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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

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Fratura espectral | MITsp

Fratura espectral | MITsp

_ por Guilherme Diniz _

Crítica escrita a partir da peça Sábado Descontraído (Samedi Détene), de Dorothee Munyaneza (Ruanda/França), apresentada na MITsp 2020.

Em Sábado Descontraído (Samedi Détente), concebido por Dorothée Munyaneza, assistimos ao dilema de uma memória que tenta dimensionar a dor e o extermínio produzidos no terrífico Genocídio em Ruanda (1994), a partir de uma perspectiva poeticamente testemunhal que lida com as consequências históricas de tal acontecimento nas consciências individuais e coletivas de um povo à beira de seu mais profundo abismo. Ao revisitar o passado, ainda vivo como uma ferida aberta, a encenação desenvolve uma postura ética implicada na reflexão sobre a herança história que matiza os seus processos identitários e estéticos.

A dramaturgia aqui encara não apenas o morticínio avassalador, mas também os fantasmas que daí surgem. Assim como na poesia da santomense Conceição Lima, Dorothée enfrenta os muitos e aflitivos fantasmas que habitam sua memória histórica. Narrar as histórias dos fantasmas é uma tentativa de evocar os ausentes corpos insepultos para de alguma maneira fabular, esteticamente, possibilidades de dar sentido ao caos. Em sua presença invisível (ou ausência sensível) o fantasma é aquele ou aquilo que perturba o presente, pois recusa-se a ser esquecido.

A narrativa de Dorothée é vertiginosa, apresentando o seu drama em crescer em meio ao aniquilamento; constituir-se como sujeito a partir dos rastros da destruição. Naquela realidade extremada, a morte se converte em um modo de vida.

Historicamente, o genocídio em Ruanda foi alimentado por nações europeias que, ao instituir separações e hierarquias entre os grupos humanos daquele país, desenvolveu uma malha colonialista a instigar e a se aproveitar de conflitos. “O que me levou a matar meu amigo?”, questiona-se alguém ao dar-se conta da hecatombe concretizada pelas dinâmicas de separação e/ou pelas “políticas de inimizade”, para usar uma expressão do filósofo camaronês Achille Mbembe. No frenesi sanguinolento e anódino, outra tímida e crucial questão surge após tanta violência: “Quem é o inimigo”? Uma vez mais, o cinismo europeu que estimulou o ódio entre pares deu as costas ao sangue derramado.

Cenograficamente, os objetos, em sua concretude, são elementos determinantes na encenação, pois possuem um caráter residual dos eventos bélicos; a guerra passada se insinua nas roupas, na mesa, no rádio, que evidenciam rastros de uma humanidade em colapso. O programa radiofônico (cujo nome remete ao título da peça) que Dorothée ouvia quando criança é a expressão do trauma, pois ouvir aquelas canções é reconectar-se à dor. Logo, o rádio se projeta como sinédoque de um processo brutal de fragmentação.

Em Sábado Descontraído, os corpos em cena são portais de memórias, para pensarmos com Leda Maria Martins. O potencial estético-cultural do corpo em reatualizar as afetações da memória, conferindo outros e novos sentidos para a experiência. Uma corporeidade que, na sinestesia de sua ação poética, ritualiza e reinscreve figurações do vivido e do imaginado. Articular a história e memória, como fabulação, torna-se um processo de reflexão sobre o passado para compreender seus ecos no presente.

Os artifícios sonoros de Sábado Descontraído constituem uma polifonia disruptiva. A massa sonora difusa e multifacetada, amplificada por sintetizadores, gera ecos que povoam o palco com numerosas vozes e prantos clamando, angustiadamente, por justiça. A vocalidade de Dorothée é um forte vetor de sentido; evocando cânticos como atos de expurgação, conjuração e expressão mesma da dor e da consciência cindida.

Narrar aqui pode ser pensado como um gesto que revisita um momento histórico para deixá-lo simbolicamente em suspensão, dilatando sua dimensão temporal a fim de costurar um sentido novo para a vida a partir dos retalhos do aniquilamento.

Veja o trailer.

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10/03/2020 TAGS: Dorothee Munyaneza, genocídio, Leda Maria Martins, MITsp, Ruanda, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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Este obscuro objeto que deseja

Este obscuro objeto que deseja
– por Luciana Romagnolli –
Crítica a partir da peça “Stabat Mater”, de Janaina Leite (SP)*. 

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Na primeira vez que vi Janaina Leite em cena, em um casarão do centro histórico de Curitiba, o seu corpo se debatia entre o desejo e a repressão legada à mulher no contexto dos sanatórios onde eram tratadas as “histéricas” dois séculos atrás.  A peça era “Hysteria”, do grupo XIX, e eu, como as demais mulheres espectadoras, assistia a tudo de dentro, com o corpo implicado na cena.
Foi justamente a elaboração sobre si pela fala, realizada por aquelas mulheres quando encontraram em Freud uma abertura à escuta (ainda que limitada pelo pensamento patriarcal então vigente), que fundou a psicanálise. Mais de um século de história psicanalítica se passou até a Janaina que encontramos agora em companhia das palavras iconoclastas da psicanalista Julia Kristeva em “Stabat Mater”. Seu corpo já não performa os espasmos de outrora, mas uma dança desejante, disposta aos enfrentamentos dos tabus que enquadram corpos lidos socialmente como mulher.
Digo enfrentamento, e não libertação, porque os tabus insistem, os traumas operam na repetição. Eles ainda retornam, mesmo quando a atriz julgava haver encontrado encerramento ao admitir, em seu solo anterior, “Conversas com meu pai”, que nunca chegaria à forma ideal para o trabalho de reelaboração cênica da memória de incesto paterno. Não há satisfação total; é essa falta que a mantém criando.
Se há libertação, qual seja, é a das idealizações, rumo às satisfações incompletas e moventes. Ela nos permite vislumbrar os arranjos singulares que aa artista elabora de ser mulher, ser mãe, ser filha, ser atriz e do seu fazer teatral. Como busca insaciável de dar forma à vida.
“Stabat Mater” sustenta a instabilidade. A estranheza familiar de deparar-se com as próprias sombras, enfrentar o estranho de si e deixar-se desconhecer. Movimento análogo é realizado pela artista em cena em relação ao teatro, às noções de ficção e real. Já não cabe essa dicotomia quando a apreensão do mundo se faz com as ficções e fixações subjetivas com as quais damos sentido ao que nos passa.
Assim, é possível estranhar o teatro e escapar de enquadramentos habituais: documental, real, ficção etc. Toda composição com a materialidade dos corpos, dos tempos e espaços é teatralidade. Toda ação, sob o risco do corpo em presença, é performática. Toda elaboração de si é fabulação. Todos os corpos estão implicados.
A coordenada geográfica habitada nesse solo é a aresta. Ponto de fuga de qualquer enquadramento.
Se Janaina faz, do teatro, clínica, de modo algum ela é a “terapêutica” (à qual o senso comum e parte da crítica de arte reduz as escrituras de si), mas, antes, ato analítico. Análise como procedimento formal e ético. Um teatro crítico que se expõe e se decompõe, se indaga, duvida, se esquadrinha e se toma como objeto de elaboração sobre si mesmo. Com um olhar cru sobre as coisas, como quem disseca um corpo estranho: o próprio.
Nesses movimentos analíticos, “Stabat Mater” comporta as incertezas sem acovardar-se. Eis a coragem da verdade que a atriz assume, emprestando de Foucault o conceito de “parresia”. Se no solo anterior a verdade era uma impossibilidade, aqui, ela é um ato ético incorporado. Sua medida é a do corpo, com suas desmedidas.
O enfrentamento do real, então, se opera no sentido lacaniano daquilo que resta não simbolizável. O real é a presença ausente da mãe dela, ali, após ter sido esquecida no solo anterior. O real é o sexo feminino atravessado pelo corpo do filho parido. É o que não cessa de nascer e morrer.
A coragem de revisar os tabus sobre a sexualidade feminina e a queda das idealizações sobre a maternidade remonta à narrativa bíblica do nascimento de Cristo. Pela racionalidade discursiva de uma palestra-performance, descobre-se o véu sagrado que oculta um não dito sentido abusivo de não consentimento na concepção considerada a mais divina pelo cristianismo. A cultura do estupro encontra sua excusa santificada.
Contra ela, Janaina desacoberta o feminino abjeto. Desencaixado dos ideais de maternidade e feminilidade que embotam o desejo e mutilam corpos e subjetividades. O campo de batalha é o corpo da mulher por seu quinhão de mistério sobre o nascer e o morrer. O corpo que gesta e pare é o mesmo profanado no sexo e submetido à violência da pornografia tradicional ou dos slash movies obcecados por “virgens”.
Qual imagem mais violenta do que um parto em rewind?
Qual ato mais pornográfico do que o realizado à vista da mãe?
E, no entanto, é este que se contrapõe ao olhar masculino típico dos slash movies e da indústria pornô. A sexualidade se  despe das fantasias: carne contra carne. Não há relação, não há razão entre os sexos. O que resta é a mecanização do ato sexual que o desmitifica, marcando uma diferença que é a encontrada entre os efeitos de luxúria produzidos pelas imagens de um filme pornô e a crueza banal das filmagens. Dissecar essas imagens é uma forma de livrar-se dos efeitos delas. Desfixar-se das ficções sobre a sexualidade feminina.
O mistério, sim, mas o mistério cru, oco, sem mistificação.
Escapatórias
A mãe de Janaina (Amália Fontes Leite) tampouco atende à idealização da Mulher. Ainda que ecoe a representação da santa, no recato de sua presença, algo escapa. A estátua da mãe-protetora está rachada. Algo alheio permanece, algo inalcançável, a nos indagar quem é a mulher sob aquela máscara de mãe.
A vemos encurralada entre o papel de esposa, que ela cumpre ao retornar à casa para passar as calças do marido, deixando a filha desacompanhada, e o papel materno, que se poderia supor negligenciado quando a filha sozinha sofre um estupro. Dois papéis sob os quais ela se enterra enquanto ser desejante. A mãe está lá e não está lá. É a ausência presentificada (vertiginosamente distinta da ausência excludente de “Branco”), pulsando como a ferida ainda aberta.
O que me parece mais precioso neste trabalho é a travessia que se permite manter os sentidos abertos à complexidade das experiências. Confrontar as violências sem supor a si mesmo como inofensiva – o abandono do moralismo cristão há de nos livrar também da fantasia de salvação, com seu repertório de mártires, santos e sacrificados. Atravessar o lugar da vítima e continuar em movimento. Não operar reduções; sustentar os impasses.
É o rigor da radicalidade que se instala na trajetória da artista, desde a mulher submetida à violência cientificista dos eletrochoques, dirigida por homens na clínica e no teatro; àquela que palestra suas razões, dança sua sexualidade e roteiriza a reelaboração da cena do trauma, tomando para si a responsabilidade sobre suas escolhas e o mistério do seu desejo, e nos implicando com ela.
*Espetáculo visto em dezembro/2019, no Teatro de Contêiner, em São Paulo.
Ficha técnica:
Concepção, direção, dramaturgia: Janaina Leite
Performance: Janaina Leite, Amália Fontes Leite, ator pornô
Dramaturgismo e assistência de direção: Lara Duarte e Ramilla Souza
Concepção audiovisual e roteiro: Janaina Leite e Lillah Hallah
Provocação cênica: Kênia Dias
Direção de arte, cenário e figurino: Melina Schleder
Iluminação: Paula Hemsi
Direção de fotografia/filmagens: Wilssa Esser
Edição e vídeo-projeções: Laíza Dantas
Sonoplastia e técnica de som: Lana Scott
Preparação vocal: Flávia Maria Campos
Assistência geral: Luiza Moreira Salles
Direção de produção: Carla Estefan
Distribuição internacional: Metropolitana Gestão Cultural
Fotos: Andre Cherri
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02/03/2020 TAGS: feminino abjeto, feminismo, Janaina Leite, Luciana Romagnolli, palestra-performance, São Paulo, Teatro documentário BY: Luciana Romagnolli
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Gestos de desobediência

