por Soraya Belusi
Crítica escrita a partir do espetáculo No Coração da Lua, do Grupo Estação de Teatro (RN), apresentado no dia 25 de setembro, no Sesc Palladium, como parte da programação do Palco Giratório 2026
Há uma escolha importante em No Coração da Lua, do Grupo Estação de Teatro, do Rio Grande do Norte: diante de uma criança que, de repente, perde a vontade de levantar, comer, brincar ou fazer qualquer outra coisa, o espetáculo resiste à tentação de dar um nome ao que ela sente. Não há diagnóstico, tampouco a tentativa de conduzir a experiência por um caminho explicativo. Em vez de perguntar o que Luana tem, a montagem parece interessada em outra questão, talvez mais difícil: o que fazer diante daquilo que uma criança sente quando nem ela própria consegue compreender ou nomear?
A escolha ganha relevância em um trabalho que assume a saúde mental na infância como ponto de partida. Em tempos de uma crescente incorporação do vocabulário dos diagnósticos ao cotidiano, No Coração da Lua prefere permanecer no terreno menos preciso, e por isso mesmo mais aberto, da experiência. Luana está apenas “sem vontade”. E é em busca dessa vontade perdida que ela e o amigo Juca partem para um mundo imaginário povoado por seres fantásticos.
Antes disso, porém, são os adultos que tentam responder à menina. Logo nas primeiras cenas, os pais de Luana chegam ao quarto como duas figuras quase extravagantes, meio vedetes, preenchendo o espaço de cor e som. Mas aquilo que trazem consigo são perguntas e respostas conhecidas e que todos nós já ouvimos em algum momento da nossa infância: “O que você vai ser quando crescer?”, “E se ela continuar desse jeito?”, “Eu, na sua idade…”. Até que vem a sentença tão corriqueira quanto violenta em sua incapacidade de escuta: “Deixa de manha, menina!”.
Foto: Brunno Martins
Há algo significativo no contraste que a encenação estabelece. Os pais chegam carregados de cor, mas não conseguem iluminar o que acontece com a filha. Falam dela, falam para ela, projetam sobre ela expectativas de futuro e parâmetros de uma infância que já não existe, mas pouco conseguem escutá-la. Parece que o diálogo entre a criança e o adulto não se realiza. Quando deixam o quarto, a cor sai junto com eles e Luana mergulha de vez na escuridão.
Desde a abertura, aliás, No Coração da Lua parece procurar outro lugar de interlocução com a infância. Ainda com as luzes da plateia acesas, antes de a peça começar, é uma voz de criança que apresenta os recados, antecipa algo da história e explica um pouco do que é o rito do teatro. Além de ser um recurso simpático de recepção do público, o gesto anuncia um pacto que a montagem procura alcançar, que é não falar apenas sobre a criança, mas tentar falar a partir de elementos que lhe sejam reconhecíveis.
Nesse universo está também a pequena boneca que Luana carrega, feita à sua imagem e semelhança. O objeto duplica a personagem e, ao mesmo tempo, parece descolar aquela experiência exclusivamente do corpo da atriz. Luana é a menina diante de nós, mas também aquela pequena figura que pode ser carregada, manipulada, projetada. De algum modo, a duplicação amplia as possibilidades de identificação: aquilo que se passa com ela pode se passar com outras crianças.
É quando o mundo real escurece que a imaginação, paradoxalmente, começa a ganhar forma. E é nesse trânsito que a montagem encontra algumas de suas soluções mais inventivas. Uma estrutura simples de madeira, semelhante a uma enxada, oferece o corpo sobre o qual surgirá a Fada do Norte; pernas de pau ampliam a figura de uma diva pop; grandes máscaras de espuma deformam e expandem os pais. Materiais ordinários são continuamente retirados de sua função original para produzir outros corpos, escalas e presenças.
Não há interesse em esconder o artifício. Na verdade, parece que parte do prazer está justamente em perceber como pouco é necessário para que uma coisa se transforme em outra. A lógica das formas animadas se aproxima, assim, da própria lógica da brincadeira infantil, capaz de converter objetos disponíveis em personagens e mundos inteiros. Em um espetáculo que deposita na imaginação uma possibilidade de travessia, a economia material da cena deixa de ser limitação para se tornar linguagem.
