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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

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Um a um na Multidão

Um a um na Multidão

– por Luciana E. Romagnolli –


Entrevista e comentário crítico a partir de “Multidão”, de Eduardo Ramos e Amanda Leal, visto no Teatro Novelas Curitibanas.

Antes
Há uma vertente do teatro contemporâneo que vem se interessando há ao menos duas décadas pelos efeitos de convidar à cena sujeitos sem experiência prévia nessa arte.


Um espetáculo célebre por esse procedimento é “The show must go on” (2001), do coreógrafo francês Jérôme Bell, cujo elenco subvertia o padrão físico e de desempenho associado a artistas da dança. Na base desse gesto, podemos encontrar a recusa à arte como exercício de virtuose hiperespecializado e restrito a poucos eleitos. O palco se abre a sujeitos que dele permaneciam apartados. A dimensão criativa da vida se apresenta a qualquer um.


Alguns os chamaram de especialistas do cotidiano, como nos trabalhos do grupo alemão Rimini Protokoll. Eles estiveram no Brasil, entre outros, com o “100% São Paulo”, propondo um jogo-amostragem mais estatístico do que subjetivo da população paulista.


Outros grupos extraíram algo do singular de cada sujeito para a criação, como o peruano Teatro La Plaza ao adaptar “Hamlet” a partir das vivências de pessoas com Síndrome de Down, em espetáculo que passou por São Paulo e Curitiba.


Ou, ainda, como a peça paulista “Amadores”, da Cia Hiato, com sua estrutura de show de calouros em que episódios da história pessoal são apresentados por uma dezena de amadores atraídos por um anúncio no jornal, entre atos de alguns atores da companhia. A articulação proposta pelo diretor e dramaturgo Leonardo Moreira valorizava a estrutura ficcional de toda narrativa e o impacto das histórias de superação no entendimento íntimo que tenta dar sentido à vida de cada um.


Detenho-me nesses exemplos e sugiro a leitura da pesquisa de doutorado da crítica Julia Guimarães Mendes sobre o assunto. A abertura da cena para os não artistas também acontece em peças conviviais, em que os espectadores, de distintos modos, são convidados a alguma atuação, alguma partilha que implique seus corpos, falas, memórias (este foi o assunto da minha pesquisa de doutorado).


São modos de criação que revisam a concepção dicotômica entre artistas e não artistas estruturada na herança ocidental. Uma separação que não encontramos, aos mesmos moldes, em outras matrizes culturais, como a ameríndia e a afrodiaspórica, em que o ritualístico sobrepõe o espe(ta)cular. Também nas tradições populares essa divisão pode ser menos estanque. E, embora a cultura pop tenha alçado ao panteão o artista-celebridade, daí também advém a promessa ao estilo Andy Warhol de 15 minutos de fama para cada um.


Multidão de uns
Entre essas forças que separam e religam vida e arte, situo “Multidão”, o novo trabalho dos artistas curitibanos Eduardo Ramos e Amanda Leal, que estreou em 21 de agosto no Teatro Novelas Curitibanas. O elenco mistura profissionais e amadores em uma proposição cênica muito próxima à da Hiato (resultante de uma chamada pública, uma oficina e relatos pessoais), senão pelas precárias condições econômicas de se fazer teatro em Curitiba, onde um edital de fomento hoje destina meros R$ 20 mil a uma produção teatral. 

Créditos de Vitor Dias.

Em cena, esse agrupamento provisório e plural se posiciona frente à plateia para partilhar, uma a uma, breves narrativas extraídas das experiências vividas, entremeadas pela presença de um cavalo azul. O mote vem de um episódio ocorrido em um hospital psiquiátrico Italiano, onde o cavalo azul de madeira tornou-se símbolo de resistência à desumanização no tratamento dos internos. (Leia o artigo aqui). Sob os discursos nostálgicos, oníricos, ansiantes dos amadores que realizam a vontade de fazer teatro pela primeira vez, subjaz uma afirmação da humanização como avesso da segregação radical justificada pela inadequação, ineficiência ou inutilidade numa sociedade neoliberal.


Para conhecer um pouco das ideias que instigaram a criação de “Multidão” até a estreia no Teatro Novelas Curitibanas, em agosto, fiz algumas perguntas a Eduardo Ramos. Leia as respostas abaixo e, na sequência, um comentário crítico a partir de uma apresentação vista.

Primeira pessoa


Luciana E. Romagnolli (LER) – Qual foi a inquietação inicial para o projeto Multidão, sobretudo para a criação com base em vivências de pessoas sem experiência prévia na atuação teatral?


Eduardo Ramos (ER): Já compõe minhas pesquisas o trabalho com não atores em cena. No meu primeiro espetáculo, em 2013, intitulado “terraço”, havia uma não atriz de apenas 8 anos de idade. Na época, eu tinha como referências a pesquisa de duas companhias: Societas Rafaello Sanzio (ITA) e La Tristura (ESP). Junto desta não atriz, Larissa Chapelski, fiz outros 2 trabalhos, “Origem” (2017) e “Krio” (2018). Ainda em 2018 participei de um espetáculo como ator, chamado “Tutorial”, no qual deixávamos a dramaturgia com lacunas abertas, junto ao público e um não ator convidado sem saber o que iria acontecer durante a trajetória da obra.


A inquietação é antiga, e sinto que existe um olho do furacão de o teatro ainda ser um espaço onde pessoas dizem coisas e outras escutam. No mundo em que vivemos hoje, me encanta poder trabalhar com vozes muitas vezes apagadas, com histórico apagado, ali no palco, e que isso possa gerar uma espécie de serviço que às vezes esquecemos de exercitar como cidadãos.


LER – Como você entende a relação entre a arte, a teatralidade e a vida ordinária? As falas em “Multidão” transmitem um efeito de autenticidade que viria da “realidade”, embora adquiram estrutura de ficção ao serem narradas e encenadas por aqueles sujeitos. Ao mesmo tempo, a implicação deles no que dizem propicia uma cena avivada. Como foi o tratamento da dramaturgia e da direção para isso?


ER: Um dos nossos interlocutores de “Multidão”, o Mauro Zanatta, disse lá no início do processo pro elenco: “Esvaziem. Contem suas histórias. Para esvaziar.”. E, nesta simples e precisa frase, sinto que existe uma fricção do que vem a ser arte, em especial o teatro junto da vida ordinária. Precisamos dizer o que sentimos, o que nos atravessa, para que inclusive nossas próprias narrativas ganhem algum tipo de significado. No teatro não é diferente.


Em “Multidão”, criei junto de Amanda Leal, uma estrutura, pra além das histórias escolhidas pelo elenco, de camadas simbólicas relembrando do porquê estamos fazendo isso, qual seria nossa perspectiva quando enunciamos a palavra multidão. Antes do processo, pesquisando o conceito da palavra, tão abordada por diversos nomes da sociologia, chegou até mim um artigo publicado pela USP sobre uma das grandes revoluções da psiquiatria moderna, no Hospital San Giovanni em Trieste, Itália.


A narrativa de artistas estimulando residentes do hospital e dando-lhes autonomia sobre suas criações, inclusive a de escrever uma carta em primeira pessoa para um cavalo conseguir escapar do abate, me emocionou muito. E, a partir dela, desdobramos a história do cavalo azul, pra que pudesse ser um elo em comum sobre tantas singularidades, pessoas de outros países, culturas distintas, ligadas aos sonhos que carregamos.
Tive um grande apoio de outra interlocução, que foi o Thiago Amaral, da Cia Hiato (SP), que passou três dias em sala de ensaio, fortalecendo a unidade da encenação e dramaturgia. O processo foi curto, de apenas dois meses. Os primeiros 30 dias foram um intenso período de sensibilização e mediação de como gerar conforto e amparo pra histórias tão caras.


LER – “Multidão” faz pensar sobre as implicações entre estética e ética. Tenho me interessado na questão do que se entende por ética no teatro contemporâneo. Para você, como essas duas dimensões se articulam nas proposições dessa obra?


ER: Tivemos, desde o período de seleção, um grande cuidado para que não impuséssemos algumas imagens já como expectativa de pra onde poderia ir esta encenação. Trabalhamos imensamente a escuta. E, antes de criar fios condutores para as histórias e até figurinos, que foram escolhidos pelo próprio elenco, abrimos mão de qualquer tipo de controle, para a construção de um pequeno e breve coletivo que contribuiu de ponta a ponta na concepção da obra.


LER – Embora seja tecida de vivências particulares, a dramaturgia insiste em algumas questões em comum: a loucura, a infância, a inutilidade. Essas me parecem questões importantes pois “devolvem” a dignidade ao que o capitalismo marginaliza. Você pode comentar?


ER: Fico feliz pela reflexão que já faz na pergunta, pois a presença da loucura, infância e inutilidade perpassa diversos pontos que levantamos para refletir junto ao público. O verbo “humanizar” está muito em voga. Ouvimos muito sobre procedimentos privados trazendo como tema e branding o “tratamento humanizado”. O capitalismo se alimenta como um buraco negro de toda e qualquer causa a fim de lucro.
No processo, falamos muito sobre quais “chãos” ruíram na vida de cada um. E uma das conclusões foi que o chão da infância, por exemplo, é preservado ao menos por um instante. E nela mora um diálogo de imensa importância quando trazemos histórias verdadeiras em um palco, em uma espécie de preservar aquilo que seja um diálogo tão ou o mais sincero, e que, dele, podemos extrair tutano pra seguir adiante.


LER – O espetáculo realiza uma passagem do discurso reivindicativo para a proposição de uma nova imaginação ao encenar um aniversário ansiado. Como você entende a função política no teatro, nas suas possibilidades de propor transformações sociais?


ER: Fizemos em “Multidão”, no teatro, aquilo que gostaríamos de fazer ou que fosse a realidade aqui fora. Que as diferenças pudessem se diluir à medida que a proximidade, convivência com o outro, seja quem for, ampliasse a igualdade em todos os sentidos possíveis. Andamos pelas ruas, e desviamos o olhar para aquilo que não nos agrada imageticamente, ou porque nos impuseram uma porção de construções sociopolíticas.


Quando fazemos um espetáculo, temos a expectativa de que as imagens ali apresentadas possam reverberar por muito tempo nas pessoas. Por isso trazemos proposições como a das memórias que não gostaríamos que acabassem, as lembranças que criam sentido pras nossas vidas e a possibilidades de inventar futuros possíveis. Ao lançar todas essas ideias, o quão somos responsáveis pela vida/narrativa alheia, tão próxima, e que a partir do momento que a gente verdadeiramente vê quem está diante de nós, quais escolhas tomamos a partir deste encontro.

Saídas


Há algum tempo as peças que mais me interessam são aquelas das quais saio com vontade de viver. Parece uma categoria estética ingênua, banal, mas defendo que não. Resulta da implicação dos artistas, do seu desejo investido no trabalho criativo. Mais ainda: quando esses trabalhos causam indagações sobre como queremos viver, na solidão e na sociedade, cada um, com sua singularidade, em suas parcerias. Entendo ser isso o que a arte faz muitas vezes: semear perguntas. Estranhar algo estabelecido e instigar outros arranjos possíveis para os corpos e os discursos. Vivificar.


Com esse preâmbulo, acerco-me da “Multidão” de uns que o espetáculo curitibano reúne, a partir da premissa de que o teatro é uma função humana. Contudo, quem pertence à categoria humano e quem fica de fora dela?, eis uma indagação necessária para pensarmos as políticas segregatórias na História dessa dita Humanidade. E a humanização, enquanto processo civilizatório, requer uma adequação social a um status quo também econômico? Em nossos tempos, a uma lógica de mercado? O improdutivo é, ainda, considerado humano? O que se impõe, a partir desse modelo social, ao vivo? A inutilidade condenaria à morte? Pensemos no que não serve ao neoliberalismo pois não cumpre suas demandas – embora talvez seja essa uma função crucial nesse sistema: a ameaça mortífera aos improdutivos. Vamos à peça.