Gestos de desobediência


Fotos de Navalha na Carne Negra: Humberto Araujo.

Crítica escrita com as peças “Gota D’Água {Preta}” e “Navalha na Carne Negra”, dirigidas respectivamente por Jé Oliveira e José Fernando Azevedo.

– por Luciana Romagnolli –

Os tempos são outros. Por mais retrocessos que as políticas reacionárias nos imponham, avançamos, avançaremos. Nestes tempos outros, abertos os ouvidos e os olhos para as relações de opressão, encontramos em textos canônicos da dramaturgia ocidental questões atemporais e algumas anacronias. Diante da aceleração das discussões étnico-raciais e de gênero na última década, propulsionada pelo acesso de populações historicamente excluídas às universidades e aos canais de comunicação, há todo um movimento de revisão crítica por ser feito.

“Navalha na Carne Negra” e “Gota d’Água {Preta}” expõem em seus títulos, com muita nitidez, qual o gesto artístico-crítico fundante dessas versões. Não são trabalhos de obediência a uma tradição, pelo contrário. Eles se propõem a rever o cânone sem ignorar ou recusar o passado, mas também sem reverenciá-lo, reconhecendo a perspectiva que não estava contemplada nas obras de Plínio Marcos e de Chico Buarque com Paulo Pontes: a negritude.

Ambos são textos dos mais importantes da história da dramaturgia brasileira. Mas esta é uma afirmação derivada de um cânone que, assim como a maior parte dos dramaturgos, diretores, pesquisadores e críticos, obedece a uma matriz europeia, branca. Por mais que sejam trabalhos que tratem de periferia e das margens sociais do capitalismo, denunciando questões de classe, eles não têm a mesma sagacidade em abordar a estruturação racista da sociedade ocidental e seu capitalismo colonialista.

Então, o“simples” gesto de corporificar os diálogos com artistas negros é um movimento imenso de reparação de uma invisibilidade, que reconhece, enfim, que esses textos sempre falaram de uma população majoritariamente negra, mas que nos acostumamos a ver representada cenicamente por artistas brancos. É um movimento de reparação independente das outras operações que se processem nessas dramaturgias.

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Fotos de Gota D’Água {Preta}.

Em“Gota D’água {Preta}”, isso fica explícito na opção por enegrecer o elenco e manter o texto original de Chico e Paulo Pontes, que adapta a “Medeia” da Grécia de Eurípedes para a periferia brasileira dos anos 1970, como prova de que não era preciso transformar personagens, história ou contexto para que coubesse nas vivências pretas. Em especial, porque a exploração do trabalho e da propriedade se torna uma forma de endividamento/aprisionamento da população pobre que perpetua a lógica escravista no capitalismo por outros processos, como os juros, e submete direitos fundamentais, tal qual o da moradia, aos interesses dos poucos donos dos meios de produção e das propriedades privadas.

No texto de Chico e Pontes, essa perspectiva de classe sobressai ao mito de Medeia e a repontua: ela se torna essa mulher de quem já se tirou tudo – e qualquer desilusão pode ser a gota d’água.

A frustração que vem é a amorosa, por obra de um Jasão (Jé Oliveira) seduzido por uma mulher mais nova, mas ainda mais pela boa-vida oferecida por um capitalismo midiático, sustentado pelas engrenagens da indústria cultural como fábrica de ídolos– assim como em “Roda Viva”, também de Chico. Jasão é o sambista que alcança a visibilidade e o conforto negados aos de sua classe e cor, e faz-se  justamente o tipo de exceção que por décadas justificou discursos (racistas) de que, por haver celebridades negras nas artes e no futebol, não haveria racismo no país. O processo de embranquecimento sofrido por Jasão para se manter nesse posto de exceção faz com que ele se volte contra a própria população vizinha com a qual convivia, partilhava afetos e problemas. Ele adota a perspectiva e os privilégios do detentor dos meios, do patrão, para lucrar como ele, reproduzindo a opressão.

Portanto, quando “Gota D’Água” ganha a cor {Preta}, passa a dizer não só da perspectiva econômica, mas a compreender a complexidade da estruturação racista da nossa sociedade. Uma das maiores forças do trabalho está nessa manobra, feita pelo dramaturgo e diretor Jé de Oliveira. Ao mesmo tempo, ele traz para a cena elementos musicais muito potentes já vistos em “Farinha com Açúcar – Sobre a sustança de meninos e homens”, seu trabalho anterior à frente do Coletivo Negro.

“Farinha com Açúcar” é um trabalho que potencializa a palavra na oralidade, na musicalidade e na teatralidade, recorrendo a elementos da tradição e da atualidade da arte afro-diaspórica no Brasil, com centralidade para a música preta periférica, combativa cortante e poética dos Racionais MC a estruturar uma dramaturgia que se apresenta em relação intensa com o público.

Em“Gota….” essa contundência sonora e discursiva reaparece como comentário, sobrepondo uma camada dramatúrgica à representação mais convencional de um drama musical. As texturas sonoras entram como intromissões, intervenções em áudio que atritam com o cancioneiro de Chico Buarque, recompondo um diálogo musical de matrizes europeia e africana, elitista e popular, em que músicas “discutem” entre si. O rap arranha a MPB, expõe suas fissuras, suas fragilidades, mostra-se mais afiado. Temos aí um gesto artístico disruptivo, que respeita a crítica política da obra do Chico mas a confronta com seus limites e a leva além.

Outras intervenções dramatúrgicas vêm na boca de Jasão e do sogro. São falas reconhecíveis por terem sido proferidas por integrantes do governo Bolsonaro, que demarcam qual é a correspondência ideológica daqueles personagens no cenário político de hoje. Bastante frequente no teatro de nossos dias, a colagem de fragmentos de imagens e discursos políticos guarda um parentesco com o teatro de revista, no sentido de revisar os acontecimentos recentes por uma perspectiva crítica e debochada, ao mesmo tempo em que ecoa um tipo de enunciação de apelo ligeiro de que as redes sociais já estão saturadas.

De todo modo, essa atualização política da dramaturgia nos faz perguntar: se não há fidelidade absoluta ao texto original, por que não um gesto dramatúrgico mais contundente? Afinal, “Gota D’Água {Preta}” é uma versão de “Gota D’Água” que é uma releitura de “Medeia”. Essas três camadas de leituras estão sobrepostas, não se trata de uma tragédia inédita aos olhos do público, embora o encadeamento das cenas obedeça uma cadência cronológica que se demora nas minúcias da história.

