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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

críticas

Trabalho do corpo, trabalho dos sentidos

Trabalho do corpo, trabalho dos sentidos

– por Victor Guimarães –

Crítica a partir do espetáculo Violento., de Preto Amparo (MG)

Trabalha, trabalha dentro de mim, grito armado do
meu povo; trabalha em mim
e espezinha, espezinha-me.
Quero que me estale o coração.
Quero que as veias me rebentem.
Quero que os meus ossos ranjam na meia-noite
da carne.

Aimé Césaire

Enquanto esperamos pelo início da peça, ouvimos um ruído. Surge no espaço tornado cena um rapaz negro, magro, de moletom e capuz, puxando por um barbante uma miniatura de carro de polícia enquanto um solo de berimbau insiste sob o blusão. Ele caminha por entre os espectadores, em silêncio altivo, esquadrinha os rostos, se detém em alguns. A cena instala o território dramático de Violento.: este será um espetáculo-performance, uma série ritmada de atos que trabalham sobre uma superfície de signos mais ou menos reconhecíveis – tanto os que reenviam à ancestralidade negra quanto a certo repertório contemporâneo de imagens da violência – para rasurá-los, perfurá-los, incendiá-los por dentro.

Dois vetores são inseparáveis: o trabalho sofisticado sobre os sentidos que partilhamos em comunidade e o aspecto brusco, irrepetível, da produção de uma forma singular de acontecimento e de convívio. Para fazer com que o signo adentre uma outra cadeia de sentidos é preciso primeiro ir até a raiz, despi-lo até o osso, transformá-lo em coisa concreta e material. Essa radicalidade se imprime na cena seguinte. Já dentro da sala convencional em formato de arena, presenciamos uma prática da disposição: Preto Amparo repousa o carrinho da polícia num canto, no outro há um saco de pipocas, no centro do palco há um balde d’água com um ramalhete de rosas vermelhas, que logo serão retiradas e colocadas no chão, à frente.

Cada elemento é ao mesmo tempo objeto e trabalho (e o vocábulo aqui não é fortuito): coisa significante e trabalho do sentido, superfície concreta e receptáculo do investimento imaginário (do performer, mas também do espectador). O desenho de luz recorta o espaço, destaca os elementos que pontuarão todo o espetáculo: como num tabuleiro, eis as coisas-signos, e é com elas que vamos jogar. Falta uma: enquanto dança, o ator toma um saco de terra e começa a dispô-la no chão, lenta e cuidadosamente, como alguém que semeia embalado por um canto de trabalho ou que prepara o terreno para o ritual de logo mais.

Foto: Pablo Bernardo

A noção de cenário aqui é capenga: um a um, todos os elementos dispostos serão não apenas partícipes da cena, mas propulsores dos acontecimentos cênicos. No limite, não há décor. No encontro das práticas religiosas de matriz africana com o teatro de vanguarda, o que há é um drama próprio dos objetos, um investimento radical na potência significante das coisas, mobilizadas por alguém que as faz existir para além da imobilidade. Depois de dispor os objetos, é hora de despir-se. Eis, aqui, um corpo: a evidência inescapável de um corpo negro, que reflete ou absorve luz, que emite som e suor, que age, sofre, padece, que desafia, que vive nesse ínterim em que estamos em sua presença.

É então que Violento. impõe à escrita um desafio estimulante: qualquer descrição desapaixonada dos atos de Preto Amparo durante os quarenta minutos do espetáculo pode sugerir um efeitismo banal. São gestos tão frontais, concisos e incisivos que beiram a anulação completa do poder de evocação do teatro. No entanto, não poderíamos estar mais distantes da cartada retórica. Como em Rolezinho – Nome Provisório, a cena curta dirigida por Alexandre de Sena que presenciei no Festival de Cenas Curtas em 2015, é preciso que o gesto fulminante (naquele caso, uma multidão crescente de pessoas negras que ocupam um palco e gritam em uníssono) se transforme em acontecimento no espaço e no tempo, que o sentido ganhe corpo e cor e som, que a duração se instale e permaneça, pois só assim é possível transformar um teatro em qualquer coisa menos um teatro, a escuta de um grito em qualquer coisa menos a escuta de um grito, um aplauso em qualquer coisa menos um aplauso.

Rolezinho – Nome Provisório, Galpão Cine Horto, 27/09/2015, foto de Dila Puccini

Quando as luzes se apagam e Preto Amparo desaparece na escuridão enquanto a sirene do carrinho de polícia rouba a cena, já é possível intuir que o brinquedo será atacado, mas nada nos prepara para a martelada certeira, sonora e implacável que dilacera a coisa-fetiche em mil pedaços num milésimo de segundo – ou para o silêncio denso que vem depois. A violência do golpe materializa o peso da história coletiva – a mão que martela não revida sozinha, há um sangue comum que corre por baixo daquelas veias – e se afirma enquanto ato, com uma sonoridade própria, uma duração singular. O golpe no sentido comum (o silenciamento instantâneo da sonoridade infernal da sirene centenária, o dilaceramento em mil caquinhos de plástico que se esparramam pelo chão) é também um golpe nos sentidos de cada espectador e espectadora presente.

Do mesmo modo, o balde d’água que começa recoberto por uma semântica da iniciação – como versa a primeira intervenção verbal do espetáculo – logo se transformará em instrumento de tortura, numa ambivalência crucial, mas tão importante quanto a elasticidade do sentido é o engajamento integral do corpo, o mergulho decidido para o autoafogamento e os sufocantes segundos em que a cabeça de Amparo permanece ali. A água da tortura se transformará ainda em banho, o sabão percorrerá a pele cheia de terra e, a cada esfrega, sentido e corporeidade se enlaçam, se afirmam, indissociáveis.

 

Foto: Pablo Bernardo

A dimensão umbilical da performance faz com que seja inimaginável outro ator ali, naquele papel, realizando os mesmos atos, mas se é verdade que o corpo de Preto Amparo, em sua presença com forte caráter de acontecimento, centraliza os atos e as atenções, há também toda uma tapeçaria de outras vozes que incidem na cena e compõem o espetáculo. A polifonia de referências – via trilha sonora e projeções – cobre um espectro amplo de repertórios, da música religiosa de Adão Dãxalebaradã às teorias revolucionárias de Frantz Fanon intermediadas pelo cinema de Aloysio Raulino. Como no rap de Douglas Din (cuja postura de interlocução de preto para preto associada à combatividade irreconciliada é um mote para o espetáculo), trata-se de convocar esses “outros bastas”, trazê-los à baila, forjar com eles uma rede intertextual que se comunique com outras lutas e intensifique a cena.

 

O Tigre e a Gazela (Aloysio Raulino, 1976)

No jogo com as referências, as citações ao filme-ensaio O Tigre e a Gazela são particularmente inventivas. Na obra-prima de Aloysio Raulino (um intrincado jogo entre palavras, sons e imagens que articula sequências forjadas no encontro com pessoas negras na rua e citações musicais e literárias de autores como Frantz Fanon, Aimé Césaire, Luiz Melodia, Lima Barreto, Joseph Haydn e Milton Nascimento), o plano de uma mulher cantando na rua ganha uma significação dialética. Na primeira das aparições, uma cartela fanoniana que denuncia a perversão do colonialismo (ao se orientar também ao passado do povo oprimido) precede o canto conciliatório, que diz: “Quando a Princesa Isabel / deu liberdade à cor / todo negro pode ser senhor / deputado, senador / não há mais preconceito de cor”. No entanto, próximo ao fim do filme, o que parecia uma confirmação contemporânea da perversidade colonial recebe uma puxada de tapete, pois a mulher agora reaparece em chave revolucionária, surrupia o canto do poder (o Hino da Independência), se enche de raiva na voz e confere uma expressividade ímpar aos versos “Brava gente brasileira / longe vá temor servil”. Em Violento., os dois planos aparecem condensados e sem a intervenção das cartelas, o que intensifica a operação dialética de Raulino ao mesmo tempo em que abre a citação para novos sentidos, ao samplear – via repetição – o verbo “morrer” presente no hino final.

No jogo com as citações, nas imagens que reenviam à cultura afro-brasileira, na textualidade complexa do espetáculo, Violento. enseja uma comunicação que assume uma perspectiva, visa uma interlocução fortemente negra, para a qual a exclusão radical da branquitude é fundamental. A combatividade do gesto é a mesma de Douglas Din: “E o que levarem de você, reclame com a Coroa Portuguesa”. Já próximo ao final, a cena mais impressionante: Amparo recolhe as rosas vermelhas e se dirige lentamente à plateia. A presença das flores, que parecia incoerente com a dicção combativa do espetáculo, adquire um sentido novo, rechaça inteiramente a expectativa da catarse conciliatória que o gesto de entregar uma rosa prometia. O ator inquire os rostos, olha com firmeza e carinho, entrega a primeira flor. Na segunda, percebo o jogo: só as pessoas negras presentes na plateia é que receberão as rosas, uma a uma. Tudo me escapa nessa comunicação silenciosa e intensa entre os olhares do ator e os das espectadoras e espectadores negros, mas entrevejo os sorrisos, adivinho a cumplicidade ensejada pelo gesto, imagino por um momento o que pode significar essa escolha.

Foto: Pablo Bernardo

Ao espectador branco, como eu, resta essa atestação instantaneamente incômoda, mas logo de um conforto perverso, obsceno, que é imaginar que só no teatro, nesta noite, neste punhado de minutos, meu lugar automático de privilégio pode ser momentaneamente abalado. Lá fora, findo o espetáculo, não pensarei duas vezes antes de correr livremente para alcançar o ônibus que passa do ponto, e a sirene da polícia singrando a noite continuará sendo um eco razoavelmente distante na minha vida. Um privilégio, no entanto, nunca me pertencerá: o de sentir na pele, ao menos ali, no teatro, no olhar trocado com Preto Amparo, a esperança física de pertencer não aos restos degradados deste planeta caquético, mas à comunidade vital daqueles e daquelas que ainda podem sonhar com o dia em que caminharão triunfantes sobre as ruínas deste mundo e tomarão parte na iniciação de um novo.

 

Ficha técnica:

Atuação: Preto Amparo

Direção: Alexandre de Sena

Assessoria dramatúrgica: Aline Vila Real

Preparação corporal: Leandro Belilo/Cia Fusion de Danças Urbanas

Assessoria de trilha sonora: Barulhista

Iluminação: Preto Amparo

Ilustração: Cata Preta

Registro em foto e vídeo: Pablo Bernardo

Assessoria de imprensa: Alessandra Brito

Produção: Grazi Medrado

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04/02/2018 TAGS: descolonização, negritude, Preto Amparo, racismo, rolezinho BY: Luciana Romagnolli
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Dois espaços cênicos singulares para vozes femininas

Dois espaços cênicos singulares para vozes femininas

“Desde que nasci
A voz da mulher
Me embala
Me alegra
Me faz chorar
Me arrepia os cabelos
Me faz dançar
Me cala ressentimentos
Me ensina a amar…”
(Voz de Mulher. Leila Pinheiro).

– por Clóvis Domingos –

Crítica a partir dos espetáculos “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, de Marina Marcondes Machado, e “Todas Vozes, Todas Elas”, do Grupo de Teatro Mulheres de Luta (Ocupação Carolina Maria de Jesus).

Evandro e Dimas

Evandro e Dimas

Ano passado tive duas experiências cênicas que considero potentes e que mobilizaram meu exercício de espectador e pesquisador teatral: partilhar um espetáculo num apartamento silencioso e na companhia íntima de apenas mais duas pessoas; e, em outro momento, assistir a uma performance coletiva no espaço de uma efervescente ocupação urbana e misturado a muita gente, ruídos e dispersões. Espaços dissonantes, mas com um ponto em comum: a presença feminina.

“Evandro e Dimas: os nomes escolhidos” traz à tona a memória de dor de uma mãe diante da perda real dos filhos gêmeos, ainda no período de gestação. O trabalho pode ser considerado como um delicado e necessário rito de cura e de elaboração de um luto que há mais de trinta anos acompanhou Marina Marcondes Machado. Para realizar essa obra documental e enfrentar o tabu de abordar temas sempre silenciados como perda e morte, Marina revolveu seus escritos da época, suas caixas com diários produzidos na gravidez e documentos importantes como o atestado de óbito, e transformou seu apartamento em um espaço cênico e ao mesmo tempo lúdico, com a criação de imagens de forte dimensão poética, mnemônica e ficcional. Charles Valadares e Raysner de Paula assumem e ocupam o lugar desses filhos que hoje estariam adultos e, dessa forma, permitem que, no presente, a artista vivencie pequenos gestos amorosos de uma mãe que cuida, alimenta, embala, banha e lê para seus filhos. Em texto publicado em seu blog, a artista afirma o seguinte:

Charles e Raysner encarnaram Evandro e Dimas, ao longo do ano de 2017, e, ao ver os gêmeos crescidos e saudáveis, por meio da ilusão do teatro, eu pude dizer adeus. Com este trabalho vou expurgar a dor, a recordação, o cheiro do inverno que mistura também a mancha de sangue vermelho na calcinha durante a recuperação do “aborto espontâneo” (que expressão terrível!) e a nitidez do cheiro, nas narinas, de um tipo de spray cicatrizante que se usava nesses casos, à época.

