Crítica a partir do espetáculo “Bando”, do Coletivo Máscara EnCena (RS), apresentado em Belo Horizonte, no 23 de agosto de 2026, na Feira Hippie e Parque Municipal
por Soraya Belusi
foto: Elizabeth Thiel
Prezados amigos do Máscara EnCena,
Ao fim de uma das cartas de “Bando”, vocês fazem uma pergunta: “Vamos continuar essa conversa?”
Pois esta crítica começa justamente como uma tentativa de resposta.
Não recebi em minhas mãos uma das cartas que vocês distribuíram naquela manhã de domingo. Ainda assim, elas chegaram até mim por outras vias, pela voz dos outros durante as leituras, pelos corpos que as carregavam até o destinatário, pelas histórias que atravessaram o cortejo. E a maneira que encontrei de entrar nessa correspondência foi escrever também uma carta. A vocês, mas também aos espectadores do passado e do futuro, aos que já cruzaram ou ainda cruzarão o caminho desse “Bando” de pássaros vindo do Rio Grande do Sul.
Se, no espetáculo, relatos e depoimentos transformam tragédia em memória, tento aqui realizar um movimento semelhante diante de outra espécie de desaparecimento: o do próprio teatro, essa arte que acontece diante de nós e começa a desaparecer no instante mesmo em que acontece.
Talvez não seja por acaso que vocês tenham escolhido cartas. Uma carta nasce de uma ausência. Escrevemos porque alguém não está diante de nós. Colocamos palavras no papel na esperança de que atravessem uma distância e encontrem outro corpo em algum outro lugar e em algum outro tempo.
O teatro, ao contrário, exige presença. Eu e mais algumas dezenas de pessoas estávamos ali naquela manhã de domingo, na apresentação do Palco Giratório, entre a Feira Hippie e o Parque Municipal. E talvez “Bando” aconteça justamente no atrito entre essas duas coisas: aquilo que já não está e aquilo que, por alguns instantes, volta a estar diante de nós.
Já não estão as vidas, as casas, os bairros, os pedaços de cidades inteiras carregados pela água nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. E há também aquilo que corre outro risco de desaparecer, como a própria tragédia, submetida ao esquecimento, ao apagamento e à sucessão vertiginosa dos acontecimentos. Diante de nós, porém, retornam as subjetividades, as histórias pessoais, os relatos de quem atravessou a catástrofe e para quem esquecer talvez sequer seja uma possibilidade.
É nesse gesto de tentar fazer retornar, por meio desse grupo de “pássaros” que chega e distribui cartas ao público, que “Bando” encontra parte de sua força. Porque vocês poderiam ter nos apresentado números, dimensões, cidades atingidas, perdas contabilizadas. Mas escolheram fazer com que a plateia presente desse voz a pequenas histórias, aquelas que geralmente têm maior poder de tocar a emoção. Diante da escala monumental de uma catástrofe, respondem com aquilo que há de irredutivelmente particular.
E talvez seja também por isso que a carta importe tanto. Uma carta tem destinatário. Mesmo quando compartilhada por dezenas de pessoas, ela carrega a intimidade de uma voz que se dirige a alguém. E, ao colocar essas palavras novamente em circulação, o espetáculo parece operar um movimento contrário àquele que transforma uma tragédia em estatística e, depois, em esquecimento.
Mas vocês não entregam ao público apenas palavras. Há corpos caminhando, máscaras, música, objetos, deslocamentos. A máscara, que oculta o rosto do ator, fazendo com que de alguma maneira ele perca sua individualidade, desumanizando-o e tornando-o uma figura coletiva, potencializa na percepção do público que nasçam outras identidades, a dos relatos, a das pessoas que escreveram aquelas cartas.
foto: Adriana Marchiori
Ao mesmo tempo, esse cortejo de pássaros que atravessa o espaço nos obriga também a nos deslocar. Para acompanhar “Bando”, não basta permanecer diante de uma cena: o espectador precisa segui-la e acaba por se tornar parte fundamental dela. A plateia se aproxima, dispersa-se, reorganiza-se, contamina quem encontra pelo caminho. Em alguns momentos, deixamos de apenas acompanhar aquele bando para, de alguma maneira, passar a fazer parte dele.
Mas é justamente dessa proximidade, inclusive física, que emerge uma fragilidade da dramaturgia. Como acompanhamos praticamente todas as cartas, à exceção de um momento em que as ações acontecem simultaneamente, algumas recorrências tornam-se perceptíveis. Histórias, imagens e informações começam a ecoar umas nas outras e, em certos momentos, a repetição acaba diminuindo a potência daquilo que o próprio dispositivo da carta parecia querer preservar, que é a singularidade de cada relato. Se cada correspondência nos aproxima de uma vida particular atravessada pela experiência coletiva da tragédia, talvez fosse justamente na diferença entre essas vozes que o espetáculo pudesse aprofundar ainda mais sua força.
A tragédia não acaba quando termina. Mas o teatro, muitas vezes, sim. O cortejo se desfaz e aquela configuração particular de corpos reunidos numa manhã de domingo em Belo Horizonte não vai se repetir. Mas aquelas cartas, não. Elas podem ser guardadas, reencontradas, relidas, respondidas. É utilizar algo que permanece para falar de uma tragédia que, com o tempo, vai, inevitavelmente, se afastando de nós.
FICHA TÉCNICA:
Direção: Maurício Casiraghi
Dramaturgia: Máscara EnCena e Maurício Casiraghi
Elenco: Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Maurício Schneider
Figurinos: Liane Venturella
Máscaras: Fábio Cuelli
Coordenação de Produção: Fábio Cuelli
Assessoria de Produção: Camila Vergara
Comunicação: Mariana Rosa
Produção e Realização: Máscara EnCena


