Texto panorâmico a partir do acompanhamento do Festival MOVE CONCRETO – Mostra Internacional de Videodança (Edição Catas Altas) nos dias 28 e 29 de junho de 2025.
– por Clóvis Domingos –
Acompanhar uma mostra de videodança durante dois dias me possibilitou uma imersão especulativa e criativa para pensar possíveis articulações entre dança e tecnologia; questionar modos de presença, regime e circulação das imagens; aquilo que se produz na fricção entre o corpo virtualizado na tela e o corpo “ao vivo” de quem assiste a essa modalidade de criação artística.
Nessa minha primeira aproximação mais radical ao universo da videodança, lembrei da frase que uma artista há alguns anos havia me dito: “videodança não é videoclipe, pois na primeira as imagens são linhas dramatúrgicas e coreográficas que intencionam produzir formas e discursos, não mera reprodução de uma apresentação de dança filmada”. Foi o que pude conferir na Mostra Move Concreto! idealizada e produzida pelo Grupo Contemporâneo de Dança Livre (BH/MG) desde 2017, na qual o encontro entre a dança e o cinema é protagonista de projetos de exibição, fomento, difusão e formação para artistas e público.
Em 2025, a Move Concreto! chegou a sua sétima edição, comemorando também os 15 anos do grupo. Entre os dias 25 de junho e 9 de julho, em Catas Altas (MG) e em ambiente virtual, a programação contou com a exibição de 34 criações de 12 países e sete estados brasileiros e o Distrito Federal, além de oficinas e bate-papos. A curadoria foi composta por Duna Dias, Leonardo Augusto, Astergio Pinto, Daisy Servigna, Flavi Lopes e Luísa Machala.
Em Catas Altas (município turístico ao qual eu também nunca havia ido), a Mostra de alguma forma provocou deslocamentos, composições e incômodos. Moveu e removeu coreografias cotidianas dessa pequena cidade rodeada de montanhas rochosas devastadas pela mineração. Localizada aos pés da Serra do Caraça e resguardada pelo contraforte da Serra do Espinhaço, Catas Altas integra o Circuito do Ouro ao longo da Estrada Real. Seu nome tem origem nas escavações profundas realizadas no topo das colinas: a palavra “catas” refere-se a garimpo. Em minha acepção, a Mostra adentrava na cidade não para extrair e explorar, mas para mover, somar, ampliar, oxigenar e deixar rastros e memórias através de ações de arte, cultura e educação.
Chamo o conjunto de trabalhos apresentados de “videoandanças” pela possibilidade de, ao assistir a eles, transitar por diferentes propostas estéticas, contextos geográficos e políticos, conhecer artistas e grupos mais experientes e outros numa primeira aproximação ao universo da videodança.
Arte híbrida e fronteiriça, a videodança coloca os códigos da dança em diálogo com os do audiovisual, isto é, a coreografia de movimentos é pensada junto à técnica de enquadramento, à ambientação, à imagem, à fotografia, à iluminação e à edição final. A câmera não é apenas um dispositivo que registra a dança ao captar sua imagem, mas é o olhar e o dançar da pessoa que a segura e manipula, uma espécie de jogo e de relação. Quando numa grande tela são projetadas algumas danças, é como se pudéssemos perceber e apreender mais nitidamente, pela força das imagens, as qualidades, velocidades, intensidades e nuances dos movimentos ali presentes. É na fricção entre as camadas coreográficas e videográficas que se instaura um terceiro espaço, pois:
“A videodança não é do corpo que dança, a dança que ali se constrói é a dança do bailarino, do videomaker, da câmera, do editor e da técnica utilizada para edição em relação uns com os outros. A videodança seria, portanto, a composição dos olhares de vários artistas e, assim pensada, a dança que se apresenta nunca será, ao menos não de maneira exclusiva, aquela que o bailarino dança: a dança é uma resultante, uma deriva da relação entre humano e técnica” (Machala, 2020).
Seguindo esse apontamento de uma “composição feita de múltiplos olhares”, caberia também acrescentar aqui a recepção das obras por parte dos espectadores e as possíveis modulações e releituras.
Como artista cênico e crítico, trago neste texto um pouco do meu percurso na Mostra e me detenho em alguns trabalhos a que assisti presencialmente na praça Monsenhor Mendes em Catas Altas/MG. Foram noites frias de inverno sendo aquecidas com a presença dos moradores do município e a pipoca distribuída gratuitamente durante a exibição dos filmes.
