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Horizonte da Cena

Horizonte da Cena

Luciana Romagnolli

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Um pequeno roteiro para a 43ª Campanha de Popularização

Um pequeno roteiro para a 43ª Campanha de Popularização

– por Bremmer Guimarães –

Com o tema “A diversidade é a nossa marca”, a 43ª Campanha de Popularização de Teatro & Dança começou no último dia 5 de janeiro e, apesar da programação reduzida, essa edição traz algumas novidades, como uma oficina de dramaturgia ministrada por Daniel Toledo (que é editor aqui do Horizonte da Cena) e a inauguração do La Movida, teatro-bar que, além de ser o ponto de encontro oficial da Campanha, apresenta uma variedade de cenas curtas num ambiente que foge às salas de teatro convencionais.

Na lista de espetáculos, é curioso ver diversos trabalhos autorais e de pesquisa, muitos deles com forte viés político e social, ao lado de montagens que reforçam estereótipos e preconceitos sociais. Não podemos ignorar que esse reforço de figuras e situações machistas, racistas, homofóbicas e transfóbicas é também um ato político, de manutenção do status quo. Mas não faltam trabalhos que caminhem na contramão desse obscurantismo. Neste texto, falo sobre alguns espetáculos a que já assisti e outros que quero ver.

interludio

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Ser_+Crédito+Felipe+Chimicatti+1_aberta

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JÁ VI E QUERO REVER

DANAÇÃO
Tive o prazer de conhecer “Danação” em texto, quando ainda se chamava “A Menina de Lá”, e é bonito ver a peça-poema escrita por Raysner de Paula transformar-se numa montagem teatral. No ano em que o Grupo Galpão se propôs uma experimentação radical em sua trajetória com o espetáculo “Nós”, ver o empenho do ator Eduardo Moreira em estrear também seu primeiro solo mostra a resistência do teatro como ofício diário e da pesquisa do trabalho atoral que nunca se finda. A encenação de Marcelo de Castro e Mariana Maioline aposta na presença do atuante, permitindo que a performatividade ganhe força, mesmo num texto dramático com personagens, enredo, etc.

EM VERDADE VOS DIGO
Assistir a essa criação do Grupo In-Cena de Teófilo Otoni é também um reconhecimento do desafio diário de se manter um grupo de pesquisa continuada em teatro no interior do país. Com dramaturgia de André Luiz Dias e Anderson Feliciano, o espetáculo leva o público para o ambiente de uma casa de prostituição, discutindo questões como machismo, racismo, homofobia e transfobia. A força dos corpos em cena se destaca, num trabalho bastante visceral.

ENSAIO PARA SENHORA AZUL
As fricções entre teatro e realidade, e entre processo e espetáculo, são alguns dos fios condutores dessa montagem. Um trabalho de muita entrega e esforço físico da atriz Kelly Crifer, que dialoga também com a dança, por causa da direção do ator e bailarino Robson Vieira. “Ensaio para Senhora Azul” mostra a importância de resistirmos às normas que nos são impostas cotidianamente. A senhora azul não é uma, e sim várias. Várias mulheres. Entre um grito e outro, entre uma risada e outra, a atriz nos provoca a pensar sobre a condição de insanidade atribuída à mulher numa sociedade machista e misógina.

 

FREDDIE ROCK STAR
Assisti aos três últimos espetáculos dirigidos por Juarez Guimarães Dias (além deste, “Marilyn Monroe.Doc” e “EuCaio”), e “Freddie Rock Star” me chamou a atenção pela performatividade dos espectadores. Gritos da plateia, celulares em mãos, flashes por todos os lados, aplausos após as performances musicais do ator Fábio Schmidt, preciso e seguro em todos os momentos de improvisação e interação com o público, além é claro da incrível semelhança entre ele e Freddie Mercury, me deram a impressão de estar, de fato, num show. A montagem também se destaca por apostar no entretenimento, sem perder seu viés crítico, com reflexões sobre a AIDS e as manifestações políticas que têm tomado as ruas do país.

MÁQUINA
“Máquina” é o trabalho que marcou o surgimento da Miúda Cia, coletivo de atrizes e atores que se formaram no curso de teatro do Cefar/Palácio das Artes em 2015, e não é à toa que esse espetáculo saiu da escola e ganhou caráter profissional. Com direção de Cláudio Dias, o trabalho se destaca pela construção das personagens pelas atuantes. É uma montagem essencialmente dramática, inspirada na obra de Valter Hugo Mãe, que mostra com poesia e sensibilidade o dia a dia de um lar de idosos.

REAL
Esse trabalho consolida uma nova fase do Grupo Espanca, com a abordagem política cada vez mais presente no trabalho do coletivo. Depois de “Dente de Leão”, o grupo busca nas manchetes dos jornais a inspiração para “Real”, que traz reflexões incisivas sobre a intolerância, a violência e a desigualdade em nosso país. É bastante potente a forma como o trabalho é apresentado ao público: o caráter espetacular dá lugar ao “real” do processo artístico, com o fazer teatral sendo explicitado ao longo e nos intervalos das quatro micropeças que compõem a montagem. Dentre elas, destaco o caráter absurdo e sombrio de “O Todo e as Partes” e a dança dos corpos num caminhão de lixo de “Parada Serpentina”.

ROSA CHOQUE
Esse espetáculo tem uma das cenas mais impactantes que já vi no teatro. Não darei spoilers, mas nesse trabalho o machismo é realmente levado para a fogueira. Dá pra dizer que “Rosa Choque” é dividido em duas partes: a primeira, que conta a história de uma mulher que foi violentada sexualmente quando voltava de seu trabalho; e a segunda, que traz uma maior performatividade das atuantes no palco. Uma das potências da montagem dirigida por Cida Falabella, com atuação de Cris Moreira e Guilherme Théo, é não se apresentar como uma obra maniqueísta e ter também autocrítica: ainda que partindo de uma lógica binária, este é um começo para pensarmos as questões de gênero em nossa sociedade.

RUA DAS CAMÉLIAS
Confesso que nunca havia entrado num prostíbulo antes. Na época em que diversos prédios da Rua dos Guaicurus começaram a ser ocupados por festas, não me sentia à vontade pra estar ali, num ambiente em que exploração sexual e violência contra a mulher conviviam com o clima festivo e uma espécie de espetacularização daquilo que é considerado marginal, como se bordéis fossem zoológicos ou coisa parecida. Mesmo na experiência de assistir a “Rua das Camélias”, um pouco dessa dúvida permanece em mim, mas, neste caso, o trabalho mergulha numa profunda pesquisa histórica sobre a região e ocupa um espaço desativado, o Hotel Imperial. Com uma dramaturgia que permite que, a cada dia, espectadores possam assistir a espetáculos diferentes, a montagem se destaca também pelas atuações, apresentando um elenco em bastante sintonia, mesmo composto por pessoas e corpos tão diferentes.

UM INTERLÚDIO – A MORTE E A DONZELA
Este é o primeiro espetáculo que vi do diretor Wilson Oliveira e seria um engano dizer que o encenador está obsoleto em suas apostas estéticas. No último ano, foram muitas as peças em que encontrei com Wilsinho como espectador, nas filas e plateias, e assistir a um trabalho tão realista e dramático pode parecer inesperado atualmente, mas é também um exercício de apreciação do diferente e daquilo que foge às nossas preferências. Além de ser uma possibilidade de imersão teatral quando executado com primor. A peça de Ariel Dorfman nos faz refletir sobre as intolerâncias e a falta de diálogo em nossas discussões, e nos atenta para um passado que não pode ser esquecido e tampouco reeditado: a ditadura militar. A atuação de Christiane Antuña, certamente, foi uma das que mais me marcou em 2016.

SER – EXPERIMENTO PARA TEMPOS SOMBRIOS
Se a “montação” e a “lacração” são essenciais nos outros trabalhos da Toda Deseo, dessa vez o coletivo deixa as duas coisas de lado e aposta num tom menos festivo e cômico pra falar das violências sofridas por pessoas homossexuais e transexuais. O encontro com Alexandre de Sena e Marcio Abreu leva o grupo a experimentar novas possibilidades de fazer artístico, potencializando ainda mais seu repertório.

MADAME SATÃ
Um rico trabalho do Grupo dos Dez com direção de João das Neves. Com canções marcantes e um elenco sintonizado, “Madame Satã” não tem medo de ser uma montagem panfletária e, por isso, ser tachada como menor artisticamente. O musical toca em feridas profundas da sociedade brasileira a partir da história de João Francisco dos Santos. Racistas, machistas, homofóbicos e transfóbicos: não passarão!

 

NÃO VI E QUERO VER

 

KURÔ
Nunca vi um espetáculo de dança do bailarino Sérgio Penna, mas vi um pouco do seu trabalho em “Congresso Internacional do Medo” e “Por Elise”, do Grupo Espanca. Como tenho me interessado cada vez mais em acompanhar a cena da dança em BH, esta é uma chance que não dá pra perder, nesse trabalho que conta também com a trilha sonora do Barulhista. E, pra quem ainda não conhece, é também uma oportunidade de conhecer o espaço do C.A.S.A. (Centro de Arte Suspensa Armatrux), onde a montagem será apresentada.

A-CORDA QUE É REAL!
Seguindo o compromisso de acompanhar mais trabalhos de dança neste ano, o que me despertou a curiosidade de assistir a esse espetáculo foi a sinopse. Trata-se de uma obra sobre ser mulher e ser negra. No solo, a bailarina Cyntia Reyder propõe a reconstrução de um corpo que foi subjugado por uma cultura machista, patriarcal e escravocrata/colonizadora. Bom ver a discussão de temáticas político-sociais, que têm impactado tanto o teatro de BH, presente também na dança.

RETINA
Esse é outro trabalho que me chamou atenção pela sinopse. O espetáculo do Grupo Camaleão parece falar sobre como o excesso de informações intervém no mundo contemporâneo. A trilha sonora traz músicas de artistas que morreram aos 27 anos, como Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Ver as energias do rock, da transgressão e da morte, juntas em cena, numa montagem de dança, parece um encontro bastante potente.

NUVENS DE BARRO
Diferente das duas montagens anteriores, “Nuvens de Barro” me chamou atenção pelas fotos. Logo de cara, o mascaramento dos bailarinos da Cia de Dança do Palácio das Artes me fez lembrar do quadro “Os Amantes”, de René Magritte. Além da plasticidade, o espetáculo também se inspira no universo do poeta Manoel de Barros e ver esse “voo fora da asa” no palco tem tudo pra ser uma experiência bastante sensível e bonita.

JOÃO DE BARROS
Dentre os espetáculos infantis, um que quero assistir é “João de Barros”, do grupo Mamãe Tá Na Plateia. Por coincidência, o título da montagem dá a entender que a poesia de Manoel de Barros também é inspiração para a construção de sua dramaturgia e, num cenário que é dominado pelas adaptações de filmes da Disney e por contos de fada, é importante ver um trabalho autoral e de pesquisa voltado pra criançada.

A PREGUIÇA DE DEUS E DO DIABO
Assim como “Máquina”, esse também é um trabalho criado numa escola, mas que tem ganhado os palcos da cidade. A montagem da Cia. Blumbang foi desenvolvida na Escola Livre de Artes Arena da Cultura e é uma livre adaptação da obra de Ariano Suassuna. É uma boa oportunidade pra conferir a obra de um dos grandes artistas da cultura popular brasileira.

RIOADENTRO
A dramaturgia de Raysner de Paula é inspirada na obra de Guimarães Rosa e apresenta a história de um pai que decide embarcar em uma canoa e permanecer no rio próximo à sua casa por décadas, sem nunca revelar os motivos que o levaram a isso. É outro trabalho que surgiu num curso de teatro, como trabalho de conclusão do ator Carlos Caetano na UFMG. A direção é de Lira Ribas, de quem pude assistir dois trabalhos bastante potentes no último ano: “E Peça Que Nos Perdoe” e “Num Ano com 13 Luas”.

NOS PORÕES DA LOUCURA
A equipe surpreende, reunindo nomes de destaque como Ronaldo Fraga (que assina o figurino), Marcus Viana (na trilha sonora) e Décio Noviello (criador da cenografia). Tive a oportunidade de assistir a apenas um espetáculo do diretor Luiz Paixão, “O Pelicano”, mas sei de seu reconhecimento e importância na história do teatro em BH. Acredito que seja um trabalho que aposta no realismo e num viés mais dramático, sendo também um exercício pra mim, enquanto espectador, e que fala de um tema muito relevante: a saúde mental.

BRINCANDO EM CIMA DAQUILO
Outro exercício que me propus na Campanha de Popularização deste ano é o de assistir a mais comédias. Essa se destaca também pela equipe, ao reunir a atriz Marisia do Prado com o diretor Ítalo Laureano, do Grupo Quatroloscinco. O texto de Dario Fo e Franca Rame já foi montado no Brasil por Marília Pêra e Débora Bloch, e essa é a sua primeira montagem em Belo Horizonte.

AS MENINAS DE MADAME MIMI e DDD: DELEITE, DEPOIS DELETE
Por último, mais duas comédias. E dois trabalhos a que quero assistir principalmente pela presença de duas grandes atrizes da história do teatro de Belo Horizonte. Em as “As Meninas de Madame Mimi”, temos Wilma Henriques no papel de uma ex-vedete de teatro de revista, num texto escrito por Rogério Falabella especialmente pra ela. Já em “Deleite, Depois Delete”, a atriz Matilde Biadi, que já trabalhou com diretores como Aderbal Freire Filho, Jota Dangelo e Paulo César Bicalho, volta aos palcos depois de 35 anos, numa peça que fala sobre os desafios de quem nasceu numa época em que não existia computador ou internet em lidar com as novas tecnologias.

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11/01/2017 TAGS: Companha de Popularização do Teatro e da Dança BY: Luciana Romagnolli
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coberturas críticas

Celebrar o FID – Fórum Internacional de Dança

Celebrar o FID – Fórum Internacional de Dança

— por Elisa Belém —

Crítica a partir da programação do FID – Fórum Internacional de Dança (BH).

Foto de Gustavo Gelmini.

O FID – Fórum Internacional de Dança completa 21 anos de existência na edição de 2016, que acontece em Belo Horizonte (MG) de 15 a 23 de novembro. O tema dessa curadoria é O Risco do Nome e o catálogo chama a atenção para o risco como um travessão que anuncia uma fala; como demarcação e assinatura; como afirmação ao sublinhar; como negação, no sentido de riscar. E indica que “nomear é arriscado porque implica sempre um posicionamento”. O texto de introdução à programação mostra o árido cenário atual relativo às “políticas públicas para a continuidade e desenvolvimento da dança”, mesmo se comparado ao primeiro ano de existência do FID. Certamente, a implementação e continuidade do FID durante esses 21 anos, na mesma cidade, é um ato de resistência e dedicação.

Sim, é preciso falar sobre a dedicação de uma artista da dança, Adriana Banana, que optou pelo risco de debruçar-se sobre uma formação em dança para o público da cidade por meio de um fórum que arrisca existir e levar à cena espetáculos, oficinas, debates e filmes que sempre se caracterizaram pelo caráter de pesquisa e experimentação. Durante todos esses anos, vimos no FID danças que nos instigavam a pensar sobre o que pode ser dança. E também a perceber a dança como pensamento e construção do conhecimento. Na cena do FID, o corpo que dança é um corpo que se encontra no fluxo do pensar e que gera pensamento.

Nesta edição, a programação é também antiprogramação e privilegia o estudo sobre a dança. Artistas de diversos estados do Brasil como Santa Catarina, Pará, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, além de um convidado do Canadá, apresentam seus processos de investigação e os trabalhos que criaram nos últimos anos conversando e mostrando as possibilidades do movimento.