Com músicos na lateral do palco e o elenco alinhado ao fundo, em cadeiras frontais para o público, cada artista amador aguarda sua vez de atrair as atenções para si, compondo uma outra plateia de tipos plurais. Há alguns estrangeiros, reconhecíveis pelo acento. No entanto, num sentido mais amplo, há uma certa posição estrangeira comum aos que ocupam a cena pela primeira vez ali. À margem do grande sistema da arte, encontram uma proposição cênica aberta a fazer dramaturgia dos relatos oriundos de suas vivências particulares com as famílias, trabalhos, parcerias, temores e desejos.


Assim, cada amador inventa uma vida para si, convocando a cumplicidade do olhar e da escuta do outro, aqueles com quem contracena e o público. Os propositores afirmam que essa escrita coletiva se deu de modo mais livre do controle dos veteranos dos palcos, e essa inexperiência, elaborada em apenas dois meses de processo, fornece os contornos poéticos da obra. A um tempo, seus limites e sua vivacidade.


Ouvimos, então, um homem de barba branca, camisa magenta, gravata estampada e terno azul royal com fru-fru mais claro na costura da manga ao ombro (figurino escolhido por ele), com dicção particular, contar de sua profissão como catador de materiais recicláveis.


É também ele quem empresta a voz ao cavalo azul que percorre narrativas díspares, alinhavando as ficções.


Ameaçado de extermínio em um hospital psiquiátrico, onde ganhara imprevista importância como via de escape ao embotamento resultante das práticas de violência segregativa à loucura, o cavalo move os ânimos. Internos se organizaram para reivindicar, por meio de uma carta escrita em primeira pessoa equina, a sobrevivência daquela figura lúdica em madeira.


As histórias contadas não são necessariamente extraordinárias, nem mesmo singulares. Há a garota que sonha em ser eleita num concurso de beleza da escola, aquela que se nutria dos contos de princesa até fazer as pazes com a figura da bruxa. Anseios comuns, únicos para cada um que os viveu plenamente. Há relatos de violências mais diretas, elaborados de maneira a dar um passo além da dor, concretizando imaginações para o que foi subtraído dessas vidas, como a figurinista que se veste de uma infância lúdica que não pôde experienciar ou a travesti que antecipa uma celebração ameaçada pelas estatísticas.


A loucura e a infância, a inexperiência e a inutilidade, esses estágios desvalorizados, subestimados, segregados pela lógica hiperprodutiva do neoliberalismo, são acolhidos em “Multidão”. Dessa maneira, o espetáculo filia-se ao que venho chamando de ética do vivo. Uma ética, não um sistema moral, pela qual os sujeitos implicam seus corpos na defesa e afirmação da vida, entendida como mais do que uma categoria biológica, uma abertura à invenção. Do instituído ao instituinte. Do classificável ao inclassificável.


Esse é um trabalho que requer insistência, atenção aos detalhes, às sutilezas, ao imprevisto que desenhou cada trajetória e àquele que pode modificá-la. Requer mais tempo, pesquisa, ensaios. Eis a dura contradição em que estamos metidos: requer mais recursos econômicos para que o humano não se restrinja a um recurso.


Nestes três anos em que voltei a circular pela cena teatral curitibana, fica explícito o impacto do pouco investimento público no teatro (e outras artes). E uma desmobilização generalizada. Mas as generalizações, via de regra, são inexatas. As plateias se veem bastante cheias. O teatro ainda vive (?).

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10/09/2025 TAGS: Curitiba, Luciana Romagnolli, Multidão, teatro contemporâneo BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Corpo ebulitivo

Corpo ebulitivo

– por Guilherme Diniz –

Em Trava Bruta, Leonarda Glück forja um manifesto cênico que discute as singularidades, as travessias e as inquietudes de seu corpo trans em um mundo minado. Além disso, problematiza a cisgeneridade na qualidade de norma, a partir da qual se constrói uma noção, violenta e excludente, de humanidade. O espetáculo recoloca as pesquisas da artista acerca dos atravessamentos e tensões entre distintas linguagens artísticas, como o teatro, a poesia, a música, o vídeo e a performance. Os discursos centrais deste trabalho solo partem da sua transgeneridade em contato com signos e imagens mobilizados no palco, formulando algumas questões: o que é brutalidade? Quem é bruta/bruto? A peça vai ressignificando essas palavras a partir tanto da realidade truculenta, quanto dos modos poéticos de insubordinação.

Para o crítico Eric Bentley, o teatro, de um modo geral, interessa-se menos pelo nu do que pelo despido. A ideia, discutível, parece, contudo, fazer sentido para a concepção de Trava Bruta. Leonarda articula uma série de artifícios para encobrir, revestir e ao mesmo tempo dar a ver o seu corpo. Uma projeção na lateral do palco exibe a própria performer transformada por filtros de Instagram, os quais constroem e reconstroem constantemente a forma do seu corpo. Uma instigante oscilação entre o que se revela e o que se oculta se sustenta. Ao longo do espetáculo, distintas peças de roupa, acessórios e artigos são utilizados, dando vida a um figurino inconstante, como um jogo de tirar e por. Nestes experimentos, acompanhados por uma dramaturgia combativa, a artista vai desmontando imagens estáveis ou universalizantes sobre o que é (ou pode vir a ser) um corpo. Uma de suas caracterizações muito se aproxima da clássica imagem do filme A pele que habito, de Pedro Almodóvar; e, assim como no cinema, no palco de Leonarda a corporeidade é construção, um processo que não se reduz a lógicas biologizantes ou imutáveis. Ela mesma diz em cena: “nosso trabalho é travar a lógica binária, fácil e mesquinha, pobre de poesia, o compasso de dois tempos, e dar passagem à multidão dos sentidos, à diversidade dos números, à imparável mudança dos corpos e dos tempos”.

As suas transformações e caracterizações cênicas geram ora estranhamento, ora uma sarcástica comicidade que nos convida a interrogar nossos próprios olhares orientados por tantas normatividades. Nada é poupado, incluindo a religião, os discursos científicos, o mito do Ocidente etc. Todos esses aparatos de poder que, direta ou indiretamente, violentam corpos como os de Leonarda, são enfrentados. Existe aí uma postura antissistema.

Há uma grande contradição em Trava Bruta, entretanto. A artista afirma, em um determinado momento, que não pretende se ancorar no didatismo (embora ela alegue que o didatismo é, em alguma medida, importante) ou que não deseja atender às expectativas do que é um espetáculo criado por uma pessoa transgênero. Mas, surpreendentemente, ela acaba fazendo isso em uma boa parte do espetáculo. Munida de um microfone, Leonarda diz, irônica e aguerridamente, que “não vai” dar-nos estatísticas, números e dados cruéis sobre a violência transfóbica em suas várias formas de expressão. Mas ela não resiste e nos entrega as informações. Esses sãos os momentos dramaturgicamente mais frágeis. A ironia entre dizer que não vai falar e efetivamente falar não levanta voo. Neste momento, ela se dirige mais contundentemente à cisgeneridade – e aí eu me incluo – fazendo-nos encarar (alguns quiçá pela primeira vez) uma realidade sanguinolenta, mas que também  infiltra-se por subalternizações sutis. O discurso é vigoroso, não há dúvidas, mas se afasta da complexidade poética que estava a ser edificada na primeira parte do espetáculo.

Ao cabo, a artista diz que precisa sonhar, caso contrário ela não aguentaria. Esta dimensão é fundamental como possibilidade de reimaginar o mundo. Tomemos nota: Leonarda Glück está a comemorar 25 anos de carreira em um dos países que, no mundo, mais assassina transexuais e travestis (isso também é dito no espetáculo). A sua existência já é, em si, um manifesto vivo de insurgência, um rasgo de vida no Brasil-morte.

*Espetáculo visto na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp. Texto publicado originalmente nos Olhares Críticos da mostra.

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21/06/2022 TAGS: dramaturgia, Leonarda Gluck, MITsp, trans, transexualidade BY: Luciana Romagnolli
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entrevistas

Múltiplas vozes de Carlandréia Ribeiro

Múltiplas vozes de Carlandréia Ribeiro

Entrevista com Carlandréia Ribeiro, por Marcos Alexandre e Felipe Cordeiro – Fotos: Acervo pessoal.

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Carlandréia Maria é corpo sem pouso no chão da casa/mundo em que habita,
é água em fluidez desgovernada, por vezes serena, noutras arrebentação.

Essas são algumas palavras que a própria Carlandréia utiliza para se autodefinir. São termos que potencializam as múltiplas faces e vozes de Carlandréia Maria Ribeiro – mulher negra, atriz, arte-educadora, cantora, diretora, dramaturga, escritora, roteirista –, uma multiartista que, além de desempenhar diversas funções no campo da arte, assume uma posição ideológica e sociopolítica que a faz se destacar no campo das poéticas pretas e das ações de engajamento que envolvem as textualidades e as cena negras contemporânea.

O nosso encontro com Carlandréia é feito de encantamento, uma relação quem acompanha a trajetória uns dos outros. Assim, o aceite a esta entrevista – que foi sendo construída a partir de perguntas e respostas realizadas pelo e-mail, ainda pela impossibilidade de encontros pessoais – possibilitou que exercitássemos uma conversa que foi intensificada como fruto das subjetividades que nos unem a partir de outras presenças, e que ultrapassa as letras do teclado, levando-nos a outros possíveis encontros.

Em 1975, quando teve contato com a obra da mineira Adélia Prado, o também mineiro – assim como nós – Carlos Drummond de Andrade escreveu as seguintes palavras em uma crônica publicada no Jornal do Brasil: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”. Hoje, passados quase 50 anos, tivemos a possibilidade de vislumbrar outras janelas em nossa poesia e, talvez, parafrasear dois dos maiores nomes das letras nacionais: Carlandréia é lírica, cultua as ancestrais forças da natureza, é politizada, faz arte como faz bom tempo: esta não é uma lei, pois ela é regida pela liberdade, mas sua voz ecoa no canto dos deuses e do tempo.

Felipe Cordeiro – Como teve início a sua relação com a representação e o teatro?
Carlandréia – Fui aquela criança que “roubava” os lençóis da minha mãe para fazer as cortinas do meu teatro de quintal. Era ali no terreiro de casa que eu fazia as minhas primeiras fabulações em torno do que eu compreendia como teatro, como arte da representação. Eu inventava histórias, construía pequenos universos imaginários e os apresentava aos meninos da minha rua. Para a minha mãe, eu pedia que fizesse pipoca, bolo e limonada, porque, afinal, tinha que servir alguma coisa para a plateia. É engraçado, porque nunca tive dúvidas ou titubeei quando algum adulto me perguntava o que eu queria ser quando crescesse. A resposta sempre esteve na ponta da língua. Eu empinava o queixo e dizia: atriz, cantora e bailarina! A bailarina ficou no desejo, quanto à cantora, digo que sou uma atriz que canta. Na medida em que fui crescendo, a resposta àquela pergunta passou a obter outras reações das pessoas que a faziam pra mim. Da reação à menina que parecia engraçadinha quando empinava o queixo pra dizer das suas aspirações, começaram as expressões de deboche e incredulidade. Eu ouvia coisas do tipo: “Oh, dó! Desde quando pobre vira artista?”, “Sonha, Carlandréia, aproveita que é de graça”, “Se enxerga, menina! Você é filha de motorista de caminhão e cantineira de escola. Tira essas ideias da cabeça.” Teimei! Não, nunca obedeci as vozes do racismo.