Como efeito, a tragédia de Joana (Medeia) fica à margem da tragédia de Jasão. Tal como é desapropriada da casa por dever promissórias ao novo sogro de ex-companheiro, ela é desapropriada de protagonizar sua própria dor.

Por mais que Juçara Marçal seja uma artista capaz de colocar densidade na fala e no olhar, quando a ouvimos cantar vislumbramos uma Medeia que não encontra lugar de explodir em cena, reduzida a ser falada por outros e a reagir aos outros. O ponto delicado é que Joana reage às violências perpetuando uma visão patriarcal de gênero.

Aos ouvidos atentos e críticos de uma plateia como a que estava no FAN – Festival de Arte Negra, alguns diálogos machistas receberam reações imediatas. Mas há uma questão maior a ser enfrentada: faz falta que a revolta de Joana seja repensada, pois sua insubmissão, convertida no assassinato dos dois filhos, ainda é uma manifestação de dependência absoluta a um homem.

Numa perspectiva feminista, Medeia pode(ria) ser esta que se livra do peso da maternidade e da feminilidade, esta que se insurge contra a opressão masculina, esta que se vê aprisionada na dependência financeira e emocional e se rebela contra o destino da mulher na família patriarcal. Como a Medeia criada por Grace Passô, que enfrenta Jasão, não rivaliza com outras mulheres e insufla os filhos: “Mata teu pai”.

Mesmo com a força das mulheres negras em cena – estas que são a base social e da crítica interseccional antirracista e antimisógina –, em “Gota D’Água {Preta}”as estruturas patriarcais não são questionadas a fundo, nem a dependência emocional do casamento, nem a rivalidade entre mulheres, nem as piadas de cunho sexista. Uma vez que se saiba inadmissível rir do racismo, por que rir do machismo ainda é admissível?

Por toda qualidade crítica da abordagem em relação às questões econômicas e raciais é que a peça ainda precisa enfrentar a questão de gênero, na raiz da intersecção entre as formas de opressões, e rever a perpetuação de modelos de masculinidade e feminilidade violentos.

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Fotos de Navalha na Carne Negra.

Reenquadrar no feminino
Essa falta de um atravessamento crítico de gênero fica mais evidente quando a própria dramaturgia do FAN coloca lado a lado o espetáculo “Navalha na Carne Negra”. Tal como em “Gota…”, o elenco composto de artistas negros ocupa com seus corpos espaços simbólicos que já lhes pertenciam, mas dos quais a tradição teatral branca os mantinha apartados, e acrescenta uma perspectiva racializada à de classe e à de gênero presentes no texto de Plínio Marcos.

À parte ser um dos dramaturgos mais importantes da história do teatro brasileiro {branco}, “Navalha…” tem um foco tão cru na violência entre sujeitos marginalizados que, em alguns momentos, aproxima-se de um gozo dessa violência. A direção de José Fernando Azevedo parece ciente desse risco e disposta a atravessá-lo.

Na peça, temos três figuras com papéis sociais bastante definidos: Vado (Rodrigo dos Santos), o homem hétero cafetão, explorador do trabalho sexual de uma mulher; essa mulher, Neusa Sueli (Lucelia Sergio), que vende o sexo para sobreviver e para sustentar esse homem em uma relação de submissão financeiro-afetiva; e Veludo (Raphael Garcia), também trabalhadora do sexo, mas fora do jogo da heterossexualidade e da masculinidade hegemônica.

A relação entre eles é de muita agressão física, verbal, emocional e sexual, sobretudo praticada pelo homem hétero, mas também na rivalidade entre a mulher e a bicha. Tanto aqui como em “Gota…” aparecem diálogos em que a violência contra a mulher se dá por humilhações sobre sua aparência e idade como fatores que a desumanizam. Em“Navalha…”, entretanto, os gestos de direção são determinantes para que se abram outras camadas de leitura além da que Plínio Marcos propõe.

Um deles é a presença constante de uma mulher com uma câmera de filmagem no palco. Notemos que são dois corpos a mais: a mulher e a câmera. Não há mais somente o male gaze de Plínio Marcos e José Fernando. Além disso, ela também tira de Neusa o lugar de única representação do feminino – existe uma mulher ali que não é objetificada no trabalho sexual – e inaugura outro imaginário: a mulher que detém a câmera, enquadra e determina a narrativa visual que será projetada em preto e branco em duas televisões ao fundo da cena.

A câmera é um instrumento contraditório. A tecnologia de enquadrar, selecionando o visível (e o invisível) tem uma violência intrínseca, que aqui muda de mãos, contrapondo a invisibilização histórica da população negra.

Ao mesmo tempo, quando já de início a imagem de Vado/Rodrigo é projetada em duas telas, é possível traçar uma referência direta à “Julia” de Christiane Jatahy, na qual o mesmo ator é filmado ao vivo em um cenário com dois telões. Trata-se de um trabalho que também atualiza um texto canônico (de August Strindberg) explicitando a opressão de classe e a subjugação de gênero e que se tornou referência no teatro contemporâneo em relação com o audiovisual, transformando Jatahy em uma das (poucas) diretoras brasileiras reconhecidas internacionalmente.

A diferença maior está não no tamanho das telas, mas na opção por imagens em preto e branco. Abrem-se possibilidades de leituras simbólicas sobre os limites dos enquadramentos, a estetização das imagens e a simplificação das cores, mas também a evidenciação das nuances, em contraste com o que vemos em carne e osso. Dizem da potência e dos limites de olhar o mundo por lentes específicas.

A câmera permite ainda um jogo de consciência dos atores que sobrepõe outra camada de compreensão e dignidade aos personagens, sobretudo Veludo (Neusa não tem essa lucidez sobre a opressão de gênero, por isso a importância do contraponto da outra mulher que olha para ela pela câmera). A forma cúmplice, perspicaz, irônica, autoconsciente como ele/ela olha para a lente é o contraponto às humilhações sofridas. Tensiona a afetividade masculina obliterada pela imposição da virilidade e desestabiliza a violência heternormativa.

Outra operação de direção muito interessante é a edição explícita das cenas não somente em vídeo, mas no ao vivo. Sequências mais agressivas, que se encaminhem para uma violência física e verbal sustentada nas opressões, são interrompidas em momentos cruciais e depois retomadas alguns momentos antes do ponto de corte para serem refeitas de outra forma. Esse movimento de interrupção, corte, retomada, revisão, re-ação, chama a atenção para o modo como se faz, se encena e se corporifica, para as imagens que se produz, para os discursos que ganham voz, situando a camada crítica como parte constituinte da obra.

Por fim, o terceiro gesto e mais definitivo, como se negritasse as operações anteriores, criando um jogo de sombras e luzes sobre o texto de Plínio Marcos, é o epílogo. Quando a história se encerra, há uma retomada de cenas que acabamos de ver com uma edição muito marcante que faz com que três atores repassem fragmentos reencenando imagens mudas, significativas, que restabelece a possibilidade de afeto e respeito entre aquelas pessoas.

A imagem final que a câmera vai enquadrar é a bolsa da Neusa Sueli ao chão, aberta e vazia. A questão econômica reaparece como chave da dignidade humana, em um comentário visual que entendo como a denúncia derradeira do que, em última instância, acirra a violência daquelas relações – agindo, inclusive, sobre Vado.

Assim, a violência é exposta sem ser fixada nem se confiar a ela o prazer estético. Em vez disso, é desestabilizada pela proposição de uma imaginação além, desobediente,  que responda artisticamente à opressão instituída.

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06/12/2019 TAGS: Chico Buarque, Fan, jé oliverira, josé fernando de azevedo, Plínio Marcos, Teatro negro BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Ao Banho de Sol,

Ao Banho de Sol,

– por Luciana Romagnolli –

Ao Banho de Sol,

 “Nossa vida é finita.
Tem um marco de proporcionalidade que o perdão excede”.
Amélia Valcárcel. A memória, a justiça e o perdão.

Hesitei antes de escrever essas palavras. Havia algo a dizer que o formato convencional da crítica parecia trair. Admito o momento de crise com a crítica, que não se descola do momento de crise com a política, com os tribunais virtuais, com os discursos, as representações e os julgamentos. Essas escritas que se lançam ao mundo pretensamente detentoras de algo a dizer sobre o outro. Como escrever sobre um trabalho que os corpos ainda cumprem em presença, no qual ainda se colocam com toda sua carne e suas terminações nervosas? Como gerar, a partir da crítica, um espaço de convívio? Ou precisaremos de outra coisa? Outra forma de estar com as palavras e as obras e as pessoas? Outra forma de negociar sentidos?

Por isso escrevo assim, feito arremedo de carta pública. Pensei endereçá-la às atrizes Gláucia, Talita, Kelly e Mariana, mas seria um gesto metonímico: tomar as autoras pela obra. Por mais que estejam em cena, com seus corpos e humores, por mais que a peça seja a elaboração cênica de uma vivência delas como professoras de teatro em uma instituição carcerária para mulheres, “Banho de Sol” é uma parte da obra que essas artistas vêm constituindo ao longo de uma vida em cena. E tomar um momento como definidor de uma vida – o próprio espetáculo alerta – é insuficiente.