“Evandro e Dimas: os nomes escolhidos” é um trabalho corajoso, de curta duração, mas capaz de criar espaços afetivos pelo fato de se apropriar de dispositivos autobiográficos e autoficcionais (presentes na cena contemporânea) que convocam os espectadores (ou serão testemunhas) a vivenciarem uma experiência real e pessoal, mas que, ao ser partilhada, se transforma em ato coletivo e público. Um pacto se cria entre cena e vida real, e o minúsculo ambiente de um apartamento parece se transformar num útero. Numa dimensão liminar se cruzam: realidade e fantasia, nascimento e morte, teatro e performance, luto e cura, dor e alegria, passado e presente, frustração e realização.

Outra questão: a utilização do espaço do apartamento como um lugar cênico, com infinitas possibilidades de narratividade, presença e discurso, a mim revelou que tecer uma cena poética pela força de uma espacialidade já configurada depende de um gesto de subversão e reinvenção. No caso de “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, a criação de um site-specific que intensifica a qualidade emocional e a adesão necessária para a concretização de um encontro no qual “arquivos pessoais” serão materiais disparadores e ao mesmo tempo aglutinadores de uma experiência compartilhada.

Mas é preciso salientar que a dramaturgia desse trabalho não se apoia em golpes melodramáticos afim de nos atingir de forma certeira e desonesta e, assim, gerar tristeza, pelo contrário, há uma serenidade e sinceridade éticas num ato de exposição sensível, amparado por uma estrutura estética bem delineada ao apresentar gestos escolhidos, fragmentos textuais selecionados e bem conectados, além de imagens editadas.

“A vida para ser vivida tem que ser reinventada” — assim escreveu Cecília Meirelles. E Marina parece ter compreendido tal máxima, criando não mais um espetáculo para ser apreciado e consumido (tanto que não existem anúncios, registros e imagens e só aconteceram seis sessões), mas um ato cuja “voz de mulher (me) ensina a falar, a enfrentar as dores e perdas e criar outros mundos possíveis”. Como nos aponta a psicanálise, se o trauma e o luto se inserem no campo do real, como encontrar sentido para o sofrimento psíquico senão se investindo no simbólico, que está presente, por exemplo, no exercício artístico? No final do trabalho, atuantes e espectadores conversam sobre a experiência, enquanto tomam suco, água de coco ou uma dose de vodca. Sensações, palavras, memórias e questões continuam a reinventar a vida e circulam por lugares de fala e lugares de escuta. Encontro humano, demasiadamente humano. Possibilidades abertas de cura.

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS3

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS3

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS6

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS6

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS4

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS4

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS (1)

TODAS AS VOZES, TODAS ELAS (1)

Vozes que ecoam lutas e conquistas

“Todas Vozes, Todas Elas” , do Grupo de Teatro Mulheres de Luta, tem direção de Cristina Tolentino e atuação das moradoras da Ocupação Maria Carolina de Jesus. Estreou dentro da programação do Ocupa Política, encontro nacional que reuniu ativistas, coletivos e movimentos de todas as regiões do país e da América Latina em Belo Horizonte. Impossível não se sensibilizar com a presença de mulheres anônimas que transcenderam seus afazeres cotidianos pela força da prática teatral. Tal vivência me trouxe à memória o teatro político e social de Augusto Boal e sua crença de que “todo mundo pode fazer teatro, até os atores”.

Uma plateia emocionada pôde assistir a um ato performativo que articulou materiais sonoros e poéticos (a partir de artistas como Mercedes Sosa e Conceição Evaristo), com depoimentos sobre a vida de cada atuante e sua experiência de fazer parte de uma moradia coletiva:

Meu nome é Emanuelle. Antes de morar em uma ocupação não sabia dos meus direitos e dos direitos das mulheres. Via muitas injustiças e não sabia como lidar com elas. Agora eu sei que sou forte e que nós, mulheres, juntas, podemos, podemos muito. Estou na luta, sou mulher. Posso ser o que eu quiser. Sou livre, sou linda, sou louca, sou luta, sou minha. Então mulheres, vamos parar de competição. Juntas somos revolução! (Trecho do texto da performance).

“Todas Vozes, Todas Elas” aborda a violência contra as mulheres, o racismo nosso de cada dia, as possibilidades de luta e transformação. O espaço cênico é composto de cadeiras nas quais as mulheres, sentadas, descascam batatas e conversam sobre a vida, entremeando momentos de riso e de indignação. Vão gritando/convocando os nomes de muitas outras mulheres e a resposta em coro é enfática: “presente”.

A concepção proposta pela encenação de Cristina Tolentino tem o mérito de dialogar com a realidade das atuantes, tanto que, num determinado momento, imagens da vida dessas mulheres são projetadas num vídeo que as mostra em suas ações dentro da ocupação e em off escutamos um poema de Conceição Evaristo. Nesse momento todas as vozes, todas elas se fazem ouvir: “a voz da minha bisavó, a voz da minha avó, a voz da minha mãe, a voz da minha filha, a minha voz. O ontem, o hoje e o agora”. Olhando nos olhos do público, as atuantes retiram seus aventais e começam a se reinventar: arrumam seus cabelos, passam batom etc. No final o que vemos é o gesto coletivo de jogar as batatas e cascas no chão e assim esvaziar os baldes.

Na imensa sala destinada a apresentação desse trabalho, feito uma assembleia reunida numa espécie de meia-lua, moradores da ocupação e visitantes se misturavam e partilhavam o mesmo espaço, estabelecendo a presença e o convívio de um público ruidoso e participativo. Corpos exaustos e impregnados de um dia intenso de debates e discussões políticas urgentes. À sua frente, as mulheres sentadas exibiam um largo sorriso, e atrás delas, era possível vislumbrar suas sombras agigantadas desenhando inusitadas formas sob a parede branca. Lembrei-me de Simone de Beauvoir: “é na arte que o ser humano se ultrapassa definitivamente”.

Do luto à luta

“Canta comigo, canta/ Hermana compañera/Libera tu esperanza/ Con um grito em lavoz!”

Mercedes Sosa

 De cada uma dessas experiências, ganhei “lembrancinhas” dessas visitas: um pequeno bloco de notas com o nome dos gêmeos na capa e alguns panfletos com diversas lutas sociais. Afirmo minha alegria por escrever sobre trabalhos liminares e minoritários (experiências periféricas? “outras cenas?”), manifestos femininos e poéticas da reinvenção altamente mobilizadores de afetos emancipatórios e políticos.

“Evandro e Dimas: os nomes escolhidos” e “Todas Vozes, Todas Elas” tocam na possibilidade de cura e transformação ao tratarem de temáticas femininas que envolvem o luto e a luta. Ao escrever esse ensaio crítico, é como se eu pudesse aproximar Marina e as atuantes da Ocupação Maria Carolina de Jesus para juntas escutarem a necessária e combativa voz de Conceição Evaristo:

A voz da minha filha
Recolhe todas as nossas vozes
Recolhe em si
As vozes mudas caladas
Engasgadas nas gargantas.
A voz da minha filha
Recolhe em si
A fala e o ato.”

Referências:

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

 

Ficha técnica dos trabalhos:

 

Evandro e Dimas: os nomes escolhidos

Dramaturgia e direção: Marina Marcondes Machado

Atuação: Marina Marcondes Machado, Charles Valadares e Raysner de Paula.

(Trabalho visto em 06 de novembro de 2017).

 

 

Todas Vozes, Todas Elas

Criação: Grupo de Teatro Mulheres de Luta

Direção: Cristina Tolentino

Atuação: Cristina Elisângela Gomes, Nilmara de F. Ramos, Ana Luiza C. de Macedo, Priscila S. Anacleto, Poliana Campos, Liliana Ramos, Tatiana Cristiana de Paula Teodoro, Emanuelle Aparecida de Oliveira e Larissa Vitória da Silva.

(Trabalho visto em 08 de dezembro de 2017).

 

 

 

 

 

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19/01/2018 TAGS: Autobiografia, Cristina Tolentino, luto, Marina Marcondes Machado, memória, Ocupação Maria Carolina de Jesus BY: Luciana Romagnolli
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Traços do “contemporâneo” revisitados em propostas espetaculares em terras cariocas

Traços do “contemporâneo” revisitados em propostas espetaculares em terras cariocas

– por Marcos Antônio Alexandre – Faculdade de Letras – UFMG/CNPq –

Crítica escrita a partir dos dos espetáculos Justa, Há mais futuro que passado: um documentário de ficção, O Jornal The Rolling Stones e Se eu fosse Iracema (RJ).

Nos últimos meses eu me radiquei temporariamente no Rio de Janeiro e tive a oportunidade de assistir a algumas propostas espetaculares que me despertaram o interesse pelo fato de serem trabalhos concebidos a partir de linguagens estéticas distintas, mas que apresentam como ponto de confluência uma dimensão crítica e política de nosso tempo, colocando em foco aspectos da sociedade brasileiras e suas mazelas. Trata-se dos espetáculos Justa (2017), Há mais futuro que passado: um documentário de ficção(2017), O Jornal The Rolling Stones(2017) e Se eu fosse Iracema(2016), montagens que estiveram em cartaz na cidade entre outubro e dezembro de 2017.

Justa cumpriu temporada no Centro Cultural Banco do Brasil de 21 de outubro a 19 de novembro. A peça da Odeon Cia de Teatro tem direção de Carlos Gradim e dramaturgia de Newton Moreno, autor já reconhecido no cenário nacional por dar voz e representatividade em suas peças às personagens do nordeste brasileiro, apresentando uma linguagem comprometida com essa enunciação, assertiva que pode ser corroborada a partir da alusão às peças Agreste, As Centenárias e Maria do Caritó, textos que já cumpriram temporadas exitosas no cenário artístico brasileiro.

Em Justa, o autor retoma como “pano de fundo” o contexto nordestino, agora na voz da personagem-título do espetáculo (uma prostituta corporificada por Yara de Novaes), e desenvolve ações dramáticas que imprimem ao texto uma trama policial, a partir da qual acontece uma série de assassinatos de políticos corruptos. Isso leva o Investigador, personagem policial interpretada por Rodolfo Vaz, a correr atrás do responsável pelos crimes. Tudo está conectado a uma rede de prostituição que presta “serviços” para várias autoridades de prestígio e poder dentro do sistema político brasileiro, senadores e deputados que morrem de forma suspeita, ao frequentarem, como clientes habituais, o bordel “O Colégio”, lugar no qual trabalha a prostituta Justa.

No Programa do espetáculo, a Equipe informa que o desejo do grupo era tratar o tema da prostituição enquanto mote, mas buscando estabelecer uma “crônica política dos nossos tempos”, esclarecendo:

E vestimos nossa peça-manifesto de uma fábula com tons de noir investigativo, apimentado por uma paixão destruidora, dando espaço aos clamores do feminino na voz e corpo destas putas (alegorias do povo brasileiro), e do reencontro de um filho com sua mãe, ou melhor, de um povo com sua pátria. JUSTA é nossa alegoria cênica do esgotamento ético em que estamos mergulhados e da urgência de um re-encantamento com a beleza da justiça; e com nosso país. (Programa do Espetáculo, 2017)

A classificação do trabalho como “peça-manifesto” possibilita ao espectador buscar, nas entrelinhas textuais e no desenlace das ações dramáticas, referências de um país que acossa a sua população em níveis distintos. Não há como não deixar de observar traços comuns da tão comentada e controversa “contemporaneidade”.

Uma mesa enorme com alguns microfones, 9 telas para transmissão de imagens e pedestais com microfones estrategicamente localizados no palco. Com esta instalação cenográfica (concebida por André Cortez), que remete a plateia à ambiência de uma bancada de jornal ou de um estúdio jornalístico em que monitores conectados, simultaneamente, mostram imagens de caráter erótico (com exposição de cenas de sexo, órgãos sexuais, cena de parto, frases de protesto etc.), a trama vai sendo desenvolvida. Ou melhor, a partir deste espaço cenográfico, o espetáculo vai expondo o quadro social em que o texto vai sendo delineado desvelando a trama policial na qual estão envolvidas personagens políticas e prostituas, sob o pano de fundo de uma sociedade cheia de conservadorismo, em que são desvelados os desvios de caráter de seus integrantes.

A construção do texto espetacular de Carlos Gradim conta ainda com o desenho de luz de Telma Fernandes, que trabalha com efeitos e técnicas precisas de iluminação acentuando as ações dos atores e de suas perspectivas personagens. Além do cuidado com o desenho de luz, chama a atenção o figurino de Fabio Namatame e as intervenções sonoras proposta por Dr. Morris, que introduz nuances do jazz ao longo da montagem.

Rodolfo Vaz e Yara de Novaes, que foram parceiros na construção de O Capote (2016) – ele como ator e ela como diretora –, agora dividem a cena e oferecem ao espectador um encontro singular, onde o que se vê no palco é um jogo cênico entre dois grandes atores. Yara explora todos os recursos de um teatro performativo na construção das personagens que traz para a cena, ao passo que Rodolfo imprime uma interpretação mais “realista” na composição do Investigador. Assim, Yara corporifica um mosaico de mulheres fortes, prostitutas do nordeste brasileiro, desdobrando-se em várias facetas femininas, e, por sua vez, Rodolfo imprime um tom mais narrativo para corporificar o policial, que se interessa pela prostituta Justa assim que com ela se encontra pela primeira vez. A atuação de ambos os atores envolve o público. Se Yara trabalha nuances físicas, corporais e vocais em cada nova personagem que passa a compor a trama policialesca proposta por Moreno e que vai sendo delineada e decifrada ao longo da peça, Rodolfo constrói a sua personagem a partir de uma perspectiva mais “narrativa” e realista, imprimindo ao Investigador um tom de “sobriedade”, característica essa que é quebrada pelas as variações vocais propostas por Yara na composição de suas mulheres prostitutas.

