a vida do circo entrou tão fundamente na minha
imaginação que eu não pude resistir ao seu encanto.
Uma noite resolvi fugir de casa… E fugi com o primeiro circo que passou.
Lembro-me bem o circo chamava-se Sotero.
E nele eu aprendi acrobacias, trabalhando na corda, no trapézio etc.
Quase três anos fiquei com o Circo Sotero.
O dono, porém, espancava-me.
E isso me obrigou a fugir novamente.”
Benjamim de Oliveira em entrevista ao crítico Brício de Abreu
Benjamim de Oliveira (1870-1954), ora reverenciado como o Rei Negro do Picadeiro, ora aclamado como o Mestre de Gerações, encarnou, em sua longeva jornada, as profundas e brutais contradições da História. Artista de inúmeros talentos e facetas, suportou violências e desfeitas no ofício ao qual consagrou sua existência. Sob as lonas, angariou vaias, desconfianças e até uma insolente coroa de capim, arremessada por quem, revoltado, não viu graça alguma no palhaço que apenas iniciava sua carreira. Inquieto, porém, ousou sonhar. Nascido em um tempo no qual a escravidão ainda imperava no país, converteu-se, entretanto, em um artista cujas experimentações reivindicaram irrestrita liberdade, justapondo, no circo, diversas linguagens e gêneros — teatro, literatura, música, cinematografia, dramas, comédias, revistas, pantomimas etc. Um dos grandes consolidadores da teatralidade-circense no Brasil, conheceu radiante glória e sombrio ostracismo, dormitando, por longas décadas, no limbo do esquecimento nacional. Muito embora Benjamim não haja sido uma ave absolutamente solitária, em geral, havia poucos espaços dignos para corpos como o seu na ambiência cênica em princípios do século passado. A sua fragosa trajetória, entre a beleza e a agonia, dissolve idealizações que ainda hoje sustentamos a respeito da arte e de seus mundos: poços de contrastes e paradoxos, também eles abrigam agressões, dores, explorações e hierarquias entre humanidades.
Tais considerações surgem a propósito de Azedo, montagem protagonizada por Artur Rogério. Eis-nos diante do fascinante universo circense. Aqui, todavia, ele não é o ambiente das luzes, das doçuras ou dos inocentes gracejos, mas um espaço cavernoso, povoado por sombras, pesadelos e agravos. Um campo minado em que a submissão é a base das relações. Nesse terreno, o riso, longe de ser a genuína expressão de relaxamento ou prazer, vem sempre acompanhado de uma adstringente aflição, dando-nos crescentes doses de desconforto. Não o circo ameno das nostalgias infantis, com suas bandinhas compostas por agradáveis cornetas e tamborins, e sim uma espécie de Grand Guinol, no qual a crueldade e o horror constituem as principais atrações ao som nervoso de guitarras. A paisagem criada pelo enxuto cenário de Lúcio Honorato é de pura desolação.
Fotos do espetáculo: Poly Acerbi
Aos poucos, a encenação de Andréa Rodrigues faz-nos perceber que este picadeiro não é exatamente (ou apenas) um lugar concreto e realista, antes a nebulosa mente de alguém naufragado em temores, mágoas e desejos inflamados. Acompanhamos os labirintos internos de Azedo: um modesto funcionário responsável pela limpeza e organização dos bastidores de um circo, mas que, em seu íntimo, nutre o desejo de tornar-se um admirado artista. Tudo o que está em cena passa pelo tortuoso filtro das lembranças e sentimentos de um ser humano aviltado por indizíveis humilhações, rodeado por ameaças e consumido por uma efervescente revolta contra tudo aquilo que um dia o fez sofrer. De um lado o circo é sua religião, objeto-mor de suas mais altas adorações; do outro ele é geratriz de transtornos e traumas que desenham sua subjetividade. Parte de sua angústia é estar sempre a meio caminho entre estas duas dimensões, convivendo com o encanto e a dor da criação artística. De suas feridas psíquicas, causadas pelo racismo, escorrem projeções mentais, fantasmas, reminiscências e emoções desconexas.
Artur Rogério dá vida a Azedo, este ser por excelência insondável. O ator delineia as incontáveis gradações emocionais e físicas de uma personagem repleta de ambivalências e contradições. Ora vemo-lo amedrontado e tímido ante os perigos que o cercam, ora constatamos seu caráter incendiário (o adjetivo não é acidental) e insubmisso a tramar meticulosas vinganças. À primeira vista, Azedo é apenas o pobrezinho assujeitado pelo racismo. Esta imagem, porém, se dissolverá sobretudo nos momentos em que ele, equilibrando-se entre o sonho e o delírio, não apenas se imagina como um circense extraordinário, mas também dialoga com seus próprios pensamentos. Por debaixo do comportado homem subsiste um vulcão prestes a explodir. Aí movimentam-se mais fortemente os contrassensos, as megalomanias e as vaidades que habitam sua imaginosa cabeça. Da alegria à candura e da malícia à aflição, Artur transita por um vasto mosaico de afetações, traduzindo-as na sua intensa fisicalidade.
