Em um recôncavo fantástico
Por Guilherme Diniz
Crítica a partir do espetáculo Infinito, da Márcio Fidelis Cia de Dança e do Cooxia Coletivo Teatral (BA), apresentado no dia 18 de agosto de 2026 no Teatro Marília
“A vida era a mistura de todos e de tudo.
Dos que foram, dos que estavam sendo
e dos que viriam a ser.”
Conceição Evaristo – Ponciá Vicêncio
Márcio Fidelis Cia de Dança e Cooxia Coletivo Teatral/Divulgação
Infinito é um espetáculo construído nos arabescos do tempo. Em cena, os corpos desenham distintos andamentos, pulsações e ritmos nem tão rápidos, nem tão vagarosos, mas orquestrados por um fluxo constante e vital. O princípio do movimento, em delicadas mutações, irradia-se por todo o palco, instaurando ambiências situadas nalgum lugar entre o sonho e a lembrança. A encenação baiana, criada pela Márcio Fidelis Cia. de Dança e pelo Cooxia Coletivo Teatral, apresenta a trajetória emocional e espiritual de Tayó, um menino que enfrenta a partida de sua amada avó. A criança, nesta saga profundamente reflexiva, compreende pouco a pouco os sentidos da ausência e, ao experimentar o amargor de certas despedidas, descobre a dor e a beleza da saudade. Pelo corpo, entretanto, Tayó reaviva reminiscências e recria laços com a vovó, inventando maneiras de permanecer próximo a ela. A dança, como filosofia do movimento, produz múltiplas formas de presença.
A concepção cênica de Infinito é constituída por elementos poéticos provenientes de diversas manifestações e tradições culturais afro-brasileiras da Bahia, tais como a Zambiapunga, o Capa Bode, as Caretas do Mingau, os Mandus entre outras. Esta miríade de performances e festejos confere ao trabalho visualidades estonteantes, marcadas por uma profusão de tonalidades e matizes que explodem no olhar. As cores intensas bailam diante de nós. Aí mora um dos aspectos mais sofisticados do trabalho: a sua fina capacidade de delinear imagens e quadros altamente sugestivos, que convocam a imaginação a brincar com formas, linhas e traços sem se prender a significados definitivos. Há muita abertura para os voos intuitivos. Infinito não prescinde do mistério.
A direção artística de Márcio Fidelis e Guilherme Hunder encontrou, nesses universos culturais negros, epistemes para as quais a morte não determina um fim absoluto ou um precipício apocalíptico. Nestas festas, forjadas pela coletividade e pelos humores das ruas, a alegria convive com a lágrima; os desencarnados, sempre rememorados, caminham com os vivos. Essa convivência entre planos visíveis e invisíveis, tangíveis e intangíveis, entrecorta todo o espetáculo.
Márcio Fidelis Cia de Dança e Cooxia Coletivo Teatral/Divulgação
A obra não simplifica a complexidade dos afetos. Tayó experimenta o medo e a angústia perante o desconhecido, bem como o prazer e o júbilo ao mergulhar em sua ancestralidade. É belo o momento em que o garoto é surpreendido por três criaturas mascaradas, seres encantados que estão a conduzir a avó na sua travessia. Todo o jogo de cena é envolvido por enigmas e fascínios. A princípio o trio multicolorido o assombra; aquelas figuras feéricas se impõem e o menino se encolhe. Delicadamente a relação ganha novas feições. Tayó passa a brincar com eles, elaborando, com inteligência e sensibilidade, sua dor. A passagem, delineada por saltos, suspensões e tecidos esvoaçantes, é um importante ponto de virada no processo de amadurecimento da criança.
A avó, de igual modo, se depara com presenças mitopoéticas em sua ida. O encontro com Iansã é significativo, pois ali está aquela que também conduz os mortos a outras dimensões. Em sua tessitura musical e cromática, a cena é sutilmente impregnada pela simbologia da orixá. A ventania e os tons avermelhados tomam o palco: ei-la, magnética e vivaz, ornada por uma ampla saia rodada, composta de incontáveis folhas secas. À medida que dança, fragmentos de sua indumentária pontilham o chão, transformando o espaço. O figurino, assinado também pelo codiretor Guilherme Hunder, é fundamental, não apenas pela cuidadosa artesania, mas também por intensificar o movimento e o bailado sagrado da senhora dos trovões. O trecho acentua uma dimensão presente ao longo da montagem: a inquebrantável ligação entre o humano e o divino.