A música participa desse mesmo movimento de transformação. Rock, balada, pop, bolero e diversos outros ritmos compõem uma dramaturgia musical que circula livremente entre gêneros e referências. Em determinado momento, um trecho da canção nos faz ressoar a memória de Os Saltimbancos, clássico de Chico Buarque. A referência ajuda a construir um imaginário que não pertence exclusivamente à infância contemporânea, mas atravessa gerações e se reorganiza diante das crianças de agora.
Foto: Brunno Martins
É por esse território que Luana e Juca, seu melhor amigo, passam à procura da vontade perdida. Surgem uma barata gigante que anda de skate, a Fada do Norte, o gênio da lâmpada, a bruxa, a diva pop misteriosa. Personagens vindos de diferentes repertórios se oferecem como possíveis auxiliares de uma jornada que, à maneira dos contos maravilhosos, parece prometer que em algum lugar haverá alguém capaz de fornecer a resposta.
Curiosamente, é quando a dramaturgia tenta aproximar essa estrutura do imaginário tecnológico contemporâneo que o percurso perde um pouco de sua precisão. A passagem pelo “pai Googão”, espécie de oráculo inspirado nas ferramentas de busca da internet, parece menos organicamente integrada ao universo criado pela montagem. Há uma intenção evidente de problematizar a confiança indiscriminada nas informações disponíveis na rede, mas a cena termina por conceder ao próprio dispositivo a autoridade que pretende colocar sob suspeita.
Afinal, é “pai Googão” quem indica que a resposta procurada está no mundo da imaginação. A contradição não compromete o percurso, mas revela um ponto em que a dramaturgia talvez explique mais do que necessita — sobretudo porque o próprio espetáculo encontrará, adiante, uma resposta muito mais potente do que qualquer informação fornecida por um oráculo.
Ao longo da jornada, há uma frase que retorna na boca dos diferentes personagens: “É porque tem hora que a gente cansa, né?”. Na aparente simplicidade dessa constatação talvez esteja uma das ideias mais delicadas de No Coração da Lua. A cada repetição, aquilo que parecia ser exclusivamente um problema de Luana vai se tornando uma experiência compartilhada. A tristeza, o cansaço, a falta de vontade deixam de constituir uma espécie de falha individual que precisa ser corrigida. Todo mundo, em algum momento, cansa.
A montagem se afasta, assim, tanto da patologização quanto de uma pedagogia simplificadora das emoções. Sentimentos difíceis não precisam ser imediatamente eliminados ou convertidos em uma lição positiva. Antes disso, eles, talvez, precisem apenas encontrar um lugar em que possam existir e alguém disposto a escutá-los.
Por isso é significativo que, depois de tantos seres extraordinários, nenhuma criatura fantástica ou tecnológica seja capaz de devolver de forma mágica a vontade a Luana. Ao final, o que permanece é algo muito menos espetacular, a amizade de Juca. Talvez seja impreciso dizer que é a amizade que “salva” Luana. Mais bonito é perceber que Juca permanece ao lado dela. Ele não sabe diagnosticar o que a amiga sente, não exige que ela reaja, não lhe oferece uma fórmula capaz de fazer desaparecer a tristeza. Apenas não desiste dela.
E é nesse ponto que o percurso da peça parece responder à cena inicial. Os adultos chegam ao quarto cheios de cor, perguntas e certezas, mas vão embora sem conseguir alcançar a menina. Juca não tem resposta alguma, mas, mesmo assim, ele fica. Depois de atravessar fadas, bruxas, gênios, baratas gigantes e divas pop à procura de uma vontade perdida, No Coração da Lua termina encontrando sua imagem mais potente justamente no gesto menos fantástico de todos. Diante daquilo que ainda não sabemos nomear, talvez cuidar comece não por encontrar uma resposta, mas por permanecer perto o suficiente para escutar.
Foto: Brunno Martins
FICHA TÉCNICA
Direção: Rogério Ferraz
Dramaturgia, músicas e arranjos: Tonho Costa
Elenco: Maria Flor, Paulo Lima Firmino e Dudu Galvão
Cenografia: Rogério Ferraz e Irapuan Junior
Figurinos e Adereços e direção de arte: João Marcelino
Iluminação: Rogério Ferraz
Produção: Grupo Estação de Teatro e Bobox Produções
Assistência de Direção: Manu Azevedo
Contraregras: Juca Santos e Manu Azevedo
Direção de Palco: Juca Santos
Operação de Luz: Gewanderson Tinoco (Macarrão)
Operação de Som e Projeção: Rogério Ferraz
Animação: Paula Vanina