Isso não significa que eu esteja defendendo uma visada pretensamente objetiva e distanciada ao trabalho. Tal como é tecido, de suor e lágrima das mulheres aprisionadas, das mulheres artistas, de homens e mulheres na plateia ou no palco, “Banho de Sol” demanda um sujeito de carne e osso para tentar estabelecer um diálogo.

Afinal, a primeira aproximação à peça já é da ordem desse encontro pessoal. Quando Mariana, Kelly, Talita e Gláucia nos recepcionam e cumprimentam com suas roupas “de passeio”, essas que elas e nós podemos usar por não estarmos condenadas ao cárcere, nos fazem pensar em nossos privilégios de ir e vir e consumir com variada liberdade, de acordo com a rotina que a classe social e a ideologia à qual nos alinhamos permita. De trajes de banho, evocam a distância entre nossos lazeres e as duas horas de banho de sol permitidas dentro de um presídio.

Neste início, como um prólogo, convocam a um olhar crítico e estabelecem algumas diretrizes éticas determinantes para o trabalho, que eu compreendi como uma espécie de “carta de intenções” que deixa vestígios para interpretarmos tudo o que vem depois. É o momento de autocrítica, quando comentam ter passado um ano dando as aulas de teatro dentro de um presídio feminino para mulheres presas por crimes hediondos e, só depois de encerrado o período, tomaram consciência da prevalência de mulheres negras nessa condição de privação da liberdade.

Com base nessa constatação tardia e no fato de serem quatro mulheres brancas, Talita localiza o público (de maioria branca, como de praxe numa instituição burguesa) e as artistas na estrutura social racista. “O sistema somos nós”, sintetiza.

Nós no sistema

Adianto, aqui, que essa é uma das questões que insistiram na minha cabeça dias após a peça. Embora afiada, a frase não me parece dar conta da complexidade social a que alude. O sistema somos nós em que medida? Como esse sistema opera? Por quais motivos é cruel e seletivo? Que poder de decisão de fato temos, enquanto sujeitos, ou grupo social, dentro de uma estrutura  de cinco séculos, dominada por grupos de capital financeiro inimaginável para trabalhadores de classe média?

Não sugiro que não tenhamos nenhuma responsabilidade ou possibilidade de ação, pelo contrário. Mas penso que se o problema é estrutural, a responsabilidade não pode ser individualizada, pois esbarra na impotência de cada um, nos limites de ação de pequenas formações temporárias de “nós” como é uma platéia de teatro, e a quais nós se refere.

Então, seria preciso discutir como o sistema se estrutura (pela exclusão dos corpos “indesejáveis”, pelo racismo…) e se atualiza; e por quais modos opera a seleção racial que define quem será ou não punido. Entretanto, por efeito da tomada de consciência racial posterior ao fim das aulas no presídio, só pontualmente as questões de raça e classe são tratadas explicitamente na dramaturgia das cenas criadas a partir dos encontros com as mulheres.

Entendo a escolha de abordagem de “Banho de Sol”, então, como outra. Menos política no sentido macro, mais de uma política da empatia. E até que ponto é justo cobrar de uma obra o que ela não pretende ser?

Sim, o terreno que se abre é o da justiça. Mas não o do tribunal. Voltaremos a isso depois.

Pacto dos pressupostos

Compreendi esse prólogo, então, como uma negociação de valores, no qual as posições (anti-Bolsonaro e anti-Pena de Morte, sobretudo) são pactuadas como premissas básicas. E é importante que elas não fiquem só implícitas, mas sejam afirmadas, como pressupostos sem os quais o diálogo palco-plateia seria inviável.

Isso não significa que as artistas pressuponham que todos os presentes partilhem das mesmas posições, mas que haja uma mínima abertura ou disposição para olharmos pela perspectiva delas.

Afinal, quanta energia não gastamos tentando conversar com pressupostos incompatíveis? Ou quando sucumbimos à agenda embrutecedora desse governo, que bloqueias avanços da discussão pública quando questões como a de gênero regridem ao azul x rosa, por exemplo?

Distâncias e visibilidades

O distanciamento crítico proporcionado de início é especialmente importante porque a encenação que se segue se baseia na identificação e na catarse, com altíssimo apelo emocional. Tão logo começa a narrativa do processo de entrada das quatro na penitenciária, as atrizes criam um espaço imaginário de muita empatia pela dor daquelas mulheres, submetidas a violências simbólicas e físicas. A maior delas, a restrição da liberdade a um cubículo por anos a fio. Minha reação e a de muitos ao redor foi de comoção.

O procedimento cênico criado para dar concretude a esse ambiente carcerário impossível de ser reproduzido em um teatro é um retângulo desenhado no chão, com as medidas da cela, preservado permanentemente em cena, para que a proporção da privação nunca seja esquecida. Nenhum outro esforço feito pelas atrizes para restabelecer nos olhos alheios a percepção da humanidade daquelas mulheres é mais contundente do que essa noção espacial do quinhão de mundo ao qual são restritas. Assim, “Banho de Sol” indaga como tais condições podem preparar para um retorno sadio ao convívio social. Como não enlouquecer ali?

Outro desafio para a encenação é como representar/presentificar essas mulheres. As atrizes optam por não usar imagens nem depoimentos em áudio, nada que identifique um rosto, uma voz, um corpo. Afinal, não fazem um documentário sobre as habitantes do presídio feminino, tampouco uma investigação social, política e jurídica do sistema carcerário ou da ideologia punitivista. A peça narra a dimensão humana do encontro dessas quatro atrizes com aquelas mulheres, dentro dos limites e da grandiosidade dessa experiência.

A ética que rege a cena é a da não exposição delas. Não reconhecemos quem são, salvo exceções que, significativamente, correspondem a mulheres brancas de classe privilegiada: a mulher que talvez tenha comandado Minas Gerais por anos (não enquadrada como crime hediondo) e a que matou os pais.

A opção das atrizes por não se pôr no lugar delas nos diz algo sobre a impossibilidade de representação de um outro em situação tão distinta. Ao mesmo tempo, dá visibilidade à invisibilidade social das mulheres em situação prisional. E mais: Mulheres da plateia são convocadas para a construção das cenas; estas, sim, ocupam um lugar de representação do corpo coletivo das presas e emprestam seus corpos à ideia professada de que “poderia ser uma de nós ali”.

Poderia? Penso que, no limite, sim. Pelas estatísticas sociais, menos provável.

No livro “Encarceramento em Massa”, a pesquisadora abolicionista Juliana Borges chama a atenção para como os presídios se configuraram como as novas senzalas na sociedade brasileira e para a falta de uma perspectiva interseccional na elaboração de políticas públicas. “As ideologias punitivista e racista operam de modo tão articulado e estão tão internalizadas, que muitas pessoas simplesmente não conseguem conceber uma realidade sem aprisionamentos”, diz a autora.

Este talvez seja o ponto central de “Banho de Sol”. Talita anuncia entre suas intenções que, se houver ao menos uma pessoa presa injustamente, será contra a existência de prisões. Em acordo, retomo, então, as palavras de Juliana: “nesse sentido, é preciso buscarmos outras questões, mais profundas, que garantam que cada vez menos pessoas sejam encarceradas e que não precisemos mais de prisões” (BORGES, 2019, p. 117).

A experiência do público, contudo, encontra o limite de estar diante/dentro de um palco povoado por pessoas brancas com suas roupas de passeio (as espectadoras), que muito dificilmente farão conexão com um presídio abarrotado de pessoas em maioria negras impedidas de contato com o mundo exterior. Essa distância entre a situação prisional e a cênica evidencia como a racialização dos corpos em cena seria fundamental para o debate em questão.

Momento definidor

De todas as escolhas estéticas pautadas eticamente em “Banho de Sol”, a que mais me perturba, e motiva esta escrita, é a de nunca abordar os crimes cometidos. Com isso, de modo algum defendo que se instaurasse um tribunal público para julgá-las – já bastam os do Twitter, Instagram e Facebook.

Compreendo que a opção das artistas seja por lidar com aquelas mulheres pelo que elas são para além de um ato cometido. Talita também tangencia esse ponto no prólogo com uma questão de extrema pertinência, que ainda reverbera em mim: quem gostaria de ser definido por um único momento de sua vida?

A exceção acentua a recusa a abordar os atos cometidos quando, mais tarde, ouvimos a única narrativa do “crime” de uma das mulheres anônimas. Um relato trágico de abandono parental, pobreza, distúrbio psiquiátrico e infanticídio (para usar aqui palavras cruas, deixando a experiência catártica a quem ainda for assistir à peça). A construção impactante expõe os mecanismos de exclusão social que pavimentam o caminho de uma mulher até a cadeia, como exemplo concreto do que significa “não ter a quem recorrer”.

O meu questionamento é sobre o efeito de ser esse o único relato de crime. Um caso em que a ausência de medicação para um transtorno grave aponta para um incidente de insanidade mental, expondo a falta de acesso a um julgamento justo e, com isso, a falha na aplicação da lei, mais do que na legislação em si. Ainda que concordemos com a simplificação de equiparar a legislação à sua aplicação, como partes inseparáveis de um sistema jurídico forjado por homens brancos, pergunto: por que apresentar ao público somente a história de uma mulher cujo “crime” é mais facilmente justificável?