Refletir sobre a dramaturgia de Newton Moreno e a montagem dirigida por Carlos Gradim a partir do uso de um humor reflexivo nos permite trazer para discussão um Brasil que, a cada dia mais, nos mostra as faces de sujeitos que são negligentes com as suas funções sociopolíticas e dos quais gostaríamos de nos livrarmos. Merece destaque a cena em que o público (mineiro e familiarizado com o trabalho da atriz) nota presença do riso marcante de Teuda Bara, que empresta a sua gargalhada, a partir de uma gravação em off usada com irreverência por Yara Novais para compor Justa, personagem que se revela como a justiceira serial killer pela qual o Investigador se sente atraído. O espectador que já conhece o trabalho e a presença cênica de Teuda, imediatamente, identifica o riso contagiante e se diverte, ironicamente, com o enredo que vai apontando os lugares de representação de tantos políticos corruptos. É como se Yara Novais estivesse rindo de si e de todos. Neste momento, “O Colégio” ganha dimensões alegóricas que vão além do trabalho de interpretação dos atores, reforçando a proposta de “encenação-manifesto” concebida por Carlos Gradim.

Há mais futuro que passado: um documentário de ficção se configura como uma proposta espetacular em que as mulheres são o centro do trabalho. Com dramaturgia de Clarisse Zarvos, Daniele Avila Small e Mariana Barcelos, direção de Daniele Avila Small e atuação de Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainah Longras, a montagem levanta uma discussão sobre os diferentes lugares de fala propostos por mulheres que marcaram a segunda metade do século XX, mais especificamente, os anos de 1960, 70 e 80, possibilitando ao espectador tecer relações entre as vozes dessas mulheres e os novos contextos enunciativos em que as atrizes e as mulheres contemporâneas se veem imbricadas.

No programa de divulgação do espetáculo, as criadoras explicitam os motivos que as levaram à produção da montagem, explicitando que o espetáculo surge a partir de um questionamento que elas fizeram a si mesmas:

Qual é o lugar da mulher latino-americana na história da arte? Esta pergunta inspirou o espetáculo, cujo subtítulo é ‘Um documentário de ficção’. A obra procura jogar luz sobre a vida e obra de importantes artistas latino-americanas cujo legado não chegou ao grande público, a partir de uma pesquisa histórica de fatos reais, obras e experiências de artistas latino-americanas dos anos 1960, 70 e 80. A peça faz uma crítica à história oficial, ao poder que as narrativas da “verdade” têm sobre a visão que temos do mundo e sobre os lugares que nele ocupamos. (Programa, 2017)

Assim, o espetáculo flerta com mais de uma linguagem cênica. O próprio subtítulo já traz a ideia de “documentário de ficção”, associando a proposta cênica ao “teatro documentário”, mas também pode ser observada a influência da performance, do teatro performativo, da intermidialidade, como se fosse também uma proposta de teatro “audiovisual”. O espetáculo se constrói a partir de cartas, explicitando o ponto de vista de uma dramaturgia de mulheres comprometidas com o seu tempo. Um ato performativo em que as tessituras dramatúrgicas expõem memórias e identidades múltiplas de mulheres que representam discursos ideológicos que desvelam identidades para além de seus tempos. Em cena, são trazidas figuras cujas vozes representam momentos latentes da história da América Latina dos anos 1960 a 80, evocando as imagens de mulheres fortes que viveram e construíram as suas próprias histórias conscientes do papel social que “representavam”.

Esteticamente, a peça se constrói a partir da divisão do palco em dois espaços cênicos, que são separados por uma tela (onde são projetados vídeos-imagens ao longo do espetáculo), que as atrizes utilizam para demarcar não só o espaço, mas também a instância de personificação entre o passado e o presente: o espaço ao fundo do palco representa o passado, é a ressignificação do momento onírico, o lugar onde as atrizes leem e interpretam as cartas das personalidades femininas que foram escolhidas para compor a dramaturgia. À frente da tela, na lateral esquerda do espectador e próximo ao proscênio, acontecem as cenas em que são trabalhados os momentos “presentes”. Tudo se dá como um espaço de presentificação das ações cênicas – uma mesa com recursos de som e iluminação, a partir da qual as atrizes operam o espetáculo e atualizam a pesquisa histórica realizada. Há um fluxo de ressignificação e reconstrução de memórias individuais e coletivas. Fatos históricos são trazidos para a cena de forma crítica, em vários momentos com muita ironia, revelando uma sintonia nos jogos cênicos propostos pelas atrizes para atualizar o passado e o presente. O que as cenas trazem para dialogar com as experiências ideológicas e sócio-históricas do público é um encontro de mulheres de nacionalidades distintas que são muito bem personificadas pelas atrizes.

As histórias dessas mulheres, que viveram ou se encontraram em países das Américas como Argentina, Bogotá, Brasil, Cuba, Chile, Colômbia, México, são colocadas em jogo e em constante (re)aproximação. Fatos históricos são trazidos à tona, reflexos de momentos de exceção que modificaram a vida de milhares de latino-americanas, uma vez que a perspectiva enunciativa que a montagem reivindica é a de dar voz às mulheres, suas histórias e conquistas. Sem dúvida, há um exercício de uma dramaturgia feminista, como assinala Lucyana Lyra, para se referir ao seu trabalho dramatúrgico, mas que pode ser associado à dramaturgia de Clarisse Zarvos, Daniele Avila Small e Mariana Barcelos e à direção de Daniele Avila Small:

Talvez por isso tenha perseguido processos de criação dramatúrgica que procurassem se articular aos processos de criação da cena pelas atuantes, levando-as às margens e ao fundo delas mesmas, ajudando a trançar questionamentos acerca de identidade, gênero, individuação, e de nossa condição de incompletude e finitude.[i]

As três atrizes, Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainah Longras, cada qual a sua maneira, imprime à montagem o seu corpo-olhar-presença projetando nas cenas facetas de mulheres que reivindicam o seu lugar de fala. A história ficcional de Ana, personagem criada para “representar” as diversificadas vozes e corporeidades femininas, vai sendo delineada pelas atrizes com uma cumplicidade demarcada pela presença cênica na exposição e construção dos relatos ficcionalizados. Cada atriz vai imprimindo o seu olhar e emprestando o seu corpo como um ato de resistência, como se fosse montando uma colcha de retalhos ou um quebra-cabeça discursivo em que elas e as mulheres em geral são as responsáveis pela (re)construção de suas próprias histórias.

Um dos momentos de destaque da peça é a ressignificação que a atriz Tainah Longras faz do poema-canção de Victoria Santa Cruz, “Negra”[ii]. Como mulher negra, a atriz faz a sua releitura do poema e o público se emociona com a sua interpretação. Em cena, o seu corpo de mulher negra traz traços e identidades pessoais que vão sendo coletivizados. Seu ato performativo assume, demarca e reivindica um olhar sobre si, colocando-se em diálogo com cada verso (estrofe-refrão) do poema-performance de Santa Cruz e, ao mesmo tempo, cada gesto seu (rosto e olhar expressivo; braços, mãos e punhos em riste, corpo ereto e peitos abertos) também assume e demanda um ato de resistência coletivo de milhares de mulheres negras.

O espetáculo O Jornal The Rolling Stones, com texto do dramaturgo inglês Chris Urch, transformado em uma peça premiada em Londres, traz à tona a questão da homofobia. A peça, com referência em fatos reais que aconteceram em Uganda, tem sua versão brasileira dirigida por Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos e conta com um elenco de atores negros para dar voz às personagens retratadas na dramaturgia. Em cena estão André Luiz Miranda, Danilo Ferreira, Heloísa Jorge, Indira Nascimento, Marcella Gobatti e Marcos Guian.

Os diretores realizaram uma oficina, em que foram inscritos 5 mil atores, sendo que setenta foram selecionados num primeiro momento e, depois, foram escolhidos os seis previamente citados. Os números demostram que existe um grande número de profissionais, atores e atrizes negros, habilitados para atuarem na cena negra ou não. Neste sentido, percebe-se o desejo dos diretores de trabalhar com um elenco negro a partir de um texto que trata da questão do preconceito e da intolerância, mas que não opera apenas a partir dos estereótipos que costumam estar associados às imagens dos negros e das negras na sociedade brasileira. É extremamente relevante, se levamos em consideração na proposta espetacular produzida, que a questão latente da homofobia é vivenciada e discutida em cena a partir da perspectiva do elenco negro selecionado.

A peça tem como referência o jornal “Rolling Stones”, de Kampala, que, em 2010, divulgou o rosto e o endereço de 100 homossexuais e convocou os seus leitores a linchá-los. Quatro anos depois, outro fato similar aconteceu, quando, naquele momento, outra publicação listaria 200 homossexuais para que pudessem ser espancados até a morte. Tudo isso aconteceu mesmo após a lei antigay ter sido derrubada. Assim, o espetáculo ressignifica o fato histórico.

O foco da dramaturgia está centrado na história de uma família de três irmãos (dois homens – Joe, interpretado por André Luiz Miranda, e Dembe, representado por Danilo Ferreira – e uma mulher – Wummie, a mais nova, vivida por Indira Nascimento), cujo pai, que era pastor na comunidade, falece, e o filho mais velho, Joe, é eleito para seguir o caminho deixado por ele. Joe começa a atuar como pastor da igreja local e líder da comunidade, que é extremamente conservadora e cheia de preconceitos. Na história, o filho mais novo, Dembe, sofre com o impacto da primeira reportagem, pelo fato de namorar o médico Sam (Marcos Guian) e por se sentir em eterno conflito, pois não consegue decidir se viverá o relacionamento que deseja levar adiante, mesmo correndo riscos de ser “descoberto” pela família e pela sociedade local, ou se terá coragem de separar de seu parceiro.

A montagem levanta questionamentos que hoje se fazem constantes nas discussões sociais, demonstrando pontos nevrálgicos para que possam ser repensados aspectos como a intolerância, o preconceito, o uso inadequado e “desqualificado” da religião (a cura gay, os ataques às religiões de matriz africana), os lugares e os direitos das mulheres no Brasil contemporâneo, representados na peça por meio da personagem Wummie, uma jovem que precisa abdicar dos seus sonhos em função da realidade em que se encontra e para manter a família estruturada. Assim, ela “aceita” abandonar os estudos e assume para si o papel de se manter como elo entre os irmãos.

Esteticamente, observa-se a preocupação dos diretores de trazerem para cena elementos que integram a cultura negra. Isto pode ser observado nas cenas em que são retratados os aspectos mítico-religiosos das comunidades negras, a musicalidade e a corporeidade dos atores e atrizes que buscam acionar instâncias mnemônicas que se relacionam com as identidades negras e suas negociações em contato com o Outro. Merece destaque o fato de que, apesar de a “violência” ser elemento constante e estruturador das ações dramáticas, o “amor”, mesmo que as personagens não consigam escapar de seus “destinos trágicos”, acaba se constituindo como um traço fundante da montagem. É corporificado e se vê presentificado no sentimento entre os irmãos, que está acima do ódio local e de tudo; no afeto e na cumplicidade entre os companheiros Sam e Dembe; na relação de amor conturbada entre a Mama (Heloisa Jorge) e sua filha Naome (Marcella Gobatti).

Se eu fosse Iracema, solo da atriz Adassa Martins, com dramaturgia de Fernando Marques e direção, iluminação e cenografia de Fernando Nicolau, traz para reflexão outro tema latente no país: os povos indígenas, suas relações e integração na sociedade, que continua não respeitando os seus direitos e não os incluindo como cidadãos brasileiros. No programa (2016), é explicitado que o espetáculo “nasceu da inquietação provocada por uma carta de outubro de 2012, em que os guarani e kaiowá pediam que se decretasse sua morte coletiva em vez de lhes tirarem a terra – onde repousa sua vida.”