Na escola era eu sempre a estar à frente dos “teatrinhos” sobre qualquer tema. Na quinta série, organizei a turma e montamos Morte e Vida Severina. Digamos que foi o meu primeiro sucesso (risos), fizemos várias apresentações nas escolas da Ibirité e até na quadra da cidade. Era como se apresentar no Teatro Municipal! Num belo dia, algumas pessoas de fora vieram até ao Grupo Escolar Pedro Evangelista, onde eu estudava. Passaram de sala em sala dando notícia de que haveria um projeto na cidade chamado “Projeto de Interação de Comunidades”, organizado pelo MEC e Instituto Pró Memória, que ofereceria gratuitamente oficinas de teatro para estudantes. Acho que a minha inscrição foi a de número zero, tamanha a pressa com que corri para não perder a oportunidade. Sim, esta foi a grande oportunidade da minha vida. Foi a partir dessa oficina de teatro com os mestres José Roberto de Alvarenga, Luis Carlos Garrocho e Antônio Carlos Cardoso que os sonhos da menina, que roubava os lençóis da mãe para fazer cortinas do palco de quintal, encontraram o seu caminho. José Roberto de Alvarenga, com seu olhar sensível, viu em mim o potencial, a verve, como ele me dizia, e me convidou para integrar o grupo Teatro Vivo em BH, do qual ele era o diretor. Assim, começou a minha carreira de atriz de teatro. No Teatro Vivo, recebi toda minha formação em história do teatro, como palhaça, e foi lá, com a orientação da Zé Roberto, que me formei arte-educadora. Sou cria de um projeto social e da sensibilidade do meu querido Mestre Zé Roberto.

Marcos Alexandre – Você poderia comentar sobre outros diretores com os quais trabalhou e que influenciaram na sua trajetória como artista e intelectual. Como foi – ou tem sido – a sua integração em outro projetos sociais como atriz-professora-formadora?
Carlandréia – De fato, acredito que, se não tivesse tido aquela oportunidade de participar do Projeto de Interação de Comunidades, do MEC e Instituto Pró Memória, talvez eu não estivesse aqui hoje. Ou teria buscado de outras formas o caminho para chegar até aqui, mas não tenho dúvidas de que teria sido bem mais difícil. Com o José Roberto, pude acessar conhecimentos que eu nem imaginava que existiam. Com o Zé Roberto, tomei conhecimento dos caminhos do teatro desde os primórdios. Isso me deu base para vislumbrar um teatro dentro da minha época e, a partir do meu olhar para a realidade brasileira, do meu lugar de militante de esquerda, fui traçando um percurso dentro da arte. Sempre acreditei que o papel do artista deveria estar intimamente ligado ao seu tempo. Dentro do projeto de Interação de Comunidades, nossa formação foi voltada para a arte-educação. Após meses de estudos, começamos ir a campo. Realizávamos incursões dentro das escolas de periferia ministrando oficinas de teatro com foco na arte-educação. Jogos, brincadeiras, todo tipo de recursos eram utilizados por nós. Paulo Freire era a inspiração para a pedagogia aplicada. A ideia de trabalhar com as crianças, a partir do território no qual elas estavam inseridas, muitas vezes, causava estranheza nas professoras e direções das escolas. Éramos o que eles chamavam de “o povo do teatro”. Uma gente esquisita para eles. Mas essa experiência me deu régua e compasso para a minha vida profissional até os dias de hoje.

Infelizmente, trabalhei com poucos diretores. Penso que o fato de eu me assumir como militante de esquerda possa ter causado, por parte deles, uma ideia de que eu seria uma atriz “panfletária”, (risos), sim, eu cheguei a ouvir esse tipo de comentário em alguns lugares. Acho que também pelo fato de eu ser uma atriz negra muitas portas eram fechadas para mim. Primeiro, porque a grande maioria dos diretores, especialmente quando comecei, nos anos 1980, era todos brancos; segundo, porque a dramaturgia (eurocêntrica) nunca nos foi favorável, né? Ou nossos corpos estavam ausentes ou estavam em situação de estereótipos nada positivos.
Foi por esta razão que, junto com o meu companheiro Jacó do Nascimento, criamos o grupo Circo Teatro Olho da Rua. Nesse espaço de criação e piração, desenvolvemos toda a nossa história com apresentações nas ruas e praças da cidade de BH. Do centro nervoso da cidade, dentro de agências bancárias, na praça 7, indo até o cerne das periferias, no interior de Minas e do Brasil, o Olho da Rua causou. Foi no Olho da Rua que entendi que se os diretores ou produtores não se interessavam pelo material que eu tinha para oferecer como atriz; não os atendia. Eu também não me interessava pelo que a maioria deles estava dizendo para o público com as suas montagens. Com o tipo de abordagem que as escolhas dramatúrgicas me comunicavam. Eu queria falar sobre as Histórias das gentes como eu, do meu povo, eu queria fazer um teatro que comentasse da realidade do meu país, que fosse dedo na ferida.

Mas preciso registrar que ter sido dirigida por Marcos Vogel, Orlando Orube, Eliane Carneiro, Adyr Assumpção e por Jacó do Nascimento fez toda a diferença na minha vida. Todos, grandes diretores. Com Marcos Vogel, encontrei a erudição personificada. Ele me levou a buscar leituras imprescindíveis para a formação de qualquer artista. Eliane Carneiro me mostrou como é possível fazer uma direção a partir do afeto. Orlando Orube me ensinou como o texto poético de Amor de Lua merecia e necessitava de uma embocadura precisa, a justa pausa e a palavra dita de dentro de cada emoção. Adyr Assumpção é outro mestre a quem devo ter tomado contato e total encantamento com a obra de Bertold Brecht. Foi a convite dele, na época do maravilhoso Grupo Kuzala, que participei ao lado do imenso Ronaldo Brandão, da montagem de Círculo de Giz Caucasiano. Que experiência incrível e inesquecível! Com a direção do Jacó, aprendi e aprendo sempre que o teatro é o lugar de a gente ser feliz, de se jogar com realidade e deslumbramento sem medos ou pré-conceitos, e que do nada inventa um universo inteiro.

Minha relação com os projetos sociais perdura. Como arte-educadora, estou sempre ministrando oficinas de teatro para estudantes de escolas públicas, para idosos nos CRAS, na Escola integral, como foi a experiência recente na Fundação Helena Antipoff. Eu sempre acreditei no poder da educação e do teatro. Nunca trabalhei com a separação desses dois elementos. Sou alimentada cotidianamente por essa força.

Felipe Cordeiro – Em sua jornada pelo teatro e pela educação, a literatura parece ter sido sempre uma boa companheira. Como as letras fizeram parte da sua história artística? Gostaria que você comentasse sobre suas primeiras leituras até desembocar no sucesso que foi Memórias de Bitita – O coração que não silenciou, bem como sua parceria com Conceição Evaristo.
Carlandréia – Quem despertou o meu gosto pela leitura foi minha mãe. Eu a apelidei de Tracinha, porque ela devorava livros. Era uma média de três a quatro por semana. Acho que ela tentava compensar a frustração por ter sido impedida pelos meus avós de frequentar a escola. O pouco que minha mãe conseguiu ir à escola foi fugindo pela janela e, quando voltava pra casa, a professora sempre a acompanhava para implorar aos meus avós que não batessem nela por ter fugido para estudar. Minha mãe apanhava sempre. Ela lia de tudo que lhe caia nas mãos. Livrinhos de faroeste, Sabrina, revista de moda e culinária, até bula de remédio!
Eu adorava frequentar a biblioteca da escola e ganhava todos os concursos de redação. Li toda a coleção Para Gostar de Ler, devorava verbetes dos dicionários – me chamavam de dicionário ambulante na minha turma. Fui também em busca dos clássicos, então li Machado de Assis, José de Alencar, Vitor Hugo, Jorge Amado (me apaixonei perdidamente pelo Guma, de Mar Morto), passei por Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, João Cabral de Melo, os poetas Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade… Interessante que, só mais tarde, fui descobrindo as autoras, as mulheres que escreviam. Daí me encontrei com Clarice Lispector, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, muitas outras. Hoje, sou capaz de compreender como o patriarcado é determinante também nesse lugar. As autorias negras então, só vim a descobrir bem mais tarde. Naquela época, por exemplo, a gente nem tinha a noção de que Machado era negro.

Todos esses livros me marcaram e influenciaram minha vida de maneira de fundamental. Quando montei Morte e Vida Severina, do João Cabral de Melo Neto, eu logo senti que a literatura poderia me ajudar a denunciar ao mundo gritos que eu trazia guardados dentro de mim e que, por meio dela, transformando-a em teatro, poderia reverberar em muitos ouvidos. Carolina Maria de Jesus, certa vez, passou pelas minhas mãos. Causou impacto, mas nos perdemos uma da outra e só voltamos a nos encontrar novamente em 2014, ano do seu centenário. Chegou, chegando, essa Preta Maravilhosa. Promoveu mudanças fundamentais na minha vida. O espetáculo Memórias de Bitita é, sem dúvida, um marco na minha carreira de atriz, de produtora e, consequentemente, de arte-educadora. Com Bitita, fomos muito além das temporadas nos teatros da cidade de BH. Com o prêmio de Artes Cênicas que recebi da Secretaria de Estado de Cultura, fizemos o circuito caroliniano. Em parceria com a Secretaria de Estado de Educação, fomos para dentro das escolas de presídios apresentá-lo a jovens em privação de liberdade, vivemos momentos de intensa emoção com as mulheres dos presídios femininos. Tivemos a honra de cantar “Salve Ela” em celebração ao aniversário de 70 anos de Conceição Evaristo, ela dançou e cantou com a gente no palco do CCBB, no FAN de 2015. Recebemos o prêmio Leda Maria Martins e seguimos colhendo alegrias com Carolina.

A partir daí, começa uma relação de amor e amizade com Conceição Evaristo. Costumo dizer que é um encontro das Águas. Duas filhas de Osùn, duas mulheres Pretas que encontraram na literatura um caminho para desaguar suas existências. Como cunhou Conceição, suas Escrevivências. É incrível como a obra de Conceição Evaristo me impacta. Toda mulher Preta deveria ler Conceição. Naturalmente, não ousaria me comparar à imensa Conceição Evaristo, mas seguindo seus passos, venho, a cada dia, me aventurando no exercício da escrita. Nessa empreitada, venho desenvolvendo o projeto de Escrita e Deságue, para não enlouquecer na pandemia. É um processo de exposição da minha alma e do meu corpo, estou ali, em cada texto, em carne viva. Ter começado a ler autoras e autores negros foi de fulcral importância para tudo o que me afeta atualmente como mulher, artista e ativista. Poder olhar nesse espelho e enxergar a mim e aos meus amplificou totalmente o meu olhar para o mundo.

Marcos Alexandre – Ao ler sua resposta e considerações sobre sua aproximação e (inter)[re]ação com as obras de Carolina Maria de Jesus e Maria da Conceição Evaristo, duas Marias como tantas outras mulheres negras brasileiras, duas mulheres negras que têm transformado a vida de inúmeras outras mulheres pretas brasileiras no campo da literatura, da teoria feminista e das artes, gostaria que você nos falasse um pouco mais sobre sua escrita, ou melhor, sobre seu processo de escrita, sobre sua poética dramatúrgica e o seu olhar sobre as escrevivências pretas – principalmente das mulheres pretas – como propulsoras de novas histórias a partir de suas corporeidades e memórias.
Carlandréia – Duas Marias, dois destinos que se assemelham (há sempre repetidas semelhanças entre as vidas das mulheres pretas – Carolina e Conceição escrevem sobre este tema com a precisão de lâminas afiadas). As obras de Carolina Maria de Jesus e de Maria da Conceição Evaristo compõem um painel social, a partir de suas agudas observações da realidade de pessoas negras, especialmente as mulheres, dentro da cartografia de um país que carrega trezentos e cinquenta anos de exploração do[a]s corpos/corpas negros/negras, e que, nos anos pós-abolição, relegou esses mesmos corpos ao “quarto de despejo” da sociedade. Carolina faz a leitura de alguém que saiu do seu lugar nas entranhas de uma vida rural de Sacramento para cair na São Paulo higienista e cruel, que a “recolhe” em uma carroceria de caminhão e a despeja às margens do Tietê, na favela do Canindé . A máquina de moer carne de nordestinos, pretos e pobres nos trituradores dos subempregos, das indústrias, das violências de Estado e policial, que ainda perduram, das cozinhas e dos banheiros da classe média paulistana. É a partir dessa crueza que Carolina escreve. A vedete da favela vive a “fome infausta” e coloca os culpados no seu livro.