“Aqueles Dois”
A sessão da noite de sábado foi aberta com a exibição de Muros (Espanha, 2022), direção de Dani Cobarrubias e Carmen Porras e com os intérpretes Thomas Chaussebourg e Clément Chavalier. Uma videodança que trata dos não ditos e das distâncias existentes entre um pai e um filho. Um muro de silêncios no qual os espaços confinados (corredores, janelas e paredes destruídas) ecoam dores e gritos, revelando a impossibilidade de comunicação. Os gestos contidos do homem mais velho (o pai) são contrapostos aos movimentos incisivos e agressivos do jovem filho.
Na videodança coexistem um dueto e um duelo. A escolha por lugares fechados é mais um signo que nos conta sobre a estreita e difícil relação entre eles. Muros aborda a crise do masculino, o medo do amor, os revezes do tempo, as diferenças geracionais, a estrutura patriarcal e familiar que oprime os corpos. No filme, só se torna possível um encontro entre os dois homens quando suas armaduras e defesas caem. Antes, a solidão, ao fim, uma tímida aproximação.
A última imagem com um abraço entre eles, acontece no meio de um caminho aberto, sugere uma certa movência que rompe com o que parecia estagnado. Uma aposta para a construção de afetividades masculinas menos tóxicas e agressivas. Seus corpos juntos dançando produzem certa dimensão erótica (no sentido de disponibilidade para a vida) como se a partir dali alguma palavra pudesse ser ao menos sussurrada. Quando os dois se tocam a câmera se afasta, como se se retirasse da cena. Escutei um espectador dizendo: “não tinha mesmo como esse filho fugir do embate, pois carregamos nossos pais no lombo, queiramos ou não”. Achei essa fala potente, soando como uma imagem dançante, um gesto de criação, uma continuidade dramatúrgica.
Corpos festivos
Na noite de sábado foram apresentadas algumas videodanças que se alinham num grupo que denomino: corpos festivos. Festa mais no sentido de alegria e afirmação como resistência frente aos poderes que tentam sequestrar a vida.
Seliberation #3 (Brasil/SP, 2024), de Estela Lapponi, faz parte de uma série da multiartista que busca rasurar os conceitos de corpo perfeito e funcional, trazendo questões relacionadas à Arte DEF (Arte praticada por pessoas com deficiência). O título já traz um pouco da proposta: “se liberar e celebrar”, uma espécie de neologismo para uma videoperformance que, de forma lúdica e até didática, mostra os movimentos descoordenados e brincantes de um corpo hemiparético. Há um jogo de sedução entre a câmera e a performer. A artista gosta de ser “olhada” e celebra a singularidade e beleza de seu corpo acompanhado por uma câmera capenga e torta com seus movimentos espiralares. As intervenções e desenhos que vão sendo sobrepostos e colados sob a imagem do corpo da artista nos provocam a pensar o corpo como um “espaço montado por partes”. As cores vibrantes e o dourado que cobre a mão espástica da artista revelam algo de festivo e carnavalesco, na contramão de alguns discursos que apelam para a comiseração e a superação. Como escreve a artista: “Risco e antropofagio o cânone das proporções”.
Em Geléia de morango (Brasil/SP,2025), direção de Ana Choueiri e performance de Dan Gomez, e Sangria (Brasil/PE, 2023), direção e roteiro de Domingos Jr, as festas estão no cerne dos trabalhos, e os corpos bailam coreografias queers e desobediências diante do imperativo de isolamento e individualismo. Festa, em ambas as videodanças, traz a noção de pertencimento, criação de comunidades provisórias, táticas de sobrevivência. Flertando com camadas surrealistas, Geléia tem a intensidade de Dan Gomez esparramando seu corpo vibrátil por diversos lugares e sua existência oscila entre doçura e amargor (feito o morango). É como se o filme nos dissesse: “basta fechar os olhos, escutar a música e teletransportar sua mente e seu corpo para onde você quiser”. O devaneio aqui não é somente fuga da realidade, mas necessidade de criar outros mundos.
Tal questão também pode ser associada à Sangria. No filme, a festa num bar, inicialmente oferecida pelo Capital (personificado por um homem mascarado que serve a bebida), é interrompida por corpos insurgentes com seus movimentos de luta, contra-ataque e protesto. A cor vermelha, dominante no espaço e em imagens de carne (abate) que entrecortam a festa, remete à violência imposta aos corpos, que num segundo momento são banhados por uma luz amarela e passam a saudar e dançar junto aos seus ancestrais.
Nesta videodança a cultura popular se mistura à dança contemporânea de matriz europeia e a vai deglutindo, de forma que é possível identificar que os corpos parecem estar muito livres para todo tipo de movimentação. Sangria celebra as danças de rua e os corpos periféricos. Uma dança coletiva que quer fazer corpo reparador “ao poema que não me deixaram escrever” (texto falado no filme). Ao sabermos que a videodança foi produzida pouco tempo depois da pandemia conseguimos compreender o frenesi dos corpos sôfregos, sua revolta, sua vontade de transbordamento e respiração.