O duo de Sandra Meyer e Diana Gilardenghi (Santa Catarina), Narrativas em Dois Corpos, tem uma estrutura simples: as duas dançarinas portam fichas de papel em suas mãos e leem fatos sobre a vida uma da outra, refazendo os caminhos que as conduziram a dançar. Combinando as ideias de arquivo e repertório, mostram breves sequências de movimento a partir das memórias dos acontecimentos relativos às suas formações. A ideia e motivação é bastante interessante, mas a execução não chega a atingir um caráter cênico, parecendo figurar mais no terreno do relato autobiográfico. Talvez para um público que não dança a performance perca o interesse num certo ponto.

Foto de Roberta Castro.

O relato de Waldete Brito (Pará) – A Poética da Bricolagem Coreográfica e Improvisação, também é uma espécie de narrativa, mas, desta vez, no formato de uma palestra com vídeos mostrando o trabalho da Cia. Experimental de Dança Waldete Brito e, em seguida, uma breve improvisação ao vivo da dançarina, com uma trilha sonora especialmente preparada a partir da ideia de bricolagem. A artista, que trabalha e vive em Belém do Pará, apresenta em sua fala uma espécie de outro Brasil, que soa diferente para os ouvidos do sudeste. Segundo ela, viajar do Pará para outros países pode ser mais barato e possível do que para outros estados brasileiros.

Sua fala foi bastante tocante ao relatar seu trabalho como professora universitária da UFPA e sua participação no programa do governo Federal (gestão anterior), PARFOR (Plano de Formação Docente) – voltado para a formação de professores em licenciaturas na área de artes, que moram em ilhas distantes da cidade de Belém do Pará. Atravessar o rio de barco por muitas horas para ministrar aulas para comunidades que não têm acesso à cidade parece uma ação um tanto quanto legítima e admirável. Leva, assim, seus estudos  para pessoas cujos corpos dançam o carimbó ou curimbó e o brega paraense, mas para quem as ideias de improvisação e composição mostram-se como novidades. Nesse sentido, Waldete emprega seus estudos sobre a bricolagem lançando mão de movimentos de diversas matrizes ou motrizes e ações cotidianas para compor sequências coreográficas. Em contraponto às falas complexas, recebemos um presente ao escutarmos sobre a experiência marcada pela realidade de outra parte do país, uma outra margem do rio com suas dificuldades e com a beleza do nascer do sol amazonense.

Thereza Rocha, natural do Rio de Janeiro, mas que vive e trabalha no Ceará, ofereceu a palestra Dança sobre outras bases ou em que o tango pode ser bom para tudo?. Mesclando humor e performatividade a um elaborado discurso conceitual, foi proposto a alguns voluntários que caminhassem pelo palco repleto de bolinhas de gude. O chão ou a base, discutido por Thereza, foi assim posto em movimento, ao propor que o espaço-tempo é fabricado junto à movência. Discutiu a ideia de André Lepecki sobre as “Políticas do Chão” e propôs uma “Ética do Tropeço”, fazendo referências a outros autores como Didi-Huberman, Milton Santos e aos artistas da dança Angel Vianna, Klauss Vianna e Pina Bausch.

Thembi Rosa (MG) e Margô Assis (MG), dançarinas que residem em Belo Horizonte, também compuseram a programação do FID. Margô Assis estreou o solo M, dirigido por André Lage. Numa composição com o movimento, objetos, luz, som e a nudez, mostrou paisagens plásticas numa constante transformação do corpo e do espaço ao ser desenhado e apagado. Já Thembi Rosa, em Parâmetros do Movimento 2.0.1.6, participou da composição do acervo vivo sobre a dança que o FID pareceu propor. Mostrou assim, sua pesquisa com o movimento em improvisação e o som experimental do grupo O Grivo, por meio de sensores, câmeras e computador. Apresentando partituras experimentais de notação e composição, pareceu remeter a uma preocupação que perpassa a história da dança sobre o registro e o apagamento.

Registro e apagamento também estiveram em discussão na exibição de Um filme de dança, dirigido pela coreógrafa, pesquisadora e cineasta Carmen Luz. O ponto de partida para elaboração do filme foram as colocações de Jean-Paul Sartre como  perguntas que os brasileiros deveriam se fazer uns aos outros: “E os negros? Onde estão os negros?” O filme é um documentário com entrevistas e danças de vários (as) criadores (as) negros (as) refazendo uma história da dança que não é contada. Apresenta, assim, diferentes abordagens e entendimentos sobre o que pode ser a dança afro ou negra considerando a ancestralidade e a contemporaneidade.

Assistir a tantos corpos e visões dançantes mostra que ainda sabemos muito pouco, quase nada, sobre as buscas e encontros desses criadores. Numa fala antes da exibição, Carmen Luz contou sobre uma outra motivação que foi a frase pichada no muro de uma favela: “A minha dor não sai nos jornais”. Completada por ela, “mas pode estar num documentário”. Para além da dor do silenciamento e do racismo, o filme é um registro muito bem-vindo mostrando criadores como Mercedes Batista, Gilberto de Assis, Marlene Silva, Rui Moreira, Augusto Omulú, dentre vários outros, cujo mover e falar conduz a uma outra história da dança.

Registro e apagamento talvez sejam palavras impressas na programação em risco do FID. Numa cidade cuja arquitetura e engenharia permanecem constantemente em demolição e construção, discutir a memória em movimento é um ato político. Os meus votos são que o FID não se apague e nem seja apagado. Os meus votos são que a memória do movimento possa ser também memória em movimento e em constante atualização. E que a “Banana (de dinamite)”,  referida no catálogo do fórum, só atinja os “mecanismos de exclusão”.

www.fid.com.br

 

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22/11/2016 TAGS: Adriana Banana, Belo Horizonte, Dança, dança contemporanea, FID, Piauí, Thembi Rosa BY: Luciana Romagnolli
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críticas

A gente deveria voltar a falar em revolução

A gente deveria voltar a falar em revolução

– por Matheus Cosmo –

“QUE NOME DAR À ESPERANÇA?
Mas se através de tudo corre a esperança, então a coisa é atingida. No entanto a esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa-se de outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer.”
Clarice Lispector, no Jornal do Brasil, em 26 de maio de 1973.

ROZA 01

ROZA 01

Ainda deveria ecoar nas salas de ensaio de boa parte dos grupos teatrais aquele que foi um diagnóstico fornecido por Augusto Boal, em pleno ano de 1968: o teatro brasileiro carece de combatividade. Contudo, para além das fronteiras de um preciso imaginário de esquerda, contando com todos os inspirados pelas práticas do teatro do oprimido, a voz de Boal não mais parece ressoar. Em um momento de profundo apagamento da historicidade, grande parte das práticas teatrais contemporâneas parece reduzida à pura experimentação de linguagem – uma experimentação que, no final do século passado, parecia ilustrar uma necessidade de reavaliação dos próprios parâmetros artísticos a fim de encontrar meios de reinventar o trabalho cênico e a forma teatral. (Mal sabia boa parte dos diretores e encenadores que a própria forma artística revela as fissuras de todas as lutas sociais…) Nesse interregno, chegava ao ápice uma longa transformação, descrita por Silvina Rodrigues Lopes em uma precisa formulação: a arte deixava a esfera de interesse para se tornar interessante. Carente de combatividade, o teatro parecia confirmar aquilo que Tristan Tzara dissera já em 1919: por vezes, a arte adormece para ver o nascimento de um mundo novo. No entanto, resta o enigmático problema: quem calcula o exato instante do despertar?

Recentemente, ouvi de um crítico e professor, a quem dedico grande respeito e admiração, que a arte não deveria estar em supostos locais de disputa de poder, uma vez que o lugar reservado ao artista deveria ser aquele baseado na criatividade e inovação. Por um instante, não foi possível saber se a discussão ainda era sobre arte ou se aquele espaço havia se transformado em uma grande conferência sobre gestão, na ordem dos paradigmas e preceitos neoliberais (diante de muitos dos discursos em voga, haveria modo de estabelecer precisas distinções?). No entanto, como bem sabe boa parte daqueles que se dedicam aos estudos artísticos, as almejadas respostas para os impasses do presente são sempre encontradas no âmago das obras analisadas – se tais obras forem dignas de tamanha empreitada, logicamente. Sendo assim, é necessário falar sobre Rózà.

Rózà é um nome que, em um simples enunciado, abarca três esferas: o nome de um coletivo teatral; o nome de um espetáculo, criado pelo mesmo coletivo, dirigido por Martha Kiss Perrone e Joana Levi; e a referência maior: Rosa Luxemburgo. Era 2012 quando começou todo o processo de criação que logo haveria de culminar em uma viagem a Berlim, no ano seguinte, a fim de buscar rastros da história daquela que se tornou um dos maiores símbolos de luta, ao longo de todo o século XX – aquela cuja memória não pode ser esquecida. Do belíssimo programa do espetáculo, entregue a cada um dos espectadores, salta aos olhos uma declaração de Michael Löwy: “o grau de humanidade de nossa sociedade será medido conforme lembrarmos de Rosa”. A lembrança, contudo, não significa ou traduz um mero impulso especulativo dirigido ao passado, mas o reconhecimento de que o tempo passa sem passar, um aprendizado que se mostrou vivo na voz de Roberto Schwarz[1]. O movimento da história permitiu que, enquanto as atrizes estivessem na Alemanha, os olhos do mundo se voltassem ao Brasil e à multidão que, naquele famigerado mês de junho, tomava conta das ruas. Foi assim que o grupo concluiu: Rosa também parecia estar por aqui. Suas cartas rabiscavam no papel a mesma tinta que, naquela ocasião, era utilizada pelas ruas na confecção de um novo quadro. Como desfecho, vale ressaltar a pena que é termos calçadas tão esburacadas…

Invadiu certas formas de crítica e teoria teatral (mas não apenas os estudos cênicos) uma investigação, quase fetichista, pautada em descobrir o que é da ordem do real e o que é da ordem da ficção em cada um dos trabalhos apresentados. Este modelo encontra seu ápice em um livro como Les théâtres du réel, escrito por Maryvonne Saison em 1998. Simplificando um dos grandes argumentos da obra, a nova qualidade estética das composições cênicas daquele fim de século, cuja extensão nessas primeiras décadas do século XXI é evidente, não decorreria mais de escolhas diretas por temas políticos, mas por meio da reivindicação de um acesso ao real. Sem entrar em considerações a respeito do que aqui se encontra denominado por real, mas aceitando a problemática e improdutiva convergência entre a ideia de real e a de realidade, um novo panorama parecia ter se traçado: firmava-se um horizonte no qual a justificativa estética das obras decorreria de sua aproximação (para não falar em termos de uma constante reprodução, que torna tudo ainda mais problemático) ao âmbito da realidade. Não havia forma mais adequada para o desfecho de um século que tanto se encantou por prerrogativas da ação, da performatividade e da presença! O resultado, embora ainda pareça estar se esboçando, já em grandes proporções contudo, não poderia ser outro senão aquele já previsto por Adorno em suas considerações acerca da duplicação dos objetos empíricos pelos meios e formas da indústria cultural: uma completa atrofia da imaginação – uma atrofia que se reflete, especialmente, no campo da política, cujo exercício é, antes de tudo, inventivo. Embora esteja imersa em tais desdobramentos – o inevitável pecado dos contemporâneos –, Rózà parece apontar a possibilidade de uma saída.

Era Foucault quem dizia que cabe à filosofia a delimitação do real da ilusão, daquela verdade que também se encontra prescrita nos interstícios de falsidade. Contudo, no que diz respeito ao teatro, seguindo os comentários do filósofo, este aparente par dicotômico revela-se estritamente falso e improdutivo, uma vez que a condição de existência da própria matéria teatral reside na alternância e na ausência de distinção entre os dois campos. Embora a investigação desse trânsito constante entre os dois âmbitos tenha gerado bons estudos ao meio acadêmico, seus encaminhamentos já se mostram puramente óbvios e pouco se avança nessa discussão que, cada vez mais, gera pilhas e pilhas de estudos de caso. Contudo, toda casa que se constrói em falsos alicerces tende ao desmoronamento. Assim sendo, talvez esteja se aproximando um esperado instante de destruição – uma dissolução da qual Rózà é um fundamental expoente. Tendo o processo de criação dialogado com movimentos como o MTST, o MST, coletivos feministas e estudantes secundaristas, o espetáculo comprova certa necessidade de alteração daquele diagnóstico fornecido por Maryvonne Saison: não é a obra, como um produto estético, que se encontra puramente vinculada à realidade, mas os próprios alicerces que erigem e fundamentam o trabalho são componentes reais de uma luta cotidiana.

Não se trata de falar sobre o real ou de buscar meios para acessá-lo, mas de fazer do próprio movimento da história a profunda substância das obras. Afinal, como já defendia Rosa Luxemburgo, é apenas na luta que suas inerentes tarefas se tornam claras: todo aprendizado e transformação decorre na e pela luta. Nesse sentido, uma palavra parece dar o tom da sinfonia deste novo século: experiência. Não há dúvida de que são muitos os acordes que tentam desviar por completo a melodia, por vezes fazendo uso dos mesmos instrumentos de composição. Contudo, neste início de século, diante das atuais configurações sócio-históricas, que seja possível apostar em um voto de confiança: “só a experiência é capaz de trazer as correções necessárias e abrir novos caminhos”, escrevia Rosa, a respeito da Revolução de Outubro de 1917, um ano antes de seu assassinato – um ano antes de seu corpo ser lançado às frias águas do Landwehrkanal, em Berlim.

“YOU WON’T TAKE MY FREEDOM!
YOU WON’T MAKE MY FREEDOM!”
(Trecho do espetáculo)

É certo que, em muitas das análises produzidas atualmente, ainda ressoam argumentos pós-estruturalistas. De certa forma, insiste-se na impossibilidade de transformação social (afinal, como bradava Margaret Thatcher, there is no alternative) para reiterar a importância de descobrir novas formas de habitar a realidade – formas que, de imediato, não implicam sua alteração, mas apenas uma adequação por outros meios. Embora em muito justifique importantes traços de distintas composições contemporâneas, é preciso não esquecer o alto teor conformista dessa empreitada, em muito apoiada por aquilo que Roberto Schwarz classificava como “trocadilhos filosóficos em moda”[1], que passam à margem da efetividade dos processos sociais. Resta, assim, a questão enunciada por Nicholas Brown, em uma irônica análise dos escritos de Žižek e Badiou: afinal, deveríamos nós esperar pelo advento de um suposto Evento, potencialmente capaz de reorganizar todos os paradigmas e de reestruturar a ordem e o possível, ou deveríamos nos organizar para que algo dessa proporção verdadeiramente aconteça?[2]

É de Tarkovsky o verso que insiste em afirmar que tem de haver mais. De fato, é necessário que se abram canais de entendimento acerca do presente como o específico resultado de determinantes históricas, a fim de que todas as ferramentas que o constroem se façam visíveis e compreensíveis. A historização do presente parece constituir uma enorme e imprescindível tarefa, cuja responsabilidade encontra-se legada aos contemporâneos. Certamente, deve compor este desafio certa necessidade de reavaliação das experiências políticas das últimas décadas. Contudo, um exame refinado do presente, se bem feito e encaminhado, tende a chegar àquela mesma sentença de Lutero, tão relembrada por Rosa, ao longo de seus escritos: “Aqui estou, não posso agir de outro modo!”.

