por Bramma Bremmer
Crítica escrita a partir do espetáculo Peça única, do coletivo House of Hands Up (MS), apresentado no Sesc Santa Luzia, como parte da programação do Palco Giratório 2026
Foto: Pablo Pacheco
O espetáculo Peça única, do coletivo House of Hands Up do Mato Grosso do Sul, mostrou-se bastante interessante por expandir o sentido do projeto Palco Giratório. Como pesquisadora da teoria queer e integrante da Plataforma Beijo, ao lado das artistas Will Soares, Igui Leal e Yunni Anumaréh e diverses convidades, destaco a escolha da curadoria em cu-rar um espetáculo focado na linguagem do vogue e na cultura das balls, das houses e das festas desse universo para esse recorte da circulação. Trata-se de um trabalho e de uma pesquisa que ampliaram as possibilidades da cena e noções de arte e estética LGBTQIAPN+.
O trabalho se apresenta como um espetáculo de dança na programação e, evidentemente, possui uma forte presença coreográfica. Os movimentos e a dança são executados com bastante precisão. Torna-se instigante acompanhar a dramaturgia que se constrói a partir dos números e das cenas, evocando as categorias típicas das batalhas de vogue: a caminhada, o desfile, a face (o “carão”) e a dublagem. Esta última destaca-se por borrar a dublagem tradicional de uma canção ao flertar com uma perspectiva mais teatral na dramaturgia.
Trata-se de uma sequência de performances expressivas, em que os figurinos, os looks e as trocas em cena ganham relevância. A presença de um coletivo numeroso de performers compõe uma estrutura coreográfica que projeta a ideia de uma família em cena — uma entrega coletiva em que todes se mostram presentes e conectades. A inserção da obra no Palco Giratório, com apresentação no Sesc Santa Luzia (na Região Metropolitana de Belo Horizonte), favoreceu a formação de público e o contato com artistas trans e negres vindes de outra região do país. A circulação expande a experiência da plateia e promove o diálogo com diferentes perfis de público.
Como apontado no debate após a apresentação, evocam-se reflexões sobre como os elementos latino-americanos, brasileiros e locais do Mato Grosso do Sul atravessam essa pesquisa. A cultura vogue, originada na cena preta e trans estadunidense, se reconfigura ao ser vivenciada no contexto da América Latina, incorporando outras transgeneridades, travestilidades e manifestações da cultura bicha e queer.
Foto: Pablo Pacheco
Em Peça única, o coletivo House of Hands Up (MS) expande os limites da dança ao articular visceralmente a linguagem do vogue e a cultura das ballrooms. A obra se constrói a partir de uma rigorosa precisão coreográfica e de uma dramaturgia que estabelece um diálogo sutil e potente entre a cena performática, a festa, o show, o desfile de moda e o teatro. Tudo isso atravessado pelas vivências locais que recriam e ressignificam a cultura vogue estrangeira sob a incontornável perspectiva latino-americana.
Mais do que uma demonstração de virtuosismo, dado o apuro estético dos figurinos e a dinamicidade das trocas em cena, o espetáculo materializa no palco a dimensão coletiva de uma família conectada, imagem tão cara e sensível para corpas LGBTQIAPN+ e as multidões cuír. A presença das múltiplas performers, além de afirmar a força de artistas trans e negres de distintas regiões do país, reafirma o papel fundamental do trabalho para a formação de público e a ampliação dessa visibilidade.
É nessa dinâmica que reside o sentido mais profundo da obra: os elementos técnicos e estéticos do vogue, os movimentos precisos, os fechamentos, as aberturas de corpo e os “carões” deixam de ser apenas passos de dança e acabam por fundar um espaço de acolhimento e pertencimento. Ao tensionar as categorias típicas das balls, o grupo articula uma narrativa cênica e materializa no corpo a própria noção de house como uma família escolhida, que se afirma política e afetuosamente.
Foto: Pablo Pacheco
Bramma Bremmer é artista de Belo Horizonte, transitando entre o teatro, o cinema e a literatura. Desde 2016 é cocriadora e atriz em diferentes projetos da Plataforma Beijo, entre eles os espetáculos Projeto Maravilhas, Encanto dos Insetos e Fazer Festa com o Perigo, além da mostra Quarta Kuir. É coordenadora de comunicação do Centro Cultural Galpão Cine Horto desde 2022 e já atuou em diferentes curtas e longas-metragens no audiovisual brasileiro. Participou como crítica teatral em mostras e festivais na cena mineira, e atualmente é também curadora e coordenadora geral do Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.
FICHA TÉCNICA
Coreografia e Direção: Roger Pacheco
Direção Artística e Dramaturgia: Marcos Mattos
Operação de luz : Breno Lucas
Figurino: Roger Pacheco
Confecção dos Figurinos: Fernando Frateliê – Ateliê de Costura
Intérpretes: Tarso Aguillera, Flávio dos Santos, Gabriela Benitez, Yara Maria, Daniel de Andrade, Hednilthon Moraes, Greydson Clink, Johnny Mike, Roger Pacheco.
Paratexto: Febraro de Oliveira