Muitas videodanças exibidas na Mostra Move Concreto! – Edição Catas Altas trouxeram as marcas deixadas pela tragédia da covid-19. Cabe aqui destacar a respiração sufocada em fissuraquedarastro.repete (Brasil/MG,2022), do Grupo Contemporâneo de Dança Livre. Com a repetição, a degradação e o esgotamento dos movimentos, apresenta uma coreografia que não nos deixa esquecer os horrores vividos no Brasil com um governo genocida. Corpos solitários que se debatem até o esgotamento final. A batida eletrizante da trilha sonora e os espaços forrados com papelão (numa metáfora das máscaras de proteção e isolamento individual) conseguem produzir angústia e nos atualizar o vazio, o pavor e as mortes coletivas sem direito ao rito ou possibilidade de luto. A videodança fissuraquedarastro.repete, como muitas outras obras realizadas, fica como um documento artístico, um registro necessário, um posicionamento político e cidadão.
Gestos mínimos para expandir a vida
In Plain Sigth (Irã, 2021), com direção e coreografia da artista Tanin Torabi, se configura como uma videodança clandestina, pois brinca com os movimentos cotidianos, mantendo o cuidado de que esses não sejam destacados/identificados. Numa sociedade onde existem questões e restrições em torno do conceito de “movimento”, tornou-se necessário criar uma coreografia com gestos mínimos, quase imperceptíveis. Torabi tem projeção internacional, participa de inúmeros festivais, mas não está inserida no cenário artístico de Teerã. Ao romper com a chamada “norma somática”, atualmente há um crescente número de artistas mulheres num país extremamente perigoso para suas existências, e suas danças marcam a luta pelo “direito à cidade” através de atos políticos que “questionam as ordens espaciais e políticas dominantes e criam espaços alternativos” (Zavarei, 2022).
Em In Plain Sigth as três mulheres, ainda que a distância, formam um corpo coletivo que cruza o espaço e a câmera percorre suas trajetórias marcadas por sutis deslocamentos, gestos coreográficos e pequenas paradas. Movimentos harmônicos acontecem ainda que em planos diferentes, e entre bancos e arvores da praça, seus corpos criam instalações movediças e instantâneas. A cada minuto que passa, algo se monta e se desmonta, para depois ser remontado em outra parte da paisagem urbana.
Os figurinos são roupas comuns que facilitam a mistura de corpos na cidade. O comum aqui é gesto político que, ao se contaminar das outras coreografias, produz uma dança transitória (tipo uma TAZ: “zona autônoma temporária”) que tenta não ser capturada. Há um momento que intriga: uma mulher de burca irrompe na tela, também caminhando pela praça, e sua presença resulta em diferentes leituras e perguntas. Seria algo acontecido ao acaso ou se trata de um plano-sequência roteirizado? Fato é que o contraste que se estabelece com o que estava em andamento aumenta a pluralidade narrativa e videocoreográfica.
Vale lembrar que essa videodança teve uma exibição única e apenas presencialmente na Mostra, já que não tem permissão para ser veiculada na internet devido às perseguições e à censura. Ao assistir a esse trabalho originado no Oriente Médio numa cidade histórica de Minas Gerais, constatei como o aparato fílmico pode fazer as imagens romperem os limites de tempo e espaço.
A suavidade dos gestos mínimos das mãos do artista Nando Matipó, em Raízes em Movimento (Brasil/MG, 2025), com direção de Caroline Ferraz, mostra o corpo e a terra que se entrelaçam numa videodança que retrata o trabalho dos homens do campo. Uma coreografia lenta e delicada que se opõe à dureza e exaustão dos corpos que habitam as lavouras na lida com os pés de café. Nando dança com a plantação como quem borda e semeia uma outra relação com a vida. Não há no filme imagens de cansaço e força, mas uma reverência ao Sagrado que ali germina. Quem dança ali? Serão as raízes, a terra ou o artista? Ou os três em consonância? O chapéu na cabeça do intérprete esconde seu rosto de forma que nosso olhar fica refém de suas mãos, que não cessam de arrancar, girar, amaciar as folhas. Ao final, o sujeito anônimo está de costas para a câmera e, após entrar num rio, se vira e nos olha, como que nos convocando a reconhecer naquela rostidade uma presença humana. A fotografia do filme abarca toda a exuberância do verde que domina o enquadramento e demora a desaparecer em nossa retina.