O que nos parece mais instigante no trabalho atoral é o mergulho nas estranhezas e asperezas de uma criatura cujos contornos são imprecisos, angulosos, arredios a categorizações fáceis. Tal gesto reveste de sentidos plurais o signo negro, pois se recusa a criar uma personagem apolínea, irretocável ou circunscrita à imagem da vítima martirizada. Profundamente quebradiço e incoerente, Azedo não se ajusta a maniqueísmos pobres. Em sua vívida expressividade corporal, Artur Rogério acentua as facetas dissonantes, dando-nos composições e posturas que resvalam naquilo que, por um certo viés, é tido como monstruoso ou bárbaro. O espetáculo não visa fortalecer estereótipos batidos, porém os encara sem medo e lida criticamente com seus significados, provocando nossos imaginários, também condicionados por estigmas e ideais profundamente racializados. A poesia do intérprete está justamente no seu caráter grotesco ao conceber uma figura algo disforme, algo bizarra, em que a tragicidade e a comicidade se mesclam numa paisagem que não apazigua os seus sentidos cacofônicos. A imagem do homenzarrão negro de olhos dilatados, boca escancarada e músculos tesos a segurar um martelo à nossa frente propõe-nos um desafio. O que está em jogo nessa arena acidentada é o nosso olhar: O que fazer com esta imagem? Para onde ela nos leva? Por que ela pode nos perturbar? Afinal, quem – ou o que – é ameaçador? Qual ideal de humanidade [ainda] reiteramos? A bem da verdade, o grande terror que subjaz neste circo lúgubre é o terror racial de ser, frequentemente, o outro de um mundo branco, estrangeiro no próprio corpo.
Nesse sentido, a trilha sonora de ivo ivo ivo é um elemento crucial. Nuances do blues ao beatbox avolumam as tensões psicológicas, deixam mais sinistras e sofridas as transições emocionais tão abruptas e extraem do ator alguns belos vocalizes e inflexões que se convertem na expressão sonora de estados mentais bastante movediços. No início do espetáculo, Azedo recebe o seu público enquanto varre o espaço. A cotidiana vassoura transforma-se em algo entre o baixo e a guitarra. A voz de Artur, velejando por drives e notas graves que evocam certos melismas afro-americanos, ajuda a esculpir facetas lamentosas e brincantes de sua personagem ao passo que exprime uma das mais sofisticadas dimensões das musicalidades pretas: são tecnologias que, ao reelaborar plasticamente memórias, resistências, sentimentos, e desejos, reafirmam nossas inventivas e lúdicas subjetividades, isto é, algo fundamental para uma população sistematicamente desumanizada.
Azedo é amiúde interpelado pelo dono do circo, interpretado por Matheus Cunha. Ainda que suas aparições sejam fugazes, o patrão branco é quem comanda e intimida o outro. O proprietário é menos um homem do que uma ideologia, um exercício do poder e da autoridade, uma alegoria do que aterroriza e revolta a personagem negra. Contudo, as duas figuras ao se antagonizarem tão fundamentalmente acabam por se espelharem, tornando-se, como em um efeito colateral, umbilicalmente ligadas uma na outra, a exemplo de tantas obras de Beckett, Ionesco ou Arrabal, em que repulsa e dependência se mesclam absurdamente. Porém, a dramaturgia, na maior parte das vezes, não elabora bem as ambiguidades dessa relação, visto que o branco é o algoz e, ao mesmo tempo, foco das atenções de Azedo, isto é, uma fantasia que, paradoxalmente, dá sentido à sua realidade. Por que o negro objetiva ser tão magnífico e celebrado na arte? Precisa provar algo para o dono do circo (aquilo que Neusa Santos descreveu brilhantemente como ideal do ego branco)? Quais os sentidos da vingança alimentada por Azedo? Ademais, Matheus Cunha não impõe cenicamente uma presença aterradora, tampouco sustenta a gravidade exigida por uma personagem, em suma, imperiosa e categórica. Sem esse peso, as assimetrias entre senhor e servo não aparecem com firmeza. Contraditoriamente, quase toda vez que Cunha surge em cena a tensão se esvai. Tais fragilidades acentuam a sensação de que Azedo é, no fundo, um longo monólogo interior no qual o herói (ou anti-herói, para sermos mais precisos) trava uma batalha consigo mesmo, evocando falas, espectros, fixações e lembranças de seu abismo particular.
Após toda essa cruciante saga, Azedo prepara o revide final. Ele narra para o tirânico patrão, já morto ao que tudo indica, o mórbido conto Negrinha, de Monteiro Lobato, cuja moral (se é que existe alguma) poderia ser assim resumida: numa sociedade regida pelo sadismo da supremacia branca, a dor e o sofrimento são prescritos como a única forma de vida, pois quando Negrinha, uma criança rotineiramente violentada, entende que não é um objeto, mas um ser humano complexo, acaba não suportando a grandiosidade dessa condição, deprime-se e falece. Enquanto fala, Azedo monta uma estrutura composta por tiras de madeira, que, logo mais, será alçada por uma roldana ou algo do tipo. Artur, na sequência, tinge a face de branco e mete na cabeça uma peruca loura, construindo um inconfundível whiteface. Assim, ele se movimenta de modo convulsivo e horripilante. O circo está prestes a arder em chamas. Um contundente rock embala o momento frenético. Black-out.