Com o teatro em black out , um feixe de luz na horizontal incide sobre os olhos da atriz, que vai se agrandando diante do olhar do espectador. Assim o espectador tem o primeiro contato com a peça. A luz funciona como maquiagem que demarca e cobre – como se fosse a tinta (elemento retirado da natureza e usado pelos povos indígenas para a pintura de partes do corpo) – o olhar expressivo da atriz. Ela inicia o seu solo desvelando falas e discursos que enunciam o ponto de vista dos indígenas, trazendo para cena personas distintas, entre outras, um pajé, um ancião, uma vítima de desapropriação de terra, colocando em discussão e em primeiro plano a história de perseguição que os povos indígenas têm sofrido em todo o território brasileiro através dos séculos, desde a chegada dos homens brancos às Américas, para colonizá-las. Suas falas assumem um viés extremamente crítico, como pode ser observado no seguinte fragmento:

Um homem branco vale mais que um homem
de outra cor
Um homem branco vale mais que um homem
de qualquer cor
Um homem branco vale mais que um homem
Um homem branco vale mais que uma mulher,
uma onça,
um rio,
um pássaro,
uma raiz,
um tronco de árvore sagrada,
uma erva que cura,
uma capivara,
um jabuti,
um totem,
uma aldeia inteira,
uma etnia inteira,
uma história toda.
A história do homem branco é história.
A ciência do homem branco é ciência.
A religião do homem branco é religião.
A arte do homem branco é arte.
A filosofia do homem branco é filosofia.
E a história de qualquer outro homem é folclore,
é caso,
é mentira,
é bobagem,é superstição,
é lenda,
é enredo de escola de samba,
é poesia de livro didático.
Só o homem branco sabe,
Só o homem branco sobe,
Só o homem branco salva,
Os outros homens: selva.
(Fernando Marques, no programa do espetáculo)

O ponto de vista enunciativo da dramaturgia de Fernando Marques entrega para a atriz Adassa Martins diferentes olhares e leituras textuais que permitem que o público reflita sobre a complexidade dos temas expostos. A dramaturgia mescla depoimentos de indígenas, entrevistas e também tem como referências filmes – Índio cidadão?, Belo Monte, anúncio de uma guerra e A lei da água – que foram produzidos com o objetivo de trazer à tona a vida e as vivências dos indígenas. O trabalho da atriz apresenta uma performance corporal precisa e nuances vocais únicas, explorando timbres e volumes, transformando-se corporalmente e vocalmente demonstrando uma grande consciência técnica de seu corpo para vivenciar as personagens-personas, que são trazidas para a cena evidenciando a exposição de seus sofrimentos, revoltas, fraquezas e, principalmente, a sua visão a partir da perspectiva do “mundo” indígena.

Quais lugares de fala assume o discurso? É possível falar pelo Outro? Até que ponto o trabalho do artista representa o Outro? Estes questionamentos que têm sido muito recorrentes no teatro “contemporâneo” poderiam ser levantados para discutir a montagem. No entanto, a qualidade do texto e a potência da atriz em cena minimizam qualquer tipo de observação nesse sentido. Não há como não reconhecer a qualidade da performance da atriz, bem como o engajamento dos envolvidos na produção do texto espetacular (dramaturgo, diretor e toda a equipe) em prol de fazer da peça um ato político, uma instância de denúncia.

Ficha técnica dos espetáculos:

Justa

Texto: Newton Moreno

Direção: Geral Carlos Gradim

Elenco: Yara De Novaes e Rodolfo Vaz

Diretor Assistente: Leandro Daniel

Assistente de Direção: Murillo Basso

Design de Luz: Telma Fernandes

Cenografia: André Cortez

Figurino: Fábio Namatame

Trilha Sonora Original: Dr Morris

Produção Musical: Yvo Ursini

Voz do Hino de Ninar: Laila Garin

Gargalhada: Teuda Bara

Conteúdo Audiovisual: George Queiroz

Programação de Vídeo: Julio Parente

Assistente de Cenografia: Carmem Guerra

Direção de Produção: Ana Luisa Lima

Produção Executiva: Igor Biond

Assistência de Produção: Marianna Botelho

Estagiário de Produção: Roy D’Peres

Administração da Temporada: Beatriz Lima

Cenotecnia: André Salles

Operação de Luz: Boy Jorge JP

Operação de Áudio e Vídeo: Vitor Vieira

Sistema de Vídeo: Julio Parente (Corja)

Equipamento de Som: Rz Sound

Contra-regragem: Roy D’peres

Projeto Gráfico: Beto Martins e Gabriela Rocha

Fotos: João Caldas (Formato Estúdio) e Elisa Mendes

Assessoria de Imprensa: Approach Assessoria de Imprensa

Coordenação Geral do Projeto: Instituto Odeon

Thais Boaventura, Hannah Drummond, Mariana Bragae Ingrid Moiteux

 

Há mais futuro que passadoum documentário de ficção

Dramaturgia: Clarisse Zarvos, Daniele Avila Small e Mariana Barcelos

Direção: Daniele Avila Small

Elenco: Clarisse Zarvos, Cris Larin e Tainah Longras

Participação em vídeo: Carolina Virgüez

Criação: Clarisse Zarvos, Cris Larin, Daniele Avila Small, Mariana Barcelos, Tainá Nogueira e Tainah Longras

Direção de produção: Fernanda Avellar

Direção de movimento: Denise Stutz

Cenografia: Elsa Romero

Iluminação: Ana Kutner

Figurino: Raquel Theo

Trilha sonora: Julia Bernat e Laura Becker

Violão, guitarra, gravações, edições e mixagem: Felipe Fernandes

Identidade visual: Clarice Pamplona

Assistência de direção: Mariana Barcelos e Tainá Nogueira

Vídeos: Daniele Avila Small a partir de imagens de arquivo e do processo de criação

Costureira: Nice Tramontim (cenário) e Ione de Farias (figurino)

Bordadeira: Paula Miranda

Cenotécnico: Maranhão

Realização: Trestada Produções Artísticas e Complexo Duplo

Idealização do projeto: Clarisse Zarvos e Daniele Avila Small

 

O JornalThe Rolling Stones

Texto: Chris Urch

Tradução: Diego Teza

Direção: Kiko Mascarenhas

Codireção: Lázaro Ramos

Com André Luiz Miranda (Joe), Danilo Ferreira (Dembe), Heloísa Jorge (Mama), Indira Nascimento (Wummie), Marcella Gobatti (Naome) e Marcos Guian (Sam)

Assistência de Direção: Ana Luiza Folly

Direção de Movimento: José Carlos Arandiba (Zebrinha)

Preparação Vocal: Edi Montecchi

Realização e Produtores Associados: Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas

Produção: KM ProCult e BR Produtora

Direção de Produção: Viviane Procópio e Radamés Bruno

Produção Executiva e Administração: Viviane Procópio

Assistência de Administração: Jandy Vieira

Equipe de Produção: Igor Dib, Milena Garcia e Diego Teza

Iluminação: Paulo César Medeiros

Assistência de Iluminação: Júlio Medeiros

Montagem de Luz: Boy Jorge, Luíza Ventura, Fabiano Gomes, Vilmar Ollos e Rodrigo Emanuel

Operação de Luz: Walace Furtado

Trilha Sonora Original: Wladimir Pinheiro

Operação de Som: Marcito Vianna

Estúdio de Gravação: “DRS” e “FD”

Cantores: Flavia Santana, Lu Vieira, Renato Ribone, Wladimir Pinheiro

Cenografia: Mauro Vicente Ferreira

Assistência de Cenografia: Rogério Chieza

Construção de Cenário: Em Família Cenografia e Eventos

Adereços: Mauro Vicente Ferreira

Figurinos: Tereza Nabuco

Assistência de Figurinos: Júlia Custódio

Costureiras: Adélia Andrade e Severina da Silva Viana (Mainha)

Calçados: Jailson Marcos

Assessoria de Imprensa: Antônio Trigo

Comunicação Web: Urgh

Arte e Lay Out do Projeto: Léo Dória / BR Produtora

Projeto Gráfico: Novo Traço

Fotos de Estúdio: Jorge Bispo

 

 

Se eu fosse Iracema

Intérprete: Adassa Martins

Dramaturgia: Fernando Marques

Direção, iluminação e cenografia: Fernando Nicolau

Figurino e caracterização: Luiza Fradin

Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid

Preparação Vocal: Ilessi

Direção de arte e projeto gráfico da comunicação visual: Fernando Nicolau

Escultura do busto: Bruno Dante

Caracterização das fotos: Luiza Fardin

Fotografia: Imatra

Assistência de direção: LuCa Ayres

Assistente de figurino: Higor Campagnaro

Cenotécnico: André Salles

Aderecista: Derô Martín

Assessoria de imprensa: Catharina Rocha

Produção executiva: Clarissa Menezes

Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques

Realização e produção: 1COMUM Coletivo

[i] LYRA, Luciana. Dramaturgia Feminista: Fogo de Monturo e Quarança. São Paulo: Giostri Editora, 2017. p. 11.

[ii] Confira a performance da atriz em https://vimeo.com/243704983. O poema de Victoria Santa Cruz está disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=49-wQtOj7iI.

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21/12/2017 TAGS: Adassa Marttins, CArlos Gradim, Daniele Avila Small, feminismo, homofobia, indígena, Kiko Mascarenhas, Lázaro Ramos, negritude, Newton Moreno, Rio de Janeiro, Rodolfo Vaz, Teatro documentário, Yara de Novaes BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Grande Sertão: Teatro

Grande Sertão: Teatro

– por Diogo Horta –

Crítica a partir do espetáculo-instalação “Grande Sertão: Veredas”, de Bia Lessa (São Paulo).

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 3

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 3Grande Sertão: Veredas. Foto de Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 4

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 4

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 6

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 6

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 7

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 7

“_ Nonada.”

Ouvi e vi. Palavras e vistas que passaram por mim, remexeram. Senti vibrando sensações contraditórias que queriam se agarrar àquelas palavras e que vão saindo em forma de outras palavras agora. Não queria falar de uma maneira que não está à altura do senhor, mas é que não sou avançado nas palavras. Então, por isso, vou dizer de um outro jeito meu, pelo menos para sentir que me esforcei em falar diverso, tentando colorir as frases com as cores do meu sertão.

O senhor então, me desculpe. Peço licença pra dizer umas palavras que o senhor, homem maior sabedor da língua, me inspirou. Quem sou eu pra dizer destes modos, inventice de palavras não sei e não tenho esperança de saber. Mas não quero, não quero mesmo, e isso basta, me dirigir ao senhor com a língua fria destes dias que nós vivemos. Se copio o senhor nos dizeres é por completa admiração e pra tentar entender de dentro de mim este meu sertão. Cumpadre meu Riobaldo foi quem disse:“Sertão é o sozinho. (…) Sertão: é dentro da gente.” E há de se ver fácil isso hoje em dia. Aridez e secura, nestes dias, no homem, na mulher e até nas crianças. Um liso do Suçuarão cá dentro. Viver parece que nunca foi tão perigoso.

Faz mais de dez anos que me deparei com o livro do senhor. Li tudo, me embebedando pelas palavras e pelo amor de Riobaldo e Diadorim. Bateu forte no peito. De susto, lembro da imagem que criei na mente do momento exato em que li aquilo que mais me surpreendeu: Diadorim. Diadorim. Desde então, não me encontrei com Riobaldo outra vez, a não ser faz algumas semanas, veja só, num teatro.

Teatro é modo de dizer que o espaço era o chão, um andaime em forma de retângulo e homens que podiam ver embaixo ou em cima de um andaime. Fiquei embaixo. É o chamado lugar alternativo. O espaço também abrigava em volta uma instalação com homens-jagunços de uma espuma-cobertor que também invadia a cena no avançar da história. Raciocinei se o senhor pensava isso, ver seu livro assim encenado, transformado em carne e osso na frente dos outros. Quem fez esta proeza foi Bia, Lessa. Coisa difícil de se imaginar, coisa bonita de se ver. Sertão ali: brincado, jogado, emocionado, palavreado por um elenco engajado, doado…suado. Corpo forte que encarna e presentifica o grande sertão.

Curiosidade achei foi no uso dos microfones para a cena e dos fones de ouvido para o público. Ouvimos os ditos e os gritos – tudo – pelo fone. Paisagem sonora. Ideia que eu fiquei que isso deixava o teatro menos coletivo e mais individualista. Mas, segundo cumpadre meu Rancière (2012), o espectador é essa singularidade mesmo. É esse se descobrir indivíduo neste conjunto de sociedade e mercado que só nos convoca para a indistinção, como dizia outro cumpadre meu Teixeira, Coelho (2001). Fiquei então eu, comigo ali, no meio dos demais, a ouvir palavras nos ouvidos de pertinho. E cumpadre meu Riobaldo que falava, não das favas, ao meu ouvido de vez em quando, quando precisava confidenciar algo mais íntimo, só para nós dois. Foi assim que ele raciocinou comigo umas ideias e eu concordei com a cabeça.

Venho tentando entender o que move quem faz e quem assiste ao teatro. Porque é que a gente se coloca tão grande num trabalho tão árduo para contar uma história com o corpo da gente no presente da vida. Não tenho resposta, não. Talvez nunca tenha. Mas sei que teatro é um pedaço de vida mais real, mais carne e osso, do qual não se pode escapar indiferente. Bia Lessa, que assina a concepção, direção geral, adaptação e desenho de luz desse teatro, fala assim: “Esta é uma das grandes belezas do ato teatral: propor um enfrentamento na construção do trabalho e depois na relação com a plateia. Esse enfrentamento se faz necessário neste momento em que o mundo parece dar uma marcha ré sem fim”[1].

Raciocinei assim, esse enfrentamento, com um dizer de Riobaldo e pensei: O teatro, na rua, no meio do redemunho… O teatro no campo de batalha. Na encruzilhada da vida. No encontro dos homens sós. Riobaldo fala do medo dos outros, da perigosidade da vida, de Deus e do diabo. Mas ele mesmo vê uma coisa – que não tem diabo nenhum: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

E não é que o teatro é homem humano…travessia! Foi isso que vi atravessando os atuantes Balbino, Caio, Clara, Daniel, Elias, Leon, Leo, Lucas, Luisa e Luiza. Teatro, diabo e homem. Redemunho. O teatro reunindo uns e outros ao redor de outros uns formando um redemunho. Homens-pássaro, homens-armas, homens-matados, homens-vivos, homens-sertão, homens cá e lá erguidos pelo suor do ideal, da justiça e do amor. O que havia ali no acordo do teatro é o que devia de haver no mundo todo: respeito pela existência do outro, pelo amor do outro, pela palavra do outro. Jogo de valorizar o todo e as partes.