A coreografia de Infinito é em geral matizada por qualidades de movimento circulares, gestos curvilíneos, rodopios, giros e rodas. Ademais, o trabalho enfatiza sobremaneira as transições suaves entre um passo e outro de maneira que não se vê uma estrutura coreográfica quebrada por staccatos. A fluidez das gestualidades, individuais e coletivas, considera o movimento como um fluxo constante, um legato contínuo em suas variações e mutações. Essa poética traduz uma noção de tempo que não é retilínea ou linear, em que passado, presente e futuro não são esferas estanques e apartadas. Pelo contrário, essas temporalidades deslocam-se conjuntamente. A avó e o menino, gerações diferentes, dançam nas espirais do pretérito, do agora e do porvir. “No corpo, o tempo bailarina”, nos ensina Leda Maria Martins. Essa articulação entre temporalidades também se reflete na orgânica conjunção de linguagens artístico-culturais que compõe o espetáculo: dança e teatro, tradições e festas afro-brasileiras, corporeidade e textualidade não estão separadas. Todas essas expressões formam um todo coeso, harmônico.
Márcio Fidelis Cia de Dança e Cooxia Coletivo Teatral/Divulgação
A jovem plateia de nossa sessão, oriunda predominantemente da rede pública de ensino de Belo Horizonte, estava, no início, um tanto desconfiada e eufórica; para muitos daqueles estudantes era a primeira vez em um teatro. Cochichos, celulares erguidos, risadinhas curiosas dominavam o ambiente. Todavia, dentro em pouco, o Teatro Marília adentrou um estado de forte encantamento. Olhos e ouvidos, por assim dizer, hipnotizados pelas imagens, signos e reflexões propostas. A perspicácia de Infinito não rebaixa a subjetividade das crianças. As infâncias, múltiplas por excelência, vivem, igualmente, experiências agridoces, conhecem, a partir de seus repertórios próprios, o luto, a morte, as ressonâncias do tempo, a angústia de crescer e de fazer certas escolhas. Nossa plateia se sentiu respeitada, desafiada e acolhida em sua complexidade. A convivência entre gerações distintas não se restringiu, porém, à cena. Estavam conosco Evandro Passos e Júnia Bertolino, importantes mestres de nossas danças afro-mineiras. Houve ali uma partilha bonita de tempos, experiências e olhares bastante plurais.
Em suma, Infinito materializa um desenho cênico muito caro e presente em várias obras de nossas artes cênicas negras: o palco, energizado e vitalizado por densa espiritualidade, plasma um rito de passagem das personagens ante suas grandes metamorfoses físicas e simbólicas, internas e externas. A avó em sua travessia vida-morte; o menino em sua transformação subjetiva. As religiões e as tradições culturais de matriz africana, assim sendo, fornecem poéticas e princípios para compreender, desde outras lógicas e sensibilidades, o universo. A premiada encenação soteropolitana, um dos pontos altos desta edição do Palco Giratório, realmente nos faz habitar um “recôncavo fantástico”, como diz Guilherme Hunder: território de infindáveis tempos, segredos e mistérios, tecnologias afetivas e festivas para não sucumbir ao desencantamento de um mundo colonial.
Ficha Técnica
Direção artística: Márcio Fidelis e Guilherme Hunder
Coreografia: Márcio Fidelis
Assistência de coreografia: Kenuu Alves
Dramaturgia: Mônica Santana
Elenco: Gabriela Pequeno, Filipe Maroto, Márcio Fidelis, Marcus Kundesi, Raijane Gama e Renan Senna
Trilha sonora: Felipe Pires
Música original: Ray Gouveia
Figurino: Guilherme Hunder
Cenografia: Erik Saboya
Cenotecnia: Guilherme Hunder e Letícia Aranha
Iluminação: Marcus Lobo
Operação de luz: Marcus Lobo
Operação de som: Luiz Antônio Sena Jr.
Direção de produção: Luiz Antônio Sena Jr.
Produção executiva: Letícia Aranha
Realização: Márcio Fidelis Cia. de Dança e Cooxia Coletivo Teatral