É também de uma favela, a Pendura Saia, de Belo Horizonte, que Conceição Evaristo se desloca até o Rio de Janeiro de carona na boleia de um caminhão e é lá que constrói toda a sua trajetória como escritora. Conceição nos dá a impressão de que carrega todas as mulheres negras do mundo. Ela parece beber todas nós, parece devorar nossas histórias. Ela sorve nossas memórias lembradas ou não, para depois nos fazer reverberar para o mundo em forma de grito, poesia – ancestralidade.
Como Carolina, Conceição também denuncia as violências, “minha voz não é canção para ninar o sono injusto da casa grande”, provoca viagens interiores em uma urdidura que, a princípio, nos dá a ilusão de uma suavidade morna, mas que, aos poucos, vai penetrando o dedo nas feridas emocionais causadas pelo racismo que insiste em querer nos matar todos os dias. Conceição traz na “palma da mão a pedra retirada do meio do caminho” e a atira com a doçura de Oxum, ela nos conduz pelas memórias e também nos ensina a usar a adaga da Rainha Mãe da água doce. A partir dessas duas mulheres, Carolina e Conceição, Maria e Maria, escritoras Pretas, Mulheres Farol e de muitas outras pretas que vou conhecendo, tento mirar o caminho da minha escrita.

Gosto de escrever como quem está numa mesa de bar, ou sentada na cama de uma amiga simplesmente conversando sobre a vida, a política, o desejo e a dor, a raiva e a fome de que tudo mude ou saia do lugar do mero incômodo que as desigualdades costumam causar. Eu quero ver tudo revirado, eu quero demolir o que está posto contra nós. Não é uma escrita ressentida ou raivosa, é deságue e cura. Preciso falar, preciso escrever e tentar dar a notícia. Muitas vezes, a notícia pode não interessar a mais ninguém além de mim; noutras, anseio criar rebuliço e desarranjo nas estruturas que nos cercam as liberdades e os sonhos. Pretensão de Preta atrevida? Talvez! Carolina e Conceição me ensinaram a insubmissão diante das estruturas que tentam nos silenciar. Eu apenas tento ser boa aprendiz. Assim como Carolina e Conceição, sou um corpo dissidente. Minha corporeidade Preta, fora dos padrões de estética eurocêntrica, mulher de candomblé e de esquerda, filha de Oxum e de Xangô, corpo parlamentar, colorido demais para os espaços brancos, sigo em construção e tentativa diária de descolonização. É das minhas memórias, das memórias das mulheres da minha família de sangue e mundana, dos olhares que lanço para o mundo que nasce a minha escrita.

Felipe Cordeiro – Durante a pandemia, assim como diversos artistas de teatro, você se reinventou e atuou de forma mais intensa nas linguagens audiovisuais, tendo lançado seu filme Ei! e a obra Espalhada pelo continente. Gostaria que você nos contasse um pouco sobre cada um desses trabalhos e de que forma essas obras atravessaram seu corpo e suas escrevivências.
Carlandréia – O processo EI!: Era o tempo do medo da morte da vida e da arte. Fomos os primeiros a serem recolhidos em confinamento. As artes e os artistas se viram de uma hora para outra desterrados dos palcos, das praças, de todos os lugares onde se realizam as ações performativas, coletivas e ritualísticas. Das artes cênicas em especial – teatro é presença (a vida é presença). Essa máxima do teatro posta em xeque em brutal realidade pandêmica. Lutamos contra um vírus e um verme. Ambos implacáveis em seu desejo de morte. Nunca havia visto assim, em exagerada proximidade, a pulsão de morte tão exacerbada. Na medida em que as notícias da tragédia iam chegando, uma angustiante sensação de tristeza, medo, indignação e raiva ia fazendo um trânsito por dentro da minha cabeça, das vísceras e das memórias. Era imperativo tentar sobreviver. Um mantra começou a me rondar: eu não vou sucumbir. Dias bons e dias maus foram se passando, e o mantra lá dentro, circulando, rodando, fazendo a gira. Naquele momento, março de 2020, eu estava completamente isolada em um sítio encravado dentro da barriga da montanha. Me sentia uma espécie de Jonas às avessas, a minha barriga não era a de uma baleia. A barriga que me engolia e abrigava era uma montanha milenar de minério de ferro e terra vermelha. Inevitável destino de capricorniana obstinada, serem sempre essas velhas senhoras, as montanhas, a me acolherem. E foi de lá de dentro, num milagroso momento em que o telefone deu sinal, que veio a ligação do Adriano Borges me fazendo o convite para escrever e dirigir um espetáculo que concorreria ao Cena Rascunho, editado pelo Galpão Cine Horto. Um disparo no coração, um suspiro e… topei a empreitada! Fiquei dias matutando, confabulando com minhas memórias, traumas, imaginando uma máquina do tempo que me levasse em viagem de descruzamento do Atlântico, que me conectasse com uma ancestralidade sem mácula… impossível. Todos os percursos dessa empresa de delírios e pensamentos me levavam a imagens da destruição civilizatória que as invasões coloniais promovem aonde quer que cheguem.

“O Brasil é uma fratura exposta
Tratada com falsos unguentos
Enfaixada numa atadura branca e podre
Donde se lê escrito em sangue
Ordem e progresso”

Essa metáfora veio como um martelo na minha cabeça. Era sobre isso que me importava falar naquele trabalho e seria pelo corpo/cavalo de Adriano Borges. Homem de corporeidade afro-indígena, que carrega os dois lados de uma memória de processos de invasões, sequestros e genocídios, enquanto na atualidade brasileira outro genocídio era/é operado. Que lugar é este? O que funda este país? O que esses quinhentos e poucos anos de um território assentado na exploração e no etnocídio ainda reservam de perversidade para esses dois povos? Ei! fala sobre isso na perspectiva de um aglomerado de personas que coexistem no ator em cena. Vítimas e algozes se digladiam no corpo/cavalo de guerra posto em cenário de escombros. Em tempo ficcional, ele é o único sobrevivente da tragédia. Tragédia pactuada desde as primeiras invasões, desde a primeira matança perpetrada contra os povos originários até o primeiro desembarque de povos sequestrados em África aqui escravizados, destituídos dos seus nomes próprios, vilipendiados em sua humanidade. A fratura continua exposta e sem tratamento. A covid serviu ao mesmo tempo para confirmar que os cento e trinta e dois anos de pós-abolição não foram suficientes para eliminar desigualdades, como também para escancarar o real propósito do ocupante do cargo executivo mais importante do país. Em 2020, o texto fala em “milhares de mortos pela pandemia”, chegamos a mais de 600.000 até o momento em que escrevo aqui.

Como uma cena rascunho virou filme? Bem, por conta do confinamento houve a exigência de entregar o material com duração de oito minutos em vídeo. Quando esse material chegou às mãos da comissão avaliadora e do Chico Pelúcio é que surgiu essa ideia de que o material era um curta-metragem, e então veio a proposta de lançá-lo como tal. O formato de gravação foi fundamental para que o vídeo recebesse esse olhar. Todo gravado em plano sequência, texto e imagens geram uma vertigem de acontecimentos passados e recentes da história do Brasil e vemos um desfile de personagens ora contraditórios, ora narradores do futuro fazendo uma convocação urgente à memória.

Espalhada pelo continente: Nasce como texto dentro do projeto de sobrevivência/reesistência Experimentos de Escrita e Deságue Para Não Enlouquecer na Pandemia, ao qual pretendo dar o formato de livro. Assim também é o blasFÊMEA, que estreou no Festival Mineiro de Literatura. Sempre quis ter a experiência com o audiovisual, fiz algumas poucas incursões por esse lugar, e a pandemia trouxe essa necessidade de a gente continuar se comunicando por meio do nosso trabalho, apesar da distância, apesar da ausência, forçou-nos ao desconhecido. Fiz muita coisa na precariedade do meu celular, o Devir Oxum, por exemplo. Já em Espalhada pelo continente, tive todo um aparato de recursos, gravação feita no teatro de bolso do Galpão Cine Horto e a produção impecável da Estação Criativa que criou um projeto incrível chamado Hora da Cena, que reuniu um time de artistas muitos ativos e necessários na cena teatral mineira – Cida Falabella, Letícia Castilho, Glicério Rosário, Rodrigo Robleño, Chico Pelúcio.

Muitos atravessamentos permanecem reverberando dentro de mim, o Ei! e todos os outros trabalhos que venho realizando nesses últimos dois anos. Eles refletem uma mulher que sentiu a chave girando lá dentro e que, apesar dos medos, não fez nada para impedir o movimento das suas engrenagens internas. Na medida em que o tempo vai passando para mim, que vou me tornando uma senhÔra”… (risos) vou tentando compreender cada dia um pouquinho mais sobre a dinâmica desse tempo no meu jeito de estar no mundo. Enveredei pela escrevivência seguindo os passos de duas Marias, a Carolina e a Conceição são a mirada dessa Maria aqui. Carlandréia Maria é corpo sem pouso no chão da casa/mundo em que habita, é água em fluidez desgovernada, por vezes serena, noutras arrebentação.

Outros apontamentos:
1 – foram sempre a palavra (ofó), a teimosia, a curiosidade e a desobediência que me fizerem permanecer andando, em movimento constante a despeito de todas as interdições que me impuseram;
2 – por todos as cidades, estados e países por onde andei, foi sempre o teatro que me levou;
3 – fiz teatro nos lugares mais inusitados que vocês podem imaginar: dentro de agência bancária detonando com os agiotas do mercado financeiro, em porta de fábrica e hospitais, em praças e ruas, presídios e até na zona.
4 – teatro pra mim vai muito além do espetáculo. É função social;
5 – e sim, é verdade que a arte salva. Podem acreditar.

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Marcos Alexandre – Depois de te ler (de te escutar), Carlandréia, suas palavras impregnam em nossos corpos e continuam ecoando para além da tela, reverberando e provocando novos e outros sentidos, pois sua voz escrevivente toca em aspectos sociais e afetivos que também nos movem como sujeitos. O desejo que tenho é de que esse jogo de perguntas e repostas não findasse com uma pergunta derradeira. Não obstante, gostaria que você comentasse sobre o que ainda te move como corpo pulsante de mulher negra, atriz-cantora-diretora-escritora, artista múltipla e movente; e se existe ainda alguma personagem que você gostaria de levar para o palco e/ou para o universo audiovisual.
Carlandréia – Adoro a imagem do ‘corpo movente’, essa ideia de deslocamento constante, criando atritos com os objetos estáveis, provocando mobilidades itinerantes, fricções com as permanências intocáveis que a colonização interpôs entre as nossas existências e corporeidades, e as realidades criadas para nos paralisar e banalizar a importância dos nossos movimentos e ações. A ideia de corpo instituinte, que não se apega aos modelos de comportamento, que está sempre criando dissidências em contraponto ao status quo, branquinho e etiquetado. Por esses contornos que procuro caminhar enquanto sujeito Mulher/Preta/Artista.
É uma caminhada dura, uma vez que todos os dispositivos de controle dos nossos corpos estão muito bem organizados para nos causar toda sorte de interdições e silenciamentos, mas sou atravessada constantemente pelo desejo de ser esse corpo-voz que cria ruídos outros que não aqueles que esperam de mim.

