por Daniel Toledo
Crítica a partir do espetáculo Humanando, do Núcleo de Formação em Dança do Sesc em Minas (MG), apresentado em 14 de agosto de 2026 no Grande Teatro do Sesc Palladium
Foto: Dúnia Catelli
I
Convidado a abrir o Palco Giratório 2026 em Belo Horizonte, o espetáculo Humanando representa a potência de políticas institucionais que têm como objetivo e prática, para além da democratização da cultura, também a construção de uma verdadeira democracia cultural. Tão importante quanto perceber estar cheio o Grande Teatro do Sesc Palladium, é entender quem são os corpos que ocupam o palco e a plateia. O público é personagem.
A montagem foi criada em 2025, pelo Núcleo de Formação em Dança do Sesc em Minas, ação social e formativa da instituição, com atividades no Sesc Palladium e no Sesc Cenário. Humanando traz à cena o impressionante número de 80 bailarinas e bailarinos — formados e em formação — com idades entre 10 e 21 anos. Juntos e separados, eles nos convidam, por meio de múltiplas tradições da dança, a um passeio por distintas feições da humanidade que nos caracteriza, apresentando-a como um fenômeno rítmico e em permanente transformação. O tempo é personagem.
Em ritmo de samba-canção, a encenação tem início em meio ao público, com a delicada imagem de uma senhora de coluna arqueada e lenço sobre os ombros, que lentamente cruza a plateia e conta, nessa jornada, com o apoio atento de uma jovem que poderia ser sua neta. A senhora, no entanto, é vivida por uma das jovens que integram o elenco. Com boas doses de realismo e uma simples flexão da coluna, a jovem cria a ilusão de ter mais idade. O corpo é personagem.
Apesar de ensaiado e coreografado como espetáculo de dança, Humanando guarda também uma qualidade performativa: além dos movimentos e das imagens criadas em cena, também tem valor estético — e ético-político — o acontecimento da apresentação.
II
Por alguns instantes, imagens projetadas em vídeo nos conduzem ao ritmo de uma gestação. A água é elemento que protege e nutre, e corpos se movimentam dentro dela. É como se ao mesmo tempo aquecessem e relaxassem os membros do corpo, enquanto aguardam a hora de nascer. E nascem. O público, formado tanto pela classe teatral da cidade quanto por familiares e amigos dos jovens em cena, reage.
Azul. Ritmos percussivos contemporâneos embalam uma coreografia de referências africanas que vibra disposição e entusiasmo pela vida. O primeiro grupo de bailarinos se divide em coletivos, duos e solos. Há coreografia é há liberdade, para movimentos que acontecem em bandos, singularidades e auto-expressão. Corpos são múltiplos.
Um novo grupo de bailarinos entra em cena, e os grupos coexistem até que o primeiro sai. Silenciam-se os tambores, entra uma trilha afiada: o humano também aprende e imita a máquina. Temos cortes, ângulos retos e poses para fotos; logo chegamos a referências ao vogue e à cultura ballroom. Pausas e explosões coreográficas mais uma vez arrebatam o público, que não se intimida e celebra. As crianças cresceram.
Danças urbanas e danças afro-populares brasileiras são componentes curriculares do Núcleo de Formação em Dança, além de dança clássica, moderna e contemporânea, combinadas a aulas de história e filosofia. Inicialmente voltado a crianças com idades entre 10 e 13 anos, o núcleo hoje conta também com um curso de aprofundamento em dança voltado a ex-estudantes da escola, sem limite de idade. No palco, vemos integrantes da segunda e da terceira turma do curso, além dos participantes das aulas de aprofundamento.
III
Humanando parte de uma combinação de exercícios e cenas criadas durante os estudos no Núcleo de Formação em Dança. É um projeto de direção e dramaturgia coletivas, conduzido colaborativamente pelos instrutores de artes cênicas do curso, Ana Cristina Mello, André Sousa, Cib Maia, Francine Leite, Joicinele Pinheiro e Leandro Belilo, e por Ana Clara Buratto, bailarina, professora e atualmente Coordenadora de Programas Sociais do Sesc em Minas.
Coletivo é também o espírito que vemos se manifestar em cena. Humanando se desvia de protagonismos, sem impedir, no entanto, que individualidades apareçam e se façam notar. O que é comum entre todos é humano. Aquilo que é singular, também.
Composta por grandes faixas de tecido estampadas com silhuetas humanas, a cenografia de Miriam Menezes nos lembra que também estão ali outros corpos, além dos muitos que vemos entrar e sair. Enquanto isso, braços e pernas que sob um grande tecido se agitam, mostram que mesmo ao dormir nunca estamos sozinhos: sempre temos conosco nossos guias, nossos sonhos e pensamentos. De um quarto escuro vamos a um concerto de rock, passamos por quadros de dança-teatro e por coreografias aparentemente mais livres, guiadas por ritmos e sensações. Lembramos que até mesmo a dança clássica é uma forma do humano, com revoadas, círculos perfeitos e passos nas pontas dos pés. De repente, a senhora atravessa novamente o palco, cordas pendem do teto e um novo tempo parece estar prestes a começar.
IV
Usando irreverentes fantasias de esqueleto, um novo grupo entra em cena, mais uma vez evocando as danças urbanas: agora um ritmo de funk. Os figurinos de Silma Dornas já não prolongam os movimentos da dança, mas trazem humor à cena ao chamar atenção à rigidez da estrutura óssea do corpo humano — por alguns instantes visto sem pele, sem músculos, sem sangue, sem cor. Como esculturas frágeis, no entanto, os bandos de ossos seguem dançando: vemos palmas, braços, quadris. Continuamos o estudo sobre o corpo humano, importante personagem da história.