As catastróficas configurações do presente revelam a urgência da mobilização. Por um lado, ocupações e primaveras revelam o esgotamento de certas estruturas e a necessidade de alterações radicais. Por outro, habita a imediatez de tornar real um verso de André Monteiro: “todo dia é dia de revolução”. É daqui que nasce o necessário ímpeto de transformação, do qual as reformas sociais devem ser apenas um meio – e isso era Rosa quem dizia. No final das contas, talvez seja essa a palavra que Clarice Lispector procurava para descrever aquilo que já é, ao mesmo tempo em que aponta para um devir: revolução. Por essas e outras, nós deveríamos voltar a falar nessas coisas. Na verdade, nunca devíamos ter parado… Agradeço à Rózà por lembrar-nos disso – a todas as Rosas. Que ressoem as vozes abaixo:

“E sinto que na primeira oportunidade vou cair com todos os dez dedos sobre o teclado do piano do mundo até fazê-lo tremer. Vocês sabem que tenho temperamento suficiente para incendiar tudo isso!”
RÓZÀ

“Não há tempo a perder. É preciso tomar medidas enérgicas. […] E é por isso que lhes fazemos este apelo: à luta! À ação! Passou o tempo dos manifestos vazios, das revoluções platônicas e das palavras tonitruantes: bateu a hora de agir para a Internacional!”
Rosa Luxembrugo

“Dizem os jornais que recentemente, noventa anos após sua morte, seu corpo teria sido encontrado. Haverá um novo enterro de Rosa Luxemburgo? Por mais que a enterrem uma e outra vez, não conseguirão libertar-se de seu espectro. A centelha incendiária de suas ideias ninguém conseguirá apagar.”
Michael Löwy

[1] Em especial, encontra-se referido, aqui, o texto “Cultura e política, 1964-1969”, publicado no livro O Pai de família e outros estudos, no qual, diante de supostos equívocos contidos nos argumentos desenvolvidos ao longo de todo o estudo, se encontra a famosa e precisa formulação: “O leitor verá que o tempo passou e não passou”.

[2] A expressão foi retirada do texto “Fim de século” e pode ser encontrada no livro Sequências brasileiras, publicado pela Companhia das Letras.

[3] “Do we wait for the Event, or do we organize to bring it about?” IN: BROWN, Nicholas. “{ø,S}Ɛ{$}? Or, Alain Badiou and Slavoj Žižek, waiting for something to happen”. The New Centennial Review, v. 4, n. 3, Winter 2004, pp. 289-319.’

 

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16/11/2016 TAGS: história, política, Roza, São Paulo BY: Luciana Romagnolli
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O caminhar de uma mulher entre o poético e o político

O caminhar de uma mulher entre o poético e o político

– por Clóvis Domingos –

Crítica a partir do espetáculo “A mulher que andava em círculos”, do Mayombe Grupo de Teatro (MG).

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“A urgência de uma política de memória. Somos educados por segredos altissonantes que conhecemos, mas não dizemos. A reconstrução dos fatos a partir de diversos pontos de vista dos sobreviventes do terror e de familiares que viveram experiências desumanas de dor e de perda colaboram potencialmente para que os crimes praticados pelo Estado e a impunidade de seus perpetradores sejam julgados. Desgraçadamente, nossa história ainda parece seguir sob os signos do silêncio e da amnésia, quando grupos conservadores saem às ruas pedindo intervenção militar e torturadores são tratados como heróis. (…) Saber como aconteceram as práticas sistemáticas de tortura e desaparecimento consentidas pelo Estado pode nos ajudar a tomar uma posição crítica diante da barbárie para que ela não se repita, reativando nossa memória histórica, a poder dizer que essa violência é inaceitável”.
André Mesquita.Esperar Não É Saber: Arte Entre o Silêncio e a Evidência.

A mulher que andava em círculos é o novo espetáculo do Mayombe Grupo de Teatro, que em sua trajetória de vinte anos trabalha com a cultura latino-americana em suas múltiplas vertentes articulando memória, estética e política. Mais uma vez esse importante coletivo belo-horizontino vem tocar nas feridas abertas de uma América Latina ainda marcada por violências, governos ditatoriais e práticas de esquecimento.Um trabalho solo, com atuação vibrante e bem construída de Marina Viana, tecido por diferentes camadas discursivas: o íntimo e o coletivo, o ficcional e o documental, o passado e o presente, a palavra e o silêncio, o afetivo e o histórico, a memória e o esquecimento.

Ao adentrar o espaço cênico tem-se a impressão de um início de visita a uma exposição dolorosa e poética, aos lugares híbridos e fragmentados de memórias e esquecimentos de uma mulher. Circulamos por essas diferentes estações habitadas por objetos, roupas, fotografias, documentos (configurando uma dramaturgia do espaço), cujas instalações em sua plasticidade e apelo histórico convocam e tensionam nossa sensorialidade e capacidade reflexiva. Tal espacialização materializa a fragilidade de uma memória dispersa e, nessa visitação, experimentamos o percurso circular que depois a personagem intitulada Mulher (numa alegoria das mais variadas mulheres de luta) irá fazer.

A cenografia instigante de Rafael Bottaro soma-se à iluminação precisa de Marina Arthuzzi, usando o claro-escuro como luminosidades e apagões da memória, na construção dessas sessões de lembrança. Tanto a cenografia – que ocupa diferentes nichos do espaço reforçando uma memória desconjuntada e apresentando objetos como, por exemplo, porta-retratos com rostos em branco, numa provocativa alusão a uma ausência presentificada ou até, talvez, nos convidando a depositar ali nesse vácuo a imagem de alguém específico – , quanto a iluminação – em alguns momentos tornando difusas algumas expressões da atriz – se relacionam com as outras dimensões da cena e reforçam essa memória feminina embaçada.

O texto de Éder Rodrigues (que contou com intervenções da atriz) se apresenta como uma dramaturgia rapsódica que passeia e cartografa as marcas e fios soltos de uma narrativa que tenta insistentemente fazer uma costura delicada e ao mesmo tempo indignada do relato de uma mulher guerreira, mãe cujo filho foi desaparecido (como nos casos das Madres da Plaza de Mayo na Argentina e as Mães de Maio no Brasil) e que, em sua busca por reparação e  justiça, agora enfrenta o drama de uma doença que vai lhe roubando a memória. Nesse ponto o poético e o político se encontram, os grandes e pequenos fatos dialogam e possibilitam aos espectadores um ato de testemunho comovente que toca pela sinceridade da intérprete e foge de qualquer forma de sentimentalismo e didatismo histórico.

A montagem aposta numa conjugação entre texto e cena na qual o tom dramático se desvanece pelo intimismo da personagem e pela proximidade e interação com o público-visitante-participante, criando assim uma camada épica. Há também momentos de um possível lirismo, e ainda que fatos históricos e sociais sejam evocados, é pela lente e voz singular da Mulher que se estabelece o que a Ana Longoni chama de politicidade do íntimo.

Entre a omissão da história oficial e a resistência de uma história pessoal, a memória circula ainda que a passos imprecisos, e um dos méritos da encenação (destaca-se a direção de Sara Rojo e Fabrício Trindade) é ter nos espectadores uma presença indispensável para a escuta de uma mulher idosa, solitária e ao mesmo tempo rodeada de fantasmas, a colocar seus interlocutores em movimento, inclusive experimentando as incansáveis andanças pelas praças, ruas e delegacias do mundo em busca de um filho roubado. Há uma diferença significativa entre não poder lembrar e ser forçado a esquecer.

Não bastasse a força de se atentar para temáticas tão urgentes do ponto de vista político e histórico, numa camada mais profunda e existencial, esse trabalho do Mayombe também se debruça sobre as passagens do tempo e suas consequências para a condição humana:

“MULHER: (comendo biscoito) Desculpa, na falta de ter o que dizer, a gente sempre se repete. Nada mais constrangedor que o tempo. Ele faz com que fiquemos constrangidos diante de nós mesmos. Já ouvi tanta coisa por aí sobre as formas de ultrapassá-lo, de fingir que ele não existe. Os velhos engravatados se negam a morrer e se repetem com suas panças e cabelos acaju; mas o estrago já está feito, o estrago será feito… O novo sempre vem. Como chama mesmo esse cantor? Eu não tenho mais idade prá fazer de conta. Já ouvi tanta coisa por aí sobre esse momento. Não sei se devo. Provavelmente eu já me esqueci de tudo o que ocorreu ontem, a não ser um detalhe. Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Ron Wood… Belchior. Pena que essa coisa de detalhe a gente descarte sem o menor pudor quando o tempo acelera. Nada passa a ser importante. Belchior. Desculpe, mas uma mulher da minha idade não confia mais no destino, nem na simpatia, devoção, corrente, auto-ajuda, declaração de amor, frase de caminhão. O tempo é um companheiro sincero. A gente é que trai o que todo dia ele confessa sem cerimônias. Eu vou contar antes que você esqueça. Vou contar porque talvez em troca você me leve para um passeio no jardim, um solzinho no vão das pernas ou uma surpresa qualquer. Ontem eu não consegui vestir a blusa. Eu sempre passei primeiro o braço direito no buraco e depois acertava as costas para depois levar o braço esquerdo. Então abotoava a parte da frente. Eu sempre fiz isso sozinha, como uma série de outras coisas. Mas ontem eu não consegui. O braço não me obedeceu e eu desisti logo. Depois foi aquele espelho. Quantas vezes eu disse que não queria espelho. Que já não me importa estar penteada, arrumada ou pronta. Ninguém nunca está pronto. A não ser o tempo, com o seu terno impecável e o andar preciso. (Pausa).Vou deixar um pouco no chão para o cachorro levar depois. (Como se contasse uma novidade) Cachorro é o nome do cachorro lá de casa. Não fui eu que pus esse nome. Foram as crianças. Achei tão original chamar uma coisa pelo nome mesmo”.

A vulnerabilidade física e psíquica da personagem revela a precariedade nossa de cada dia ameaçada constantemente pelos imperativos de uma temporalidade ora vertiginosa e ora vagarosa; e nesse entrelaçamento entre arte e vida todos nos irmanamos. Somos filhos do tempo! Aqui a potência do fazer teatral nos aterra no mais sensível e imponderável do existir humano. Nesse trecho textual por mim destacado, A mulher que andava em círculos me remete a outra personagem: Winnie de Dias Felizes, de Samuel Beckett (guardadas as devidas distâncias e concepções estético-filosóficas). Ambas pouco a pouco engolidas pelo tempo, pelo esquecimento e pelas artimanhas do poder; apegadas a pequenos objetos (escova de dentes, uma sombrinha, fitas K7 e agulhas de tricô) que possam contar/tecer/resgatar alguma coisa que as mantenha vivas; fraturadas em sua solidão, mas resistentes pela força da linguagem. Cada uma circula pela existência com os restos que lhe sobram.

Em tempos de tamanha complexidade política em nosso país, A Mulher que andava em círculos talvez metaforize nossa situação atual: de um lado nossas tentativas de ocupar e resistir mobilizando táticas e ajuntamentos micropolíticos. Na outra margem: uma pátria fragilizada por tantos esquecimentos e injustiças, desnorteada em seus caminhos democráticos repletos de idas e voltas, assolada por intermitentes golpes, despedaçada de sua memória histórica, a correr grave risco de repetir os mesmos círculos.

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10/11/2016 TAGS: Belo Horizonte, Marina Viana, Mayombe, memória, política, Sara Rojo BY: Luciana Romagnolli
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Mirada 2016: Experiências de alteridade e perturbação

Mirada 2016: Experiências de alteridade e perturbação

– por Luciana Romagnolli –

Crítica a partir de ¿Que Haré Yo con Esta Espada? (Aproximación a la ley y al problema de la belleza), de Angélica Liddell; Birdie, da Agrupación Señor Serrano; Fugit, do Kamchàtka; Please, Continue (Hamlet), de Roger Bernat; O Ano em que Sonhamos Perigosamente, do Magiluth; e Hamlet – Processo de Revelação, do coletivo Irmão Guimarães, vistos no Mirada 2016.

Nos seis dias em que estive no Mirada 2016, não foram poucas as experiências teatrais significativas, das quais se sai com as células da epiderme e os neurônios perturbados, agitados, como quem necessita rearranjar-se em uma nova organização após o abalo do corpo e das ideias. Nem sempre isso é efeito do espetáculo mais coerente entre proposta e efetiva realização, embora esses também não tenham faltado no festival sediado em Santos. Nas próximas linhas, compartilharei algumas questões sobre os brasileiros O Ano em que Sonhamos Perigosamente, do Magiluth; e Hamlet – Processo de Revelação, do coletivo Irmão Guimarães; e dos espanhois Birdie, da Agrupación Señor Serrano; Fugit, do Kamchàtka; Please, Continue (Hamlet), de Roger Bernat; e, para mim, o mais perturbador: ¿Que Haré Yo con Esta Espada? (Aproximación a la ley y al problema de la belleza), de Angélica Liddell.

Problema urgente da política internacional, a crise dos refugiados é objeto de elaboração artística por vias completamente distintas no modo como conduzem o espectador à crítica e à alteridade em Birdie e Fugit. A proposição cênica do Señor Serrano convoca uma apreciação racional do espectador, instado a um olhar analítico-crítico a partir de procedimentos audiovisuais. É o teatro da des-ilusão. De um lado do palco, um ator sentado de costas para a plateia, portando uma mochila, observa, imóvel, o telão ao fundo. Do outro lado, dois atores-mediadores operam um projetor, uma maquete e outros objetos de proporção diminuta com os quais formam as imagens que vemos na tela. A imigração é somente uma camada dessa dramaturgia, que trata sobretudo da condução/construção/manipulação do olhar pela mídia.

Nos procedimentos de manipulação com projetor e no assunto das migrações elevado à superfície, Birdie aproxima-se do espetáculo português O Meu País É o que o Mar não Quer, apresentado em maio no Festival Internacional de Teatro Palco & Rua – FITBH por Ricardo Correia. Contudo, enquanto este se concentrava na experiência lusitana e em relatos pessoais, no trabalho espanhol a tela de projeção torna-se espaço ampliado para múltiplas associações e analogias que extrapolam limites geográficos e temporais para demarcar recorrências na forma de organização do olhar e do deslocamento humano.

A construção de sentidos se dá por acúmulo. Vemos páginas de jornais serem reenquadradas, manchetes alteradas, num processo de montagem e desmontagem da notícia pelo qual se desvela o processo artificial de mediação pelo qual conhecemos realidades distantes, como tais realidades são construídas e a camada ficcional que os olhares de repórteres, editores, fotógrafos, leitores e espectadores sobrepõem à narrativa jornalística, a um texto e a uma imagem. A fotografia de um campo de golfe (na verdade, da maquete, filmada e manipulada ao vivo) onde refugiados são vistos sobre o muro é decupada, abrem-se janelas com o nome científico da grama e a referência de sua cor na escala pantone, expondo a distância entre a natureza e a imagem.

Cenas de Tippi Hedren assustada com a revoada de Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock (1899-1980), costuram a analogia entre a migração e o medo – essa ameaça do desconhecido que faz cidadãos enjaularem-se em condomínios e rechaçarem aqueles que não reconhecem como iguais. Estes mesmos que, no noticiário diário, não têm rosto nem nome nem família, à diferença dos europeus, norte-americanos e demais cidadãos de classe média ou alta dos quais lemos a biografia e vemos fotografias.

Sobre as imagens projetadas pela dupla da Agrupación Señor Serrano, paira a narração envolvente de uma voz feminina que sugere a reflexividade sobre o próprio olhar: “Não se apresse. Leva tempo para se começar a decifrar uma imagem”. Em última instância, essa voz assume a autorreflexividade de seu próprio fazer, em contraste ao ator de mochila, que permanece espectador em cena, com os olhos fixos na imagem, alheio ao seu modo de produção e às camadas de distância que se empilham entre coisa e simulacro, imagem do simulacro e intervenção humana sobre essa imagem.