Existem muitos personagens que eu gostaria de levar para os palcos e para as telas, uma multidão de mulheres, de tipos com os quais convivo ou imagino, quero colocar de pé a proposta de montagem sobre a vida e a obra de Conceição Evaristo. Pretendo fazer um cotejamento entre a vida e a obra dessas duas Marias – Carolina e Conceição. Comentei sobre isso aqui na nossa conversa. As semelhanças que unem as duas escritoras. Quero também levar adiante um projeto de espetáculo sobre as mulheres da minha família, falar sobre elas, das histórias delas e de como sou o que sou a partir da existência delas, do que me tornei e do que tive de modificar em mim, em minha trajetória, para escapar das armadilhas em que o patriarcado e o racismo muitas vezes as colocaram, as capturaram. São mulheres fortes e delicadas, mas são tomadas por questões de que todas nós, mulheres pretas ou não, somos atingidas – as marcas do machismo estrutural nas epidermes da alma e como carregamos essas marcas.

Ah, ainda tem uma história que me caiu nas mãos por acaso numa das minhas incursões por sebos. É um material sobre a memória do blues e descobri umas composições escritas por mulheres que, após a abolição da escravização nos EUA, se viram obrigadas a se prostituir. Nessas letras, que marcam o período de transição do blues rural para o blues urbano, essas mulheres falam de sua condição enquanto corpos femininos mediante toda a violência a que foram expostos naquela conjuntura de miséria e luta pela sobrevivência. No mais, não dou como finda essa conversa com vocês, porque sei que nossos Odus não se cruzaram por acaso e que seguiremos em trocas de intenso afeto.

Devir Pomba Gira
Fez a vida calhar que eu fosse o meu próprio desassossego
Me converti em confusão
Desacertei o passo
Acertei
Tropecei
E levantei dando gargalhadas na encruzilhada
Se dobrar a esquina
Cruza comigo

Toda mulher deveria ter um caderno e um lápis nas pontas dos dedos.

Novembro de 2021.

 

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30/05/2022 TAGS: Carlandreia Ribeiro, dramaturgia, Entrevista, escrevivências, TEATRO BY: Luciana Romagnolli
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Propostas para persistir

Propostas para persistir

– por Luciana Romagnolli –

 

[Imagem de capa: intervenção de Luciana Romagnolli sobre obra de Muhammed Salah.]

Tenho me perguntado sobre como sustentar o gesto crítico neste momento, neste país, neste contexto. Já adianto aqui a resposta que tenho me dado: sustentando a pergunta.

Nesses quinze anos de atuação como crítica, o modo de conceber e praticar essa atividade transformou-se algumas vezes. Compreendo que precise ser assim: a crítica é um olhar – um corpo – que se lança ao mundo em movimento. Move-se o mundo, move-se a crítica.

Há uma coreopolítica para um corpo crítico que se implica na cena do teatro, na cena do mundo: projeta movimentos, adere a coletivos, singulariza-se, encontra outras perspectivas, retorna, persiste, indaga… ainda.

A crítica produz discurso sobre/ a partir de/ com a arte. As perguntas sobre a crítica carregam perguntas sobre a arte. Quais as funções da arte no nosso tempo? Como a arte pode sustentar-se como espaço de invenção de modos de continuarmos vivas que recusem a necropolítica, a precarização das relações de trabalho e de afeto, as abordagens do mundo como consumo e exploração, a propagação de normopatias, a estruturação racista e patriarcal da sociedade?

Um trajeto crítico é um percurso de reinscrições do corpo na linguagem. O fio que atravessa o tecido da costura abre furos, afasta-se, reaproxima-se, alinhava o imprevisto. Cada pergunta é uma abertura.

Das perguntas que me faço, então, retiro aqui algumas consequências que possam projetar propostas para persistir. Lanço-as um tanto desalinhavadas, contando que as costuras estão por ser feitas.

*

Na virada da década, cheguei de Curitiba a Belo Horizonte apostando no fazer crítico como um movimento de contato e ressonância com o fazer teatral. A proposição de “pôr em crise” uma obra ditava o caminhar, mesmo que eu experimentasse um não saber diante de cada novo acontecimento cênico, e fosse a mim mesma que colocasse em crise nessa relação: minha concepção de mundo, meu olhar, meu corpo, minha compreensão de arte e sociedade.

O que me movia – vejo agora – era uma atração irresistível por esse enigma da linguagem corporificada: como artistas modelam esteticamente (sensivelmente) o viver?

Uma pergunta sobre dramaturgia. Uma pergunta sobre a criação de mundos.

Da crítica, passei à curadoria, sempre ao passo do pensamento dramatúrgico, analítico, interessado nas composições e decomposições, nas tramas de sentido que tecem nossas realidades cotidianas e fabulares, e nos ecos fora do sentido que fazem vibrar os corpos.

A compreensão da estruturação racista, heteronormativa e misógina da sociedade não veio sem consequências. O insuportável, na melhor das hipóteses, nos lança à luta pela invenção de outros modos de vida, solo fértil para arte.

Hoje, o que sustenta esse campo, para mim, é o espanto diante da vida que a arte reinaugura a cada vez. O desejo de contato com aquilo que não se encaixa no capitalismo nem em uma visão utilitária e quantificável da vida, abrindo brechas para o que não cabe nas formalidades e identidades pré-fixadas nas relações sociais.

*

Nos últimos tempos, tenho estado atenta aos modos de circulação de informações e afetos nas redes sociais, que se oferecem como novos espaços de “convívio” para o debate público, como uma suposta praça pública, regida por algoritmos privados. Tento desprender-me da rede que captura nossa indignação como mais um produto capitalista no mercado de trocas emocionais e morais projetado por esses algoritmos, que convocam os usuários à reatividade, ao medo, ao ódio, ao isolamento. Quem nunca se exaltou que atire a primeira pedra. Tornamo-nos facilmente manipuláveis por meias manchetes e memes mal lidos. Qualquer palavra é pólvora.

Não se trata de menosprezar a revolta, mas questionar sua efetividade quando se torna produção em série na máquina capitalista de embrutecimento dos corpos, na passagem da pulsão de vida para a de morte. Quando o efeito calculado da indignação é um tapar de olhos e ouvidos, mortificar o corpo e bloquear o diálogo.

Em que medida é preciso destruir para abrir espaço? E em que medida a fogueira infertiliza a terra e nos envolve em uma nuvem irrespirável?

Acontece que não existe um fora dessa estrutura social.

Então, indago-me: o que há de existir entre “o aliado não é uma categoria estável”, proposição com que Jota Mombaça esgarça o tecido da história única, e a questão sobre “como fugir do desejo de sempre construir um inimigo em comum?” trazida por Lorenna Rocha?

Buscar inimigos comuns perpetua uma lógica de extermínio da diferença?

Como construir uma sociedade plural, verdadeiramente plural, não somente para as diferenças com as quais concordamos?

E como reconhecer o limite em que a discordância extermina até a possibilidade da diferença? 

Aqui, encontro ecos de falas e leituras do Juliano Gomes e da Sarah Ahmed, colocando em questão isso que separa o que chamamos de “nosso” do não nosso – o idêntico ao eu do “não eu”. Não somente para apontar quem cabe no “nós” e quem está excluído, mas para repensar essa lógica mesma de separação baseada na exclusão daquilo que não se espelha.

Como não se fechar diante do estranho a si?

Como combater as dicotomias que hierarquizaram os corpos sem erigir novas hierarquias?

Como fazer isso sem se limitar a aderir a discursos engajadores e a propagá-los repetidamente, desatentos ao gesto de repetir sem crítica?

“Que se diga é esquecido detrás do que se diz no que se ouve”, lembrou Lacan em O Aturdito.

Como sustentar a investigação da dimensão estética da experiência de estar no mundo, ali onde os discursos falham, onde nossos gozos se revelam, para além das rivalidades e maniqueísmos, nas frestas dos sentidos, nos encontros inesperados, onde se operem intervenções sutis?

E como fazer tudo isso sem nos implicarmos?

Não falo de heroísmos nem de salvacionismos. Implicar eticamente o corpo passa por uma experiência subjetiva de questionar ideais e o lugar que ocupamos nas idealizações.

Penso, por exemplo, na arte que “salva”. Salva quem? Não tenho dúvida de que a arte possa salvar aquele que encontra nessa expressão um espaço para existir (cada vez mais exíguo no modo de alta produtividade da vida colonizada pelo neoliberalismo e sua necropolítica). Mas não creio que o artista salve. Ainda bem.

Sem messianismos.

Como a arte pode manter-se próxima da política sem que o artista assuma a roupagem marketeira dos políticos? Próxima da criação (invenção) e longe da religião? Próxima do público sem submeter-se de todo à mercantilização?

A diferença que tento apontar aqui faz-se nos discursos e práticas. Quando a arte assume o discurso da salvação, da elevação moral, qualquer atrocidade (inclusive as trabalhistas) pode ser cometida em seu nome. Quando a arte assume o discurso da campanha política ou da publicidade, o público torna-se um grupo a ser convencido, sem dissenso nem autonomia.

*

Foi traumático (no sentido daquilo que fixa um antes e um depois) na minha trajetória assistir a debates entre representantes de grupos extremamente marginalizados, alvos de extermínio, com dificuldades à escuta um do outro. Saí em silêncio. Era preciso outro tempo. Outra lógica que não a da disputa.

Demorar na escuta antes de voltar a dizer.

*

Venho direcionando minha pesquisa para psicanálise e arte. Para o impacto da linguagem no corpo, suas consequências e aquilo que escapa. Para a lógica que não se encerra no universal: recusa decepar corpos para que caibam nas categorias e classificações. 

Talvez já fizesse isso quando fui pesquisar dramaturgia e presença no mestrado, ou dramaturgia convivial no doutorado, sem saber ao certo o que procurava, movida pelos impactos corporais deixados pelas minhas experiências como espectadora. Aqui encontro outra questão cara à crítica, e difícil: despir-se dos saberes prévios no corpo a corpo com os trabalhos artísticos, para redescobrir o mundo com eles e, daí, construir algum sentido.

Entretanto, esse não saber, elevado à máxima potência pela singular combinação do inferno político brasileiro (coletivo) com a radical experiência da maternidade (particular, mas também social), pôs-me diante de impasses que nem as teorias do teatro nem da sociologia nem da filosofia podiam fazer mais do que roçar. Então fui cutucar as feridas da língua, do dizer e do indizível no campo da investigação das subjetividades, para além das racionalidades.

Daqui escrevo agora, recuperando a voz, ensaiando um bem-dizer ainda trôpego e ruidoso. Para isso, abandono muito do que compreendi como crítica ao longo de quinze anos. Busco os desvios.

Tenho atentado, especialmente, ao lugar de comitê moral em que nos investimos como as juízas, os/es juízes de nosso tempo. A esse império do supereu em que nos encontramos nas redes sociais: essa dimensão tão intrigante do ser que Freud desenhou com os contornos legislativos de um imperativo categórico (“é proibido!”, “você não pode!”…), e que Lacan repropôs como imperativo de gozo (“você deve!”, “faça!”, “mais!”…).

O que se espera de um crítico, uma crítica, ainda?

Como evitar que a crítica torne-se um discurso legislador, moralizante e esterilizante?

O que há para a crítica além dessa demanda de regulação social? Um desregular, atrevido, que faça um furo no tecido instituído da arte e da vida para alinhavar outra forma provisória até que outro fio o atravesse?

Meu projeto de vida agora lança-se a uma investigação sobre como os discursos incidem nos corpos, quais ressonâncias nos mortificam e quais brechas abrem-se para que inventemos soluções imprevistas. Lança-se a tecer laços impermanentes entre o singular e o comum. A contribuir com a construção de uma sociedade plural, sem delírios salvacionistas, sem a imposição de uma diferença sobre as outras, mas sustentando a pergunta: como coexistirmos? E compreendendo a arte como território deslimitado onde, insistentemente, fabulam-se respostas, uma a uma.