Surge outro grupo e, com ele, pela primeira vez, a palavra falada. Percebemos a diversidade de órgãos internos e externos do corpo e também de elementos do imenso universo ao redor. É hora de caminhar, de ocupar espaços. Cada um com seu ritmo, seus limites, suas imagens. Um corpo parado é humano. Um corpo que se move, também.
Por vezes, momentos de silêncio são preenchidos por reações e estímulos das famílias presentes na plateia. Em meio ao corpo coletivo que em cena se forma e se transforma, familiares e amigos mostram-se atentos às individualidades. De suas cadeiras, vibram com as cenas, contaminam-se pelas mudanças de rota e não escondem o desejo de se conectar com o que veem à frente. O sangue também pulsa nas veias da plateia.
Além de ossos, nos lembra os quadros seguintes, temos também músculos, sangue, pulsação e energia. Novamente embalados por ritmos percussivos, jovens corpos humanos experimentam com ritmo e confiança suas costas, braços, pernas, cinturas e quadris. Um corpo rígido é humano. Um corpo que se expande, também.
Em certo ponto, a própria apresentação se expande para a plateia, desestabilizando a relação espetacular estabelecida até então. Vemos de perto a concentração de meninos, meninas e jovens mulheres que se observam como quem descobre o próprio corpo; como quem descobre o agir no mundo e sua potência.
V
Humanar-se, no fim das contas, parece não ser tornar-se humano — como se o humano fosse um ponto único de chegada. Parece, por outro lado, ser algo como fazer pulsar a humanidade em suas múltiplas formas, possibilidades e experiências. Experimentar a amplitude do que é ser humano.
É nesse contexto que a senhora reaparece no palco, com seus passos lentos e a coluna arqueada. Oferece a bênção à menina e recebe, em troca, uma planta de proteção. Estão conectadas. No quadro seguinte as senhoras se multiplicam, e num simples erguer das colunas se convertem em corpos vigorosos. A senhora, um dia, foi jovem. O tempo. Outra explosão.
Silenciosamente, duas meninas entram no palco e sentam-se diante da cena e de costas para nós, criando uma nova camada de plateia dentro do espetáculo. Observam atentamente as danças das maiores e apreendem as imagens não só com os olhos, mas com todo o corpo, ali ativado como instrumento de memória, expressão e ação no mundo.
De grupo em grupo, os 80 jovens ocupam, juntos, o palco, coexistindo em cena pela primeira vez. O clima é de baile funk e celebração: todos no mesmo movimento, cada um ao seu modo, enxergando-se uns aos outros e também as fronteiras borradas entre a cena e a plateia. É como se o palco, por uma noite, fosse público — e o público, finalmente, estivesse no palco.
Daniel Toledo é dramaturgo, crítico e pesquisador em arte contemporânea. Mestre em Sociologia da Cultura pela UFMG e doutorando em Artes pela UEMG.
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Ficha técnica
Humanando (2025)
Dramaturgia e direção: coletiva
Instrutores técnicos em artes cênicas: Ana Cristina Mello, André Sousa, Cib Maia, Francine Leite, Joicinele Pinheiro e Leandro Belilo
Elenco (estudantes): Adrielly Silva, Alanys Camargo, Alice Sá, Alice Neumayr, Alice Campos, Alice Guerra, Amanda Santos, Amanda Silva, Ana Beatriz Maffort, Ana Carla Campos, Ana Clara Domingos, Ana Julia Silva, Ana Sofia Silva, Analice Rocha, Anaua Lage, Anne Costa, Ariane Ferreira, Ayla Militão, Bernardo Passos, Bianca Passos, Bruna Candelária, Camilla Dias, Carla Silva, Cecilia Silva, Clara Sangy, Dyna Souza, Esther Nonato, Esther Simão, Gabriela Santos, Giulia Noce, Helena do Carmo, Helena Coelho, Heloisa Silva, Isabela Araújo, Izabella Santos, João Pedro Lavigne, Julia Tavares, Julia Martins, Julia Barbosa, Kevellin Santos, Laila Moreira, Laiza Silva, Larissa Sousa, Larissa Araujo, Laura Luz, Laura Sales, Letícia Rodrigues, Luisa Sousa, Luisa Oliveira, Luiza Oliveira, Manuela Drumond, Manuella Antunes, Maria Clara Reis, Maria Eduarda Campos, Maria Eduarda Celestino, Maria Fernanda Canalis, Maria Sophia Martins, Maria Sophia Feitoza, Mariana Frade, Mayala Campos, Nikole Menezes, Nina Maltarollo, Nina Elias, Noara Oliveira, Rafaela Santos, Rafaela Aquino, Rayra Samuel, Rebeca Cardoso, Rebeca Almeida, Sarah Oliveira, Sofia Silva, Sophia Souza, Thais Moreira, Victoria Campos, Vinicius Alves, Vitória Ambrósio, Vivian Silva, Yago Dias, Yasmin Santiago e Yasmin Rocha
Iluminação: Leandro Belilo e equipe técnica do Sesc Palladium
Figurinos: Silma Dornas
Cenografia: Miriam Menezes
Coordenação de Programas Sociais: Ana Clara Buratto
Analista de Programas Sociais: Alessandra Alvarenga
Realização: Núcleo de Formação em Dança do Sesc em Minas