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 8

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 8

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 2

Grande sertão veredas - Crédito Roberto Pontes 2

E Riobaldo, contando ali no teatro, moveu aqui dentro de mim a força e a dor daquele “ser mulher”. Dor de não poder ser o que se é pelos riscos do sertão. De ter que se esconder na carcaça de homem jagunço pra poder viver. Revi o sofrimento de matar e ser matado. Sofrimento sem fim disse cumpadre meu Riobaldo. Pensei no mundo que corre, no sofrimento das mulheres (todas) que ainda hoje precisam lutar para ser. Pensei: quero ouvir esta história contada pela mulher que dela é protagonista. Não que o senhor e Riobaldo não já tenham contado o que foi e que há, mas é que no íntimo daquela mulher vamos poder descobrir um pouco mais de vida, de luta e de amor. O senhor me desculpe, foi só um desejo que me ocorreu.

Mas essa volta do destino do sofrimento tem via dupla ainda na obra do senhor. E o amor entre dois homens naquela dureza de sertão, secura sem fim e amor aceitado. Não importa o que vai ser no fim, a mudança que há. Mas importa que cumpadre meu Riobaldo aceita o amor que há, não importa o gênero amado. “Mire e veja”: até hoje muita gente não compreendeu isso aí. O amor é o que há. Apenas. O que devia de haver era ser o homem amor. Aceitar qualquer forma de amor como fez cumpadre meu Riobaldo. Porque é amor, meu senhor. E quem não aceita amor é quem deve ter feito pacto com o diabo (ou com o pior do homem humano, se for).

Infinitas desculpas pela mediocridade desta linguagem ensaiada em reprodução do senhor. Dou todo o valor às suas palavras. Mas queria brincar de escrever, como o teatro brinca de ser. Se estamos áridos como o sertão, descobrir o amor ali abre o caminho para o amor em nós mesmos. Que assim se possa fazer. Nessa secura de gente no teatro que também se vai, esse teatro-instalação “Grande Sertão: Veredas” (sempre esgotado de público) traz um pouco de chuva, dá a esperança de que “o mundo se resolve.” A violência daquele sertão que se vê, dos corpos todos mortos que presenciamos lá, não é maior que a vida de amor e de cumplicidade de cumpadres Riobaldo e Diadorim. Há de ser assim com esse tempo de agora e que virá.

Agradeço seus ouvidos. Recomeço a ler os escritos do senhor e a ouvir Riobaldo contar:

“– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo.”

Visto dia 07 de outubro de 2017 no Sesc Consolação, em São Paulo.

[1]. Texto do programa do espetáculo.

Referências:

COELHO, Teixeira. O que é ação cultural. São Paulo: Brasiliense, 2001.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF, 2012.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: Veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

 

Ficha técnica:

Concepção, Direção Geral, Adaptação e Desenho de Luz: Bia Lessa

Elenco: Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, Leon Góes, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa.

Concepção Espacial: Camila Toledo, com colaboração de Paulo Mendes da Rocha

Música: Egberto Gismonti

Colaboração: Dany Roland

Desenho de Som: Fernando Henna e Daniel Turini

Adereços: Fernando Mello Da Costa

Figurino: Sylvie Leblanc

Desenho de Luz: Binho Schaefer

Projeto de Audio: Marcio Pilot

Diretor Assistente: Bruno Siniscalchi

Assistente de Direção: Amália Lima

Direção Executiva: Maria Duarte

Produtor Executivo: Arlindo Hartz

Colaborações: Flora Sussekind, Marília Rothier, Silviano Santiago, Ana Luiza Martins Costa, Roberto Machado

Idealização: 2+3 Produções Artísticas Ltda

Realização: Sesc, Ministério da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura.

Patrocínio Master: Banco do Brasil

Patrocínio: Globosat.

Apoio: Instituto-E

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31/10/2017 TAGS: Bia Lessa, Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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capa críticas

Da inércia à transformação

Da inércia à transformação

— por Luciana Romagnolli —

Crítica* a partir da peça Nós, do Grupo Galpão (MG), com direção de Marcio Abreu.

Nós. Grupo Galpão. Foto de Annelize Tozetto.

Nós. Grupo Galpão. Foto de Annelize Tozetto.

Nós. Grupo Galpão. Foto de Annelize Tozetto. 1

Nós. Grupo Galpão. Foto de Annelize Tozetto. 1

Há muitos modos de enfrentar artisticamente as questões éticas e políticas de nosso tempo. E a cada dia que somos atingidos por novos retrocessos nos direitos humanos e no sistema democrático do país, mais incontornável nos parece um teatro que não se isente da complexidade e da gravidade do nosso momento histórico. Há, então, aqueles artistas que decidem pelas tomadas de posição explícitas, pelos discursos combativos, pela politização partidária da arte ou sua instrumentalização em favor de uma causa. A relação entre ativismo e arte encontra suas razões particulares neste universo.

Esse teatro ativista tem ocupado espaço e comprovado sua importância na proposição de pautas de discussão para a sociedade em defesa de direitos humanos básicos, sobretudo para os grupos silenciados historicamente. E, a seu modo, age sobre nossas sensibilidades e nossas percepções, ao fazer visível, audível, sensível aqueles que ainda não o eram. Só assim consegue romper os interditos às falas subalternizadas, àquelas que não se considerou razoáveis por tantos séculos em nossa estrutura oligárquica, patriarcal e escravagista de sociedade.

Outro modo de intervir artisticamente na realidade política é o que se pode chamar de uma política da percepção. Longe dos moldes de uma “peça de tese”, talhada para provar um ponto, ou da ambição de conscientização da plateia sobre um assunto, por meio dos mecanismos discursivos de argumentação e convencimento, o que está em jogo é o deslocamento da percepção cotidiana como forma de abertura a outros modos de perceber, dar forma e atribuir sentido à experiência da vida em sociedade.

Este é um caminho mais próximo do que costumamos ver no teatro do encenador Marcio Abreu, tanto com a companhia brasileira de teatro (fundada em Curitiba há mais de 15 anos) quanto em “Nós”, primeiro espetáculo em que dirige o Grupo Galpão (um segundo trabalho com o coletivo mineiro já está em processo de criação). Seu modo de criar uma arte política passa pela sensibilização do público para as formas (da cena, dos corpos, da linguagem, das relações); pela concepção de um espectador que precisa assumir uma atitude mais ativa na atribuição de sentidos ao espetáculo; sobretudo, pela confiança nas potências singulares da arte como esse espaço de liberdade para estranhar o familiar, avivar os sentidos, inventar outros modos de vivenciar a matéria recorrente de nossos dias, experimentar transformações.

“Nós” nos oferece essa experiência perceptiva incomum em relação àquilo que nos une em grupos humanos. E articula diferentes camadas dessa vivência coletiva. Vemos sobre o palco sete integrantes do Grupo Galpão, deslocados dos tipos de atuação que mais frequentemente assumiram ao longo de seus 35 anos de história juntos. Estão em cena como os atores que são, suas personalidades singulares, embora não repitam o comportamento cotidiano, mas empreguem seus corpos e modos em uma construção estética (como é de costume fazerem os atores e as atrizes da companhia brasileira).

Essa forma de apresentar-se ao público permite entrever algo das relações entre essas pessoas, traz a possibilidade de leituras que se contaminem da própria história do grupo. Ou seja, o “nós” do Galpão está em questão. Mas nunca sozinho. Reunidos em torno de uma mesa, para o preparo de uma sopa, criam uma situação ficcional que já não pode ser restrita ao grupo de teatro, pois evoca microcosmos sociais que o ultrapassam. E há o “nós” formado pelo encontro daqueles atores e atrizes, e das figuras ficcionais que assumem, com os espectadores ao redor. São modos variados de passagem da individualidade à negociação do convívio no coletivo. “Se eu quiser fumar, eu fumo/ se eu quiser beber, eu bebo”, entoa Teuda Bara, para seguir com os versos de “Lama”, contrapondo o desejo individual à sociabilidade compartilhada: “comendo a mesma comida/ bebendo a mesma bebida/ respirando o mesmo ar”. Equilibrar essas duas instâncias, a pessoal e a coletiva, sem o sufocamento de um nem a opressão de muitos, eis a chave para a vida num grupo (de teatro) e em sociedade.

Em outras palavras: como vivermos juntos?

Essa indagação, que perpassa as tantas camadas do espetáculo, aponta para os problemas políticos contemporâneos. Especialmente num contexto polarizado, de muita replicação de discursos (e de notícias falsas) e pouca escuta, como o brasileiro hoje.

Nós. Grupo Galpão. Foto de AnnelizeTozetto. 3

Nós. Grupo Galpão. Foto de AnnelizeTozetto. 3

A dramaturgia, escrita por Marcio Abreu e pelo ator Eduardo Moreira, se aproveita então da matéria biográfica daquele grupo, contemplando a intimidade das muitas décadas juntos, as diferenças e divergências, o envelhecimento, a estagnação e a transformação – questões estas que dizem respeito também à vida pública. De início, a repetição e a inércia, seja a do artista ou a do sujeito político, emergem como sintoma. A sequência de repetições levemente alteradas da cena da feitura da sopa nos envolve numa espiral em que as réplicas tornam-se refrões, ganham essa qualidade estética, musical, que retorce os sentidos postos a princípio. “Do que vocês estão falando?”, pergunta insistentemente Teuda Bara, até que essa frase se descole do seu contexto primeiro e nos convoque, espectadores, a questionar para além da aparência o que ouvimos.

Talvez a cena mais complexa do espetáculo (e das mais interessantes do teatro brasileiro recente) seja a sequência da expulsão da atriz Teuda Bara pelos seus companheiros. A proximidade entre a estreia de “Nós” e a derrubada da presidente Dilma Rousseff propiciou um paralelo muito direto entre os destinos dessas duas figuras femininas. É grande o impacto de vermos o corpo de Teuda, com suas dimensões amplas, sua presença das mais marcantes do teatro brasileiro, enfim, seus 76 anos de vida, ser retirado à força por aqueles com quem construiu uma história juntos. Ao mesmo tempo, ela encarna, ali, a inércia daquela figura que já não contribui como antes para o trabalho coletivo. Levanta questões éticas delicadas sobre envelhecimento, descarte e a exclusão do outro.

Em contraponto à inércia, temos a possibilidade de transformação. Nos corpos nus de Eduardo Moreira e de Teuda, vemos o ator e a atriz se apresentarem de um modo inédito, não somente pela nudez em si, que é deserotizada, mas justamente pela fragilidade que se permitem ao ser o suporte físico para o registro documental de dados da violência contemporânea. Na banda formada pelo Galpão, os corpos também destoam do familiar, agora despertados na sensualidade que homens e mulheres maduros não mostram tão frequentemente, ainda com uma nota frágil que torna tudo mais humanizado, mais próximo, como “nós”.

Transformados aparecem o teatro de Marcio Abreu e o teatro do Grupo Galpão por esse encontro entre ambos, num tempo e num espaço específicos: o Brasil dessa segunda metade de década. Há mais referências diretas aos problemas sociais do que se via antes na obra do diretor – uma mudança que prossegue de formas diversas em “Projeto BRASIL”, da companhia brasileira, e “Preto” (também da brasileira, com os mineiros Grace Passô e Felipe Soares, que farão sua temporada de estreia de 09/11 a 17/12, em São Paulo). Há outro modo de articular o teatro à vida, muito distinto na trajetória do grupo de atores. E há a possibilidade de que os espectadores, convidados ao fim à celebração dessa ocasião de estarem juntos, também se disponham à escuta, à alteridade e à transformação.

“Talvez seja impossível mudar o mundo. Talvez o caminho seja começar por nós mesmos”, é o que nos diz, em cena, Eduardo Moreira.

*Texto escrito a partir do artigo “Do que vocês estão falando?: ressonâncias formais e políticas de uma dramaturgia do convívio”, publicado na revista Sala Preta, vol. 16, n. 2, 2016.

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24/10/2017 TAGS: Belo Horizonte, Eduardo Moreira, Grupo Galpão, Marcio Abreu BY: Luciana Romagnolli
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Um lugar pra gerar e compartilhar acontecimentos

Um lugar pra gerar e compartilhar acontecimentos

–– por Bremmer Guimarães, com a colaboração de Luciana Romagnolli —

Entrevista com o diretor e dramaturgo Marcio Abreu 

Marcio Abreu no Festival de Curitiba

Marcio Abreu no Festival de Curitiba

Foto de Annelize Tozetto.

Fazer um teatro que possa gerar e compartilhar acontecimentos. Num período de manifestações políticas efusivas nas artes e também contra elas, o cuidado com a forma e a linguagem é uma preocupação do diretor e dramaturgo Márcio Abreu. Quando conversamos, há cerca de dois meses, no teatro da reitoria da UFMG, a onda conservadora e de repressão às artes ainda não esboçava seu ódio como hoje no país, mas as discussões que cercam o tema já eram efervescentes.