A pane nas máquinas ocorrida ao fim da apresentação que presenciei é uma ameaça constante à qual o grupo ainda precisa aprender a solucionar, talvez incorporando sua possibilidade na dramaturgia, para que o ruído não disperse os sentidos construídos.

Tantos estímulos em tensão convocam uma reflexividade crítica acentuada do público, chamando a atenção para a composição de corpos, objetos, imagens, voz e sons e para as operações que manipulam o olhar: recorte, disjunção, ampliação, associação, sobreposição, síntese, deslocamento. Com ironia, o trabalho investe nos processos lógicos para desnaturalizar a fabricação do real.

Nesse aspecto, o espetáculo afasta-se de outros que empregam dispositivos semelhantes, como Senhorita Julia, da inglesa Katie Mitchell, visto na MITsp 2015, na medida em que ambos colocam em cena atores-operadores a produzir ao vivo as imagens a que assistimos na tela grande, mas em Birdie essa dimensão da produção da imagem é problematizada como campo onde concorrem relações de poder.

O que vemos quando olhamos? Na tela, grama é cor que é luz, antes era a grama artificial da maquete feita imagem fotográfica e à qual damos estatuto de real. Quais as mediações, narrativas e ficções que constroem nossa visão de mundo e nossa visão sobre o outro? Ao desmontar as edificações da suposta verdade que resistem na produção de subjetividade coletiva do nosso tempo, Birdie convida o espectador a pensar uma ética da imagem e uma práxis do olhar menos ingênua e automatizada.

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Sentir no corpo

A essa abordagem racional, contrapõe-se a experiência sensorial intensa proporcionada por Fugit, do catalão Kamchàtka. Em 2010, os mesmos atores estiveram no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto com o espetáculo que batizou o grupo. Em austeros casacos de lã cinza, como estrangeiros desabituados aos costumes do país para onde migram, eles adentravam as ruas da periferia estabelecendo relações com os passantes sem romper o silêncio, apenas com olhares e sorrisos. Como observei àquela época (ler comentário aqui: http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/comocao-pelas-ruas-26h2yq7xlwlpuzitlrd98khu6), aos poucos, iam “construindo uma rede de confiança e solidariedade”, que fazia “os habitantes se envolverem na encenação”, abrirem suas casas, oferecer um copo de cerveja, parar o automóvel. Aos espectadores, cabia então a função de observadores do modo como aqueles artistas conseguiam estabelecer relações afetivas e um senso de comunidade temporário, transformando a paisagem urbana e humana.

Fugit mostra a continuidade dessa pesquisa, tanto no modo de atuação quanto na exploração geográfica da cidade. Entretanto, aprofunda a proposição em relação ao público, deslocando o espectador da posição de observador para a de coatuante. Reunido em fila à frente de uma estação de trem do século XIX, o público é atraído por figuras muitos semelhantes às de Kamchàtka, homens e mulheres trajados para viagem, portando malas antigas, que se comunicam somente por gestos e expressões faciais e, assim, conduzem aquele grupo de espectadores a entrar em vagões de trem e a segui-los pelas ruas de Santos como se fosse fugitivos – imigrantes refugiados.

No percurso, os espectadores adentram construções antigas, lugares aparentemente abandonados, feitos esconderijo, e são divididos em grupos menores (por vezes, pessoas que vieram juntas “assistir ao espetáculo” se separam) que cumprem trajetos distintos. Aos poucos, a condução dos atores e as situações forjadas convidam a entrar no jogo – e é essencial fazê-lo para que Fugit se realize.

Esse tipo reenactment, reencenação ou simulação, só tem efeito se há disponibilidade dos espectadores, afinal, como diz o pesquisador espanhol Oscar Cornago, trata-se de um tipo de “obra que se está – estamos – fazendo na medida em que se participa dela”. Se houver recusa, ou se as condições do entorno forem desfavoráveis – por exemplo, se outros espectadores sustentarem posturas de escárnio, desprezo, rejeição ou zombaria; ou a luz do dia não propiciar a mesma sensação de perigo que a deriva pela cidade vazia à noite –, qualquer experiência significativa fica impossibilitada.

E é disso que se trata: de um teatro da experiência – de uma experiência que passa pelo corpo e assim constitui um saber –, no qual a racionalidade é apenas uma das vias de afetação e conhecimento. O corpo do espectador é então implicado na “possibilidade de construir um nós tecido de afetos, dúvidas e inclinações (…) como afirmação de uma vontade coletiva”. Ainda emprestando as palavras de Cornago, “a percepção sensorial deixa de ter uma direção única, que vai da cena ao público, da obra ao espectador, ou do objeto ao sujeito, para apresentar-se como resultado de um meio coletivo e em movimento no qual se cruzam interesses, afetos e vontades distintos”[1].

O recolhimento de nossas identidades e aparelhos celulares, a partilha de um pequeno pedaço de pão entre uma dezena de pessoas ou ser levado dentro de um ônibus, debaixo de um lençol branco, para não se sabe onde, como clandestino, são situações concretas propostas pelo grupo e que provocam no público sensações de perda, desorientação e desamparo. Obviamente, nenhuma simulação seria capaz de repetir o que seja a experiência de um refugiado, como a vivenciada pelos sírios e haitianos nesta década e por outras incontáveis etnias em tantos outros tempos. Se alguma experiência de alteridade é possível, certamente é residual, incompleta, insuficiente. Nem por isso dispensável.

No ônibus de destino incerto, no escuro das ruas vazias, no beco onde o pão é dividido, o espectador pode, talvez, se sua disponibilidade e as condições ao redor permitirem, experimentar um átimo de medo, um momento de desamparo, um instante de solidão, um temor da perda – e essas sensações acionam outras semelhantes gravadas na memória corpórea e se colam também aos músculos e nervos como experiência sensível. Sentir na pele talvez seja o que mais nos aproxima do outro, no sentido da alteridade, nem que seja porque traz esse outro para a luz do que reconhecemos – não mais sem corpo, sem nome, sem rosto.

Numa sociedade midiatizada como a nossa, como vimos em Birdie, onde as ondas migratórias recentes estão sujeita às narrativas desumanizadas que delas fazem os meios de comunicação – confirmadas pela exceção sensacionalista de uma imagem de criança sobre a qual se concentra toda empatia faltante aos demais –, o exercício da alteridade não me parece pouco. Tampouco se limita à dimensão físico-sensória. O tempo todo em que se é espectador-atuante, observado pelos demais, é-se também observador da atuação do outro, de modo que o lugar do público não se estabiliza, ao contrário, é movente e induz à autorreflexividade.

Além disso, há duas cenas armadas pelo Kamchàtka que agem como cortes na representação coletiva, desafiando a imersão. Na primeira delas, barcos de papel e palitos de fósforo representam os refugiados em uma composição simbólica que demanda outra espécie de fruição, de um distanciamento crítico; na última, o público vendado é deixado à própria sorte, de modo que a condução até então realizada pelos atores se rompe. Não há mais pessoas ou regras a seguir. Cada um é deixado com seu corpo, sua experiência e sua consciência.

Foto de Magali Girardin.

A teatralidade da justiça

Assim como o Kamchàtka em Barcelona, outros grupos e encenadores europeus têm proposto espetáculos em que o espectador é deslocado de sua posição de observador para assumir outros papéis na dramaturgia. É o caso de Please, Continue (Hamlet), no qual os diretores Roger Bernat e Yan Duyvendak colocam os espectadores em uma sala de tribunal para serem o público do julgamento de um assassinato: o esfaqueamento de Polônio por Hamlet. A escolha da Sala Princesa Isabel, no Palácio José Bonifácio, com seu formato de auditório, arquitetura clássica e vitrais laterais, envolve o público em uma situação, intensificada pelas camadas de história, memória e simbolismo daquela dramaturgia espacial específica. Além disso, desde o início anuncia-se que sete espectadores serão sorteados a compor o júri ao fim e decidir o destino do réu.

Esse tipo de proposição cênica corresponde a uma concepção da arte teatral como acontecimento do qual os espectadores são parte integrante da constituição dos sentidos: um teatro feito com o público, não mais para o público, valorizando aspectos relacionais para além da fruição contemplativa. Condiz com o momento histórico de crise dos sistemas de representação, incluindo a democracia, e de descrença na repercussão social das práticas performativas, o que leva a uma preocupação cada vez maior com o campo expandido do teatro, considerando seu contexto, seu entorno e suas relações dentro da sociedade. Por isso, o foco recai sobre o público.

Como diz o ensaísta espanhol Oscar Cornago, o que se vê nesse teatro é a “transformação da atividade artística em um gesto social”. Isso abre uma nova perspectiva para a questão da autonomia da arte, pela qual o teatro faz-se zona autônoma de experiência poética e estética desobrigada do utilitarismo e da produtividade cotidianos, mas religado à trama social.

Tanto Fugit quanto Please, Continue (Hamlet) usam o espaço como locação, numa lógica semelhante à cinematográfica, que tangencia o hiper-realismo na medida em que ao efeito de real das ruas da cidade e da sala de tribunal sobrepõe-se a inevitável camada de ficcionalização que a situação teatral gera. Em ambos, também, o espectador toma parte de um jogo duplo: atua e observa, observa e é observado. Seu papel não muda completamente, mas se amplia, rompendo a dicotomia em direção a um trânsito entre lugares e funções. Nem por isso deixa de seguir diretrizes estritas, definidas e propostas por outrem.

Please, Continue (Hamlet) acrescenta ainda outro elemento desestabilizador ao jogo cênico. No dispositivo armado por Roger Bernat, quem desempenha as funções de advogado de defesa, promotor, juiz(a), médico legista e psiquiatra (testemunhas) são de fato profissionais dessas áreas, sem formação teatral, a quem são entregues relatórios descritivos do ocorrido (os ardis da peça shakespeariana) que servirão de base para montarem o caso e prepararem os depoimentos.

Estratégia próxima é empregada em muitos espetáculos do grupo suíço-alemão Rimini Protokoll (que apresentou 100% São Paulo na MITsp 2016), trabalhando com o que chamam de “especialistas do cotidiano”. Somente Hamlet (Matheus Macena, de Caranguejo Overdrive), Ofélia (Mariana Nunes) e Gertrudes (Iléa Ferraz) são representados por atores. Tanto estes quanto os profissionais mudam a cada local de apresentação – o que permanece é o dispositivo e as regras do jogo.

Esse convívio inusitado entre profissionais da justiça e do teatro evidencia as contradições da representação nas duas instâncias e, ao mesmo tempo em que faz da experiência teatral um laboratório social de exceção, onde é possível experimentar o julgamento sobre a vida de alguém sem consequências reais, religa essa experiência estética à vida em sociedade e faz-nos indagar quem atua, quem representa, quando representa e quando não.

Na apresentação a que assisti, a atuação dos atores pareceu mais verossímil e real do que a dos “especialistas”, pelo cuidado em adotar uma prosódia próxima do cotidiano e esvaziar as marcas de representação e convenção, enquanto advogado e promotor, principalmente, carregavam a teatralidade e a pompa próprias dos ritos de tribunal. É provável que grande parte dos espectadores tenha saído com a sensação de que eram eles os que representavam, não Hamlet, Ofélia e Gertrudes. “Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem fazer da realidade”, diria o dramaturgo paulista Fernando Bonassi.

Como a estrutura do jogo é aberta à ação dos profissionais e do júri de espectadores, que variam a cada dia, e os atores que se apresentaram em Santos não eram os mesmos que meses antes fizeram o espetáculo em Recife, por exemplo, cada apresentação é distinta. Como obra aberta, o desempenho dos profissionais afeta demasiadamente a dramaturgia, podendo instaurar uma discussão calorosa sobre culpa e inocência – opondo questões de gênero e classe, como ocorreu em um dos dias do Mirada – ou cair no giro em falso da falta de argumentos e da redundância de acusação e defesa, o que esvazia a discussão e despotencializa a experiência.

Enquanto isso, os espectadores logo retomam uma posição de contemplação, e o tempo cênico se aproxima do tempo cotidiano, arrastado e repetitivo. Não há nem a paixão dos julgamentos que definem o destino de um homem nem a estilização que desloca a percepção. É a relação entre o teatral e o social o que sobressai. O mais interessante, então, talvez seja observar como a performance dos advogados pesa sobre os fatos – o carisma, a loquacidade, a perspicácia mostram-se qualidades de convencimento capazes de falar mais alto do que os princípios éticos dentro de um sistema jurídico baseado na persuasão de juiz(a) e júri popular.

Daí que a pergunta final feita aos sete espectadores-júri na apresentação do dia 11 de setembro era se Hamlet tinha a intenção de matar um ser humano ao esfaquear algo que se movia atrás da cortina, enquanto o propósito verdadeiro de matar o tio, confundido com Polônio, pai de Ofélia, nem sequer é cogitado. De todo modo, independentemente da absolvição pelo júri, o dispositivo armado por Bernat proporciona um olhar renovado sobre a tragédia de Hamlet (ou a tragédia de Ofélia?).

Cabe mencionar que outro trabalho presente na programação do Mirada também ofereceu sua releitura para a obra inesgotável de Shakespeare. Em Hamlet – Processo de Revelação, o ator Emanuel Aragão, do coletivo brasiliense Irmãos Guimarães, reconta a trajetória de Hamlet com suas próprias palavras, a partir do trecho mais célebre – o “ser ou não ser, eis a questão” – e da ênfase nos dois pontos que o seguem, ausentes em traduções como as de Millôr Fernandes, de modo que se altera a qual “questão” se refere. Não se trata de “to be or not to be”, mas do que vem a seguir: suportar a aflição ou reagir violentamente? Eis o dilema ético que resiste do século XVI à atualidade.

Esta apropriação de Hamlet pelos brasilienses encontra sua singularidade num exercício analítico sobre o texto, compartilhado com o público com redobrado didatismo. Com as luzes da plateia acesas, o ator propõe uma conversa em que os espectadores se manifestem quando desejarem – algo que pouco se efetivou na apresentação a que assisti.

Ante o deslocamento da função estética em direção à educativa, sem que uma anule a outra, a estratégia cênica demanda uma equação entre os distintos graus de conhecimento prévio dos espectadores sobre Hamlet. Desde aquele que anuncia nunca ter ouvido falar do personagem aos que já viram incontáveis versões da obra. O desafio enfrentado por Aragão é não perder um dos extremos quando tenta alcançar o outro.

Do desejo e da impotência

Oposto à iluminação de um texto teatral e da abertura da relação entre palco e plateia proposta pelo solo brasiliense, o novo trabalho do grupo pernambucano Magiluth, O Ano em que Sonhamos Perigosamente, aposta numa poética da opacidade, do desentendimento e da distância. Seria possível ainda ver o espetáculo como o embate entre ação e inação, aceitando o paradoxo de que toda ação teatral acontece e não acontece, o que espelha especialmente uma sociedade cada vez mais ativa no ambiente virtual e não na concretude da vida pública.

Como disse o encenador argentino Rodrigo García num texto de 2015 chamado “Sois rematadamente tontos”, reduzir a ação política a curtir ou assinar uma petição online que se espalhe pela rede é conformar-se “com uma existência de fantasmas”[2]. É a esse nosso tempo de protesto online inócuos, campanhas conscientizadoras em redes sociais, de protestos em verde e amarelo e panelaços que contribuíram para a derrubada de uma presidente, mas também de ocupações de escolas públicas paulistanas e de espaços como o cais Estelita, em Recife, em resistência aos esmagamentos capitalísticos das paisagens humanas, que reage o Magiluth.

