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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

coberturas

Uma comunidade chamada teatro

por Daniel Toledo

Crítica a partir do espetáculo Para Mariela, do Grupo Sobrevento (SP), apresentado em 15 de agosto de 2026 no Teatro Wanda Fernandes do Galpão Cine Horto

Foto: Lauro Medeiros

I

Pensar em acessibilidade e mediação cultural, hoje em dia, é um exercício de imensa relevância e complexidade. Mas aqueles que o fazem, sob diferentes perspectivas, ao longo de 40 anos, certamente têm muito a nos ensinar sobre como ampliar os públicos da arte e da cultura.

Formado em 1986 e renovado algumas vezes desde então, o Grupo Sobrevento foi nacionalmente premiado em 2025 por quatro décadas dedicadas a um teatro singular e profundo, essencialmente voltado a públicos de todas as idades. No Palco Giratório 2026, é também o grupo homenageado, viajando até o fim do ano para uma série de apresentações nas cinco regiões brasileiras.

O próprio grupo constitui-se, atualmente, por artistas oriundos de diferentes gerações, formações e localidades. Fundada em 2009, sua sede se localiza no bairro paulistano do Belenzinho, conhecido por sucessivas migrações de trabalhadores e trabalhadoras estrangeiros que chegam ao país buscando oportunidades de emprego e, quem sabe, um futuro melhor. Criado entre 2023 e 2024, Para Mariela é o espetáculo mais recente do grupo, e traz como um de seus eixos centrais justamente a experiência da migração.

II

A apresentação no Palco Giratório 2026 foi realizada no Galpão Cine Horto, espaço cultural mantido pelo Grupo Galpão, nutrindo boas práticas de vizinhança entre dois dos coletivos de teatro mais longevos do país. Relações de vizinhança também são elementos que atravessam o espetáculo, como vestígios de comunidades que, nas grandes cidades atuais, muitas vezes desaprendemos a formar.

A comunidade formada para aquela apresentação tinha estrutura de arena e acomodava dezenas e dezenas de pessoas. Na plateia de sábado, como nem sempre acontece nas apresentações do grupo, havia muito mais adultos do que crianças. Os pequenos, em sua maioria, foram acomodados em cadeiras menores, logo na primeira fila, geralmente acompanhados por seus familiares. Durante todo o espetáculo, crianças e também adultos foram convidados a se perceber em cena.

Além das crianças, naquela mesma noite, outro público específico ocupava algumas cadeiras mais próximas à apresentação. A partir de uma colaboração entre a curadoria local do Palco Giratório, o projeto Sesc Mediações e a Pigmentar Cia. de Teatro, moradores da residência inclusiva Amigos do Amanhã, organização social dedicada a pessoas com deficiência e sem rede de apoio, foram presenças marcantes e atentas ao acontecimento teatral. Na arena organizada em torno de Para Mariela, nos tornamos, de fato, uma comunidade bastante diversa.

III

No centro da cena, um grande tabuleiro de areia escura e batida, cercado por pequenos retalhos vermelhos de tecido coletados entre os descartes da própria região do Belenzinho. Parece lava de vulcão. Mariela, que dá título à peça, é uma vizinha boliviana que chegou à sede do grupo trazida pelos próprios filhos – além de ser mulher, mãe, imigrante e trabalhadora explorada por uma das muitas confecções que há muitas décadas funcionam na região. Mariela não está ali, mas a obra também é para ela.

Nos diferentes vértices do grande tabuleiro, estão sentados atores e atrizes da companhia: Luiz André Cherubini e Sandra Vargas, também diretores da obra, além de Maurício Santana, Agnaldo Souza e Daniel Viana. Liana Yuri entra depois, assim como os músicos bolivianos Goyo, Lolo e Juan Cusicanki.

Os corpos dos atores aparentam leveza, mas curiosamente vestem trajes pesados. São calças, camisas e capas cor-de-terra, que ao longo do espetáculo experimentam outras cores e texturas. À primeira vista, parecem-se com monges, sábios ou artistas populares, mas as histórias que contarão ainda estão por vir.

IV

Um dos atores tem uma grande bacia próxima aos pés. Nela derrama uma xícara de sal natural, e ao girar a bacia descobre o barulho do mar. Enquanto o homem e o mar atravessam a cena, os demais atores nos ensinam, na prática, o tempo da contemplação. Em cena não há pressa, mas precisão e cuidado. Para Mariela tem início como um espetáculo de miudezas: pequenas memórias de infância a que muitas vezes nos cabe completar o sentido e a imagem.