Falávamos sobre a presença dos corpos não hegemônicos nos palcos, de suas vozes e lutas cada vez mais presentes na atualidade, e sobre como buscar potências para que as artes, especialmente o teatro, não reproduzam discursos simplesmente, mas possam expandir percepções. A cada dia, um novo movimento. Uma nova resistência.

Num contexto de crise, a possibilidade de transformar. Numa estadia por Belo Horizonte em agosto, como convidado do 49º Festival de Inverno da UFMG, Márcio conversou com o Horizonte da Cena sobre a forma como os acontecimentos políticos do Brasil tem atravessado a sua trajetória enquanto artista, sobre seu encontro com a cena teatral de BH e também falou dos projetos atuais e futuros.

Vendo alguns trabalhos da Companhia Brasileira de Teatro, como “Oxigênio” (2010) e “Isso Te Interessa?” (2011), é possível perceber que os recentes acontecimentos políticos do país, que têm se intensificado desde 2013, afetaram muito a sua criação. O crescimento do movimento negro, feminista e LGBT também é cada vez mais presente. Em relação aos espetáculos anteriores, “Projeto Brasil” (2015) e “Nós” (2016) são uma forma mais concreta de se chegar a essa percepção. Como essas questões políticas afetam realmente o seu trabalho?

Eu acho que é uma teia de relações complexas. Com dimensões conscientes e inconscientes. A primeira coisa que eu acho é que, de certa maneira, historicamente, esses acontecimentos do país a partir de 2013 são posteriores a determinadas decisões que eu acabei tomando no rumo do trabalho com a companhia e que foram também fruto de um movimento contínuo de trabalho e pesquisa. Das inter-relações entre uma peça e outra, aquilo que faz a gente se desdobrar de um trabalho pra outro, o que de uma pesquisa maior acaba perpassando cada trabalho, o como essa pesquisa fez a gente chegar em determinados lugares. “Oxigênio” e “Vida” (2011) já tinham essa proeminência política. A decisão de fazer “Projeto Brasil” é muito anterior aos acontecimentos de 2013. Foi uma coisa que aconteceu entre 2011 e 2012, quando a gente tinha acabado de estrear “Isso Te Interessa?”, e estava se desdobrando no “Esta Criança” (2012). Mas é verdade que o contexto de criação, todos os encontros que a gente teve na época da pesquisa, anterior aos ensaios, a estreia, a vivência das turnês, tudo isso foi sendo atravessado por aquele momento, que não começou também apenas em 2013, e em que jamais imaginaríamos o país onde estamos hoje. E tudo isso que estou falando é uma alternância entre movimentos conscientes e inconscientes. Como respostas de vida, de pensamento. Como você é afetado pelo mundo? Como você responde ao mundo a partir disso? Que é a questão que eu coloquei para o Galpão e que orientou a concepção do “Nós” e o caminho dramatúrgico do espetáculo. O princípio da peça é esse.

É interessante você falar sobre “Oxigênio” e “Vida”, que já tinham essa potência política, mas com esse novo contexto do país, a obra também ganha uma nova leitura.

Sim. Ela reverbera. Porque toda obra é relacional. Digo isso na minha perspectiva de pensar o teatro. Claro que o “Vida” e o “Isso Te Interessa?” vão vibrar agora em outro contexto. Vão existir de outra maneira. Hoje eu vejo o “Isso Te Interessa?” e é uma família icônica, uma família e todas as famílias, uma mãe e todas as mães, ou várias ideias de mães, várias ideias de filhos, e de gerações, e de passagem de tempo sobre a vida das pessoas. Mas a verdade é que ver hoje essa família articulada na passagem do tempo de “Isso Te Interessa?” é ver a ruína de um modelo familiar. O que é muito interessante. De certa maneira, a peça fica mais nítida nesse sentido. Claro que a gente já via essa ruína no modelo de família, mas hoje a discussão sobre isso é muito mais publicizada, experimentada, desdobrada do que era em 2011, quando a gente estreou.

Em continuidade a esse pensamento, aqui em Belo Horizonte e no Brasil como um todo, temos percebido que essas temáticas mais explicitamente políticas têm ocupado cada vez mais os palcos. Com uma mudança também da forma, com discursos mais diretos sendo colocados em cena, depoimentos dessas subjetividades que eram invisibilizadas. No seu trabalho, como está presente essa preocupação entre um lugar mais político, de um discurso direto, e também o lugar da forma, da estética, da poética?

Isso é uma questão fundamental. É um movimento de buscar entender, e quando eu digo entender, eu estou falando de materializar a experiência na criação, na obra de arte, que ganha dimensão política consciente. Tem a ver com construção de linguagem antes de tudo e não com tema. Pra mim tem mais a ver com modo. E não ser veículo pra reprodução de discursos sobre temas. Mas mobilizar possíveis percepções na convivência por meio de uma arte que se pretende viva como o teatro. Viva num sentido que coloca vidas em relação, num período de tempo, vibrantes, permeáveis, a partir de prerrogativas estéticas, do uso da língua, das distensões, da presença, do corpo, do jogo de tensões entre esses elementos. Como se produz imagem para além da bidimensionalidade, a escuta, como as palavras deixam de ser o resíduo de um rumor social e passam a ter vibração própria. Todas essas coisas são obsessões minhas. De certa maneira, são o que me vinculam à busca de uma dimensão política consciente.

Você e a companhia sempre tiveram uma relação muito forte com BH. Um exemplo é a presença junto ao Espanca nas edições do Acto! – Encontro de Teatro. Essa relação tem se intensificado nos últimos anos, com você dirigindo o Grupo Galpão, artistas da cidade como Grace Passô e Felipe Soares também trabalhando com a companhia. Como essa relação com a cidade te transforma?

Eu tenho dito isso há algum tempo, eu acho Belo Horizonte muito singular, especial. BH sempre foi uma cidade que me recebeu de muitas formas. Através da amizade, através da convivência profissional com artistas daqui. Com a Companhia Brasileira nós viemos muito pra cá, fomos construindo um público aqui. E eu vim antes de vir com a companhia, no Sabadão do Cine Horto, junto com o Luís Melo, num trabalho que fiz quando era muito jovem, uma peça inspirada em Tchekhov, chamada “Daqui a Duzentos Anos” (2004). Depois disso, vieram muitos desdobramentos. Veio minha relação com a Babaya. Com o Galpão, já desde aquela época. Com a Grace. Depois o Espanca. Marcelo Veronez. São pessoas, artistas daqui, muito legais. E fui criando essa frequência de vir pra cá, felizmente. Sendo atravessado por um movimento daqui que é muito agregador. Tem uma vivência do coletivo na cidade muito interessante, dos grupos, da dimensão pública das coisas. A vivência dos espaços públicos, da rua, tem uma afirmação política que, nos últimos anos, eu acho das mais potentes no Brasil, não tenho dúvidas disso. Com as gerações novas que chegam se transformando por isso e retransformando também. Por mais que seja conflituoso. Eu entendo que também existem zonas de conflito, lugares difíceis, contrastes. É uma cidade como outras do Brasil, complexa, com uma burguesia intensa, uma política tradicional muito violenta, mas com um contexto de convivência muito favorável, muito generoso e inspirador.

E ao assistir aos trabalhos, o que desperta o seu interesse na cena teatral de BH hoje?

É difícil dizer. Eu percebo que aqui é mais recorrente, de uma forma mais radical, a relação com espaços públicos. Eu acho que isso é uma característica interessante. E eu acho que o teatro que se faz dentro da sala, muitas vezes, também recebe uma referência, recebe algo, que vem dessa dimensão pública. Tem alguma coisa aí que eu não desvendo, que eu não sei falar muito sobre, mas que talvez passe por essa relação entre público e privado. E isso foi algo que também orientou muito meu trabalho com o Galpão, não à toa.

Estamos no contexto de um festival, aqui na UFMG. Você tem sido curador do festival de Curitiba, nos últimos anos. Vivemos um período político com cada vez mais cortes na cultura, diversos projetos sobrevivendo com suas programações reduzidas. Como você vê esse papel da curadoria, esse lugar de resistência dos festivais? Que questões essa experiência tem te trazido?

Eu vejo como lugares de resistência e necessariamente de pensamento em movimento, em transformação. Eu acho que esses lugares existem também na sua potência quando eles se repensam, porque há abalos no mundo. É preciso se repensar, se reestruturar os lugares de encontro. Mas é importante sobretudo ocupar todos os lugares. E acho que a gente tem conseguido fazer transformações.

E você também já tem um futuro trabalho previsto com o Grupo Galpão, tem em breve a estreia do espetáculo “Preto”, que integra uma trilogia junto ao “Projeto Brasil”. Como a relação com artistas com experiência e vivências tão diferentes e distantes interfere no seu trabalho como diretor e dramaturgo?

É uma sorte. Um plantio que gera frutos. Uma horta frondosa. É sobre isso. Sobre a diferença. Sobre a convivência. Sobre a possibilidade de se afetar pelo outro. De encontrar movimento de vida na relação com o outro. É sobre isso. Essas pessoas com trajetórias, referências, repertórios, pontos de vista, corpos e vozes, tão distantes. É um brilho. É fruto de um trabalho que temos desenvolvido, que é gerar a possibilidade desses diálogos. Fico muito feliz de ter tantas pessoas por perto.

“Preto” tem previsão de estreia para novembro. Como tem sido esse processo?

Difícil. Bem difícil. Instigante. Repleto de saberes provisórios, de decisões transitórias, de enfrentamentos, de muita escuta. É perseverança em não cair naquilo que parece ser mais fácil, que dá mais conforto. Na insistência em adiar decisões pra que o processo nos mostre coisas mais potentes, que a gente não é capaz de definir fora dele. Não só racionalmente, mas dentro de um fluxo de criação. O confronto com o real de um jeito complexo, pois há vozes emergentes e legítimas pra falar sobre assuntos. É tentar que o teatro não seja apenas um lugar pra falar sobre as coisas. Não é simples, mas que seja um lugar pra gerar e compartilhar acontecimentos.

“Projeto Brasil” e “Preto” fazem parte de uma trilogia. O terceiro trabalho já tem o título provisório “Vontade de Beleza”. Como esse projeto já afeta o processo atual?

Afeta porque coloca uma perspectiva de continuidade. É a manifestação de um ato de resistência.

E em relação ao Galpão, diferentemente de “Nós”, esse novo trabalho tem uma proposta de partir de um texto prévio?

Não necessariamente. É uma das perspectivas. A gente leu alguns textos, que atravessam a nossa pesquisa e o repertório do grupo. Pode ser que seja uma dramaturgia original. Ainda não sabemos. E depois do “Preto”, antes do Galpão, a gente tem uma outra montagem da Companhia Brasileira, a partir de um texto do Tchekhov. E eu ainda não sei qual vai ser o nome da peça. É um projeto que a gente tem desde 2009 e é um texto nunca traduzido e montado no Brasil. É a primeira peça dele, ela não tem título. Ela foi guardada numa gaveta, foi descoberta depois de sua morte. Ele negou essa peça. Realmente ele era muito jovem quando escreveu. É uma peça jovem, cheia de sobras, meio inacabada, meio esboçada. E vamos fazer um enorme trabalho de adaptação e construção de dramaturgia a partir desse texto.

 

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16/10/2017 TAGS: Companhia Brasileira, Curadoria, Curitiba, Entrevista, Grupo Galpão, Marcio Abreu BY: Luciana Romagnolli
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Dança Doente: um ritual contemporâneo de adoecimento, morte e transformação

Dança Doente: um ritual contemporâneo de adoecimento, morte e transformação

— por Fernando Barcellos —

Crítica a partir de “Dança Doente”, de Marcelo Evelin (PI), vista na Bienal Sesc de Dança 2017

Dança Doente

Dança Doente

Dependendo do campo de conhecimento em que se está operando, a palavra doença pode assumir diversos significados. Na área da saúde, é utilizada para definir a alteração no estado de saúde de um ser, manifestada através de um conjunto de sintomas, isto é, sinais de que o corpo não está funcionando como deveria. Neste caso, a doença pode ter inúmeras causas, não limitadas aos exemplos seguintes: um patógeno invasor que faz o corpo perecer; uma anomalia na reprodução celular que provoca tumores; uma variação genética que altera o funcionamento biológico do corpo; ou um trauma psíquico violento. Por outro lado, na dinâmica das relações humanas cotidianas, frequentemente empregamos esta palavra para denominar o mal funcionamento destas relações: um casamento doente; uma amizade doente; um amor doente. De forma mais ampla, as variações da palavra doença também podem ser utilizadas para descrever anomalias na estrutura e no funcionamento das macroinstituições: a sociedade está doente; a Igreja está doente; a política brasileira está doente.

Em todos os sentidos abordados acima, seria possível afirmar que a doença está intimamente atrelada a uma noção de negatividade, destruição, morte, sofrimento e erro. Entretanto, seria pertinente levantar aqui um questionamento: não há ainda outro sentido da palavra doença, que não localiza seu significado em nenhum dos polos do binômio negativo/positivo, mas que dança no olho do furacão formado pelo embate entre estes polos? Um sentido borrado, mais atrelado à ideia de transformação do que à noção de mal que precisa ser curado? Uma doença necessária, que mata para que nasça algo diferente?