Na base do trabalho está justamente a dificuldade de responder à questão central: o que fazer(mos)? Mais uma vez recorro a Cornago, quem diz ser esta uma pergunta formulada neste início de século por uma “sociedade que, de forma anônima e coletiva, precisa afirmar sua vontade dentro de uma história com a qual não se identifica e com desconfiança nesses atores que em outras épocas lideraram as ações políticas ou artísticas”[3].

A crise da representação é, hoje, também uma crise da ação. Seja em Madrid ou no Brasil, com culminância na posse do atual presidente. Aos que se opõem a esse destino histórico, após sucessivas derrotas nas instituições representativas nacionais e estaduais, resta, outra vez, indagar/responder: e agora, o que fazer? O Magiluth leva esse processo de incerteza para a cena, compondo um espetáculo dividido em três partes: os ensaios, fiapos de representações e a dança.

Na primeira, os corpos suam em ações sem propósito aparente, experimentadas, abandonadas, trechos de textos e punhos lançados ao ar, como numa sala de ensaio ou num ringue, na preparação para uma luta. Vemos a representação do preparo e despreparo, da falha, da incompletude, da desorientação, do início de um processo de criação que ninguém sabe aonde chegará, da tentativa de transformar o desejo em ação que gere efeito. Um jogo condizente com a crise externa – as palavras soltas falam em uma guerra lá fora – e a interna, por ter sido este um processo criativo marcado pela saída do diretor Pedro Vilela. Como sujeitos, como grupo, como sociedade, buscam-se formas de re-agir e transformar.

Após esse tempo dilatado de exercício, a segunda parte retrabalha as mesmas ações, incorporando agora trechos da tríade tchekhoviana. De A Gaivota, vem o discurso sobre a posição do artista diante das mudanças de seu tempo. De O Jardim das Cerejeiras, a afirmação de quais concessões não fazer. De As Três Irmãs, o adiamento da ação e o questionamento sobre o futuro. A apropriação desses textos faz-se dentro da lógica de pós-produção, sobre a qual escreve o francês Nicolas Bourriaud, interessada não no original, mas no reprocessamento de materiais e sentidos já disponíveis no mundo. Assim, responde formalmente não só a Tchékhov, mas também a desconstruções como as já feitas por Enrique Diaz (que dirigiu A Gaivota – Tema para um conto curto), que compuseram o repertório dessa geração de teatro.

Quando, antes, falei em opacidade, é porque O Ano em que Sonhamos Perigosamente empresta o título de um livro de Slavoj Zizek e conceitos de outro filósofo, Gilles Deleuze, como rizoma, palavra projetada sobre a cena. Essa trama teórica subterrânea é de difícil acesso pelo espectador tanto pelas características próprias da escrita e do pensamento deleuziano quanto pelo modo como o Magiluth opta por uma relação de afastamento do público.

O deboche, marcante em trabalhos como Viúva, Porém Honesta, sai de cena, trocado por episódios pontuais de humor ácido e uma postura de quem se leva a sério. O tom afetivo, que criava cumplicidade com o público, é abandonado por um calculado ignorar da presença dos espectadores. É politicamente compreensível esse investimento em uma dramaturgia que desafie o público a construir sentidos e não satisfaça as suas expectativas, transferindo para a plateia o conflito, sem uma solução cênica que apazigúe os ânimos. Não há alívio catártico.

Se, com Deleuze, “já não acreditamos neste mundo”, como reagir é pergunta que redunda sem resposta. Mas o caminho de construção cênica dessa não resposta seguido pelo Magiluth parece seguir também a fala deleuziana em A Imagem-Tempo de que “o certo é que crer já não significa mais crer em outro mundo, nem num mundo transformado. É apenas, simplesmente, crer no corpo. Restituir o discurso ao corpo e, para tanto, atingir o corpo antes dos discursos, antes das palavras, antes de serem nomeadas as coisas”[4]. Algo bastante delicado de se concretizar cenicamente como potência e, em especial, como acontecimento compartilhado com o público, que o afete.

É provável que o espetáculo sofra com o deslocamento de sua cidade Natal; no Recife, a ocupação Estelita, contrária à apropriação do cais para exploração imobiliária, é uma realidade imediata, pulsante, faz parte de um imaginário comum. Em outras praças, os gritos por Estela, de Um Bonde Chamado Desejo, estão muito distantes de uma referência àquela luta urbana, assim como a analogia entre o cais e o jardim das cerejeiras facilmente não se estabelece – o material de divulgação do espetáculo é que dá as pistas de contra-o-quê se quer reagir. Sem o cais Estelita como referência, a atribuição de sentidos por parte do espectador fica destituída de ancoragem e a dramaturgia redunda no reagir sem complemento (contra quê?), uma força sem vetor, um dispêndio de energia que não sai de si. Seria essa a crítica sobre o comportamento social contemporâneo à qual o Magiluth pretende?

Oposta a essa diluição da relação entre referente real, signo e significado, há, por exemplo, uma construção por repetição, retomada e acúmulo que renova os sentidos de um movimento coreografado como metáfora do morrer: aí o espectador é incluído na possibilidade de estabelecer algum vínculo e atribuir sentidos ao que vê. O problema é quando permanece à deriva, apartado da motivação que move aqueles corpos, apanhado e sucumbido na impotência do desejo.

O Ano… é, claramente, um trabalho de crise sobre como continuar. A potência de perigo a que o título alude talvez dependesse de uma conexão maior com os próprios desejos, para que os impulsos de movimento não fiquem sem direção. A armadilha não é tanto a falta de sentido semântico quanto a falta de sentido e direção espacial. Por vezes, porém, é preciso mergulhar no corpo e na crise para compreender para onde ir e descobrir como reinventar-se. Como grupo, como sociedade.

Liddel

Liddel

Do desejo e da crueldade

Se toda escrita crítica sabe-se exercício de perda e incompletude, maior é essa consciência da defasagem das letras diante de um trabalho como ¿Que Haré Yo con Esta Espada? (Aproximación a la ley y al problema de la belleza). O teatro de Angélica Liddell é de uma força descomunal que vem da experiência de ser mulher, mas a ultrapassa para atingir a carne dos desejos e da crueldade humanos. Para tanto, convoca corpos, imagens, movimentos e discursos em uma cena polifônica, transbordante de energia, simbologias e estímulos sensíveis e cognitivos.

¿Que Haré Yo con Esta Espada?  parte da civilização, que nos constitui culturalmente como sujeitos submetidos a papéis de gênero, até o incivilizado, o irracional que resiste em cada um como pulsão. De certo modo, é como o cavalo com quem a artista espanhola dividia o palco no solo Yo No Soy Bonita, apresentado na MITsp 2014 (leia crítica http://mitsp.org/2014/metacritica-eu-nao-sou-bonita/): sabe que embora domesticados, há algo de indomável sob nossas peles.

Em Yo No Soy Bonita, uma experiência pessoal de abuso é ponto de partida para a crítica à domesticação exercida pela cultura sobre o corpo feminino, à mercê do desejo de posse e subjugação pelo masculino. Como disse então Suely Rolnik (linkar: http://mitsp.org/2014/suely-rolnik-discute-o-espetaculo-eu-nao-sou-bonita/), “a cena converte-se num campo de batalha de forças díspares que habitam seu corpo e invadem o espaço. Por trás de seu discurso beligerante ou de vítima, provocador do público, a verdadeira luta não se dá entre ela e o público, mas entre ela e ela mesma, uma luta na qual quem é provocado é a própria realidade”.

Outra vez, em ¿Que Haré Yo con Esta Espada?, Liddell coloca o dedo na ferida do mal-estar de uma civilização que reprime suas pulsões sexuais e de morte não sem consequências. É este mal-estar reprimido que ela restitui em cena com ainda mais potência do que no trabalho anterior. Como ambos os títulos revelam, o problema da beleza é reincidente em seu teatro – assim o é na arte, assim o é na experiência social do ser mulher – e completamente vinculado ao da violência. Com Nietzsche, a artista indaga “como transformar a violência real em poética para nos colocar em contato com a verdadeira natureza, mediante atos contra a natureza”.

A criação transforma em problema estético duas tragédias localizadas em Paris: o ato canibal do japonês Issei Sagawa contra uma mulher a quem dizia amar, nos anos 1980, e o recente ataque terrorista na Boate Bataclan, que deixou mais de uma centena de mortos. Ao alinhavar essas duas faces do horror social da contemporaneidade, Liddell dá uma resposta poética à genealogia da moral francesa – ainda que diversa, em muito formadora da nossa.

Sua abordagem não segue os passos pela superfície do que costumamos ver de um teatro feminista, na defesa da mulher contra a opressão. O gesto é mais perturbador, mira a repulsa, a abjeção, o abominável. Assim, logo de início, a mulher em cena declara o desejo de ser bonita o bastante para ser violentada. “Se alguém violasse o meu cadáver, não seria mais uma vida jogada no lixo”. No absurdo dessa fala, condensa-se o paradoxo da beleza feminina: ser uma espécie de dívida da mulher com a sociedade, pois quando não bela é invisível e desprezada, e ao mesmo tempo ser proibição, pois se bela será objetificada e violada. Eis a dupla violência, de difícil escapatória, que faz da mulher um ser sempre inadequado se deseja mais que se deixa desejar.

Assim, Liddell aproxima beleza e horror, uma relação que o cinema de terror desde sempre explora com suas musas ensanguentadas. A artista investe nesses nós paradoxais que não se desarmam, criando lugares de desconforto para o espectador – aquele mesmo mal-estar a que já se está submetido no cotidiano e ao qual o teatro oferece-se como clínica pela via estética. Com as palavras, atravessa a carne da moral que sustenta essa estruturação violenta de sociedade, e com as imagens atinge ainda outro patamar de perturbação. Como ao dispor em cena oito mulheres nuas, magras, loiras, de cabelos longos e olhos azuis, muito novas, como se prefere em uma cultura de traços pedófilos e racistas.

É por esse padrão de beleza comum modelador das nossas subjetividades que somos desafiados para além da racionalidade crítica. Por mais conscientes que nos consideremos, a coreografia dessas mulheres se autoflagelando e se masturbando com tentáculos de polvos (carne crua e morta, como o cadáver violado), é imagem desnorteadora de nossas verdades, certezas e autoenganos. Ao fim do primeiro ato, a reação de parte da plateia foi de afasia. Impossível elaborar pela linguagem o atropelo da experiência e seus efeitos na produção do inconsciente.

Numa cena povoada ainda por figuras da cultura japonesa (matriz de Sagawa) e aparições estranhas, Liddell rasga tabus sexuais e morais. A estetização nas coreografias do assassinato e do abuso disseca o componente emocional, criando estados de deslocamento da percepção em que esses padrões muito cimentados em nosso comportamento parecem se desbloquear, abrindo espaço para outras elaborações. É um teatro de clínica psicanalítica, ou antipsicanalítica, mas sua sintaxe é a da teatralidade, em máxima potência.

Abre-se então o outro problema da beleza, da ordem estética à artística: por um lado, as questões éticas do ato de mostrar a violência como bela; por outro, como o espectador frui esse belo violento. No cinema, por exemplo, a abjeção pode estar na estetização ou sensualização de uma cena de estupro que enquadra um seio nu. Diante desse tipo de produção de imagem guiada pela plasticidade, a percepção da violência, seu incômodo potencial, pode ser obliterada pelo desejo ou a inveja. Diante, então, das ninfas nuas coreografadas, contorcionistas, sincronizadas, com quais sentimentos se defrontará cada espectador?

A operação de perscrutar o imoral no humano avança com o relato do assassino que deseja morrer ao reconhecer em si o pensamento-desejo de matar. “Não se pode julgar vulcões, condenar tormentas”, “como denunciar maremotos?” são indagações que apontam para uma natureza selvagem do humano. Brecht diria que é necessário combater a atribuição das condições sociais à natureza para permitir sua transformação; com Liddell, não resta dialética, os paradoxos resistem às soluções.

Contra o ideal de pureza que é uma prática de repressão, o teatro de Liddell espetaculariza a “impureza”, expõe as dobras da carne, contorce os corpos de prazer e dor, às convulsões. “A bondade nasce da repressão”, ouve-se, e eis a hipocrisia que funda a civilização: os justos, os bons, as vítimas agradecem que os outros atirem porque assim permanecem santificados. “O assassino não é diferente de vocês”, brada em direção ao público, provocando um deslocamento dos ideais e valores morais judaico-cristãos, assemelhado ao proposto por Nietzsche em sua genealogia da moral.

Investida do poder da palavra, da presença e do microfone, Liddell interrompe a produção de imagens para confrontar os espectadores, improvisando, o que amplifica o efeito de real, e implicando o público nas responsabilidades sobre o que se mostra no palco. Mas “é preciso ser mítico”, avisara a artista em algum momento anterior, prenunciando a atmosfera simbólica e fantástica do seu rito profano de mais de três horas. É ao mito, não à lógica racionalista, que ela confia suas forças.

[1] CORNAGO, Oscar. Ensayos de teoria escénica. Sobre teatralidade, público y democracia. Abada Editores: Madrid, 2015. p. 30.

[2] Idem. p. 36.

[3] Idem. p. 38.

[4] DELEUZE, G. A Imagem-Tempo. Brasiliense: São Paulo, 1990. p. 207.

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25/10/2016 TAGS: Angélica Liddell, Barcelona, Brasília, Deleuze, Espanha, Hamlet, Irmãos Guimarães, Kamchatka, Madrid, Magiluth, Mirada, Nietzsche, Oscar Cornago, participação, Pernambuco, Roger Bernat, Santos, Shakespeare BY: Luciana Romagnolli
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críticas

O dentro e o fora acontecem aqui

O dentro e o fora acontecem aqui

— por Matheus Cosmo —

Crítica a partir do espetáculo “AquiDentro”, do grupo Opovoempé (SP).

AquiDentro - Rodrigo Peguin

AquiDentro - Rodrigo Peguin

aqui dentro

aqui dentro

AquiDentro - Felipe S. Cohen

AquiDentro - Felipe S. Cohen

Atrizes - Matheus Jose Maria

Atrizes - Matheus Jose Maria

Fotos de Rodrigo Peguin, Felipe Cohen e Matheus José Maria.

Em 1978, Roberto Schwarz escreveu uma nota introdutória a um de seus textos mais conhecidos, escrito logo nos anos iniciais da ditadura militar. Sua simples e enxuta declaração abria um peculiar paradigma que apenas grandes pensadores seriam capazes de enunciar: “O leitor verá que o tempo passou e não passou”. É provável que seja essa a razão pela qual um trabalho criado no final da década passada ainda seja tão significativo – um resultado direto da profunda investigação e aguçada percepção de um grupo de mulheres que, atualmente, vive e celebra seus onze anos de existência. Refiro-me, aqui, ao Grupo OPOVOEMPÉ.

Era 2009 quando nascia o projeto AquiDentro AquiFora. A proposta era investigar possíveis especificidades e cruzamentos entre aquilo que acontece dentro de uma sala teatral e aquilo que envolve a amplitude dos espaços públicos, criando dramaturgias que fossem, ao mesmo tempo, análogas e distintas. Certamente, tamanha investigação não nascia de um mero acaso, mas respondia a algumas das questões deixadas em aberto pelos trabalhos e intervenções anteriores. Firmava-se um grupo com um específico projeto de pesquisa continuada que, não por menos, na ocasião, foi contemplado com o Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, um apoio que se mostrou crucial para a execução de todo o processo.

Se “AquiFora” firmava a primeira experiência cênica audiotour presenciada na cidade de São Paulo, escolhendo a rua como ponto de partida para o estabelecimento de uma nova relação com cada um dos espectadores, revestidos por capas amarelas, “AquiDentro” encontra, no próprio espaço teatral, as possibilidades múltiplas de mudar de perspectiva – um convite feito pelas próprias intérpretes ao longo de todo o trabalho. A total equivalência entre o número de cadeiras e o número de espectadores remonta aquelas que eram algumas das palavras iniciais do trabalho que tomou as ruas do centro da cidade: “A partir deste momento você não está mais sozinho. A partir deste momento nós estamos juntos! […] É importante que nós nos mantenhamos unidos!”.