Exímios contadores de histórias, atores e atrizes contam também uns com os outros ao desenrolar suas narrativas. Paralelamente às palavras faladas, objetos de diferentes origens e naturezas são manipulados, criados e postos em cena, dando concretude à palavra falada. No teatro ou na vida, devemos lembrar, é também para os olhos que falamos.

Paisagens são visualizadas em segundos, pássaros e assobios escapam de uma gaiola, um grande céu se enche de estrelas. Além de oferecer audiodescrição e interpretação em Libras, o estímulo à contemplação, à imaginação e aos diferentes sentidos do público mostram-se como recursos de acessibilidade (e teatralidade) que de modo delicado integram a poética do grupo. Somos, por fim, transportados para infâncias e lugares distantes, e o espetáculo se constitui, ao mesmo tempo, como uma viagem para longe e para dentro.

V

Composto por pesquisadores de múltiplas linguagens no teatro, o Grupo Sobrevento é amplamente conhecido pelo uso de máscaras, bonecos e objetos em seus espetáculos, assim como por obras dedicadas à primeira infância. Para Mariela acontece no momento em que o grupo se aprofunda em uma pesquisa sobre o Teatro de Objetos Documentais.

Além de memórias das próprias infâncias do elenco, ficcionalizadas, a obra também traz à cena lembranças – e desejos – de algumas crianças bolivianas que conheceram durante pesquisas e atividades realizadas em escolas do Belenzinho. Seja em suas mãos, sobre seus corpos ou simplesmente expostos no cenário, os objetos ganham vida e compartilham fragmentos de um mundo que estamos prestes a conhecer.

Um dinossauro, um unicórnio, uma caneca, uma garrafa, uma bola amassada: cada objeto é tratado, em cena, como elemento de mediação. Disparam narrativas, materializam palavras e produzem, sem muito esforço, uma ampla gama de efeitos sobre a plateia: do riso ao encantamento, da surpresa à emoção, do espanto à participação no jogo.

Foto: Lauro Medeiros

VI

À distância acompanhamos, por exemplo, a construção concreta e afetiva de uma pequena vila imaginária. Mais adiante, estamos imersos na própria vila, inebriados por uma surpreendente e comovente festa popular.

Entre um ponto e outro, no entanto, existe a viagem: o acontecimento concreto da migração. No ritmo lento de um ônibus de brinquedo, atravessamos a imensa vila rumo a um mundo desconhecido e desejado. Realizada em alguns minutos, a cena aparentemente simples, mas de efeito impressionante, nos oferece o tempo e a distância de uma longa travessia. Enquanto o ônibus toma seu rumo, uma canção interpretada ao vivo nos conecta sensorialmente à nostalgia profunda de quem deixa o próprio lugar.

Lugares, pessoas, memórias, desejos, imaginação: tudo isso ganha o devido tempo ao longo da montagem, além de adquirir importância, forma e poesia. Em Para Mariela, nos lembra a própria dramaturgia, o teatro – como o mar – é um dos lugares que “nos faz achar que podemos tudo”. Um lugar onde podemos, como aconteceu naquela noite, reencontrar inclusive a sensação de comunidade.

Daniel Toledo é dramaturgo, crítico e pesquisador em arte contemporânea. Mestre em Sociologia da Cultura pela UFMG e doutorando em Artes pela UEMG. 

–

Ficha técnica

Para Mariela (2024)

Criação: Grupo Sobrevento

Direção: Luiz André Cherubini e Sandra Vargas

Dramaturgia: Sandra Vargas

Elenco: Sandra Vargas, Luiz André Cherubini, Maurício Santana, Agnaldo Souza, Liana Yuri e Daniel Viana

Músicos: Goyo (charango), Lolo (quena e zampoña) e Juan Cusicanki (percussão)

Iluminação: Renato Machado

Figurino: João Pimenta

Assistente de Figurinos: Jaqueline Lima e Sofia Duarte

Cenografia, direção musical, letras e adaptação das canções: Luiz André Cherubini

Cenotecnia: Agnaldo Souza

Máscaras e adereços: Agnaldo Souza, Liana Yuri e Mandy

Bonecos: Agnaldo Souza e Luiz André Cherubini

Assistência de confecção bonecos e máscaras: Mosaico Cultural e Giulliana Pellegrini

Supervisão Música, Dança e Cultura Bolivianas: Juan Cusicanki

Técnico de Iluminação: Marcelo Amaral

Programação visual: Ato Gráfico

Fotografia: Lauro Medeiros

Registro Audiovisual e Teaser: Icarus Filmes

22/08/2026 TAGS: Palco Giratório, Sesc, Sobrevento, TEATRO 0 COMMENT
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    Daniel Toledo

    Pesquisador, criador e crítico em artes cênicas e artes visuais. Mestre em Sociologia pela UFMG.

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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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