Crítica escrita a partir do espetáculo Corpos Tambor, do Coletivo Croa (PA), apresentado no dia 22 de agosto, no Sesc Santa Luizia
Por Guilherme Diniz
Foto: Ana Ribeiro
A princípio, Corpos de Tambor, espetáculo do Coletivo Croa (PA), pode ser visto como uma vigorosa investigação do movimento. A sua composição articula princípios performativos e elementos gestuais advindos de distintas tradições culturais negras, do lundu ao breaking, do carimbó ao dancehall. Assim, mais que expor, isoladamente, as linhas e formas de cada expressão, o trabalho entretece interlocuções rítmicas entre elas, perfazendo dinâmicas transições por entre um vasto gradiente de tônus, tempos e desenhos corporais.
Na base, porém, de toda a engenharia coreográfica, há um estudo acerca das inesgotáveis relações entre o corpo e a percussão, a fisicalidade e a sonoridade. Uma das imagens iniciais do espetáculo parece-me sintetizar os fundamentos de sua concepção artístico-cultural. O quadro forma, por assim dizer, um díptico: de um lado, um homem carrega um outro às costas, em um ato de cuidado e estima. Do outro, um rapaz, em atitude similar, transporta um tambor, demonstrando igual afeição. A cena explicita sobretudo o íntimo diálogo entre o humano e o instrumento – signo aqui central pela sua espessura sonora e pela sua irradiação espiritual.
Muniz Sodré, com o calor de sua inteligência, nos diz que, em muitas culturas negras, música e dança constituem-se em uma relação de profunda interdependência: os movimentos corporais participam da elaboração da forma musical, enquanto a dança se projeta como expressão visual da música. Pois é exatamente este o grande fundamento da encenação paraense. Os toques dos tambores e o traçado dos movimentos são indivisíveis. As ressonâncias da percussão afetam os estados corporais, suas velocidades, suas respostas, suas posturas. O virtuosismo físico, manifesto em saltos e rodopios executados com flexibilidade e vigor, corresponde à vívida linguagem dos tambores cujas batidas variam entre intensidades fortes e suaves.
A montagem situa os tambores, em suas distintas feições, como um dos principais elos estético-culturais entre manifestações artísticas tão diversas no tempo e no espaço. Tudo no palco do Coletivo Croa parece pulsar. No maculelê estilizado, as batidas dos pés entrelaçam-se aos choques agudos entre os bastões de madeira. Agilidade e força são aqui duas faces da mesma moeda. Nos passos do breaking, as acrobacias e os giros de ponta-cabeça esculpem um bailado em que os artistas espelham as gestualidades uns dos outros. Entrecortando tudo está o tambor, seja ele em sua acepção mais clássica, seja ele em seus contornos mais eletrônicos.
Uma densa ambiência ritualística permeia todo o trabalho. Ninguém se aproxima do curimbó, por exemplo, como se este fosse um material qualquer. Há respeito e carinho ao manusear os tambores, pois de suas potências sonoro-musicais emana a energia vital que anima as dimensões sagradas do espetáculo e evoca a simbologia de certas manifestações e entidades. Em diferentes momentos, o tambor ocupa o centro simbólico e geográfico da cena, atuando como um núcleo energético em torno do qual os corpos gravitam. A exímia instrumentista Loba Rodrigues, também responsável pela direção musical do espetáculo, estabelece um vínculo cuidadoso, técnico e íntimo com as percussões. Numa das cenas, a ênfase recai na palma de sua mão, que lentamente se movimenta, depois passeia pela pele do tambor e, logo em seguida, volta a tocá-lo com fôlego. A sua atitude encarna bem a lição daquele que foi um dos nossos maiores percussionistas, Naná Vasconcelos, quando este disse: “não bata no instrumento, toque”.
Foto: Ana Ribeiro
No bate-papo após a apresentação, o diretor artístico Renan Rosário salientou que uma parte expressiva da obra é integrada por partituras improvisadas, em que os corpos dançantes criam no aqui-agora, movidos por seus cabedais artísticos e por seus desejos criativos. É perceptível a fluida troca de olhares entre os e as artistas. Cada mirada exprime intenções ao passo que estabelece o possante jogo de cumplicidades imprescindíveis para os voos improvisacionais. Uma calorosa parceria subjaz ao modo como todos se apoiam, se estimulam e se enaltecem mutuamente. Com frequência, transparecem nos gritos e nas expressões faciais a surpresa com o desempenho do outro e o prazer com o próprio corpo em movimento.
Como se vê, Corpos de Tambor ostenta inequívoca fartura sonora, coreográfica e ritual. Aí estão, pensamos nós, seus pontos altos e algumas fragilidades. A direção de Rosário aproveita e valoriza todos os elementos de que dispõe. Entretanto, essa abundância, por vezes, sobrecarrega a composição e torna menos preciso o delineamento global do espetáculo. As passagens improvisadas, por exemplo, exibem qualidades de movimento bem elaboradas, embora resvalem em certa previsibilidade ao reservarem necessariamente um solo para cada bailarino. Em outras palavras, enquanto as cenas, tomadas isoladamente, são instigantes, a dramaturgia da montagem — isto é, a estruturação do todo, a ordem dos momentos, a sequência e a disposição das partes — afigura-se ligeiramente menos inventiva. Já na parte final, Darciana Martins evoca, com expressividade cênica, as vibrações de Pomba Gira, estabelecendo um provocativo diálogo com o público. O trecho possui força própria, mas não chega a aprofundar ou expandir as investigações basilares do trabalho, isto é, as relações entre corporeidade e percussão.
Corpos de Tambor foi apresentado em um amplo pátio do Sesc Santa Luzia, capaz de acomodar confortavelmente o público que prestigiou o espetáculo. Contudo, o espaço não foi de todo favorável ao desenho de luz concebido por Natasha K. Leite. Sem a possibilidade de um blecaute total, a iluminação nem sempre conseguia instaurar as atmosferas oníricas e místicas tão importantes para o clima geral da coreografia.
Os pontos menos altos levantados acima não chegam a deslustrar a beleza de um trabalho fundamentalmente solar, no qual vemos corpos jubilosos em potência criativa. A criação deste coletivo afro-amazônico nos faz lembrar a conhecida história dos Ibejis, os gêmeos pretinhos e engenhosos que, com a música encantada de seu tambor, fizeram a própria Morte dançar até se render. É dessa matéria que Corpos de Tambor é feito: percussões alegres que saúdam o movimento e a vida.
FICHA TÉCNICA
Concepção e direção: Renan Rosário
Encenação: Darciana Martins
Direção musical: Loba Rodrigues
Artistas criadores: Manoel Junior, Ismael Rodrigues, Flavio Moraes, Loba Rodrigues, Darciana Martins e Renan Rosário
Fotografia e sonoplastia: Ana Ribeiro
Desenho de luz: Natasha K. Leite