*

Chego, então, a algumas propostas para persistir.

Mais fios soltos:

Recusar à crítica a função de legisladora ou juíza de um mundo-tribunal.

Recusar à crítica o lugar de saber autoritário, detentor de uma suposta verdade e do projeto ideal de sociedade, diante de um mundo a ser ensinado.

Procurar outro modo que não o imperativo para o laço social.

Implicar o corpo na linguagem, na cena, no problema e na proposição.

Fazer a crítica como quem faz dramaturgia.

Troçar os discursos prontos, reencontrar a palavra, revirar a palavra, repactuar a palavra. 

Estar advertida de que não há fora desse mundo-mercado: as revoluções são capturadas, reprocessadas e vendidas em hashtags estampadas.

Recuperar um esforço de historicização, que encontre no recuo um impulso ao amanhã.

Trilhar uma luta social em que o plural não sucumba à afirmação autoritária da identidade como lei.

Não esquecer que, seja qual for o corpo que ocupe essa posição, a lei do Um é patriarcal. 

Assumir um compromisso com a vida, entendida como existências plurais, dissonantes, dissensuais e desencontradas.

Um compromisso com a coexistência do que há de radicalmente diferente em cada ser vivente, a partir do que possamos transitar e inventar formas de laço.

*

Talvez, aprender a gingar.

*

Iniciei este texto com uma pergunta sobre o sustento do gesto crítico. A boca que diz também come.

*

Nem tudo é manifesto.

 

 

 

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27/10/2021 TAGS: crítica, Curadoria, Luciana Romagnolli, Projeto de crítica BY: Luciana Romagnolli
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Conversações

Por uma nova independência?

Por uma nova independência?

_ Luciana Romagnolli _

O título deste artigo é uma frase que li em um perfil de uma conhecida de infância. Ela se referia ao ato de 7 de Setembro, em que Bolsonaro, outra vez, mais e ainda, atacou a democracia brasileira. Independência. Que palavra é essa? O que o golpismo fascista tem a ver com ela? Outro dia mesmo, na CPI da Covid, um senador de extrema direita, num salto triplo da retórica, acusou de negacionismo quem nega o tratamento preventivo com cloroquina. O que diz uma palavra? Essas torções de sentido têm sido uma estratégia frequente do fascismo brasileiro para capturar e desfigurar o discurso democrático.

“Liberdade de expressão”, “democracia”, “prisões políticas”, “povo”, “regime ditatorial”, “pessoas honestas”, “paz”, “diálogo”, “Constituição”, enfim, são muitas as expressões que não só assumem novos sentidos na fala do ocupante do cargo de presidente, mas assumem sentidos radicalmente distintos dos quais transmitiam, até então, no pacto coletivo que é a língua.

Parênteses: a língua, qualquer língua, é sempre uma negociação de sentidos entre seus falantes e escritores; não é um compêndio gravado na rocha, não é imutável, e carrega consigo vestígios dos usos que se faz dela. Fiquemos com a palavra negacionismo. Ela não significa exatamente a mesma coisa para cada ouvinte, há ruídos de significação e restos fora do sentido, um mal-entendido constitutivo da comunicação humana. Entretanto, isso não significa que esteja solta às flutuações do vento, moldável a qualquer sentido que se queira dar. Há a História.

“Negacionismo” não é qualquer “negação”; aponta para aquela que desacredita informações verificadas e comprovadas por evidências. Negar um fato histórico, negar uma descoberta científica, por exemplo. Ao dizer que negar o tratamento preventivo com cloroquina é negacionismo, faz-se o contrário: justificar a falta de evidência científica para uso de um medicamento.

Atravessamos um terreno pantanoso para a linguagem. A necessária revisão da História única, a crítica a fundamentos racistas e misóginos da sociedade, que inclui a medicina e a língua, tornam esse dispositivo de comunicação humana cada vez menos fixo, menos confiável, mais incerto. O mais justo seria dizer: revelam o que esse dispositivo de comunicação humana tem de menos fixo, menos confiável, mais incerto, à medida que o desnaturalizam, que expõem a subjetividade de sua construção, sua não objetividade.

Eis a batalha no campo da linguagem, que nada tem de rochoso. Essa terra movediça.

O impasse contemporâneo está em que, sem ela, a língua, uma língua comum, resta pouco de uma civilização, de uma sociedade, de uma comunidade – como preferirem chamá-la. A língua é o lugar dos laços sociais. Há nós a desatar. Quais atos construirão o (novo) comum?

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08/09/2021 TAGS: linguagem, Luciana Romagnolli, política BY: Luciana Romagnolli
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capa podcast

Ouvir o Horizonte

Ouvir o Horizonte

Apresentação

Criado em 2020, o podcast Horizonte da Cena surge do desejo de experimentar uma produção crítica mais coletiva – tecida a várias vozes – e pautada pela valorização da oralidade.

Idealizado e editado por Julia Guimarães e Diogo Horta, o podcast conta com a colaboração da equipe do site Horizonte da Cena. Seus episódios estão divididos em temporadas temáticas, que funcionam como experimentos críticos sonoros, na intenção de explorar diferentes formatos de debate.

A proposta é discutir a cena contemporânea, além de refletir sobre temas que atravessam os diferentes contextos da criação artística e seus diálogos com a sociedade atual.

Com trilha sonora original criada por Márcio Monteiro, os episódios do projeto (sinopses abaixo) estão disponíveis nos principais tocadores de podcast e na página do Horizonte da Cena no Instagram.

Ouça todos os episódios aqui.

Crítica – Marcha a ré – Teatro da Vertigem e Nuno Ramos

Nesta conversa as críticas Julia Guimarães e Luciana Romagnolli abordam a obra “Marcha a Ré” em sua versão como performance e como filme (dirigido por Eryk Rocha). A partir de uma reflexão sobre os múltiplos sentidos da ação proposta, debatem os vínculos com o contexto político e social do país, o caráter híbrido entre arte e manifesto e seu funcionamento como um contradispositivo cênico.

_________________________________

Crítica – O Auto da Compadecida – Grupo Maria Cutia

Nesta conversa os críticos Clóvis Domingo, Diogo Horta e Julia Guimarães debatem a adaptação da montagem do grupo para as redes digitais e discutem as potencialidades e desafios que o formato exige. O diálogo aqui proposto discute história, memória, crítica e novas possibilidades de recepção estética.

___________________________________

Ética e Crítica

Segundo episódio da temporada “Teatro e pandemia” do podcast Horizonte da Cena. Apresentado e mediado por Soraya Martins, neste episódio, Clóvis Domingos e Guilherme Diniz discutem as inter-relações entre ética e crítica teatral na contemporaneidade, considerando o contexto global da pandemia de COVID 19. Quais os impasses, tensões e desafios éticos, estéticos e políticos estão diante da crítica teatral atualmente? Como rediscutir os lugares do espectador nas cenas virtuais? Quais abordagens, processos e vocabulários têm integrado a produção crítica no Brasil? Estas são algumas das questões que atravessaram o diálogo neste podcast que, em síntese, procura debater as movências, contradições e potencialidades da crítica teatral brasileira.

________________________________
Experiências de teatro na pandemia

Primeiro episódio da temporada “Teatro e pandemia” do podcast Horizonte da Cena. Apresentado por Diogo Horta, o episódio traz as reflexões de Luciana Romagnolli e Julia Guimarães sobre o teatro realizado durante o período de distanciamento social decorrente da pandemia de Covid-19 no Brasil. Quais são os lugares da presença, da ausência e do convívio nos experimentos cênicos atuais? Nesta conversa, são citados os seguintes trabalhos: “Frequência 20.20”, de Grace Passô, “Éramos em Bando”, do Grupo Galpão, “Peça”, de Marat Descartes e Janaina Leite, “Mata Teu Pai”, de Debora Lamm e Inez Viana, “Quarto 19”, de Amanda Lyra e Leonardo Moreira, “Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas”, da Cia. Os Crespos, “Live me daqui”, de Vinícius de Souza, “Tudo o que coube numa VHS”, do grupo Magiluth e “A arte de encarar o medo”, da Cia. Os Satyros. Trilha sonora original: Márcio Monteiro | Produção: Horizonte da Cena

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02/02/2021 TAGS: Antônio Araújo, crítica, ética, Grupo Maria Cutia, Nuno Ramos, pandemia, podcast, Soraya Martins, Teatro da Vertigem BY: Luciana Romagnolli
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há algo de presença numa carta endereçada a alguém

há algo de presença numa carta endereçada a alguém

– por Amilton de Azevedo* –

são paulo, meados de abril de 2020

als,

o cabeçalho marca um tempo-espaço que parece significar pouco onde seguimos existindo. recebi sua carta logo após a janta de hoje. agora, no silêncio da madrugada, me preocupo com as tosses que sigo ouvindo da vizinha de baixo – pelo que sei, é uma médica que vive só. de dia me preocupo com o insistente movimento de crianças jovens adultos velhos cachorros e as atletas de arremesso de martelo que treinam na quadra da praça.

eu moro com minha mãe, que brinca que meu quarto é uma casa na árvore. são duas; a folha do coqueiro, vi hoje, é uma ponte para as formigas que moram na minha parede. brinquei um pouco com isso durante a tarde, tornando o trabalho das pequenas mais difícil ou mais fácil. a outra é uma que dá flores amarelas; elas passaram a altura do meu quarto andar nos últimos 15 anos que moramos aqui. a vizinha tosse enquanto escrevo.

hesitei em escrever essa resposta. passeei por horas pelos rodapés. o primeiro me assustou um pouco; não estou lidando bem com essa efervescência de obras disponíveis – por um lado me sinto como quando passeio pelo catálogo do netflix sem saber a que assistir. por outro, não quero ver nenhuma delas. acho que também não me conformo com essas tentativas.

o segundo é o motivo primeiro disso aqui: sua carta e o preâmbulo finalmente me mobilizaram para olhar além. ler o que outras, outros, outres vêm dizendo pensando projetando. a isso, sou grato. não li todos os textos (e fui atrás de yuval harari, ailton krenak e debora diniz) mas algo me movimentou.

sabe, anda difícil pensar em presença. em encontro; em construir campos de possíveis, imaginar juntos. minha mãe uma vez me disse que um livro é o menos material dos objetos. penso que talvez uma carta, o ato de endereçar uma escrita para alguém – mesmo que indefinido, mesmo que inventado, mesmo que – é uma presentificação honesta daquelas palavras-tentativas.

organizar pensamentos ações em um texto é uma afirmação de existência, talvez? pode ser um escamotear, um fugir do agora. infelizmente, não escrevi essas palavras com um apagável lápis antes de traduzir o que se passou por aqui dentro nesta carta. mas minha insistência em seguir escrevendo enquanto escrevo e a escolha por não voltar ao já escrito antes de enviar talvez possam ser esta declaração de efemeridade, de incerteza; uma celebração (péssima palavra para o momento) do fugaz.

pois nessa suspensão de tudo o vagão segue em movimento assim como a vida;

o que quer que ela signifique agora. ela deveria ser uma unanimidade

mas pensar assim parece cada vez mais… otimismo, esperança, ingenuidade?

o mundo é enorme e a vida nunca vai caber na virtualidade exigida por estes tempos. ainda assim, seguir. tentar. da última vez que fui ao mercado, quando voltava pela rua do meio, uma senhora sorriu para mim da janela. eu retribui, mas a máscara não permitiu que ela notasse.

com a licença de quem se entendeu como um dos tantos vocês possíveis,

e com cariñho,

—

amilton de azevedo

 

* amilton de azevedo é mestre em artes da cena pela Escola Superior de Artes Célia Helena. professor e crítico teatral, criou em 2017 a plataforma ruína acesa.

Foto de Amilton de Azevedo.