Sem dúvida, a estrutura racista produz numerosos outros casos em que as condições sociais precipitam atos de violência ou mesmo de condenações antecipadas e equivocadas – se um policial é capaz de atirar em um menino negro por “confundir” o guarda-chuva com uma arma, o que dirá aprisionar? Se “Banho de Sol” fizesse esse recorte racial e social na estrutura da própria peça, talvez não houvesse o que interpor nesta carta.

Mas hei de lembrar que entram na cena menções a mulheres brancas, ricas, que mesmo em menor número também compõem a população carcerária. E hei de lembrar que, entre as injustiças evidentes, sobram vítimas de atos classificados como crimes hediondos, que sofreram violências irreparáveis; a maior delas, a destituição da vida. Para reverter a desumanização das mulheres em situação prisional, a encenação realiza o que eu vejo como um apagamento de atos de violência cometidos. É preciso esquecer esses atos para considerarmos a humanidade de quem os comete?

Nem tanto monstro, nem tanto vítima. Como olhar para essas mulheres e conjugar o que vem do lugar social à singularidade? E, então, como fazer a crítica ao sistema carcerário e ao punitivismo da nossa noção de justiça sem desarticular qualquer possibilidade de atribuir responsabilidade a um ato definitivo como o de estupro e/ou morte?

Outra síntese

Ainda no prólogo, Talita deixa explícito que fará a defesa dessas mulheres porque o contrário disso já acontece cotidianamente (conhecemos os discursos de “bandido bom é bandido morto” ou sobre gastos “excessivos” com pessoas em situação prisional). Penso se “Banho de Sol” é a segunda parte de uma estrutura dialética, que responde com defesa irrestrita à ofensiva social desumanizadora, e se isso pode provocar no público uma síntese outra, dentro do campo ético de cada um.

No meu caso, e por isso tento alguma pessoalidade nesta escrita, é impossível assistir à peça sem considerar a vivência de uma morte por assassinato na família (cometida por um homem branco de classe privilegiada). Quando Talita alerta que, se alguém perdeu uma pessoa amada, respeita essa dor, mas a questão da peça é outra, penso na irreparabilidade da morte. Não no luto de quem fica, mas na privação absoluta de quem morre. Daí meu desconforto em ter essa dimensão da violência totalmente encoberta em uma experiência cênica catártica.

É no prólogo também que aparece algum dissenso entre as artistas, quando Kelly se questiona repetidamente sobre a necessidade de adotarem uma perspectiva mais crua. A dúvida dela persiste em mim, especialmente porque o distanciamento crítico do prólogo não retorna ao palco.

Ressocialização

Para tornar viável a ressocialização de quem comete um ato criminoso, Juliana Borges diz que “precisamos repensar o sistema de justiça que se organiza não pela vingança e pela punição, mas, principalmente, pela restauração e pela reconciliação” (2019, p. 119). Sem pretender equiparar a posição abolicionista dela e a minha aqui expressa, deixo reverberarem algumas das críticas que ela faz no sentido de reiterar a necessidade de discussões mais complexas e aprofundadas sobre o tema, para além de um momento, de um ato, de um trabalho único.

Penso que só isso poderia, diante da impossibilidade da reparação, abrir espaço para fabularmos outra possibilidade de responsabilização de quem comete um ato violento, que não sejam a vingança nem o apagamento da violência cometida.

Abraços,

Luciana Romagnolli

06 de junho de 2019.

 

Ps. Encontrei aqui a lista de crimes hediondos segundo a legislação brasileira: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8072.htm

Pss. O livro da Juliana Borges, O que é encarceramento em massa?, foi publicado pela Letramento Editora e Livraria LTDA, em 2018, e pela editora Pólen, em 2019.

 

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07/06/2019 TAGS: encarceiramento em massa, Juliana Borges, racismo estrutural, Talita Braga, teatro mineiro, Zula Cia. de Teatro BY: Luciana Romagnolli
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Vivenciar o banho de sol diário

Vivenciar o banho de sol diário

– por Marcos Alexandre –

Crítica a partir da pela “Banho de Sol”, da Zula Cia de Teatro.

“Quando que uma luta passa a ser uma causa sua? Nós somos quatro mulheres brancas para falar de uma realidade, de um encontro que se deu onde 69% das mulheres encarceradas não negras e isso nem foi discutido por nós enquanto a gente estava lá dentro…”[1]

“Banho de Sol”, da Zula Cia de Teatro. Foto de André Veloso.

Como lidar com os AFETOS que nos atravessam? O que fazer quando sentimos silenciados pelos afetos e a (nossa) empatia nos deixa em estado de contemplação e repletos de emoção?

Sentimentos múltiplos invadiram, mais uma vez, o meu corpo ao rever “Banho de Sol”, da Zula Cia de Teatro e, novamente, saio do teatro meio absorto e sem saber muito bem como lidar com tantos sentimentos que percorreram meu corpo e meu inconsciente num espaço de 2 horas e 15 minutos. Fica a sensação de revolta e de impotência de ter a consciência de que seguimos vivendo em uma sociedade injusta e me pergunto como “digerir” e lidar com aquele turbilhão de imagens-estupefacções às quais fui exposto.

Acredito que a sensação de sentir-se embriagado por tantas emoções toca grande parte da plateia que se faz presente no CCBB na noite de 2 de junho de 2019. Basta dirigir o olhar para os lados, uma vez que em vários momentos a luz de plateia é direcionada ao público fazendo do mesmo copartícipe da proposta espetacular – e ver os rostos dos espectadores também em estado pleno de contemplação, olhos e olhares lacrimejados, respirações ofegantes e narizes fungando – mulheres e homens – sim, muitos homens – se mostram, muitos, sem dissimular a emoção.

“Banho de sol” surpreende e é potencializado como grande trabalho por muitos motivos, desde a qualidade da equipe envolvida na produção e realização do espetáculo; a instalação/exposição, concebida por Alexandre Tavera, que é “realizada” antes de as atrizes e os espectadores adentrarem o teatro – há que se ressaltar o espaço convival que é experienciado pelas atrizes e público presente na antessala do teatro –; às excelentes performances das atrizes Gláucia Vandeverld, Kelly Crifer, Mariana Maioline e Talita Braga, que conseguem envolver a plateia em cada cena criada pelo roteiro proposto. De modo que nos levam a vivenciar vinte e seis cenas/ações do banho de sol diário.

Outro aspecto que deve ser evidenciado é função sociopolítica do espetáculo que conclama as mulheres para dividirem as histórias que serão vivenciadas no palco. Assim, a dramaturgia proposta fala com e para as mulheres, e não que os homens não sejam bem vindos naquele espaço; não obstante, todos devem estar cientes de seus (nossos) lugares de privilégios dentro do contexto patriarcal em que ainda vivemos. É muito evidente que, ideologicamente, a proposta e as cenas são direcionadas às mulheres, pois as atrizes deixam bem claro quando se dirigem ao público feminino presente dizendo: “Sejam todas muito bem vindas, bem vindas, bem vindas!”.

Ainda discutindo sobre os lugares de privilégios, torna-se imprescindível também delinear que as atrizes têm consciência de suas prerrogativas e condições de preeminência enquanto mulheres brancas, socialmente, bem sucedidas. Só o fato de estarem num presídio feminino na função de professoras já as deixam em posição de uma “suposta hierarquia”. Neste sentido, colocar por terra as divisões binárias sociais traz à encenação um desafio a mais. Daí, o poder das cenas que buscam tratar das distintas formas de invisibilidades vivenciadas por aquelas mulheres dentro do sistema carcerário.

E é por tudo isso que cada cena/movimento se agranda diante dos olhares da plateia quando as “histórias” de diferentes mulheres são compartilhadas: aquela que mulher que era tão rica que talvez chegasse a comandar o estado inteiro ou o país inteiro, aquela que matou o seu bebê por ouvir vozes, aquela que se encontrou com uma das atrizes com quem tinha trabalhado num passado recente; mulheres pobres em sua maioria, abandonadas pelos maridos, parceiros, amantes, que não são perdoadas pelas famílias, parentes, pela sociedade…

Construir juntas…

Esta é a proposta de “Banho de sol”. Quatro atrizes – três delas mães, uma ainda estava amamentando quando deu aulas para as detentas, outra estava grávida e ganhou o seu filho uma semana depois de concluído o projeto na penitenciária – constroem juntas e com a colaboração de algumas mulheres da plateia o banho de sol de cada apresentação. É um jogo que se estabelece e que traz para cena, colocando em conflito, identidades, subjetividades e corporeidades femininas que clamam por terem suas histórias compartilhadas…

“Banho de sol” é um encontro que urge ser compartilhado e ressignificado inúmeras vezes…

*

[1] Fragmento de texto da atriz/personagem Talita Braga.