Na superfície da tela, arranhar a pele
Chamou muito a minha atenção que em vários trabalhos havia um gesto recorrente: tocar, alisar e arranhar a pele do corpo. Uma forma de retorno, contato, restauração. Tentativa de despertar e fissurar o embotamento, a anestesia, a falta de vitalidade. Fissura como ferida que abre espaços. E as “costuras” iam se dando com a exibição contínua de videodanças, como se a cada noite uma dramaturgia fosse tecida. Criações que abordavam o colapso e fim do mundo encontravam em outras produções alguns sinais, respiros e pistas numa possibilidade de conversa infinita.
Voltando a In Play Sigth (trabalho que mais me impactou), a dança de Tanin Torabi pode ser lida como uma fissura na pele áspera e autoritária do sistema dos aitolás. Como em outras videodanças, a denúncia e o anúncio habitaram a superfície da tela num movimento de confrontar os concretos e conceitos que ameaçam a vida. Videodanças como vagalumes na escuridão da noite fria numa praça de Catas Altas. Trabalhos que me convidaram à escrita e reflexão. Uma pessoa que me viu fazer anotações durante a Mostra me disse: “isso também parece uma dança e tem uma criação aí a caminho”.
Coerocidade e curiosidade
Escrevo como quem dá passagem àquilo que afetou e deixou restos em meu corpo. Impossível não abordar ainda dois filmes que entrecruzam corpo, dança e cidade: Pra onde eu vou? (Brasil/MG, 2024), criação de Léo Coessens e André Rissi, e Meninada (Brasil/MG,2025), concebido durante a Mostra com a participação de crianças de uma escola local, que passaram por uma oficina formativa com as artistas Flavi Lopes e Luísa Machala.
Pra onde eu vou?, é um filme-sequência que coloca na tela um homem cujo “corpo-deriva” se entrega aos fluxos contínuos e ininterruptos da cidade. Um filme de ação, filme-pergunta, filme com afirmação da existência humana que acolhe o caos e diz sim para tudo aquilo que aparece, provoca, atrita e seduz. Essa videodança apresenta alta elaboração técnico-estética devido à variação de ângulos e de planos de cena, à movimentação nervosa da câmera, aos cortes que atuam como recursos de manipulação do tempo e do espaço, enfatizando certa zona de turbulência presente na vertiginosa e aparentemente prazerosa caminhada saltitante do bailarino. O roteiro tem suas surpresas e viradas: quando o homem encontra um molho de chaves em seu percurso pelas ruas e festas, intuímos que ele possa enfim encontrar um destino de chegada e fazer uma pausa. Entretanto, o filme termina em aberto, deixando para cada espectador a criação de seu enredo próprio ou a aceitação da condição de se manter desorientado como o “personagem” do filme. Entre múltiplas chaves de significação, o impacto sensorial desse “coreocinema” pulsante parece estar em não fornecer respostas e certezas.
A Move Concreto! se encerrou com a exibição de Meninada, obra que transformou as paisagens da cidade em dança e apresentou enquadramentos poéticos trazendo o olhar e a narrativa das crianças sobre o território. O percurso da sala de aula até as ruas ganhou um roteiro dinâmico e brincante que também falou de uma cidade que ainda vem sendo descoberta por seus habitantes. Meninada é uma videodança atravessada por muitas cores, movimentos e risadas. Uma ação de mediação da Mostra junto à comunidade local, que agregou muitos moradores na apresentação pública. Fica como uma memória para a cidade e para o Festival, e faz uma fissura no concreto da cidade.
Para finalizar, deixo uma sugestão para os organizadores da Mostra: seria muito importante programar algum tipo de fala de apresentação antes ou depois da exibição de alguns filmes para convocar o olhar e a percepção do público. Cada curador ou curadora poderia apontar e destacar algum aspecto ou temática, pois penso que isso poderia mudar (ainda que sutilmente) nossa relação com as obras. Por exemplo: saber que a videodança iraniana In Plain Sigth é uma obra censurada e que somente ali naquela noite poderia ser apreciada, chamar atenção para esse fato ocasiona outra forma de atenção e engajamento. Um convite a uma fruição mais dedicada faz diferença em meio à profusão de diferentes propostas da programação e, para isso, imagem e palavra congeminadas aguçam nossos campos sensíveis.
Referências:
MACHALA, Luísa. Videodança: dos agenciamentos à emergência. Dissertação de mestrado: UFMG, Escola de Belas Artes, 2020.
ZAVAREI, SABA. Dancing into alternative realities: gender, dance, and public space in contemporary Iran. Disponível em: https://field-journal.com/issue-21/dancing-another-reality-dance-gender-and-public-space-in-contemporary-iran-2/. Acessado em 09/07/2025.















