por Luciana Romagnolli
Crítica a partir da peça “O Coração da Boca é a Língua”, de Patrícia Cipriano, vista na Mostra de Processos Plataforma Súbita (maio) e na Mostra Claudete Pereira Jorge (outubro/2025), em Curitiba.
Fotos de Virginia Benevenuto
No solo “O Coração da Boca é a Língua”, criado em parceria com Amira Massabki (som e projeção) e Semy Monastier (luz), a atriz Patrícia Cipriano constrói um espaço poético para as reverberações da infância, que insistem a perturbar a vida adulta. O que ainda ressoa são efeitos de ditos, de olhares, de outros mais ou menos familiares em quem se busca saber algo de si, alguma forma de identificação, algum reconhecimento.
O corpo que foi dito “menina” ouviu, mais tarde, que “não parecia uma mulher”. Depois: “sapatão”. Palavra da qual a artista se apossa na tentativa de reescrever o impacto desse encontro entre o que experimentava em seu corpo e o que a linguagem, vinda dos outros, pôde nomear disso.
Afirmar-se sapatão, como um modo de satisfação, escrevendo esta palavra no piso à porta do teatro, é o ponto de partida para o trabalho de rememoração e reinvenção a que se propõe a performer. Um esforço para torcer os sentidos anteriormente atribuídos, descamar seus efeitos negativos e abrir a caixa da significação à vivacidade da língua que palpita, no coração da boca.
Esse é um gesto artístico interessante porque aposta nas possibilidades de a linguagem e o corpo se rearranjarem. Para essa construção dramatúrgica, Patrícia contou com a colaboração de Sueli Araújo, mas ainda não recebeu direção “de fora”, limitada pelo orçamento.
No palco, a performer realiza uma partitura corporal que convoca a imagem, a movimentação e, depois, pela narrativa, a história de um bisonte. O mamífero serve de metáfora do estranho, àquilo que não se enquadra na imagem especular presumida para uma mulher. Uma estranheza que perturbava a visão de sua imagem no espelho. O bisonte aparece, então, como uma espécie de identidade alternativa ao ideal de mulher. Isso que resiste à civilização, aos enquadramentos da cultura.
Entre o presente da cena e a memória atualizada diante do público, ouvimos como as frases e os silêncios, os olhares e os tons de voz, os ditos e os não ditos, seja por familiares, amigos, amores, vizinhos, colegas ou desconhecidos, constituíram (e ainda constituem) a ideia que se faz do próprio corpo e, até mesmo, a ideia de si como um corpo.
Lá está a frustração de um amor não correspondido, trazendo o enigma do desejo do outro. O comentário maldoso de um colega de escola sobrepõe dificuldades àquilo que já é um desafio: ela me quer ou não me quer? A agressão de desconhecidos na rua imprime na pele a hostilidade contra um corpo dito feminino, mas que não corresponde ao enquadramento social heteronormativo. O silêncio da mãe sobre a sexualidade da filha redobra ao se deparar com um modo de satisfação até então não nomeado naquela família. Então, se há um impossível de dizer sobre o mais singular do erótico para cada um, e se o estranho-bisonte que habita cada corpo é segregado por si e pelo outro, para a sapatão esses desencontros se recobrem de um desconforto a mais.
Na montagem de fragmentos de memória, se explicita o quão consistentes esses outros se mantêm para ela. O valor e o peso de suas palavras, ainda. O quanto é num outro que busca a ideia de si, a identificação, a autorização para seu modo de viver. Se o isolamento não é solução, a pergunta passa a ser como fazer parte de uma sociedade sem se confundir nela?
A fuga como resposta vem em outra recordação infantil: a vontade de fugir de casa dentro de uma das caixas de roupas que já não serviam. Uma frase se destaca: naquela família, as caixas viajavam, os corpos não. Colocar o corpo em movimento, em novos rumos, desbravar para além do familiar talvez seja mais do que só um modo de se encaixar ou desencaixar. Fazer das caixas um uso possível, a serviço não mais do que aprisiona, mas da possibilidade de mudança. Descobrir que as caixas se fecham e se abrem, experimentar o seu vazio, tal como o das palavras, quando não nos detemos em um sentido fechado, é o que nos permite dar-lhes funções imprevistas.
No chão do palco, um caminho de estalinhos materializa o risco de andar com os próprios pés em uma cidade hostil às diferenças. Parece machucar, o ruído dos estouros agride. O corpo agredido se mostra, como um bisonte abatido. Até que a performer calça sapatos coloridos, e seus passos, embora ainda ruidosos, já não parecem feri-la. Ela utiliza um smartphone para capturar uma imagem de si e projetá-la na tela ao fundo. Não a imagem enquadrada, idealizada, mortificada. Um pedaço de rosto, um tanto de pele, um resto de suor, um fio de respiração. Isso que vaza do revestimento cutâneo e revela o vivo.
Para que servem os sapatos, as caixas, os enquadramentos, as telas, as palavras? Para além do servo e do servil, do caber ou não, que outros usos podem oferecer? E os restos de infância? Que posição outra se pode assumir diante deles? Diante dos outros, seus ditos, seus olhares, seus desafetos e falhas? Há a demanda pelo reconhecimento da violência sofrida. E o que há para além do que o outro é capaz de reconhecer? Para além da manada?
O efeito de encaixe segue a lógica do conjunto, e por princípio não dá vez ao que em cada mamífero se desenquadra do padrão da espécie.
Numa família de corpos que não viajam, o da performer encontra a caixa cênica como lugar onde é possível fabular e rearranjar palavras em uma reescrita do corpo e de si. No teatro, como na infância, uma caixa não é só uma caixa. O olhar do outro agora se faz público, esse desconhecido a quem se pode oferecer não só a dor, mas também a delícia, não só a reiteração, mas também a surpresa.
Há tanto ainda por escrever para além das cercanias familiares. O que pode um corpo fazer no mundo quando conhece sua manada, mas se autoriza a nem sempre segui-la?
Ficha técnica
Performance: Patricia Cipriano
Desenho de som e projeção: Amira Massabki
Desenho de luz e operação: Semy Monastier
Dramaturgia: Patricia Cipriano
Orientação Dramatúrgica: Sueli Araujo






