Ficha técnica:

Ficha Técnica:

Realização: Zula Cia. de Teatro;

Direção: Mariana Maioline e Talita Braga;

Dramaturgia: Talita Braga;

Criação e atuação: Gláucia Vandeveld, Kelly Crifer, Mariana Maioline e Talita Braga;

Consultoria dramatúrgica: Vinícius Souza;

Preparação vocal: Ana Hadad;

Iluminação: Cristiano Araújo;

Trilha sonora e vídeos: André Veloso;

Direção de arte (cenário e figurino): Alexandre Tavera;

Designer: Philippe Albuquerque;

Produção executiva: Andréia Quaresma;

Diário de criação: Clara Garavelho.

 

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07/06/2019 TAGS: dramaturgia, teatro mineiro, Zula Cia. de Teatro BY: Luciana Romagnolli
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Erro encena a nossa falta de estratégia

Erro encena a nossa falta de estratégia
– por Luciana Romagnolli –

Crítica a partir da intervenção urbana realizada pelo Erro Grupo, de Florianópolis (SC), no 6º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí (SC) 

Fotos de Carolina Copello.

Performers são, antes de tudo, complicadores culturais. Esta frase de Eleonora Fabião, impressa em um artigo sobre a potência da performance em ativar o paradoxal de estar vivo, faz pensar em “Jogo da guerra” como uma complicação. Com esse trabalho, o Erro Grupo, em atuação desde 2001 em Florianópolis, cria uma série de complicações de ordem estética, ética e política, que desestabilizam não somente noções de ficção e real, e de espectador e performer, mas, sobretudo, a eficiência e a validade das estratégias de ação política progressistas em curso. Inspirado pelo movimento de Maio de 1968, na França, e pela obra homônima de Guy Debord, “Jogo da guerra” assume o estatuto de arte ativista, organizada como um jogo cênico de guerrilha urbana que acontece em três frentes, duas delas na rua. Arte ativista no sentido desta que adota uma perspectiva crítica ao sistema produtivo capitalista e promove uma ação prática, vinculada a um lugar e em compromisso com a realidade. Como ao reunir grupos de espectadores para planejar ataques a pontos-chave da violência institucional vigente.
O público se separa entre os três núcleos onde se concentram os atores do grupo e experimenta perspectivas distintas do jogo, sem que um saiba a do outro (as da rua se encontram; a da sala, segundo relatos, acompanha as ações por falsas redes sociais). Isso afasta qualquer possibilidade de apreensão da totalidade do projeto em uma única execução, como ocorreu no Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, em Itajaí.
Ao chegar à concentração em frente à Casa da Cultura, no fim de uma tarde de terça-feira, os espectadores atraídos pelo canto das atrizes Luana Raiter (também dramaturga, ao lado do diretor Pedro Bennaton) e Rachel Seixas logo se viam em uma formação de roda, atrás de uma barricada de papelão, questionados sobre o porquê de estarem ali. “Estou ficando doente, estou exausta”, diz Rachel. Com essas vagas palavras, alude a um sentimento comum diante da situação política brasileira. Mais que isso, cabe a cada espectador intuir.
A forma de convite à participação pouco desfaz a timidez inicial de um público surpreendido pela maneira como desavisadamente é posto dentro de uma narrativa como se fosse – e passa a ser – parte propositora dela. A partir daí, será instado a mostrar o que trouxe de útil para a guerrilha urbana e a escolher os alvos e as formas de ação.
Na situação presenciada em Itajaí, o local escolhido foi uma igreja católica, após poucas sugestões e um brevíssimo debate de ideias restrito a falas de Luana (não) e Rachel (depende da situação) se pegariam ou não em armas, ao que uns espectadores responderam com movimentos negativos de cabeça. A discussão sobre o que fazer na igreja tampouco avançou até chegarmos lá.
O que se segue é, até certo ponto, específico dos acontecimentos do dia 7 de maio, em Itajaí, e pode ou não encontrar ecos em outras “apresentações” conduzidas pelo grupo. Eis uma das complicações que o Erro ativa. Sua forma é liminar, habita a imprecisão de zonas transitórias entre formatos conhecidos. E sua proposta de construção coletiva com o espectador, ungido à dupla posição de agir e observar, abre-se à imprevisibilidade das escolhas que serão feitas, e que se somam à já imponderável pulsação da rua.
Afinal, “Jogo da guerra” é teatro na rua, feito diante de trabalhadores e passantes alheios ao caráter artístico daquelas ações. É teatro imersivo, à medida que o espectador se encontra em relação direta (realizar uma manifestação ou ataque) com um ambiente no qual está fisicamente imerso (as ruas do centro da cidade). É artivismo, conforme previamente argumentado. É acontecimento cênico, estética e dramaturgicamente elaborado a partir de uma proposição ficcional silenciosamente pactuada com o público (algo como “e se nos encontrássemos para a guerrilha urbana?”). E é acontecimento na realidade, capaz de ferir o corpo da cidade e de seus habitantes. À porta da igreja, uma das atrizes gritou palavras como quem devolvia uma violência sofrida. Alguém decidiu escrever no chão, em carvão: “parem de nos matar”. Outro, que ainda não sabíamos ator “infiltrado” como espectador subversivo e pronto a radicalizar as ações, começou o preparo de uma bomba em uma panela de pressão e foi impedido. Isso descreve minimamente o que se passava dentro do grupo que formamos.
O que se passava ao redor era tratado como paisagem humana. Se fosse teatro, seriam cenário e figurantes. Até que uma mulher se aproximou e interrompeu a ação aos gritos de “na porta da minha igreja não!”. A ferida que se abriu não foi só da ordem da ficção. Um embate extremamente duro com uma pessoa que concentra em si imagens mais contraditórias do nosso tempo: ser mulher, ser negra, ser trans, ser devota, ser autoritária e contrária à cena coletiva armada contra ameaças a liberdades de corpos como os dela.
O jogo nos coloca diante das complicações do nosso tempo. De perguntas sobre como combater uma ideologia fascista que ascendeu ao poder de forma antidemocrática, cooptou cidadãos de todos os estratos sociais e, dia a dia, deturpa as narrativas sobre o que é violência.
Para aquela mulher, a violência era o “desrespeito” à igreja, e a arte não tinha o direito de chegar até ali. Cabe notar que sua reação, de censura e intolerância, foi inflamada pela não compreensão de que a insinuação da construção de uma bomba era “teatro”. Ela reagia à bomba diante da igreja, que pareceria violenta e injustificável a muitos outros de espectros políticos menos extremos que o dela.
Diante da situação ali armada, de ânimos acirrados, as atrizes e o grupo rumaram a outro ponto de ataque constando o fracasso da ação. As respostas aos questionamentos sobre o recuo indicaram a ansiedade em agir. “Vamos fazer qualquer coisa”, dizia Luana, dentro de uma lógica de menos conversa, mais ação. “Não dá para esperar unanimidade”. Atribuir essa fala à atriz pode significar incorrer no mesmo erro de acreditar que o ator infiltrado era “só” um espectador. Ao mesmo tempo, tratar como “personagem” parece limitado do ponto de vista da performatividade do trabalho e da efetividade de suas ações no espaço público.
Possivelmente, a fala dela, assim como a atitude dele, compõe um quadro dialético no “Jogo da guerra”, ao qual os espectadores haverão de reagir. Contudo, a posição de propositoras e condutoras do jogo ocupada pelas atrizes, somada à falta de cumplicidade entre o público recém-reunido, não permite uma dinâmica totalmente desierarquizada na qual seja factível opor-se a elas e instaurar outra forma de ação.
Pessoalmente, algo se perdeu nesse caminho: a adesão à participação, facilmente conquistada pela constatação de um “comum” entre aquelas pessoas, baseado na revolta diante da situação política, foi substituída por um sentimento de repulsa às ações daquele coletivo. O fracasso é da possibilidade de uma ação conjunta que não atropele eticamente os participantes. Fracassamos em formar um “Nós”, com uma mínima, mas determinante, pauta em comum, que sustente (inclusive eticamente) as ações.
Talvez se a ficção sobressaísse, e a sensação de reencenar um longínquo Maio de 1968 em maio de 2019 prevalecesse, essa urgência tivesse a força de uma reação à ameaça à vida em situação fictícia de guerra instaurada. Entretanto, a proximidade dessa suposta ficção com o contexto brasileiro atual, à espera de uma mobilização popular efetiva para impedir a continuidade da devastação econômica e social instalada [tal como começam a ser as manifestações estudantis dos últimos dias], situa o “Jogo da guerra” numa zona muito mais indiscernível de uma experiência real. A essa sensação, a reação à porta da igreja reforçou.
Como continuar, então? Como deixar para trás a situação de confronto real que se instaurou naquela calçada? Que a(r)tivismo é esse que abandonou a crença no diálogo? Quem são os oponentes, a mulher à porta da igreja ou os detentores dos cargos de poder? A quem se direciona a ação, aos que aderem ao comando “estou exausta” ou aos que apresentam resistência? Que imagem se constrói para o público não intencional? Quem sai enfraquecido? Como prever estratégias para que um teatro feito na rua não se aliene do que acontece na rua?
A dramaturgia de “Jogo da guerra” evidentemente não busca o “sucesso” da operação. Ela trata do fracasso, das incertezas, das hesitações, das limitações – como a despedida de Luana com a justificativa de “buscar o filho na escola”. Tal como a “Escola” de guerrilheiros representada pelo diretor chileno Guillermo Calderón em palco italiano há alguns anos na MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a intervenção urbana do grupo catarinense faz da rua essa experiência preparatória para um devir.
Para além de um fracasso ensaiado, o Erro encena nossa falta de estratégia, enquanto oposição, a formar um “Nós” capaz de dialogar no dissenso e manter sua força de mobilização, pactuando prioridades, linhas de ação e modos operacionais para agir contra a subtração de nossos direitos civis. Faz pensar nas estratégias que temos assumido, na política, de isolamento em bolhas supostamente consensuais. E no risco – alertado por Manuel Delgado – de que a barca do artivismo acabe se rompendo contra a mesma vida cotidiana que aspirava a romper.
Complicações.
*Texto originalmente publicado no site do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha.
Ficha Técnica
Atuação: Dilmo Nunes, Luana Raiter, Ligia Marina, Luiz Cudo, Rachel Seixas, Rodrigo Ramos e Sarah Ferreira.
Dramaturgia: Luana Raiter e Pedro Bennaton.
Técnica: Luiz Cudo e Rodrigo Ramos.
Assessoria de imprensa: Ana Letícia da Rosa.
Design gráfico e Webdesign: NoLab Arquitetura de Interfaces.
Fotos e registro audiovisual: PI Arte, Rodrigo Ramos e Sandra Alves.
Direção e concepção: Pedro Bennaton.
Criação, produção, coordenação e projeto: ERRO Grupo.
Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura 2017 – Fundação Catarinense de Cultura.
Faixa etária: Livre / Duração: 1h10.
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31/05/2019 TAGS: artivismo, Erro Grupo, intervenção urbana, Performance, política, rua, Santa Catarina BY: Luciana Romagnolli
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ensaios