Tal desfecho, assumidamente apoteótico, deixa-nos perplexos e divididos. Em primeiro lugar, o derradeiro monólogo carece de ritmo, e a estrutura suspensa — que idealmente deveria ser uma estrela ou um pentagrama invertido — reduz-se, no máximo, a um triângulo deformado em virtude de falhas técnicas; para além dessas minúcias, o desenho geral da cena contém alguns problemas. É nítido que a dramaturgia de Andréa, como em outros escritos de sua autoria, se afasta de romantizações ingênuas e idealizações coloridas a respeito de uma sociedade edênica do futuro. Não há good vibes e a arte não nos redimirá: uma lufada de amargo ceticismo contra os espantalhos da positividade vazia. No entanto, algumas dúvidas persistem. Por que terminar o espetáculo com um whiteface? O que este quadro pretende suscitar? Por exemplo em Black Off, montagem da artista sul-africana Ntando Cele, presente no Brasil em 2017 e 2018, tal recurso possuía intenções bastante agudas. Bianca White, a personagem de Cele, expunha, por meio de um cáustico sarcasmo, as falácias, as aberrações e as monstruosidades também presentes naqueles que historicamente são considerados a norma moral, intelectual, estética e, enfim, humana do universo. Em Black Off, a caricatura moldada pelo whiteface desnaturalizava o signo branco, enfatizando que ele, bem como seus discursos, máscaras e instrumentos de poder são construções socioideológicas. Não percebemos nenhuma dessas complexidades em Azedo ainda que, ao longe, essas sejam suas intenções. Ademais, o seu whiteface desponta justamente quando Azedo está na iminência de incinerar o circo, que é, afinal, o seu (ou o nosso?) mundo. O que quer este final? Colocar-nos num beco-sem-saída, num pessimismo paralisante? O conjunto visual da cena é impactante e até mesmo tenebroso, mas não ultrapassa esta camada, por assim dizer, chocante, nem nos parece aprofundar os debates centrais da peça.
Foto: Poly Acerbi
Foto de Janosch Abel
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Azedo é o vencedor do Cena Espetáculo no Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto em 2024. Desde então Artur Rogério vem expandindo suas investigações a respeito do terror psicológico, Body Horror, o afro-surrealismo, o grotesco e a bufonaria, tomando-os vetores para pensar as experiências negras, a formação de suas subjetividades e as extremas violências raciais formadoras de uma realidade desigual. Nestas linhas poéticas, certas produções audiovisuais mais recentes tais quais as de Jordan Peele (Nós; Corra), Misha Green (Lovecraft Country), Ryan Coogler (Pecadores) ou nosso brasileiro Yuri Costa (Egum) são referências importantes. Se produções teatrais como o já mencionado Black Off ou o também sul-africano Circo Negro da República Bantu, concebido por Albert Ibokwe Khoza, se aproximam de Azedo ao questionarem, mediante o escracho, a derrisão e a intensa corporeidade, o racismo incrustrado (e naturalizado) nos circuitos artísticos, a dimensão do terror não se afigura neles como um elemento central. No âmbito das artes cênicas negras contemporâneas, no Brasil, experimentações desta cepa são de fato infrequentes. Terror Noturno, a envolvente coreografia de Preto Vidal (SP), estabelece fortes conexões com a pesquisa de Artur Rogério, pois também explora o gênero do terror enquanto traça a trajetória de um jovem negro cuja existência se vê presa entre pesadelos, sonhos e lembranças. Na tensão entre o medo e a resistência, sua dança enfrenta os estigmas perniciosos que circundam as vidas de homens negros, isto é, corpos lidos como essencialmente agressivos e amedrontadores.
Depois da desconcertante cena final, deixamos o Teatro Wanda Fernandes com um ácido retrogosto (o que não deixa de ser coerente para um espetáculo intitulado Azedo). Por sobre as objeções, fica-nos duas coisas: primeiro, a felicidade de testemunhar uma pesquisa de linguagem, um gesto experimental que pode, porventura, expandir os caminhos dos teatros negros; em segundo lugar, fica a vibrante imagem de Artur Rogério, um ator cujo magnetismo cênico nos conduz ao sublime inferno de uma personagem doída, oscilante entre a lágrima e o riso, recoberta de desalinhos e, também por isso, multifacetada na sua espinhosa humanidade.
Ficha técnica
Direção: Andrea Rodrigues
Dramaturgia: Andrea Rodrigues
Figurino: Lira Ribas
Trilha sonora: Ivo Ivo Ivo
Cenário: Lúcio Honorato
Iluminação: Felipe Tristão
Operação de luz: Vitor Augusto
Preparação corporal: Artur Rogério
Coreografia: Jhonny
Produção: Regiane Farias
Material audiovisual: Hugo Haddad & Pedro
Arte: Felipe Lampejo
Atuação: Artur Rogério & Matheus Cunha
Dedicado à memória de Jorge, cuja presença e luz permanecem em cada detalhe deste projeto.