Desenha-se, assim, o movimento próprio à grande parte das composições do grupo: o reconhecimento das singularidades e a instauração de uma potencial comunidade. Deslocam-se fronteiras quando se entende que as subjetividades são meros resultados de estruturas coletivas que só existem a partir de agenciamentos subjetivos. É que as alterações objetivas demandam transformações subjetivas e novas subjetividades só se mostram possíveis com radicais mudanças na ordem político-social. Eis um jogo razoavelmente paradoxal e complementar – e não é justamente a existência de um jogo e de uma relação que edifica o teatro?

“AquiDentro” é um trabalho marcado pela ambiguidade. Não cabe ao espectador resolver os jogos de linguagem para fixar um sentido possível: cabe a ele um espaço no qual é sempre necessário mudar de perspectiva, a fim de apreender uma possível totalidade do fenômeno que sempre será composto de inesgotáveis partículas poéticas. Colocar-se no centro do acontecimento torna-se mais importante do que encontrar improváveis significações. O significado encontra-se no próprio fazer. Ele não desliza entre superfícies planas, como quiseram os pós-estruturalistas, nem se encontra circunscrito por modelos semióticos, mas se aprofunda na coletividade da experiência.

Certamente, a constatação da emergência de variados planos de sentido não impede o registro daquilo que se traduz por meio do discurso. Cinco mulheres colocam-se no centro de uma pequena arena, construída pelos próprios espectadores, tentando descobrir por que estamos tão tristes. Ninguém sabe de onde vem tamanha tristeza. Esse abatimento eu aqui chamo melancolia, apenas para enfatizar que, embora a psicanálise tenha encerrado tamanha angústia ao âmbito de uma inespecífica subjetividade, na tradição ocidental a melancolia sempre foi uma das marcas do artista. Antes de tudo, o melancólico carrega uma experiência de verdade que não é passível de registro nos atuais esquemas de reconhecimento do sofrimento. Sua verdade ultrapassa nossos modelos de representação, de modo tal que foi Julia Kristeva quem reconheceu que não existe imaginação que não seja, aberta ou secretamente, melancólica. A dor do melancólico é também o laço criativo que modela novas estruturas. Neste sentido, fiquemos com Nietzsche: “Duvido que tal dor nos deixe melhor, mas eu sei que ela nos aprofunda”.

Contudo, também é preciso reconhecer: as configurações das sociedades modernas proporcionaram a proliferação de subjetividades melancólicas. Com o avanço da técnica e do sistema capitalista, perdeu-se algo, mas não se sabe muito bem o que foi – ou até se sabe, mas não se consegue vislumbrar a possibilidade de uma nova alternativa. Resta apenas a eterna sensação da perda e o gosto constante da falta e da ausência. “Quando é que vamos rir?”, perguntam-se as intérpretes. “Nós vamos rir?” – e será que alguém sabe a resposta dessa pergunta? Para que o riso fosse possível, uma total transformação seria necessária, em todos os níveis. Feita esta constatação, por ora caberia apenas perguntar: “Está tudo bem?” – sem esquecer a brilhante análise feita pelo Comitê Invisível, em 2007: “Todos os ‘tudo bem?’ que trocamos ao longo do dia sugerem uma sociedade de pacientes sempre a medir a temperatura uns dos outros”. De fato, viver sob o estatuto da modernidade implica a renúncia à plenitude das experiências e o estabelecimento de uma subjetividade marcada pela perda. Tendo a imaginar que já não sabemos viver neste paradigma. Contudo, era Marx quem dizia que é dentro da modernidade que temos de buscar suas saídas imediatas. Havemos de suportar.

Nessas condições, uma mensagem é lançada aos cosmos: “Estamos tentando sobreviver ao nosso tempo para viver no de vocês”. Há quem chame esta vida reduzida à mera sobrevivência de vida nua. O sobrevivente torna-se o paradigma da existência moderna. O poder não age eliminando o corpo, mas mantendo-o em um espaço intervalar entre a vida e a morte, entre o humano e o inumano, entre a potência e a impotência. O choque se torna a norma: a catástrofe está instalada no cotidiano. Aos gritos de uma das atrizes, “C’est la catastrophe!”, uma outra, singelamente, em diálogo com os espectadores, responde: “Está tudo bem. Eu estou satisfeita!”. Nas sutilezas da apresentação encontram-se graus de complexidade incomensuráveis.

No que diz respeito à ideia de uma suposta catástrofe, em especial, seria importante relembrar que, no início deste ano, a Editora Iluminuras publicou um livro intitulado “O sentimento da catástrofe: entre o real e o imaginário”, escrito por Annie Le Brun. Das esclarecedoras palavras de Eliane Robert Moraes, registradas na apresentação da obra, destaca-se: “O sonho de devastação passou do infinito para a finitude, a ponto de privar a catástrofe do devir imaginário que ela sempre teve e de suprimir ‘aquela parte de desconhecido implícito de que ela era a portadora’. Como consequência, ficamos privados da possibilidade de representar os perigos que de fato nos ameaçam e, impotentes para sonhar com o que nos excede, tornamo-nos resignados diante dos excessos que nos sujeitam”. Talvez seja por esse motivo que, em entrevista a Frank M. Raddatz, publicada em 1990, Heiner Müller tenha afirmado que “sem perigo, não existe desenvolvimento. A catástrofe precisa ser arriscada, senão nada mais será possível”. Como poderia o teatro desabar antigas estruturas e produzir uma verdadeira catástrofe? Aliás, o que significa ‘produzir uma catástrofe’? Desejo boa sorte àqueles que se propuserem a resolver tais questionamentos, cujas respostas são urgentes – e insurgentes.

Logo no início de todo o evento, as intérpretes revelam aquele que era um dos propósitos do trabalho: era preciso criar “um experimento que confirmasse aquilo que nós já sabemos”. Sabemos que sabemos, mas de que sabemos, afinal? Nós, justamente nós, que levamos o mundo tão a sério e que, ansiosamente, esperamos grandes resultados da demarcação de terras indígenas e da democracia participativa: de que sabemos? Nós, que tanto nos entristecemos com a violência contra a mulher, com a restrição de direitos e, principalmente, com o Congresso Nacional, sabemos algo? Conhecemos o sonho da Terra? Podemos dizer o que é apaixonar-se? Talvez não. Talvez porque ainda esperamos coisas demais do mundo – e exatamente deste mundo no qual aquilo que agora é tudo pode agora mesmo ser nada. Um mundo no qual tudo que é sólido desmancha no ar. É provável que estejamos carregando peso demais sobre nossas cabeças. Seria preciso conferir. Doses de Aspirina, Tylenol, Dorflex, Neosaldina e Rivotril podem nos ajudar, ao menos enquanto ainda preferirmos medicar os efeitos, ao invés de solucionar por completo as causas.

Dois aspectos não poderiam passar despercebidos por este texto. Dirigindo-se aos espectadores, as intérpretes ressaltam a importância de buscar “uma visão de mundo menos reduzida”, “uma outra perspectiva”. A quem ainda não encontrou seu respectivo lugar no mundo (em suma, todos nós), as atrizes propõem um lugar. Descrita desse modo, alguém poderia julgar tal ação como extremamente problemática, como se coubesse ao grupo dizer aos espectadores aquilo que eles devem ser ou, ainda, como devem agir. De longe, não é disso que se trata aqui. Encontra-se em jogo uma perspectiva que aposta na potência de uma (in)específica comunidade. Um coletivo que se renova a cada apresentação e que, por isso, está sempre a descobrir novos lugares. “Há cinco bilhões de anos éramos animais. O que seremos em cinco bilhões de anos, a partir de agora?”. Ninguém se arrisca a vislumbrar uma possível resposta. Importa apenas perceber que aquilo que seremos já se encontra presente aqui. Os caminhos do futuro já estão abertos no presente, por mais complexas e obscuras que sejam suas entradas. Interessa-nos o devir, porque aquilo que pode vir-a-ser já é. O devir acontece neste momento e se transfigura em uma das salas de teatro da grande São Paulo.

No trabalho “W Polsce, Czyli Gozie? (Na Polônia, isso é onde?)”, criado em 2015, uma das atrizes destacava que esta é a “época do consumo universal e ninguém mais pensa sobre a morte”. Em “AquiDentro” enuncia-se a certeza: “Nós vamos todos morrer”. Contudo, “não há motivo para pânico”. De fato, não há. Não é porque a morte demarca o fim da vida que ela deva também ser sua finalidade: a finalidade da vida deve ser a vida mesma. A vida que acontece fora do teatro, mas sobre a qual podemos nos debruçar de dentro da sala. O sentido da vida é ficcional: é por isso que o mundo é um palco. E, para nossa sorte, por vezes, do centro da cena emergem grupos como OPOVOEMPÉ, com toda a delicadeza que só seus trabalhos possuem. A vida se torna mais doce.

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10/10/2016 TAGS: Opovoempé, participação, São Paulo, Sesc Belenzinho, subjetividade BY: Luciana Romagnolli
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Contra o embrutecimento da sociedade: ecos do Festival de Curitiba

Contra o embrutecimento da sociedade: ecos do Festival de Curitiba

— por Luciana Romagnolli —

Artigo a partir da programação do 25º Festival de Teatro de Curitiba, realizado entre 22 de março e 3 de abril de 2016, considerando espetáculos como “Batucada”, “Fole”, “Vaga Carne” e “Caranguejo Overdrive”.

BATUCADA_1

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Caranguejo Overdrive 3

Caranguejo Overdrive 3

Este escrito é obra do tempo. Seis meses o distanciam já do fim do Festival de Curitiba 2016, e o olhar que aqui provoca as palavras é fruto de uma relação de mais de uma década com este festival, que acompanho como espectadora desde 2003 – e como jornalista e crítica de teatro, desde 2006. Por quatro desses anos, de 2007 a 2010, como jornalista de teatro da Gazeta do Povo, maior diário da capital paranaense. Minha perspectiva, portanto, é a de quem vivenciou as mudanças que marcaram o festival ao longo de uma década. Dentre elas, a troca de direção, com a saída de Victor Aronis e o retorno de Leandro Knopfholz; o crescimento quantitativo tanto da mostra oficial (da casa das 20 para quase 40 peças) quanto do Fringe (das 200 para as 300 e poucos, com pico acima de 400 em 2015); e as iniciativas de artistas locais e de outros estados para criar ilhotas de curadoria na mostra paralela, na esperança de se destacar – e evitar a dispersão – entre as centenas de peças, como a Mostra Novos Repertórios, o Coletivo de Pequenos Conteúdos, a mostra Na Companhia de… (organizada pela Companhia Brasileira), mostras mineira, capixaba e baiana, dentre outras que mais ou menos lograram reunir programações de espetáculos pautadas pela investigação de linguagem.

Sem pretensão de um recorrido exaustivo ou de caráter propriamente historiográfico, proponho uma aproximação crítica livre a partir da edição 2016, marcada por uma mudança de curadoria que afetou significativamente a qualidade propositiva de experimentação de linguagem dos trabalhos apresentados na mostra oficial, como há muito não se via na cidade. Quando Marcio Abreu e Guilherme Weber assumem a função de curadores, a preocupação com um teatro de risco estético aumenta, sem que se abandone completamente a concepção de “vitrine” defendida pelo fundador e diretor do festival, o produtor Leandro Knopfholz, agora auxiliado por Giovana Soar. Ao lado de produções artísticas orientadas pela expectativa de agradar ao grande público cuja sensibilidade se constitui diante da televisão e do cinemão, a Mostra Oficial apresentou trabalhos que exploram a teatralidade e a performatividade em seus deslimites, proporcionando experiências estéticas intensas. Não que o teatro de grupo e de diretores que investem na pesquisa da linguagem teatral estivesse ausente em edições anteriores, especialmente nesta década, mas sua presença era mais tímida principalmente por estar ainda destituída de uma proposição curatorial definida (a lógica da “vitrine”).

Um dos aspectos mais marcantes da ação da dupla de curadores é a abertura para um teatro de fronteiras expandidas, de limites imprecisos, híbrido com a dança e a performance, que explora as potencialidades dessas linguagens e das relações entre corpo e palavra, corpo e som, palavra e som, ator e espectador, arte e política, arte e vida, em tensão para além das dualidades. “Batucada”, de Marcelo Evelin; “La Bête (O Bicho)”, de Wagner Schwart; “O Confete da Índia”, de André Masseno; “Fole”, de Michelle Moura; “Grão de Imagem”, de Grace Passô; “Caranguejo Overdrive”, da Aquela Cia., “Why the Horse?”, de Maria Alice Vergueiro; “Quem Tem Medo de Travesti?”, do Coletivo As Travestidas; e “Mamãe”, de Álamo Facó; por exemplo, são representativos dessa linha curatorial e colocam em cena questões das mais provocativas do teatro contemporâneo. Em paralelo, outra iniciativa inédita deste ano é a incorporação do debate crítico à experiência do espectador, com a realização de conversas com críticos convidados após boa parte das apresentações. Desses encontros, participamos Daniele Avila Small e Mariana Barcelos, pela Questão de Crítica, Daniel Toledo e eu, pelo Horizonte da Cena. Além disso, os assuntos postos em discussão nos encontros promovidos na sede da companhia Ave Lola respondem diretamente às questões artísticas abertas por essa programação.

Diferentemente de outras mostras e festivais pelo país, a exemplo da Mostra Internacional de Teatro – MITsp e do Mirada – Festival Iberoamericano de Teatro de Santos, compostas por um eixo crítico-reflexivo, com atividades voltadas à reflexão sobre os espetáculos e o fazer teatral e com a presença de críticos contratados para escrever sobre os espetáculos, esse viés crítico incorporado à programação é inédito no Festival de Curitiba, ao menos nessa última década. Sua ação limitava-se à presença de jornalistas de diversos veículos do país, uma dinâmica cada vez mais insuficiente ante o empobrecimento da crítica de teatro na mídia brasileira ao longo desses anos. A abertura para a crítica, então, depõe sobre uma relação mais íntima entre curadoria e crítica, essencial no desenho artístico de um festival que se queira mais do que um amontoado de “bons” espetáculos, mais do que um evento pautado pela lógica da produção e do consumo, à qual a arte resiste, mas, sim, ou também, como interstício social para a emergência de experiências artísticas como práticas simbólicas e políticas de subjetivação insurgentes, a ampliar e deslocar nossa percepção.

Já há algum tempo, a organização da grade de programação não permite o acompanhamento integral do festival, mesmo concentrando-se na mostra oficial. São mais de trinta espetáculos em duas semanas, geralmente apresentados no mesmo horário das 21h, exigindo escolhas. Recentemente, mostras especiais no Fringe somam-se à disputa da mesma faixa horária – foi o caso da mostra baiana e da mostra capixaba em edições anteriores e, agora, da Curitiba Mostra, que trouxe criações cênicas a partir de autores da literatura paranaense realizadas por algumas das principais companhias de teatro curitibanas (pela comunicação, não ficou claro se integrando a mostra oficial ou o Fringe). Em consequência disso, este texto se restringe a um recorte de espetáculos dentre as duas dezenas vistas por mim na edição 2016 – ínfima quantidade frente às três centenas de produções apresentadas nas mostras oficial e paralela. Teatro é arte da perda, já disseram tantos; o resgate que aqui se faz é gota d’água.

