• Início
  • Categorias

    Hot Categories

    • conversações

    • podcast

    • críticas

    • coberturas

    • entrevistas

    • dossiês

    • ensaios

  • Quem somos
  • Contato
  • Ações
  • Parceiros

Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

coberturas críticas

Uma questão de procedimento

:: Por Soraya Belusi ::

O termo assemblage é incorporado ao mundo das artes ainda nos anos 1950 e refere-se a um procedimento que vai “além da colagem”, em um princípio de acumulação, no qual todo material pode ser incorporado à construção da obra de arte. Materiais díspares que, somados, criam um novo conjunto, sem com isso perderem seu sentido original[1]. Tal procedimento – utilizado nas artes plásticas por nomes como Braque e Picasso – intitula e estrutura a tessitura dramatúrgica do trabalho apresentado pelo Coletivo Trocado, de Florianópolis, no Feto – Festival Estudantil de Teatro.

01 - Assemblage [Larissa Nowak]

Cena de “Assemblage” que se utiliza de trecho de “Café Müller”, de Pina Bausch

Mais que dar nome ao trabalho é este procedimento de justaposição que sustenta a composição do espetáculo, costurando ready-mades coreográficos e textuais. Em sua construção, Assemblage se apropria de trechos de criações icônicas na história da dança e da arte contemporâneas – entre elas, Café Muller de Pina Bausch, The Cost of Living e Strange Fish do DV8, ou ainda A artista está presente, performance de Marina Abramovic.

Criado no ambiente de formação universitária, na Udesc, o espetáculo apoia-se em um procedimento criativo que, sem dúvida, demandou esmero na pesquisa e no entendimento dos princípios de movimento de cada composição original, além da capacidade física dos intérpretes em “reproduzi-los” de maneira tecnicamente incontestável – o que aponta para uma formação ampliada do ator, em consonância com a cena que se pratica na contemporaneidade.

Ainda nesse sentido, a obra final gerada pelos alunos-criadores sob direção de Jussara Xavier permite um diálogo direto com sistemas estéticos anteriores na história da arte, à medida que os materializa em cena. Mas, além de propor, de certa maneira, uma “revivificação” dessas obras, Assemblage procura não apenas reproduzi-las, mas também comentá-las, ressignificá-las dentro de uma nova lógica dramatúrgica – não mais aquela na qual se inseriam os trechos originais –, fazendo-as servir de matéria para novas cenas, para sugestão de outras situações, para um novo rearranjo.

Nesta outra montagem, gerada pela soma de partes tomadas de outras obras e retrabalhadas pelo coletivo, os criadores compartilham não só os princípios coreográficos que regeram sua pesquisa como também o pensamento teórico que os provocou no processo de criação, tornando movimento e texto ancorados em “fundamentos” – ou “mandamentos” – com os quais esta nova obra se constrói e se apresenta.

Foto de Larissa Nowak

Foto de Larissa Nowak

Mas, ao mesmo tempo em que é no próprio procedimento que a potência de Assemblage se evidencia, também é nele que residem questionamentos – alguns destes incorporados à própria feitura-conceito da obra, como os debates contemporâneos acerca de autoria, plágio e remontagem. Quando criadas, cada uma das obras cujos trechos compõem Assemblage foi gerada em um contexto específico, carregando não apenas princípios coreográficos singulares – estes habilmente retomados no espetáculo –, mas também princípios conceituais, artísticos e dramatúrgicos que são abandonados em sua nova contextualização. Nesse sentido, Assemblage parece lidar com a estrutura formal de cada citação-apropriação, mas se furta a relação com o conteúdo (teórico e processual) que as gerou.

O procedimento é o princípio e o fim de Assemblage. É nele que se concentram as virtudes e os dilemas do trabalho. Porém, é também através dele que o espetáculo ganha camadas distintas capazes de se relacionar com espectadores distintos. Desde aqueles que também possuem conhecimento específico da produção artística contemporânea das artes cênicas – os quais permitem uma aventura mais complexa de relação com a obra á medida que permite identificar as partes isoladas, seus contextos originais e os novos rearranjos –, como aqueles cujo repertório não acumula tanta especificidade também têm diante de si uma criação autossuficiente.

[1] Informações extraídas no site da Enciclopédia Itaú Cultural.

23/10/2014 0 COMMENT
SHARE
Leia mais

Comente Cancel Reply

Jogos de verdade no fim de tarde

O corpo como suporte para a criação de novas realidades

  • categorias

    • capa
    • coberturas
    • Conversações
    • críticas
    • dossiês
    • ensaios
    • entrevistas
    • podcast
    • Sem categoria

Relacionados

críticas A dança do Lindô: árvore frondosa sobre o solo da memória

críticas levantamento de peso ou por uma performance palhaça queer: com spoilers, com tudo

coberturas críticas “Muertos que no hacen ruído” ou Em defesa da desordem

coberturas críticas Por um teatro descolonizado

críticas “Duas aprendizagens sobre os amores masculinos” ou “É a vida me rasgando para que caiba mais mundo”

críticas “Vai ver a eternidade seja a lembrança que deixamos nas pessoas…”

Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, é editado por Clóvis Domingos, Guilherme Diniz, Julia Guimarães e Luciana Romagnolli, e conta também com a atuação crítica de Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

Siga-nos nas redes

Horizontedacena

Horizontedacena

Horizonte da Cena
Direitos Reservados © 2017 - 2019 Horizonte da Cena