não serei a crítica de um mundo caduku

não serei a crítica de um mundo caduku

– por Soraya Martins –

não

serei

a

 crítica

 de

um

 mundo

 caduku

 

não vou mais lavar pratos de Curitiba a Belo Horizonte que eu chamo carinhosa e odiosamente tudo junto dentro de mim de Texas território luscofusco aridez vim pensando esse título do poema de Cristine Sobral pausa para a escala em Campinas eessa frase é presença obsidiante em mim esse poema que tanto fez sentindo para mim lá na época da graduação quando ainda como hoje estava construindo minha formação em várias matizes de conhecimento desde as mais escuras até as mais pálidas querendo e me construindo atriz crítica pesquisadora de teatro não vou mais lavar pratos assim depois de 9 anos da primeira leitura vindo de dois grandes festivais de teatro mas o que é ser grande Mostra Internacional de Teatro e Festival de Curitiba não significava mais para mim querer travessas de prata e cozinha de luxo passei dessa fase entendi que minha existência não é apertadinha não eu quero joias de ouro legítimas quero a redistribuição das violências bem Jota Mombaça e do poder como

substantivo&verbo

o atravessamento que o Festival de Curitiba fez em mim vai mas muito muito para além das peças que vi vai para além do próprio festival imbrica-se no universo sócio-cultural da sociedade que o engendra exigindo para sua leitura crítica expansão uma volição e interpretação uma reflexão também ela dialógica e intersemiótica própria do teatro própria da crítica teatral não quero falar de Outros Cabaré Transperipatético Uma Frase para mim mãe Isto é um negro Navalha na Carne homenagem a Tôniz Carreiro Navalha na Carne Negra O quadro de todos juntos Projeto Maravilhas

não

&

não é por que não tenho nada a dizer sobre esses espetáculos tenho muito eles transbordam em mim mas hoje quero falar de uma personagem que melhor me representa eu primeira pessoa do singular do singular ao coletivo e vice versa eu crítica corpo da negrura em territórios áridos texanos texas em expansão vista dentro de um delírio da branquitude no lugar reducionista da representatividade sim a representatividade é importante linda mas não pode ser tratada como um fim em si mesma ela é um meio

tra

ve

s

sia

ela como configurações de experiências que ensejam novos modos de sentir e induzem a novas formas da subjetividade política e efetividade do pensamento disso eu quero fazer parte nisso quero colocar meu corpo em jogo é esse poder substantivo & verbo que eu quero disputar quero ser protagonista não vou mais lavar pratos não serei a crítica de uma representexistência no lugar mais vazio não darei os suspiros ao sistema não distribuirei as falácias da facilidade ou as cartas epistemicidas não serei a crítica de um mundo caduku representante dos corpos outros que vai amenizar as contradições ou costurar com o próprio corpo e isso dói as lacunas de modos de pensar e fazer arte que ainda se pautam no lugar de arredar pouco ou nada o pé dos privilégios de não se radicalizar na partilha do sensível pensando em partilha como Rancière que diz do comum partilhado e das partes exclusivas eu acrescentaria das singularidades não como desigualdade mas em diferença a nervura da diferença a partilha de espaços tempos poderes desejos responsabilidades que determina a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha é preciso dizer estando no CEFET-MG como professora no doutorado em uma instituição elitista por excelência no Fit-BH em Curitiba na MIT-sp no Fiac no Fitei ou em qualquer outro espaço privilegiado das práticas de ensino e de estéticas estando e habitando um mundo que  nega a minha singularidade que o meu corpo estando nesses espaços não dá como coloca Tatiana Nascimento do Santos no texto Não sou sua preta de estimação alforria do racismo e nem tampouco desconstrói as opressões que as pessoas instituições festivais brancos reproduzem a matemática aqui não é simplista eu ou outra pessoa preta+instituição ou festival  não é=antirracismo o meu corpo da negrura não dá autonomia a ninguém e nem é sinônimo de uma resposta pronta a uma culpa branca contemplativa que não se move para além de se autorreconhecer branco classe média privilegiado

&

ponto

final

.

 

 

 

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10/05/2019 TAGS: antirracismo, Belo Horizonte, branquitude, festivais, Festival de Curitiba, MITsp, negritude BY: Luciana Romagnolli
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Outras Rosas | MITsp

Outras Rosas | MITsp

Crítica do espetáculo Isto é um negro?, do E quem é gosta? (São Paulo) 

– por Soraya Martins –

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A peça Isto é um negro?  traz para a cena uma análise crítica-reflexiva e cortante do que é ser negra e negro no Brasil essencialmente racista, mas que bate no peito, orgulhoso, da democracia racial. Traz para o palco identidades historicamente silenciadas e desautorizadas a falar. E do que transborda: discute essas identidades para além de uma caixinha de identidade lúdica, que diz das negras e negros associando-os somente ao futebol, à comida e/ou à música, nunca a uma episteme que permita conhecer e explorar outras possibilidades de ser negra e negro no mundo. A peça ultrapassa essa identidade convencionalizada pelo olhar do branco e se revira num jeito outro de afirmação.

Um amontoado de cadeiras brancas no meio do palco compõe o cenário. Quatro atores aparecem e se despem na frente do público. Corpos da negrura em cena para dar início ao desmanche desse amontoado de cadeiras brancas. Me lembrei de Rosa Parks. Em 1956,  Rosa se nega a levantar do banco, dentro de um ônibus, para um homem branco se sentar. Em 2019, as quatro rosas – Ivy, Lucas, Mirella e Raoni- destroem essas cadeiras, construindo, assim como Rosa de 56, um espaço no qual se pode experimentar deslocamentos de imaginários, fissurar e desarticular visões simplistas e reducionistas sobre a negrura.

O que é um negro? O negro é uma invenção do branco. Como coloca Leda Maria Martins, a experiência da alteridade, sob a égide do discurso escravocrata, é a própria experiência de negação do outro, reduzido e projetado como simulacro ou antônimo de um ego branco narcísico, que se crê onipotente. Para fazer uma análise dessa invenção redutora do sujeito branco, encenado como universal, uno e absoluto, Isto é um negro? usa um elemento estético cortante e fundante dentro da proposta cênica: o riso.

A partir do riso, não de um qualquer, mas do riso numa espécie de forma melancólica, no sentido de rir da exposição de uma ferida aberta, o racismo – passado escravocrata que não passa e que emerge da montagem das cenas com consciência ainda maior de ferida aberta-, os quatro atores discutem sobre as camadas e subjetividades negras. Reivindicam a negrura na sua singularidade e liberdade de ser sem amarras. Discutem as formas de se fazer teatro negro. A arte discutindo a si mesma. A arte como o lugar em que esse riso melancólico se tensiona, buscando criar espaços para microproduções do desejo.

Não existe essencialismo negro, minhas caras e caros. O entendimento torto de que a produção artística negra se associa, como há muito aponta Diego Pinheiro, somente à religiosidade de matriz africana ou a males sociais, lançando muitas produções num folclore estático e histórico, caiu de cotação. Inclusive, as identidades negras são escritas no plural, há várias possibilidades de ser negra e negro no mundo, de ser e estar negra e negro em cena. Pensar a(s) identidade(s) negra(s) e o(s) teatro(s) negro(s) nos obriga a estar disponível, analisar e produzir outras possibilidades éticas, subjetivas e estéticas.

(Quem segura a mão do outro nessa empreitada?)