A obra Dança Doente, de Marcelo Evelin/ Demolition Incorporada, componente da programação da Bienal SESC de Dança 2017 que ocorreu em Campinas entre os dias 14 e 24 de setembro, talvez relacione-se, de maneira mais ou menos explícita, aos significados da palavra doença levantados anteriormente. Nela, um grupo de 10 intérpretes constrói ao longo de 90 minutos uma experiência coletiva utilizando movimentos, sonoridades, tecidos, luzes e cores, consolidando um ritual que busca envolver performers e público em uma trama de adoecimento, morte e transformação.

Penso que conhecer um pouco da trajetória da Demolition Incorporada nos permite aproximar deste outro sentido de doença que, ao meu ver, faz-se presente na obra de Evelin e dxs demais demolidores. A plataforma de criação em dança Demolition Incorporada foi criada no inverno de 1995, em Nova Iorque, pelo coreógrafo Marcelo Evelin e outrxs colaboradorxs. Desde então, essa plataforma móvel – atualmente em Teresina, no estado do Piauí, mas propondo-se a estabelecer parcerias em diferentes lugares do mundo – segue suas atividades orientada por práticas colaborativas de criação, alternativas aos modos pelos quais geralmente funcionam grupos e companhias fixas. Segundo o site, a ideia de demolição contida no nome desloca-se do sentido tradicional de destruição ao afirmar que “demolir é remover um volume de forma específica, para ali, naquele contexto, fazer surgir um outro”. Talvez esta afirmação seja a porta de entrada para entender o sentido de uma dança adoecida, em que a doença mata um volume de forma específica, para fazer nascer um outro.

Retornemos então para Dança Doente. Ao observar o palco momentos antes do início da obra, o público se depara com um tablado praticamente nu. Há apenas dois performers que controlam a luz e o som, e um tecido preto na metade direita do palco que cobre parte do pé direito. Acredito que o espaço escolhido para a realização da performance (um tablado montado no pátio externo do Centro Cultural de Inclusão e Integração Social da UNICAMP – CIS Guanabara, a antiga estação ferroviária Guanabara) contribui de maneira interessante para as ações que se seguirão. Se de fato Dança Doente pode ser entendida como um ritual de transformação, é natural que ocorra em um pátio praticamente a céu aberto. Afinal, são nos terreiros que acontecem as festas rituais para xs orixás, recheadas de dança, som e fúria.

Entretanto, esta atmosfera estável não dura por muito tempo. Subitamente, como uma injeção que introduz na corrente sanguínea um patógeno invasor, o espaço cênico é invadido pelxs performers e pela trilha sonora que, a partir daí, compõem com diferentes elementos utilizados pontualmente (palhas, penas, rendas e tecidos) as texturas dramatúrgicas da obra. Os corpos, inicialmente imóveis, parecem querer demarcar seu lugar no espaço-tempo de forma inabalável, como se quisessem desesperadamente vencer a força de uma doença da qual não se pode fugir.

Inesperadamente, um dos corpos é tomado por uma movimentação rápida e vertiginosa, composta em sua maioria por espirais, espasmos e torções, remetendo às danças incorporadas presentes nos rituais religiosos afro-brasileiros. A relação é, porém, apenas sugerida: durante toda a obra xs interpretes constroem sua movimentação sem se entregarem a clichês ou estereótipos, seja dos movimentos do candomblé, seja dos movimentos da dança Butô (duas referências primárias da obra, conforme nos informa sua sinopse). Pouco a pouco, o corpo de cada umx dxs intérpretes sucumbe à movimentação e dança em um transe coletivo que ocupa todo o palco e, por vezes, seu exterior, criando uma espécie de geografia da doença que acomete gradativamente aqueles corpos, traçando desenhos e deixando rastros.

Entendo que Dança Doente tenta ampliar o sentido da palavra doença, visando abarcar a ideia de que, através da dela, opera-se sempre um fenômeno de transformação a partir do qual é possível redescobrir a si mesmo, bem como a relação com o outro e com o espaço em que se vive. Ao privilegiar corpos em cena que fogem do estereótipo tradicional dx bailarinx (magrx, longilínex, depiladx) e que dançam construindo movimentos assimétricos, retorcidos e espasmódicos – que também se distanciam de certo formalismo presente em alguns espetáculos de dança – é possível dizer que a doença que acomete a dança de Evelin e suas/seus parceirxs pretende matar/demolir certo padrão de dança/movimento para fazer nascer um outro/uns outros, talvez mais livre(s) e humano(s).

Ao escancarar o contato tão visceral e íntimo dos corpos de dois homens – em uma cena que nos remete aos mitos de origem da criação do universo, nos quais frequentemente duas ou mais forças da natureza se encontram em uma explosão furiosa – a perspectiva transformadora da doença também se faz presente, pois pretende demolir/matar certo padrão de origem/criação do universo para fazer nascer um outro/uns outros, talvez menos conservador(es) e limitado(s).

Ao propor na cena final uma caminhada dilatada que dura vários minutos, embalada pelo dedilhar espaçado de um pequeno instrumento de corda, o coletivo pretende adoecer nossa noção de tempo, ao demolir/matar certo padrão de velocidade que impera nas relações contemporâneas para fazer nascer um outro/uns outros, talvez mais perene(s) e propício(s) ao estabelecimento de relações menos superficiais. É a partir deste mecanismo de adoecimento/morte/transformação que o coletivo tenta operar em cena um ritual do qual x espectadorx é testemunha.

Em tempos tão obscuros, nos quais assistimos espantados ao reaparecimento de grupos conservadores radicais nos diversos campos da vida pública (política, religião, sistema judiciário, educação, entre outros), obras com Dança Doente são, além de necessárias, urgentes.  Antonin Artaud escreveu no início do século 20 (há cerca de 100 anos) – no prefácio de O Teatro e seu Duplo, uma de suas obras mais conhecidas – que “há um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida que está na base da desmoralização atual e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu com a vida e que é feita para reger a vida”.

Se nos voltarmos para o caso da censura da exposição QueerMuseum pelo Santander Cultural após um boicote coletivo liderado pelo Movimento Brasil Livre, ou para o impedimento judicial de realização de uma peça em que Jesus era interpretado por uma mulher trans, ou ainda para a recente liminar que determina que o Conselho Federal de Psicologia não se posicione de maneira contrária a tratamentos de reversão sexual, perceberemos como as impressões de Artaud não estão datadas. Enquanto em Brasília somos governados por políticos que são em sua maioria criminosos denunciados pela Justiça (incluindo o Presidente da República), grupos ultrarradicais preocupam-se em defender um padrão de cultura que sempre excluiu e marginalizou. Mais do que nunca, precisamos diagnosticar propostas artísticas doentes e fazê-las persistir, para que, como em uma epidemia, dancemos todos doentes. Transformados.

 

 

 

 

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03/10/2017 TAGS: Bienal de Dança, Dança, dança contemporanea, Demolition Inc, Marcelo Evelin BY: Luciana Romagnolli
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Quando o Corpo dança nas encruzilhadas de Exu

Quando o Corpo dança nas encruzilhadas de Exu

 Crítica a partir do espetáculo “Gira” do Grupo Corpo (BH)

– por Clóvis Domingos –

Primeiro
que nasceu,
último
a nascer.
Deus capaz
de ardis,
controlador
dos caminhos.
Elegbara,
Parceiro
de Ogum.
Barrete.
Cabelo pontudo
como um falo.
Dono dos oitocentos
porretes.
Oitocentos
porretes nodosos.
Senhor da fala
fácil.
Sopra a flauta
e seus filhos vêm.
Bará chega fungando.
O povo pensa
que é o trem
partindo.
Exu. Oriki de Ricardo Aleixo

Para escrever sobre o espetáculo Gira, começo reverenciando Exu, o Mensageiro e Senhor da Palavra e da Comunicação, divindade homenageada pelo mais novo trabalho do Grupo Corpo. Nesse espetáculo, o “corpo que dança” é o grande protagonista em uma coreografia que transita entre o ritual e o poético.

O palco nu é invadido por feixes de luz amarela (que remetem a velas acesas como nos altares dos terreiros de umbanda e candomblé) e rodeado por cadeiras pretas, nas quais os bailarinos se sentam e se cobrem com um fino tecido preto. Não só assistem a tudo o que se passa, mas podem também simbolizar “corpos fechados”, que, por essa configuração cenográfica, evocariam o aspecto do hierático e do misterioso (como os espaços-santuários das camarinhas e suas liturgias de preparo).

Ao adentrarem o centro da cena para dançar, esses corpos são possuídos pelo bailado sagrado e abandonam as “vestes” do recolhimento e do tempo necessário de iniciação para assim se iluminarem, celebrarem a vida e receberem a energia emanada por Exu. Outra leitura possível seria a saída do espaço da escuridão e das sombras para o habitar na Luz, esta, irradiada no palco como lugar de fulguração no qual se dança.

Os bailarinos, como que “corpos emprestados” não só às manifestações das forças divinas, mas também às dinâmicas construídas para a execução da coreografia, apresentam um variado conjunto de desenhos com os braços e as mãos, além de intensos movimentos de quadril, chegando à experimentação de uma dança na posição de cócoras, numa renovação da gramática coreográfica do Grupo Corpo, que muitas vezes, em seus espetáculos, vem privilegiando uma estética mais retilínea e vertical (presente, por exemplo, em Bach, apresentado na mesma noite). Em Gira, diferente e mais notadamente, percebo que de fato o corpo gira, se dobra, sacode, rodopia, parece entrar em transe e encarna a malemolência, a astúcia, a ludicidade e a sexualidade características de Exu.

Com o dorso e o peito nus, os bailarinos utilizam figurinos constituídos apenas por saias brancas, o que aumenta a sensação vertiginosa provocada pelos inúmeros saltos e giros corporais que, dessa maneira, conseguem nos provocar a impressão de serem forças espirituais que dançam quando perdemos a noção da forma humana. Corpos que se apresentam como linhas e pontos que riscam o traçado do espaço. Lanças guerreiras que cortam e atravessam a dimensão ordinária do tempo.

Outro destaque é a maquiagem, com a cor vermelha de Exu marcada no pescoço dos bailarinos. Interessante associarmos a região da garganta (localização do chacra laríngeo) como lugar de fala, de expressão, “casa da palavra” e, no caso de Elegbara, como em significativa parte da cosmologia africana, a tradição da oralidade é forte, num amplo universo cujas palavras são chamamentos, podem ser preces, produzem curas e atuam como verdadeiras entidades vivas. Palavra e corpo nunca estiveram nem estão dissociados.

Se cenário, luz e figurino assumem uma estética minimalista, já a trilha sonora composta pela banda MetáMetá nos arrebata e contagia ao se encontrar com o marcante vigor físico dos bailarinos. Mescla diferentes sonoridades que vão desde os ritmos e batuques tradicionais e religiosos, até às melodias mais suaves e com leves pitadas e tons de jazz, escapando assim de uma certa padronização quando se trata de musicalidade africana.

O mesmo se pode afirmar da coreografia de Rodrigo Pederneiras. Numa encruzilhada poética, repleta de diferentes caminhos e possibilidades, não se prende aos repertórios decodificados do que se denomina como dança folclórica africana, como também não cai no perigo de movimentações ensimesmadas de algumas formas de dança contemporânea – no caso da temática do espetáculo, não se pode desconsiderar os contextos e matrizes aos quais está secularmente entrelaçada. Gira resulta num bom equilíbrio entre tradição e modernidade, religião e arte, figuração e abstração, agitação e pausa. É possível identificar a pesquisa de vocabulário coreográfico dos trabalhos do Grupo Corpo ao mesmo tempo em que se percebe a efetuação de uma nova camada de experimentações.

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Exu: orixá dos caminhos. Se em Benguelê, espetáculo de 1998, o Grupo Corpo apresentava fortes influências advindas da aproximação com as raízes negras (num conjunto de movimentos inspirados nas congadas, nas Folias de Reis e quadrilhas), em Gira, a cultura e a religiosidade africanas são o mote principal. Em tempos de crescente e preocupante intolerância e violência religiosa, a opção estética do Grupo Corpo ao trazer para o cerne de sua criação a presença de um deus não cristão e negro pode ser lida como um gesto político anunciador de um possível “caminho aberto” para as transformações sociais.

Se Exu é criação e transformação, com o espetáculo Gira, o Grupo Corpo, em seus 42 anos de existência, mais uma vez se renova, agora por meio da criação de uma peça coreográfica mítica, afetiva e livre de virtuosismos, cujos movimentos eletrizantes e circulares reverenciam nossa formação, identidade e memória africanas, que se reatualizam pela força da dança contemporânea.

Espetáculo visto em 06/09/2017 no Grande Teatro do Palácio das Artes.

FICHA TÉCNICA

Coreografia: Rodrigo Pederneiras

Assistentes de coreografia: Ana Paula Cançado, Carmen Purri e Míriam Pederneiras

Diretora de ensaios: Carmen Purri

Bailarinos: Ágatha Faro, Bianca Victal, Brisa Carrilho, Carol Rasslan, Dayanne Amaral, Edmárcio Júnior, Edson Hayzer, Elias Bouza, Filipe Bruschi, Grey Araújo, Helbert Pimenta, Janaina Castro, Karen Rangel, Luan Batista, Lucas Saraiva, Malu Figueirôa, Mariana de Rosário, Rafael Bittar, Rafaela Fernandes, Sílvia Gaspar, Williene Sampaio e Yasmin Almeida.