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18/04/2020 TAGS: Amilton Azevedo, Ana Luísa Santos, carta, encontro, pandemia, presença, resposta BY: Luciana Romagnolli
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por uma performance queer da ausência

por uma performance queer da ausência

ou como tentar escrever uma crítica de teatro sem ver uma peça (presencialmente)

– por ana luisa santos –

há bastante tempo não testemunho uma peça de teatro. ou pelo menos, uma experiência do que a gente considerava como isso, essa tipologia, de uma situação presencial coletiva de caráter mais nitidamente estético. há algum tempo não experimento esse tipo de circunstância, que até então poderíamos chamar de teatral ou de outras artes da presença, não faço parte desse tipo de experiência ao ponto de perceber um movimento para a escrita, de ser chamada para o diálogo ou outra possibilidade de expansão.

desde o início da quarentena tenho me perguntado como será, a partir de agora, a experiência da presença, principalmente no sentido de testemunho ou fruição compartilhada coletivamente, de uma situação eminentemente artística, ou, pelo menos, denominada desse modo.

as programações, os festivais, as temporadas, já bastante dispersas e esvaziadas pelo momento complexo e bastante desfavorável que atinge a produção artístico-cultural na cidade de belo horizonte e no brasil, as atividades comuns presenciais nesse âmbito estético foram suspensas indefinidamente, assim como as aulas presenciais das escolas e o uso de espaços públicos, como parques, bares, ruas e outros possíveis lugares de encontro.

estamos testemunhando, tentando testemunhar a disponibilização de vídeos de peças teatrais na internet. muitxs artistas, grupos e instituições estão abrindo seus arquivos [1]. e isso é muito interessante, por vários motivos, inclusive porque nos faz pensar nas motivações ou justificativas que faziam com que essas coleções ficassem, anteriormente a esse contexto de quarentena, que esses conteúdos ficassem “fechados” ou restritos em seus acessos. mas a situação é tão triste atualmente e já há algum tempo, que esse tipo de questionamento parece um pouco sem sentido, defasado, quase irrelevante no momento.

estamos testemunhando, estamos tentando testemunhar uma mutação sensório-social sem precedentes recentes e as análises provisórias[2] já estão disponíveis na internet, as primeiras produzidas por filósofxs, jornalistas, psicanalistas, entre outras vozes mais ou menos autorizadas para quem tem interesse de acompanhar a discussão, para além das questões relacionadas mais diretamente com as medidas de saúde, públicas ou privadas.

este texto não tem a pretensão nem o desejo de propor uma análise ou avaliação do momento. este texto, escrito a lápis, no grafite frágil de sua apagabilidade, é mais um exercício, uma tentativa de habitar, com ainda mais radicalidade, o estado de incerteza, de desamparo, de imprevisibilidade.

talvez possa ser interessante imaginar uma cena, uma cena teatral, e até surgiu uma convocatória para dramaturgias de confinamento e eu tentei rascunhar algumas percepções[3]. e é desse lugar processual e inacabado que gostaria de tentar inciar uma partilha.

gostaria também de aproveitar esse espaço compartilhado do horizonte da cena para endereçar algumas cartas, essa forma de escrita, de endereçamento, de intimidade que vem me rondando há algum tempo. e isso quer dizer não só cartas-emails que escrevi e enviei para algumas pessoas, mas também cartas físicas que enviei pelo correio, cartas manuscritas que fotografei e compartilhei por mensagens digitais e outras cartas que tenho redigido desde o início da quarentena.

por isso, talvez seja interessante tentar pensar em uma cena, uma dramaturgia de alguém que escreve uma carta, que escreve uma carta para alguém, alguém que recebe, alguém que recebe essa carta, lê esse texto e, eventualmente, pode respondê-la (em formato de carta ou não).

por isso, tento compor aqui essa cena, essa cena crítica, de alguém que busca pelo outro, que tenta alcançá-lo, sem garantia de resposta, a distância, tentando algum tipo de mobilização. uma mobilização do outro, uma mobilização de outro sentido, sem dúvida, mas principalmente e de antemão, uma mobilização de si, de seus sentimentos, saudades, memórias, desejos, necessidades de encontros e demandas por compartilhar notícias, estados, planos, mudanças e até, quem sabe, um novo endereço. é desse lugar incerto, frágil e aberto, de quem não sabe se vai receber respostas, se haverá respostas, e até mesmo, se haverá alguma leitura desse texto, da carta e em quais condições que redijo, que tento redigir essas linhas.

 

belo horizonte, início de abril de 2020

prezadxs colaboradores, leitores e curiosxs do horizonte da cena,

escrevo banhada por uma luz muito intensa e um céu azul claríssimo que acometem a cidade de belo horizonte nesse começo de outono. o contraste entre esse abundante vetor luminoso e a chegada de uma estação introspectiva, pré-inverno, quase me motiva a buscar os óculos escuros. mas minha condição fotofóbica ainda não superou um desejo maior de perceber esse calor que reflete na pele, apesar da dificuldade de abrir os olhos. então, mesmo chorando por causa da intensa claridade, permaneço com as lentes transparentes dos óculos cotidianos.

penso nessa sua leitura, nessa leitura que podemos compartilhar, como um gesto muito generoso neste momento; um gesto de abertura e curiosidade, apesar do clima tenso, constrangido e triste do contexto atual. desde já, te agradeço por essa delicadeza, por essa gentileza da leitura e registro aqui a devolutiva dessa disponibilidade para conhecer e reconhecer a sua percepção dessas linhas e de outras, inclusive através do e-mail anasantosnovo@hotmail.com e do telefone (31) 99471-7099.

seguindo, tentando seguir nessa narrativa não linear, confusa e, por vezes, desarticulada, poderia tentar enumerar as tarefas que têm me ocupado no momento. não teria muito mais para compartilhar com você do que esses gestos cada vez mais cotidianos, já que do ponto de vista das elaborações mais profundas e esgarçadas no tempo, não tenho conseguido avançar muito. o tempo está radicalmente suspenso, em sua percepção, e qualquer flecha, plano ou perspectiva parecem, simultaneamente, muito próximos e/ou muito longínquos. é como se eu habitasse um transporte, um veículo do qual não posso sair, cujo destino eu desconheço. então minha experiência imediata está muito próxima do espaço desse vagão (grande vaga), de alguns objetos, tecnologias, livros que eu trouxe comigo, alguns outros habitantes dessa viagem e uma certa paisagem que, de vez em quando, aparece na janela, uma tela, que às vezes se acende mesmo no meio da noite, dessa escuridão por onde essa jornada tenta avançar, não somente no sentido positivo ou imediato de chegar, mas principalmente, de atravessar.

(d)nesse lugar, (d)nesse estado, tenho buscado criar atividades, reinventar algumas tarefas, diante de um outro tipo de limitação. limitação não só de espaço, imaginação ou encontro, já que as condições de convívio estão reduzidas a partir das próprias características desse tipo de mobilidade. e como estamos em movimento, o sinal oscila muito e a internet não é sempre boa e, às vezes, muitas vezes, ficamos isolados, com nós mesmos no meio do trânsito.

o primeiro gesto que me vem à cabeça, mas principalmente à mão, ao braço, às vísceras que remexem a partir do que escrevo, às glândulas sudoríparas que disparam ações de expectativa das descobertas que essas letras suadas podem trazer, esse primeiro ou múltiplo gesto é essa carta, esse pequeno texto manucrito, mas que devo digitalizar de alguma maneira para que ele possa chegar até você.

essa tem se tornado uma tarefa primordial, junto a outras necessidades vitais como comer, dormir, fazer tricô, tocar instrumentos musicais, fazer colagens e outros tipos de terapias ocupacionais. tenho tentado também fazer algumas ligações, inclusive para amizades mais próximas, pelo menos, afetivamente. outras ligações começam a ficar disponíveis também, com o decorrer das horas. é bom ver/ouvir as pessoas amigas, mesmo que seja por uma tela. continua crescendo em mim esse desejo de encontro, que já há bastante tempo era ou é de um tipo de intensidade na minha experiência do sensível, que diante do contexto imediato e imediatamente anterior chegou a afetar minha sanidade mental. e eu cheguei a iniciar e persisto em uma investigação profunda sobre esse processo, essa inadequação pegajosa que eu carregava, que eu carrego, de não me consolar com mensagens, postagens e outras formas de manifestações em redes digitais como alguma possibilidade ou uma possibilidade interessante de tradução de presença.

outra tarefa, bastante interessante, tem sido lembrar dos últimos encontros presenciais dos quais participei, individual ou coletivamente. e me recordo, com humor, certa ironia e doçura, da última reunião do horizonte da cena, em um bar de calçada na rua guajajaras, no centro de belo horizonte, em uma manhã solar de sábado. foi quando depois de pedir algumas cervejas e fumar alguns cigarros, busquei um tira-gosto com torresmo e luciana romagnolli, paranaense, em sua bem-vinda observação estrangeira da mineiridade, reparou a minha capacidade não só de comer, mas de propor aquele tipo de alimentação àquela hora da manhã. eu ainda disse, respondendo à benigna provocação que, para mim, aquela situação de me encontrar com pessoas que eu admiro no sábado pela manhã e ter a chance de conversar sobre algumas questões muito profundas era sempre extraordinária e eu me propunha, com o apetite poético-hipo-glicêmico que me acompanha, a brindar o encontro e compartilhar um prazer etílico e, para quem gosta de torresmo, gastronômico também.

no mais, às vezes eu choro. eu me pergunto como fazem, como farão xs amantes. eu tento imaginar um outro cenário, mas, por enquanto, eu não consigo. Daí eu vou ouvir uma música, tentar cantarolar uma melodia mais ou menos conhecida e, de alguma forma, tentar preservar a ideia de contágio do significado terrivelmente negativo que parece impregnar o momento e o corpo.

fico por aqui (!) manifestando meus melhores votos pelo seu bem-estar e tranquilidade, apesar, sempre apesar, de tantas dificuldades. agora é, quem sabe, sua vez de complementar a cena e, quem sabe, me contar, num próximo ou distante contato, como foi essa leitura, a recepção dessas linhas, as características do envelope, se você gostou dos selos que eu escolhi e se demorou muito para chegar.

com carinho,

da sua,

als

 

p.s.: entre xs muitxs passageirxs dessa viagem, tenho tentado reparar especialmente naquilo que pede passagem, que pede passagem como a vida. por onde posso constituir novas vias para fomentar esse tipo de movimento. estou às voltas com a descoberta de uma outra prática de alongamento poético-presencial, dadas as restrições momentâneas, mas ainda não sei como prolongar a energia e ativar a musculatura sem o incentivo, a provocação e a textura do toque, da pele, do cheiro, da diferença e da temperatura do outro. tenho medo de sentir muita falta do seu abraço e ficar muito triste por causa disso. daí preciso te contar que tenho apertado os gatos para além do normal costumeiro. e estou tentando criar uma performance a partir da gravidade (da situação, da física), tentando colocar, tentando empilhar, tentando ressignificar uma escultura de objetos diversos acumulados em cima de mim, em cima do que experimento como corpo. ainda não sei onde isso vai dar.