Isto é um negro? não é só quatro corpos em cena. Estão em cena quatro corpos performativos, pois o que se repete neles são experiências, vivências, conhecimento e saberes em contínuo movimento de recriação, remissão e transformações. Corpos culturais, com memórias vivas e pulsantes, que funcionam como registro daquilo que se sabe, como indivíduo e como grupo, sem ter que recorrer a caracteres gráficos, deixando de lado o artifício epistemológico da necessidade da transcrição das experiências em documentos. Corpos que fabulam. Não a ficção como mentira, mas como a possibilidade de construir identidades, modos de habitar o mundo a partir das íris pretas, de falar/performar, muito mais do que pode emitir palavras: poder existir.

Aqui, o teatro como a possibilidade de inventar novas “armas”, novas poéticas e novas histórias, que trança axé para além do que se pode ver, joga com o singular, agarra nas paredes e atua com astúcia e habilidade na luta antirracista.

 Texto originalmente publicado no site da MITsp.
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28/03/2019 TAGS: dramaturgia, identidade, MITbr, MITsop, negro, São Paulo, teatro contemporâneo BY: Luciana Romagnolli
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Mãe não tem limite. É tempo sem hora | MITsp 2019

Mãe não tem limite. É tempo sem hora | MITsp 2019

Crítica do espetáculo Partir com Beleza, de Mohamed El Khatib (Marrocos/França)

– por Soraya Martins –

Assim como O Alicerce das Vertigens e Democracia, peças que também integram a 6ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Partir com Beleza leva para cena uma dimensão política do mundo, não a dimensão crítico-reflexiva das guerras, ditaduras, dos silenciados pelos processos coloniais. O ator marroquino, Mohamed El Khatib, reivindica poder falar de amor, do seu amor de filho, a partir não do luto, como coloca já de início, mas da dor, do sentimento de abandono após a morte de sua mãe. Isso também é política.

O cenário para a (re)elaboração) dessa perda/abandono, é a Casa do Povo, numa sala grande que não lembra em nada o ambiente frio e pouco acolhedor dos grandes teatros. Simplesmente uma sala, sem refletores, com uma luz amarela acessa durante todo o tempo da performance, uma televisão. O corpo do ator-narrador-filho e os corpos dos poucos espectadores, numa sessão íntima, é o suficiente para estabelecer o jogo, ao mesmo tempo de tensão e curiosidade, de fala e escuta. E ele fala.  Fala sobre as últimas conversas que teve com a mãe, as leituras tecidas para mantê-la viva, o processo burocrático de repatriação de um corpo imigrante na França e a tensão, sempre no gerúndio, de vê-la partindo…

Play. Liga a televisão e avisa aos espectadores que gravou os últimos dias da mãe no hospital. Não era hepatite. Câncer no fígado. E a necessidade e o desejo de registrar a mãe. No vídeo, o preto da tela e o branco da legenda em francês.  E o jogo: ao mesmo tempo em que propõe dividir a sua dimensão mais íntima, definida como o superlativo do “dentro”, o interior do interior, o nível mais profundo do eu, Mohamed guarda a mãe só para si. E é justo.

El Khatib faz do seu teatro íntimo um golpe de força. O discurso na primeira pessoa, os diários íntimos, a cópia da certidão de óbito da mãe e de sua própria certidão de nascimento (entregues aos espectadores), o relato pessoal e a confissão não relegam às margens toda a expressão motivada pela interioridade. O seu teatro evolui não “no mundo dos outros”. Há uma legitimação do “interior do interior” como objeto de presentação. Talvez uma espécie de teatro documentário do indivíduo, que repousa na tensão dialética de elementos fragmentários extraídos diretamente da realidade pulsante e não aspira reproduzir exatamente um fragmento do real, mas a submeter os acontecimentos a uma (re)elaboração, que em Partir com Beleza diz da (re) invenção da dor em ato estético-performativo.

“A morte não dá força, fragiliza”. Como deve ser perceber a mãe como um “corpo estranho, morto, moribundo”? A fragilidade partilhada a partir do desnudamento do discurso interior do indivíduo, do silêncio, do mais recôndito, do não dito, do irrepresentável, que são também escolhas estéticas- performativas.

Como dar a ver o interior da cena? Que espaço deixará penetrar o olhar sobre o palco, dentro da casa, no interior dos pensamentos, ou ainda do inconsciente de um sujeito?

Da tela preta com o branco da legenda em francês, dá-se a ver o “corpo estranho-morto-moribundo” da mãe, segundos contados nos dedos. Não é esse corpo que Mohamed El Khatib quer que os olhos dos espectadores enxerguem.

“Tem de saber que estão aqui para morrer.”  E na parede branca, da Casa do Povo, a projeção da foto da mãe viva. A dimensão íntima fragilizada mostrada na sua força. Afirmar a força dessa fragilidade reelaborada – a imagem da mãe viva, mecanismo produtor de imagens para o pensamento – é afirmar que, no nosso modo de imaginar, como coloca Didi-Huberman, jaz fundamentalmente uma condição para o nosso modo de fazer política.

*Texto originalmente publicado no site da MITsp.

 

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28/03/2019 TAGS: arquivo, Marrocos, MITsp, MITsp 2019, Mohamed el Khatib, morte, Teatro documentário BY: Luciana Romagnolli
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Sobre ringues e diálogos ou a cena como campo de batalha | MITsp 2019

Sobre ringues e diálogos ou a cena como campo de batalha | MITsp 2019

Crítica do espetáculo O Alicerce das Vertigens, de Dieudoneé Niangouna (Congo/França)
– por Soraya Martins –

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A peça O Alicerce das Vertigens coloca em cena o drama do teatro africano, traz o que o ator de África quer colocar dele no mundo. E o que ele tem a dizer a partir do seu lugar de enunciação, como diz Conceição Evaristo, não é uma história para ninar os da Casa Grande-Colonizadores. Aqui se fala sobre e a partir de um pensamento crítico e reflexivo, sobre modos outros de interpretar os processos históricos e de forjar outras condições de existência para os corpos da negrura. Enganam-se as pessoas (brancas) que pensam que aqueles que não falam (negros) não tem nada a dizer. Eles – os negros africanos, negros em diáspora – foram sempre silenciados. As máscaras de flandres existem! Existem corpos autorizados para o abate. A necropolítica fazendo a política do extermínio.

“Pode o subalterno falar?”, pergunta Spivak. Como criar espaços nos quais os subalternizados (não é uma condição inerente, como a palavra subalterno indica) possam se articular e, como consequência, possam ser ouvidos? A palavra-linguagem é um mecanismo de poder que pode tanto ser utilizada para manter o poder quanto para compartilhá-lo. Quando se fala de direito à existência, à voz (e ao direito a ser escutado), se fala de lugares sociais, de como certos lugares são invisibilizados, de como as diferenças são vistas na sua negatividade e significam desigualdade, de como só um grupo específico está autorizado a falar.

O diretor Dieudonné Niangouna tece um espetáculo textocêntrico, que, para além do ato de emitir palavras, se dá para que identidades historicamente silenciadas e desautorizadas possam existir. A palavra na sofisticação das metáforas e metonímias, na ironia cortante que faz com que o espectador sinta o cheiro fétido do empreendimento colonial. O delírio. O fantasma. A vertigem.

O Alicerce das Vertigens encena os fragmentos-vertigens de vida de dois irmãos, Fido e Roger, que veem o seu cotidiano na cidade de Brazzaville, capital da República do Congo, sua dimensão familiar-íntima, serem confundidas com a própria história da colonização do país. Dessa mistura, fragmentos-vertigens que vão do pessoal ao coletivo e volta de novo no pessoal, surgem histórias que os textos da História, as narrativas dos vencedores sistematicamente camuflam. Dessa prática emerge um significante novo que vai paulatinamente inscrevendo a peça/a performance em novos saberes sociais, culturais e históricos.

Cenário fragmentado. Fragmentos de imagens. Fragmentos de memórias mobilizados para dar conta das experiências negras fragmentadas em si mesma. A possibilidade de existir a partir do fragmento (que não é um processo de “desencanto” ou de desagregação social, de um mundo fragmentado e polarizado entre capitalistas e comunistas, da efervescência das vertentes pós-estruturalistas e desconstrutivistas, como acontece com o teatro contemporâneo branco-hegemônico), condição – sem possibilidades de escolhas, para os sujeitos negros moventes pelo mundo, devido à imigração forçada pelo capitalismo – para plantar a realidade de maneira outra, fazer cem milhões de revoluções, mostrar outras possibilidades de estar e ser negro em cena, de ser negro pensante no mundo, de revisitar o passado, não como uma simples enunciação oca, mas como uma tentativa, sempre retomada, de uma fidelidade àquilo que nele (passado) pedia outro devir. A possibilidade mesma de tecer um devir negro no mundo, apresentada no fim do espetáculo: tem-se uma tela branca vazia oferecida ao espectador pronta para ser colorida com histórias, memórias cosmologias, tecnologias e corpos negros. Pronta, como diz Jota Mombaça, para redistribuir as violências.

O teatro de Niangouna se apresenta como lugar privilegiado de produção de pensamento crítico sobre a história de África, do Brasil e do mundo, local de produção de história pública no sentido mais sofisticado e abrangente do termo.

*Texto originalmente publicado pela Prática da Crítica no site da MITsp.

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18/03/2019 TAGS: Congo, dramaturgia, França, MITsp, MITsp 2019, Teatro negro BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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