A abertura do festival já trouxe uma mudança perceptível em relação a anos anteriores, com a aposta na palavra poética em presença, performada por Maria Bethânia na fronteira da poesia com a música, no espetáculo “Bethânia e as Palavras”. A escolha já aponta para uma visão ampliada das práticas cênicas, suas interconexões com a literatura e com a música, e coloca para vibrar sobre o que vem depois a força da presença, a qualidade energética e dramática de uma intérprete que une como poucas a técnica à performance, com traços de ritual, e entoa um repertório de poesia popular brasileira colhida nos rincões do país, o que não deixa de ser um gesto político substantivo num contexto de amplificação dos preconceitos contra a arte, contra o Nordeste, contra classes, raças e gêneros. Sem proferir discurso direto (este, coube à parte da plateia), Bethânia abriu diante dos espectadores do festival um Brasil mais vasto, diverso, profundo, inesperado, menos condicionado aos dispositivos do marketing, da comunicação de massa e da indústria do entretenimento.

batucada 2

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fole 2

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O indivíduo e o comum

Mas foi o primeiro espetáculo da mostra oficial que estabeleceu o alcance das experimentações abrigadas pela curadoria. “Batucada”, de Marcelo Evelin, coreógrafo e diretor piauiense que circula frequentemente por palcos europeus e apresentou na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp 2014 o espetáculo “De Repente Fica Tudo Preto de Gente” (Leia a crítica de Soraya Belusi). Importante recordar que o Festival de Curitiba, ocorrido entre março e abril, precedeu o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, num período em que os “panelaços” gritaram janelas afora a intolerância de parte da população contra a chefe de Estado e sua “ideologia de esquerda”, barateada em palavras de ordem totalitária contra “petistas” e “petralhas”. Nesse contexto de rebeldia de apartamento instado pelo conservadorismo, dedicado a abafar as vozes plurais e distintas da esquerda no país, o espetáculo que estreou em 2014, na Bélgica, ganhou novos e urgentes sentidos. “Batucada” é desses trabalhos que escapolem às definições. Situa-se na fronteira da performance, com foco na presença, na ação e no risco; da dança, pela ênfase no movimento dos corpos em relação à música produzida ao vivo em anti-instrumentos (panelas velhas e amassadas); e do teatro, tanto a performatividade está atrelada à teatralidade, num campo expandido como é comum no contemporâneo. Não se trata, aqui, de classificar, mas, ao contrário, lançar direções possíveis para aproximações à obra.

Num espaço aberto, amplo, com pé direito alto forrado por bexigas vermelhas em formato de coração que tocam o teto, os espectadores distribuem-se, tornando-se, eles próprios, cenário em torno do qual se movem os atores (usemos a palavra num sentido amplo) nus e com os rostos encobertos por máscaras pretas de pontudos narizes vermelhos, que só lhes permitem ver os olhos desafiadores. Feições tão acuadoras quanto suas movimentações corporais, que avançam para perto dos espectadores, encaram-nos, cutucam-nos, gerando uma atmosfera de estranhamento, mas sem efetiva violência (afinal, o espectador está ali para jogar junto, não para ser espantado do teatro). Parte dos atores é convocada na cidade da apresentação e passa por um processo seletivo e de preparação para compor um grupo heterogêneo, cujas formas corporais e vivências diversas se dão a ver pela nudez, enquanto as identidades imediatas são apagadas pelo mascaramento.

À ação de disputa de espaço com o público, soma-se a batucada propriamente dita, nas tais panelas amassadas, como uma ocupação agora sonora do espaço, transitando entre o silêncio e o barulho, a música e o ruído, os indivíduos e as formações grupais, a matéria concreta dos corpos e as imagens geradas pelas composições que formam, borrando as fronteiras e agenciando os opostos em uma forma complexa. “Batucada” faz-se paradoxal experiência de imersão para o espectador, que é destituído de seu lugar de conforto e de anonimato para passar a ser visto enquanto vê, a transitar entre observador e observado, uma ampliação de seu papel no acontecimento teatral que corresponde às inquietações de um teatro de situação cuja atenção se desloca para a relação com o público, conforme proposto pelo pesquisador espanhol Óscar Cornago (2016) ao pensar sobre as práticas cênicas expandidas deste início de século.

Esses espectadores são postos em situação de responder racional e corporalmente aos estímulos dos atores, num lugar incontornável de decisão sobre como se posicionar no espaço, como reagir à aproximação dos outros corpos, o que fazer com os próprios corpos e, no âmbito simbólico, quais sentidos atribuir a um espetáculo aberto que não concede julgamentos prontos. Embora conduzida através da estrutura armada por Evelin, a experiência do público é bastante livre e autônoma, há espaço para expressão de suas singularidades e estímulo à autorreflexividade sobre seu estar em cena: como olhar para as coisas? Como se posicionar? Como vivenciar? Em tensão a essa dimensão individual, “Batucada” chama a atenção também para a constituição do comum a partir de uma sociabilidade efêmera, configurando representações coletivas temporárias e diversas. Como os espectadores estão em posição de serem observados também, o comportamento de uns impacta os outros ainda mais do que no escuro das poltronas diante do palco italiano, e essa convivialidade determina variações no acontecimento cênico a cada apresentação.

A primazia do corpo é elemento em comum com “Fole”, da bailarina e performer Michelle Moura, que vive em Curitiba e foi uma das fundadoras da extinta Couve-Flor MiniComunidade Artística Mundial. Uma escolha curatorial duplamente fora dos padrões da mostra oficial do festival, na qual historicamente é escassa a seleção de artistas locais (mesmo como Michelle, com projeção internacional) e infrequente a dança contemporânea. “Fole” é um trabalho de genuína experimentação das possibilidades corpóreas inexploradas no estreito espectro da vida cotidiana, deflagrada pela ação mais básica do ser humano, a respiração, elevada às suas máximas potências pelo ofegar e pela hiperventilação. Essas ações dilatam o corpo, desestabilizam o equilíbrio e expandem a energia, que Michelle maneja lançando-se pelo espaço.

O jogo é de mútua afetação entre os cambiantes processos fisiológicos provocados pela performer e os estados emocionais resultantes (como a ansiedade), que por sua vez interferem de volta na sua fisicalidade, gerando outros ritmos, gestos, deslocamentos, até a emergência de uma “dança” (no sentido mais reconhecível, pois “Fole” como um todo pode ser visto como dança) e de sons que sugerem palavras e sentidos soltos. É uma criação artística que instaura um estranhamento insistente e pede ao espectador uma disposição curiosa: esse estado de experimentação contínua também, que se abre ao inexplorado da vivência humana pela ousadia de investigar outras vibrações para a percepção.

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Vozes

Em contraponto, a palavra é valorizada ao extremo, em suas qualidades semânticas, sonoras e performativas, na “Mostra Ilíada Homero”, um ambicioso projeto do diretor Octavio Camargo sobre o qual se ouvia planos há mais de uma década. A primeira concretização foi o “Canto 1”, apresentado por Claudete Pereira Jorge desde 2006 (veja o vídeo). O conjunto só tomou sua forma completa no festival deste ano, na sala Londrina do Memorial de Curitiba, bem a tempo de a veterana atriz paranaense, que faleceu em julho, aos 62 anos, realizar com outros 23 atores os 24 cantos da “Ilíada”, cada um deles dando voz a todos os personagens em solos autônomos. Diante da fatalidade inesperada, a abertura do Festival para abrigar a mostra homérica, já um feito histórico em si, torna-se um acontecimento de valor inestimável para o teatro brasileiro.

A voz também domina a cena em “Vaga Carne: Grão de Imagem” (sobre o qual escrevi anteriormente para a revista pernambucana “Trema”, leia na p. 26). No solo, Grace Passô mostra uma faceta distinta da conhecida pelo público de seus trabalhos com o grupo Espanca. Ela é o corpo de uma mulher e a voz desconhecida que, em suas incursões pelo mundo das coisas e dos seres, encontra esse corpo e o invade, como um vírus, primeiramente estranhando aquela carne, depois, contaminando-se por ela. A teatralidade reside no corpo da atriz – feito cenário sobre o qual agem a luz e o som, envoltos pelo vazio do palco – e na própria voz dela, que se faz personagem e constrói por imagens verbais e sonoras a dramaturgia.

De modo completamente distinto de “Fole”, o solo de Grace é também uma exploração artística sobre e no corpo – não a partir dos fluxos de ar, mas da linguagem. O conflito surge, então, da dissociação entre voz e corpo. Afinal, “corpo e linguagem formam um par paradoxal de potência e limite: só é possível dizer o que cabe na linguagem, só é possível ser o próprio corpo, por mais adereços que se acoplem. Esticar, contorcer, desmembrar essas partes, por consequência, alarga o espectro dessa experiência”[1]. Outro aspecto distintivo é a problematização do efeito sobre o corpo causado pelo olhar do outro – no caso, o espectador –, e as tensões da identidade no campo subjetivo e no relacional.

Suas palavras, que antes desviavam dos referenciais identificados aos campos discursivos associados ao movimento negro e ao feminismo, tornam-se menos neutras, mais específicas, contaminadas pela carne e pela alteridade. Explode a questão do lugar de fala como questão, não resposta. (…) Uma maneira de olhar para Vaga Carne é essa. Como um percurso prévio, do neutro ao pessoal, do objetivo ao subjetivo, de uma voz alheia que atravessa o corpo a uma voz atravessada e apropriada pelo corpo. Do escuro de dentro para o escuro de fora[2].

Em “Caranguejo Overdrive”, da carioca Aquela Cia., o corpo encontra a palavra e a música para gerar uma tormenta de sentidos que varre a história do Brasil desde a Guerra do Paraguai até a atualidade, articulando tempos passado e presente, espaços (de Pernambuco ao Rio) e linguagens (ao teatro, soma-se a herança musical do mangue beat). Há o corpo-caranguejo convulsivo, cuja gestualidade carrega a memória da tortura no confronto em que o exército brasileiro dizimou o país vizinho. Há o corpo-caranguejo feito estátua, cuja imobilidade por 20 minutos concretiza a resistência, o esforço, mas também a desumanização e o endurecimento do ser, simbólica e cinética e cinestesicamente. E há os caranguejos vivos, índice desse outro real de que não devemos esquecer diante da ficção. Há a música insurgente e crítica, tocada ao vivo num sopro energético vitalizante sobre a cena. E há a história do homem catador de caranguejos que retorna da guerra faminto e transtornado e encontra um país em processo de destruição urbana, de cimentamento e embrutecimento de cidades e seus cidadãos.

Autônomas entre si, essas partes se atritam compondo uma dramaturgia polissêmica cuja compreensão demanda a ação reflexiva do espectador – intensificação de um processo mental sempre presente na arte, mas especialmente estimulado por trabalhos que enfrentam a complexidade das forças que agem na configuração de uma sociedade. As conexões vêm na fala da personagem paraguaia, em desempenho impressionante da atriz Carolina Virguez pela agilidade na narração ultrassintética – nem por isso simplificada – da história do país, desde Getúlio Vargas até os movimentos mais recentes da política. Um jorro de consciência e consequência, que se desdobra e dilata nas presenças corpóreas e sonoras que com ela dividem o espetáculo.

Essa tentativa de entender o presente a partir de um olhar em retrospecto é sugerida já ao fim da primeira fala do “caranguejo que um dia foi um homem chamado Cosme”:

…assim recomeça o ciclo, que nos ensina que não basta andar para a frente, como acreditam os homens, mas que andar para a frente é necessariamente andar para trás, recomeçar onde o fim não se precipita, e assim me movo, assim reconto meu passado, pois assim como os homens acreditei um dia que só poderia andar para a frente… (KOSOVSKI, 2016: 25)

É por esse viés que podemos distinguir “Caranguejo Overdrive” de grande parte do teatro crítico contemporâneo referenciado nos fatos políticos recentes da sociedade brasileira: mais do que posicionamentos contra a supressão de direitos democráticos e a reivindicação de respeito à cidadania e à diversidade, pautas indiscutivelmente legítimas que se alternam na cena teatral por variados caminhos estilísticos, o espetáculo da Aquela Cia. volta-se para o processo histórico de constituição social, econômica, cultural, urbanística, num esforço de compreensão não ingênuo nem reducionista – e que respeita o espectador ao não subestimar sua capacidade de chegar às próprias conclusões, sem bombardeá-lo com uma mensagem pronta, porque combate, mais do que qualquer outra coisa, o embrutecimento social.

Numa época em que os ecos dos panelaços ainda são ouvidos, “Caranguejo Overdrive” chama a nossa atenção para a importância de, mais do que gritar posicionamentos, debruçarmo-nos sobre o entendimento dos processos históricos que fazem uma sociedade como a nossa insistir no retrocesso de direitos de representação política, educação, arte e cidadania, e avançar vagarosamente na garantia da igualdade dos direitos, independentemente de sexo, gênero, classe, raça ou etnia. A fragilidade das instituições públicas que deveriam garanti-los está dada na memória do país. Só recuperando essa dimensão processual e histórica é que podemos enfrentar o estado de “desencantamento do mundo, anomia social”[3] que abate os frustrados pelo rumo político do país nesta década.

Para abordar a força do teatro como campo expandido apresentado no Festival de Curitiba deste ano, outros caminhos possíveis certamente passariam pelas experiências cênicas de elaboração ficcional da finitude humana em “Mamá” e “Why the Horse?” e da encenação de si mesmo em “Quem Tem Medo de Travesti?”; pelos espetáculos criados por companhias paranaenses para a Curitiba Mostra, como “O Bafo da Gralha” (CiaSenhas) e “A Cidade sem Mar” (Companhia Brasileira, sob direção de Nadja Naira e Giovana Soar), trabalhando a literatura na espacialidade de uma construção na rua São Francisco e imediações; e por outros tantos espetáculos, alguns dos quais nem cheguei a ver. Mais vozes são necessárias para dar conta de tanto.

Para concluir por ora, ainda que inacabadamente, resta registrar a afirmação de que Curitiba há tempos (não posso falar dos festivais que não vivi) não abrigava um acontecimento teatral tão significativo, efervescente em proposições discursivas e estéticas, provocador dos modos de percepção e intelecção: justamente o que a arte pode proporcionar de mais impactante para um indivíduo e um grupo social. A questão, a partir de agora, além da imprescindível continuidade desse aprofundamento do pensamento curatorial, é o trabalho para o envolvimento cada vez maior da cidade e de seus cidadãos. Não a formação de público embrutecedora que se baseia numa concepção hierárquica entre artista e espectador, subestimando este, mas, sim, a sensibilização de uma esfera pública para a experimentação e a descoberta.

 

REFERÊNCIAS

 

CORNAGO, Óscar. Y despues de la performance qué? Público y teatralidad a comienzos del siglo XXI. Urdimento, v. 1, n. 26, julho 2016, p. 20-41.

KOSOVSKI, Pedro. Caranguejo Overdrive. Rio de Janeiro: Cobogó, 2016.

RANCIÈRE, Jacques. O Mestre Ignorante. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

[1] ROMAGNOLLI, Luciana. A emergência de uma voz. Revista Trema, Recife, 2016.

[2] Idem.

[3]  Expressões emprestadas de SAFATLE, Vladimir. A falência do ensino brasileiro não é de de seus professores. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30-09-2016.

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03/10/2016 TAGS: Aquela Cia., Curadoria, Curitiba, Dança, dança contemporanea, Festival de Curitiba, Grace Passô, Marcelo Evelin, Michelle Moura, panorama, Pedro Kosovski, Performance BY: Luciana Romagnolli
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Ser outra (o), ser a si mesma (o)

Ser outra (o), ser a si mesma (o)

— por Elisa Belém —

Crítica a partir do espetáculo “BR-Trans”, de Silvero Pereira (CE).