Trilha Sonora: MetáMetá

Figurino: Maria Luiza Magalhães

Coordenador técnico: Gabriel Pederneiras

Diretor artístico: Paulo Pederneiras

 

 

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26/09/2017 TAGS: Belo Horizonte, candomblé, Dança, Grupo Corpo BY: Luciana Romagnolli
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Relatos de um encontro

Relatos de um encontro

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20448908_10154627647076960_85354881873896017_oFoto: Lucas Ávila

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20423972_10154627641931960_4206796209230651980_oFoto: Lucas Ávila

— por Bremmer Guimarães e Igor Leal —

Crítica a partir de “Partilha de uma Vivência”, da Ong Transvest.

 

Esta crítica começa com uma autocrítica e uma esperança de renovação. Somos dois artistas e críticos gueis e cisgênero. Em muitos momentos desse processo de criação e costura de olhares, impressões e atravessamentos, conversamos e nos provocamos sobre os desafios de escrever sobre um trabalho artístico que traz atrizes e atores transgênero em cena e na grande maioria da equipe criadora. Um trabalho que já no título se revela como a partilha de uma vivência. Experiência. Vivências que não são as nossas, mas que foram compartilhadas por meio da arte e da política.

Mesmo que toda subjetividade traga uma vivência diferente, algumas vivências ainda são mais visibilizadas do que outras. Dentre muitas reflexões, nos atentamos para o fato de que, se a ocupação de artistas transexuais ainda é rara no palco e em outras funções mais próximas do considerado explicitamente criativo nas artes cênicas, como na direção e na dramaturgia, ela é ainda mais desconhecida na crítica teatral. Um cenário que precisa ser renovado para que a reflexão e a sensibilização sobre o teatro e as artes se potencializem ainda mais em nossa sociedade.

A discussão sobre a representatividade de identidades trans no teatro, no cinema e na televisão vem ganhando cada vez mais destaque na arte, na mídia e na esfera pública. Questiona-se o fato de as subjetividades de travestis e transexuais serem negligenciadas em diversas obras, dando lugar a uma representação estereotipada e preconceituosa, que reforça o gesto de tornar exóticas as pessoas transgênero. Podemos perceber isso nas caricaturas de muitas comédias, estruturadas a partir de um humor transfóbico, ou em dramas moralistas nos quais as figuras trans são sempre subjugadas à prostituição e à marginalidade.

Além disso, mesmo em projetos nos quais parece existir sensibilidade e tentativa de abordagem mais aprofundada das figuras LGBTs, sujeitos trans continuam sendo interpretadas por atrizes e atores cis, geralmente em produções que são compostas apenas por profissionais cisgênero em toda a ficha técnica. A manutenção dessa prática traz à tona a discriminação e restrição de acesso a determinados espaços com as quais artistas transexuais precisam lidar diariamente. Ignoram-se suas vivências e também o fato de que muitos cursos e escolas de atuação no país ainda não foram capazes de romper uma lógica cisnormativa e binária de organização da sociedade, o que reflete diretamente na educação, na formação artística e, consequentemente, no mercado de trabalho das artes cênicas.

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20424092_10154627646766960_5663568287955637714_oFoto: Lucas Ávila

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20451862_10154627644926960_8281533383081065488_oFoto: Lucas Ávila

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19095684_10154627647156960_4252812429061374015_oFoto: Lucas Ávila

Em “Partilha de uma Vivência”, experimento cênico da oficina TransTeatro da ONG TRANSVEST, ministrada por Odilon Esteves (ator na companhia Luna Lunera), apresentado no Museu da Moda de Belo Horizonte, essas discussões sobre representatividade ganham densidade político-poética, evocando reflexões importantes na cena teatral de Belo Horizonte. Se a iniciativa de criar um curso de teatro voltado para pessoas transexuais já é, por si só, uma subversão do pensamento conservador sobre gênero e sexualidade ainda presente nas instituições de arte, evidenciando o caráter político da apresentação, o percurso compartilhado no palco é também uma subversão da linguagem, da forma como fazemos teatro por, com, para e sobre pessoas trans.

O trabalho compartilhado com o público é um breve exercício cênico e uma partilha acerca das vivências transexuais, que perfuram a dívida histórica que temos com a comunidade T. A dívida de Odilon Esteves com Cíntia (personagem que interpretou na minissérie “Queridos Amigos”). A dívida das escolas que rejeitam e expulsam seus alunes. A dívida nossa enquanto críticos e espectadores com o material vivenciado. A dívida da classe artística com tantas pessoas que há anos vêm sendo material criativo de uma arte que as impede de serem donas de si, que ainda se pauta pela representação. Mesmo quando o intuito é conscientizar, não se percebe que essa representação é, muitas vezes, excludente.

Gayatri Spivak, escritora indiana e autora de “Pode o Subalterno Falar?”, obra referência do pós-colonialismo, apresenta questionamentos sobre a possibilidade de sujeitos oprimidos “falarem” ou terem autonomia. A autora chama atenção para a dificuldade das minorias em produzir discursos e tomarem posse de sua própria representação. Isso devido à impossibilidade de se apropriarem efetivamente das condições materiais de existência – a descontinuidade entre a consciência e a transformação. Na análise da escritora, representação aparece como dois sentidos: o “falar por”, como dimensão política, e o “re-presentar”, como questão estética. Para ela, estas duas dimensões estão intrinsecamente ligadas, pois em ambas pressupõe-se um falante e um ouvinte. A transformação está na concretude da possibilidade de falar de si. Possibilidade que em “Partilha de uma Vivência” se efetiva, enquanto ritual teatral, e da qual se espera uma possibilidade de transformação contínua, também nas performances do nosso cotidiano.

A primeira cena do experimento nos convoca para a conscientização sobre a exclusão de pessoas trans do mercado de trabalho. E é importante percebermos mais uma vez que essa exclusão também abrange os espaços de trabalhadoras e trabalhadores no teatro e diversas artes. Dando corporeidade e voz a personagens no contexto de uma entrevista de emprego, as atuantes desenvolvem um diálogo que detona como o reconhecimento do nome social ainda é ignorado por muitas instituições e empresas.

Com artistas trans interpretando ao mesmo tempo sujeitos cisgênero e transgênero, a cena complexifica o debate sobre a neutralidade de gênero da atriz e do ator — justificativa muitas vezes utilizada por produções cissexistas para críticas recebidas quando atrizes e atores cisgêneros são escalados para interpretar trans, negando a transfobia e a falta de empatia que muitas vezes existe por trás dessas escolhas de elenco. Ao se apropriarem da “paródia cisgênera”, as atuantes desnaturalizam os códigos de gênero (masculino e feminino) de maneira estratégica, gerando uma cena que debocha e ressignifica os dispositivos de representatividade na organização do Estado.

Além disso, é importante também nos atentarmos para a cooptação da “cultura do lacre” pela indústria cultural. Além de representarem uma identificação muito restrita de nossas realidades, a espetacularização de subjetividades LGBTQ têm se tornado cada vez mais um mecanismo de publicidade e incentivo ao consumo, em geral com pouco apoio efetivo à luta contra as desigualdades sociais e econômicas, que atingem fortemente a população transgênero. Como dito pelo diretor Lui Rodrigues, também homem trans, após a apresentação do trabalho, “o dinheiro não chega até aqui!”.

Ainda sobre os códigos de gênero e suas materialidades, vale destacar a apresentação dos corpos. As atrizes quando nuas censuravam os mamilos, já o ator permanecia sem camisa com os seios sem censura, borrando o pensamento biológico cisnormativo. O que poderia ser uma reprodução das lógicas normativas que permitem homens permanecerem sem camisa e censura com tarjas os mamilos das mamas das mulheres, nesse caso é a apropriação  transformadora dos códigos de gêneros disponíveis socialmente.

Outra cena do trabalho se destaca ao desenvolver, a partir da performance de três diferentes vozes, a narrativa de uma mesma história de vida, uma autobiografia em comum. A proposta cênica denuncia certo determinismo nas experiências da população trans, dado pelas forças sociais. Mesmo com esse determinismo social que nos impele a um “modelo trans”, vemos uma diversidade de possibilidades de experiências e subjetividades trans. Questões e singularidades de vivências múltiplas, multiplicidade de corpos e afetos. Uma imensidão de possibilidades de trânsito entre as identidades. Vidas-poesias construídas com tão pouco e diante de tanta precariedade e vulnerabilidade.

Após a apresentação no Museu da Moda, as atrizes e a equipe do processo puderam também compartilhar seus depoimentos com o público, potencializando mais ainda a experiência teatral. Performatividade que não se encerra apenas no que já se configura como espetacular. É uma luta que transborda o teatro. Que revela a importância de sua função social. Numa das muitas falas potentes dessa experiência, uma atriz denuncia como o teatro ainda é restringido à população trans. “Como fazer e gostar de algo que você nem conhece?”. Em tempos cada vez mais brutos, de intolerância e violência, o teatro é capaz de transformar.

 

Partilha de uma Vivência

Direção: Lui Rodrigues e Odilon Esteves.

Atuação: Yasmim Melo, Fabíolla Amanda Martins, Isabella Rayssa, Sthephanny Di Monaco Esteves, Mychelly Andrade, Gui Xavier e Marcel Rms.

Criação coletiva.

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13/09/2017 TAGS: Lui Rodrigues, Odilon Esteves, Ong Transvest, representatividade, trans, transexualidade, transfobia BY: Luciana Romagnolli
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críticas

Aquilombô: apontamentos sobre movimento e fissuras na cena negra

Aquilombô: apontamentos sobre movimento e fissuras na cena negra

— por Soraya Martins —

eras

eras

“Chão de Pequenos” e “Eras”.

Quilombo. s.m. do quimbundo kilombo, acampamento, arraial, povoação, povoado; capital, união; exército. Segundo Adriano Parreira, “o vocabulário kilombo tem dupla conotação: uma toponímia e outra, ideológica”.

Mostra Benjamim de Oliveira. Casarão das Artes. SegundaPreta. Polifônica Negra. E Aquilombô – Mostra de Artes Negras: mais uma mostra de artes negras em Belo Horizonte. Mais um aquilombamento de artistas negras e negros que se juntaram para mostrar arte (o que passa longe de uma espécie de essencialismo negro, do entendimento torto de que a produção artística negra se associa somente a uma religiosidade de matriz africana ou a males sociais), refletir sobre a própria produção e criar fissuras, problematizar a invisibilidade de tais produções no espaços destinados à arte na cidade, resistir e, acima de tudo, anunciar, fundando e ocupando espaços, tecendo novas epistemes e narrativas.

No Aquilombô-terreiro, espaço da encruzilhada de saberes e cosmovisões formado no Teatro Francisco Nunes entre os dias 02 e 13 de agosto, a música, o teatro, o circo, o público e os artistas colocaram no jogo de cena uma iniciativa epistêmica da produção do desejo, dialogando com um território de experimentação artística e buscando mudar padrões do ser, do saber e do poder em ato estético. Esse quilombo-terreiro, como aponta Muniz Sodré, joga com a ausência de universalizações e com a abolição da escravatura de sentidos.

Nesse terreiro, o corpo negro é pensado como conceito semiótico, definido por uma rede de relações, sem delimitar fronteiras discursivas. No movimento do signo negro, em suas variadas posições, se acentua um outro saber também possível, “possível de verdades, possível de legitimidade, possível de encanto e sedução, e como todo saber, passível, porém, de fendas, de rasuras, de incompletudes” (Leda Maria Martins).

A primeira edição do Aquilombô trouxe uma programação que expande as possibilidades de se pensar a representação do corpo negro e suas particularidades em cena e se afirma, junto à Mostra Benjamim de Oliveira, ao Casarão das Artes, à SegundaPreta e à Polifônica Negra, como espaço de sensibilização que produz e está disponível para outras possibilidades éticas, subjetivas e estéticas em arte.

Nesse Aquilombô, onde se penetra na brecha cantando, dançando e performando, a arte assume seu papel principal na organização do sensível, estabelecendo uma nova ordem, outros discursos e a possibilidade de elaboração de uma negro-perspectiva que potencialize as produções estéticas. Reverter.

Aquilombô. (1) do verbo aquilombar. Ultrapassar as cercas impostas pela sociedade. Criar. Anunciar. (2) Madame Satã. (3) Memórias de Bitita – o coração que não silenciou. (4) Chão de Pequenos. (5) O grito do Outro – O Grito Meu!. (6) Kalundú. (7) Eras. (8) Bala da Palavra. (9) IMUNE (Instante da Música Negra).

Sobre esse aquilombô.
Curadoria: Rosália Diogo e Rodrigo Jerônimo
Coletivo Negras Autoras
Espaço Preto
Benjamin Abras
Companhia Negra de Teatro
Bala da Palavra
IMUNE

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06/09/2017 TAGS: Aquilombô, Bala da Palavra, Belo Horizonte, Benjamin Abras, Curadoria, Eras, Espaço Preto, Imune, Negras Autoras, negritude, Polifônica Negra, Segunda Preta, Teatro negro BY: Luciana Romagnolli
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Quem Somos

O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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