[1]

Madame Satã – Grupo dos Dez / João das Neves (MG)

Homem Vazio na Selva da Cidade – Zap 18 (MG)
senha: homemvazio

1961-2009 – Zap 18 (MG)

O Gol Não Valeu! – Zap 18 (MG)

Happy Hour – Moyombe (MG)

De Tempo Somos – Grupo Galpão (MG)

Romeu e Julieta – Grupo Galpão (MG)

À Tardinha no Ocidente – Primeira Campainha (MG)

Medeiazonamorta – Teatro Invertido (MG)

Alice – Pierrot Lunar (MG)

Urgente – Cia. Luna Lunera (MG)

Outro lado – Quatroloscinco (MG)

Ensaio para Senhora Azul (MG)

PassAarão – Grupo Espanca! (MG)

Real – Grupo Espanca! (MG)

Por Elise – Grupo Espanca! (MG)

Laio & Crisipo – Aquela Cia. (RJ)
senha: aquelacia

Irmãos de Sangue – Dos à Deux (RJ/FR)

Fragmentos – Dos à Deux (RJ/FR)

Saudades em Terra d’Água – Dos à Deux (RJ/FR)

Viúva porém Honesta – Magiluth (PE)

Sua Incelença, Ricardo Terceiro – Clowns de Shakespeare (RN)

Santa Cruz do Não Sei – Arkhétypos (RN)

180 dias de inverno – Coletivo Binário (SP)

Vendedor de Verdades – Cia. Canina de Teatro de Rua e Sem Dono (SP)

Hysteria – Grupo XIX (SP)

Os Sertões – Teatro Oficina (SP)

O Amargo Santo da Purificação – Ói Nóis Aqui Traveiz (RS)

A Missão: Lembrança da uma Revolução – Ói Nóis Aqui Traveiz (RS)

Helenas – Teatro Alfenim (PB)

Missa dos Quilombos – Cia. Ensaio Aberto (RJ)

A mãe – Cia. Ensaio Aberto (RJ). Parte 1, parte 2 e parte 3.

Show Opinião, o golpe 50 anos depois – Cia. Ensaio Aberto (RJ)

Mire veja – Cia. do Feijão (SP)
Manuela – Cia. do Feijão (SP)

Entre o Céu e a Terra – Cia. do Latão (SP). Parte 1 e  parte 2.

Valor de Troca – Cia. do Latão (SP)

Ópera dos Vivos – Cia. do Latão (SP)
Ato 1, parte 1. Ato 1, parte 2. Ato 1, parte 3.
Ato 2, parte 1. Ato 2, parte 2.
Ato 3, parte 1. Ato 3, parte 2.
Ato 4, parte 1. Ato 4, parte 2.

Equívocos colecionados – Cia. do Latão (SP). Parte 1 e parte 2.

Quarentena Festival

 

[2] para conhecer algumas dessas análises iniciais, seguem links:

Zizek

De Masi

Byung-chul Han

Eliane Brum

Chomsky

Judith Butler

Flávia Andrade Almeida

Paul Preciado

Achile Mbembe

giorgio agamben

jean-luc nancy

alain badiou

maria galindo

patricia manrique 

waleska oliveira

diana junkes

indigenous action media

Bruno Latour

 

[3]   para conhecer o exercício, link do texto publicado no blog um depois ainda sem nome.

 

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13/04/2020 TAGS: carta, pandemia, preseça, teatro filmado BY: Luciana Romagnolli
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Desmontar a ampulheta e recriar as areias do tempo | MITsp

Desmontar a ampulheta e recriar as areias do tempo  | MITsp

_ por Guilherme Diniz _

Crítica escrita a partir da peça O que fazer daqui para trás, de João Fiadeiro (Portugal), vista na MITsp 2020

O que fazer daqui para trás, do português (nascido em Paris) João Fiadeiro, investiga as noções de tempo, performando possibilidades inumeráveis de conceber e explorar a dimensão temporal em suas mais distintas significações, dinamitando a ideia de um tempo único e universal.Segundo o pensador Boaventura de Sousa Santos, uma das invenções mais perversas da chamada modernidade ocidental seria a destruição das temporalidades múltiplas em detrimento de uma razão temporal linear e unívoca que impossibilita os sujeitos de ampliarem suas percepções de mundo, bem como inviabiliza a experiência diversa dos vários tempos possíveis.Não há em cena uma dissertação ou explicação dogmática sobre o tempo, mas ensaios, rascunhos, esboços de reflexões e dinâmicas cênicas que não somente tateiam maneiras de pensar o tempo, mas também imaginam outras gramáticas sobre ele; isto é, outras formas de articular a relação do tempo com os seres e o espaço.

A configuração cênica se sustenta por meio de um dispositivo que se repete durante todo o espetáculo: um performer surge correndo dos fundos do palco totalmente despojado de objetos cênicos e compartilha um ponto de vista, uma dúvida ou um desejo com a plateia, acerca da vida, do tempo e suas relações. Há um solitário microfone posicionado no pedestal que amplifica as elocuções dos cinco performers, que abandonam rapidamente o palco assim que o próximo atuante reaparece acelerado. Entre um e outro performer, estão os intervalos irregulares, surpreendentes, sem uma ordem fixa no revezamento dos artistas cênicos. Em seu desenvolvimento, esse dispositivo cênico sofre constantes e imprevistas alterações, conferindo sentidos novos à repetição.

A encenação de João Fiadeiro acentua gradualmente notas de comicidade a partir do insólito, da livre associação de ideias e imagens e das urgências dos performers, liberando um riso cúmplice entre atuantes de público.

O que fazer daqui para trás delineia uma coreografia da exaustão, na qual a respiração descompassada, o suor e o esgotamento físico acentuam a crueza da corporeidade do performer em ação no tempo e no espaço, sem subterfúgios. A exaustão é um estado real que imprime outras formas de enunciação do texto, preenchendo as falas de vazios, respiros e suspiros, derivados de um cansaço esteticamente elaborado. A peça movimenta-se como um verdadeiro jogo; estado lúdico de disponibilidade, abertura para o inusitado, disposição para lidar com o insólito e o imprevisto, na trilha mesmo do pensamento da pedagoga teatral Viola Spolin, quando diz que “ninguém conhece o resultado de um jogo até que se jogue”. As certezas são demovidas, gerando um fluxo que prima pelo risco.

O próprio processo de construção da peça, por meio do sistema intitulado Composição em Tempo Real, desenvolvido por João Fiadeiro (que é, a propósito, o Pedagogo em Foco da MITsp), visa instaurar nos performers um estado criativo capaz de criar e organizar plasticamente as cenas no aqui-agora, assumindo os riscos, as precariedades e as incertezas do tempo presente, em toda sua potencialidade.

Em termos espaciais, O que fazer daqui para trás expõe a ossatura do palco, revelando as varas de iluminação, refletores e as dependências internas do teatro Cacilda Becker, como se a carnadura do espaço se constituísse também como um elemento performático a exibir suas formas que possibilitam os desenhos, as movimentações basilares deste espetáculo. As gradações da luz são orquestradas em uma dinâmica altamente sutil, criando delicadamente sombreamentos e luminosidades que percorrem toda a área de jogo, afirmando-se pelo vagar de suas transformações, em contraposição às urgências dos cinco performers.

O que fazer daqui para trás é, portanto, uma verdadeira ode ao encontro.

Veja o trailer.

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10/03/2020 TAGS: Dança, João Fiadeiro, MITsp, Portugal BY: Luciana Romagnolli
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Corpos em combustão | MITsp

Corpos em combustão | MITsp

_ Clóvis Domingos _

Crítica escrita a partir da peça Crowd, de Gisèle Vienne (França), vista na MITsp 2020

Multidão (Crowd), peça da artista franco-austríaca Gisèle Vienne, que abriu a 7ª MITsp no Auditório do Ibirapuera, é um trabalho hipnótico e instigante, que propõe aos espectadores uma série de jogos de percepção pela subversão do real. O palco, que aos poucos será tomado pela presença e estranha agitação corporal de um grupo de 15 jovens, encontra-se no início do espetáculo timidamente iluminado, feito uma planície abandonada e forrada apenas de terra e garrafas plásticas. Numa dimensão fantasmagórica, há algo de insólito que se prenuncia a cada aparição dos bailarinos ao adentrar esse espaço trazendo consigo suas bebidas para a realização de uma festa techno.

Esse evento festivo é marcado pela estilização dos movimentos dos dançarinos que ocorre por lentidões, acelerações, fragmentações, repetições, dispersões, composições e contraposições entre gestos e trilha sonora. Como se fossem marionetes, os corpos reagem conforme os estímulos sonoros propostos e, por vezes, os desobedecem através de pausas incisivas, o que causa significativas interrupções. Nessa deformação, tempo e espaço se alteram e podem ganhar mais densidade. Como espectadores vivenciamos a duração de uma festa com seus momentos de pico e euforia alternados com cansaço e repouso. Há também algumas partes nas quais os atuantes congelam como se transformassem em esculturas para que alguma outra singularidade pudesse assim se manifestar e, dessa forma, contrastar com a imobilidade conjunta estabelecida.

O mecanismo escolhido pela encenadora parece priorizar a irrupção de um certo estranhamento e incômodo destinados aos espectadores, ao mesmo tempo que os convida a se inserir numa outra dinâmica na qual eles possam completar as ações que ficaram suspensas.

Nesse espetáculo, a festa rave se configura como uma espécie de efervescência coletiva que oscila entre prazer, sensualidade, violência e êxtase espiritual numa dança sempre contínua e que parece não ter fim. Apresentado a partir de tableaux vivants (quadros vivos), o trabalho provoca deslizamentos perceptivos, isto é, ora invade nossos sentidos, ora abre possibilidades de criação e produção de imagens simbólicas potentes. Seria Multidão (Crowd) um trabalho para se experienciar e se deixar afetar de diferentes modos ou haveria algo ali a ser decodificado? Ou seriam as duas coisas?

A coreografia desse ritual festivo pagão segue um rigoroso desenho em sua execução, como uma tela que vai sendo pintada minuciosamente ao vivo, e que nos convoca pelas batidas das músicas eletrônicas e a celebração efusiva dos corpos. O largo tempo destinado a contemplar o que se passava em cena de alguma maneira me aproximava e distanciava dali, abrindo vazios num movimento de vaivém. Impossível ficar imune a esse contágio.

Um ponto a ser destacado nesse espetáculo é sua capacidade de abstração e com ela a liberdade de se poder construir diferentes narrativas, isso num momento no qual nosso teatro tem primado pelo discurso direto como forma de arte política. Mas a possibilidade oferecida por esse trabalho de se conviver com as imagens em aberto e de se dar tempo para ouvi-las e elaborá-las, de acordo com sua vontade, não seria uma política da imaginação?

Ainda que em alguns momentos a nossa atenção possa se prender a algum bailarino específico, a pulsação coletiva parece ser a tônica mais forte, daí podemos pensar na ideia de uma multidão, isto é, a ausência de um rosto ou subjetividade. Para mim seriam forças em ebulição, formas anônimas animadas que explodiriam em desejos por conexões efêmeras. Corpos em combustão, lentidão e relação. Uma multidão capaz de mobilizar afetos, garantir participações e renovar energias a partir de um vetor em comum.

Com esse espetáculo é possível também pensar a festa como dispêndio e gesto de resistência numa sociedade pautada pela excessiva produção, pela lógica do consumo e da utilidade. Na contramão disso tudo, em seu aspecto lúdico e agonístico, a festa prezaria pelo ócio, pela alegria e pelo sacrifício. Aqui se ganha pela perda. Seria a festa hoje uma necessidade vital para as sociedades contemporâneas deprimidas por tanto esforço, cansaço e exploração? E se os DJs pudessem ser considerados como os novos xamãs a nos seduzirem com seus mantras eletrônicos? Para muitos de nós, diferente de um instrumento de alienação, a festa se revela como uma busca nostálgica e ancestral de uma experiência num tempo mítico e numa vida tribal.

Em Multidão (Crowd), esse horizonte parece estar não apenas apontado, mas corporificado. Nessa dança pictórica, os corpos ardem e queimam. Mas será que ainda que dancem juntos, se beijem, se enfrentem, estabeleçam aproximações e afastamentos, esses jovens de fato se reúnem? Na rave, ainda que todos estejam juntos, cada um parece dançar do seu jeito, e o que embala, talvez, seja a solidão.

Veja o trailer.

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10/03/2020 TAGS: Dança, França, Gisele Vienne, MITsp BY: Luciana Romagnolli
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Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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