Foto de Alex Costa.

Há momentos em que não é fácil escrever, mas é necessário. Escrever é como falar para uma escuta silenciosa. E há assuntos que pedem silêncio. Um minuto, ao menos. Um minuto de silêncio para as perdas de muitas vidas nas ruas, como também para outras perdas, outras renúncias – sobre como se poderia ser e muitas vezes não se é. E também sobre o medo, o preconceito, a moral e os bons costumes, os julgamentos, as tentativas de aceitação, a violência em seu maior e menor grau.

Há uma peça de teatro do escritor austríaco Peter Handke chamada A hora em que não sabíamos nada uns dos outros. Nunca li esse texto e, no entanto, guardei o título. Todas as horas são horas em que não sabemos nada uns dos outros ou sabemos muito pouco. É preciso exercer a tarefa de conhecer o outro a cada instante. Ainda mais nesse período no qual, com tantas informações, opiniões, críticas e discursos, parecemos saber demais sobre tanto – sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre certo e errado, sobre corruptos e incorruptíveis, sobre os que devem viver, como devem viver, sobre feminismo, machismo, modos de vida LGBT, sobre as fobias, sobre o que é ser isso ou aquilo, essa ou esse. E até mesmo sobre Deus, que tem sido frequentemente invocado.

Acho que, por todas essas questões, a peça BR-Trans[1], do ator Silvero Pereira e direção de Jezebel De Carli, me sensibilizou tanto. É uma peça que permite análises por vários pontos de vista e enfoques teóricos ou conceituais. Me permito escrever de forma mais livre, já que não sou uma especialista em questões de gênero, sexualidade e performance. Antes de mais nada, quero destacar o conjunto de qualidades da peça – em termos de atuação, abordagem temática, texto, direção e trilha sonora. Esse conjunto afinado faz com que os espectadores se deixem conduzir com prazer pelas veredas difíceis que a peça apresenta.

Conforme o programa entregue ao público, o espetáculo tem como “interesse temático o universo de travestis, transexuais e transformistas”. Esse é mote e seu desenvolvimento leva à discussão sobre a solidão, o preconceito, a violência e também sobre os silenciamentos, as transgressões, o brilho, as canções de amor, sobre aquilo que é cafona, mas a gente gosta, sobre o enclausuramento, a liberdade, a morte, a polícia, a família, a rua, o desejo… Junto a isso, bem como à performance do feminino, do masculino e do trans, está a problemática do marginal, da marginalidade e da margem em si. O marginal, aquele que infringe uma lei; a marginalidade, o lugar daquele que está fora do padrão, da norma, da moral ou sem acesso aos bens materiais básicos; a margem como o limiar, o portal através do qual se pode ser um ou outro. A margem aparece na encenação até mesmo nos elementos e objetos cênicos como as imagens de santos e exus protetores do povo da rua e das encruzilhadas. O corpo do performer transborda e parece perguntar: você é a si mesmo? Ou você é quem te disseram que teria que ser? Essas perguntas incluem e, ao mesmo tempo, extrapolam o tema do travestimento e da transexualidade. São questões existenciais… E as quais parecemos ainda não ter debatido de forma suficiente a fim de reconhecer a violência que perpassa nossos atos, nossas falas, nossos olhares – e o vosso olho é mau porque eu sou bom? E o vosso  olho é bom porque eu sou mau? Ainda não debatemos suficientemente sequer o tema da liberdade.

Como bem nos disse Judith Butler (2015), a quem cito com frequência, é preciso reconhecer a condição precária da vida a fim de discutir uma crítica do direito à vida. BR-Trans é uma estrada, uma passagem, uma zona limiar para ser outra (o), ser a si mesma (o). Inverte as regras ortográficas debatendo a sobrevivência e o viver, a normatividade e, destaco, as proibições internas e externas que limitam as potências de vida e entorpecem a necessidade da alegria. Não poderia deixar de destacar também a importância de assistir, aqui no sudeste do Brasil, a um espetáculo vindo do nordeste, em uma temporada fora do circuito dos festivais.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra – quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

[1]Espetáculo assistido durante temporada no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte (MG).

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20/09/2016 TAGS: CCBB-BH, Ceará, Judith Butler, Silvero Pereira, trans BY: Luciana Romagnolli
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Diversidades de gêneros

Diversidades de gêneros

— por Joyce Athiê —

Crítica a partir dos trabalhos apresentados na segunda noite do 17º Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, realizado entre 15 e 18 de setembro de 2016, em Belo Horizonte (MG).

O segundo dia do Cenas Curtas permanece trazendo trabalhos carregados de posicionamentos políticos, quase todos eles empenhados em colocar luzes nos sujeitos oprimidos e marginalizados. As micropolíticas – que de micro têm apenas uma função didática – estão no palco, na interação discursiva e estética do teatro. Mas o que chama a atenção na noite é a diversidade de gêneros e linguagens, passando pelos bonecos, pela dança, pela escrita vivencial e pela presença marcante do audiovisual.

 

O boneco apareceu em “Redescobrindo Lautrec”, de São Paulo, e instaurou o clima

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do encantamento, daqueles que se vivencia quando o teatro chega na praça da cidade e encanta uma comunidade ávida para ser levada a outras dimensões, desejosa de entrar em contato com uma fantasia. De repente, nos vemos olhando para um “ser inanimado”, sentindo suas feições e querendo compartilhar uma conversa com o boneco que muito diz nos olhos, no rosto e nos movimentos que recebe de sua condutora. É um trabalho de delicadezas. A própria confecção do boneco traz uma artesania expressiva que nos faz querer interagir com aquele rosto-objeto que agora ganha vida.

Interessante ver em “Redescobrindo Lautrec” a relação entre a marionete e a marionetista. Se, em algumas propostas, o desejoso é que o manipulador desapareça da cena para que o público se concentre na magia do boneco e imerja naquela realidade construída sem interferências que possam dizer que aquilo é uma fantasia, na cena em questão, o oposto é que se faz relevante. A revelação do processo que dá animação ao boneco cria outra relação e outros códigos que vão além da mera exposição das “engrenagens”. A interação e as trocas que ocorrem, colocando marionete e marionetista em interação, é o que constrói uma linha de mutualidade, de preenchimento, de comunhão – de doar-se.

A atriz não apenas se torna extensão do boneco, como explora essa relação quase de completude. Corpos do boneco e da marionetista precisam estar em consonância, mas, quando propositalmente não estão, apenas enfatizam a necessidade um do outro. A relação de intensa intimidade que se estabelece ganha um grau de cumplicidade em que as pernas de um tornam-se as pernas de outro. Para seguirem, precisarão estar juntos. Indo um pouco além da relação entre atriz e boneco, as interações que ali ocorrem levam a pensar na necessidade do viver a partir das trocas, de só ser possível constituir-se enquanto sujeito na alteridade. “A felicidade só é real quando compartilhada”, afirmava “Na Natureza Selvagem”.

Em um trabalho em que a alteridade é explorada pela necessidade da comunhão dos corpos (e também do choque entre eles, vale dizer), chama a atenção a presença da deficiência, representada pela personagem cega e pelo corpo transformado (no caso, por acidentes e doenças), em que altura, pernas e postura levam à dificuldade na forma de se movimentar. Em tempos de representatividade e de buscas pelo respeito aos corpos diversos, a deficiência e a anatomia acidentada chamam a atenção para os outros sujeitos que ainda permanecem fora da cena. Ao boneco de Lautrec, olhamos com afetividade e encantamento. Mas como olhamos e nos relacionamos com os corpos transfigurados?

O que eu deixo para o grupo seria apenas um apontamento sobre a possibilidade de trazer para o público um pouco mais de quem foi o homem e o artista a quem o cena presta uma homenagem, sem pretensão de com isso tornar o trabalho didático. A biografia de Lautrec e os trabalhos artísticos desenvolvidos angariam uma série de informações que poderia reforçar os sentidos postos no trabalho, assim como agregar novos valores. Não se trata de narrar a vida do pintor, mas de levar em maior grau aspectos, pensamentos e reflexões de sua biografia e obra. Inevitavelmente, a cena desperta o interesse pelo conhecimento mais profundo de que ideias pintou Lautrec, informação interessante não apenas pela curiosidade, mas pela importância que teve seu trabalho de representação das mulheres, das artistas, das prostitutas e do mundo dos cabarés.

Dos bonecos para a dança, “Casulo”, de Campinas, chama a atenção pelo trabalho corporal da bailarina Letícia Rodrigues, de grande vigor, força energética e habilidades físicas que a possibilitam construir com o corpo imagens e movimentos de muito expressivos. Da representação do animalesco surge uma mulher, evidenciando proximidades entre esses corpos em que um nasce do outro e retorna, por fim, em um mesmo movimento para o corpo do bicho. O gesto e a construção dessa “mulher meio bicho”, “entidade meio humana” vão também refletir sobre a androginia, sobre esses que não se encaixam em binaridades e se postam múltiplos de possibilidades. Dentro da temática da cena, pautada pela cultura negra e centrada em uma cerimônia de valores religiosos, torna-se interessante pensar nos orixás como essa representação que irá trazer reflexões tão caras e atuais sobre a multiplicidade de corpos.

Um trabalho marcadamente forte e impactante quanto à performatividade da bailarina, capaz de rodopiar incontáveis vezes, num ritmo de aceleração que, aliado às sonoridades e ao trabalho com os tecidos, chega a entorpecer o olhar. Esses elementos – corpo, música e vestimentas carregadas de simbologia e circularidade – vão apontar para a ritualidade do que é a representação cênica, ao mesmo tempo em que revelam o que há de diálogo com a teatralidade e a dramaticidade em rituais de cerimônias culturais e de cunho religioso. A construção passa por um ritual em que corpo e música percorrem um caminho de vivências e transformações, uma espécie de parto, o jogar-se na terra retratando a importante relação com elementos naturais e o círculo, formação presente em diversas danças em que a roda ganha representação da terra, da natureza e de valores sagrados.

Em termos musicais, é interessante notar o uso de outras potencialidades do violão, de onde se tiram sons da natureza, barulhos de choque ou lampejo e outras sonoridades que não parecem vir do instrumento. O som percussivo, de grande importância para a cultura a que a cena se refere, aparece mais discreto, chamando a atenção quando as batidas são trabalhadas pela sutileza.

Dito sobre a beleza e o apuro estético do corpo e dos movimentos da cena, o trabalho deixa um incômodo digno de abertura para uma profícua reflexão e o entendimento do pensamento e dos desejos dos artistas. Não é possível ver o trabalho e não se questionar sobre o que está fazendo um corpo branco mergulhar em uma cultura que, aparentemente, não diz de seu lugar, como é, no caso, a cultura iorubá. Olhando apenas para a cena, sem compreender ou ter informações sobre a trajetória dos artistas, as relações e os laços que estabelecem, as formas como são atravessados por uma cultura originariamente de um povo africano, fica o estranhamento provocado pelo branco como sujeito daquela história.

Certos de que na travessia pelo Atlântico a brasilidade também se mistura com traços e valores culturais como a umbanda e o candomblé, espaços hoje abertos ao encontro de sujeitos de toda sorte, ainda assim, a cena representada – mesmo que majestosamente – por um corpo branco abre um campo rico para a reflexão sobre lugares de fala e apropriações. Qual a intimidade e o entendimento que se tem quanto a questões sagradas para outros povos como a fumaça de um cachimbo? Ou mesmo traços identitários tão referentes ao pertencimento como o cabelo?

Posto, novamente, que é preciso ouvir os atravessamentos que permeiam os artistas em questão e evidenciando o meu próprio lugar de enunciação que pouco dialoga com essa cultura, a cena pede para ser ouvida além do que se leva ao palco. Por que imergir nesse lugar? Onde está o corpo negro que tanto já reclamou seu espaço de protagonismo e está ativo para ocupá-lo?  Fazendo uso dos privilégios, de que forma refletir e abrir espaço para algo que se simpatiza e se identifica? E, no campo do “e se”, o que seria a cena se realizada por negros? Quais outros sentidos, forças e potencialidades poderiam surgir?

Em seguida veio “Eu”. “Menina, entra aqui na loja para limpar seu vestido. Aquele homem ali passou por você e cuspiu na sua bunda”. Não era cuspe. Foi a lembrança desse episódio que a cena de Andréia Quaresma me trouxe como compartilhamento de situações vividas por ela e por tantas mulheres. Outros tantos casos poderiam ser lembrados, assim como tantas outras formas de violência a que a cena também faz referência. Quando Andreia fala, ela abre uma janela de conversa que diz: “eu sei, irmã, do que você está falando”. O trabalho biográfico é uma denúncia de uma realidade que ganha outras vozes.

Assim, pautado na trajetória da atriz, a cena ganha tanto elementos específicos daquela vida quanto enuncia marcas comuns a outras mulheres. Com o que pode ou não pode se identificar uma menina, de que modos deve se comportar, as barreiras que são construídas e as dificuldades de transpô-las para entender quem se é e não o que esperam que você seja. Embora a descoberta da feminilidade ser representada pelo tubinho preto e salto alto na boate me faça perguntar pelas outras mulheres que se deixam revelar por outras formas, é libertador ver a dança, o desbunde, a cachaçada e o riso alto e entender no trabalho a especificidade da biografia que não intenta abraçar tudo aquilo que não é possível.

Pressões de toda ordem, a cena gera ainda maior impacto ao trazer o sangue feminino e o envelhecimento como outras temáticas a serem discutidas quando o assunto é a mulher, novamente, pensando nas especificidades daquela mulher atriz. Ao tratar do sangue – ou do momento em que o sangrar cessa -, o trabalho traz à tona a necessária desmistificação do que significa a menstruação e a menopausa, momentos fisiológicos que ligam o corpo de algumas mulheres à sua natureza. Joga-se por terra as construções sociais patriarcais arraigadas que fazem ver o natural como algo indesejado.

Já a forma do trabalho abre a reflexão para os modos como a latência de dizer preenche o palco, em uma urgência que carrega tanta potência que, ao mesmo tempo, corre o risco de simplificar suas forças quando transportadas para a cena tão diretamente, colocando, talvez, em outro plano de prioridade a elaboração estética. Ainda no segundo dia de um festival, em uma edição marcada por trabalhos políticos atravessados por vivências, pergunto se há outras formas de se levar para o palco uma informação tão necessária quanto as estatísticas de opressão e violência, em uma tentativa de, em vez de banalizar os números, dar relevo a eles.

Do Rio de Janeiro, “Coreografia de Enchente (Em Processo)”, é o trabalho da noite que desponta dos outros pela temática, não exatamente pautada por micropolíticas, mas que também vai refletir o modo de interação entre os sujeitos, o valor e as formas de se perceber a vida e a morte, e isso também é político. Promete não se apegar?

A cena também reflete as potencialidades dos rituais como fatores de cura, no caso, pela literatura e também pelo teatro. Na expressão, cria-se a possibilidade de uma recriação de uma realidade pela atividade artística, a elaboração de sensações e sentimentos que o ato criativo pode contribuir para despertar. Nesse sentido, o trabalho aposta em um escritor escrevendo sobre outro, que é a própria projeção de um estado a ser superado. Se é pelas narrativas que construímos e que somos perpassados que nos constituímos enquanto sujeitos, é no entrelace entre vida e ficcionalidade que outra camada de real se configura.

Interessante que tais camadas são expressas em cena como diferentes ambientes – a da moça que fala da plateia, do escritor diante de sua criação e do mundo por ele criado, caminho pelo qual é necessário percorrer as vias de comunicação para se tomar conhecimento da relação estabelecida em cada uma dessas dimensões. A cena ainda ganha beleza nas imagens projetadas, na parede e nos corpos dos atores, nas sombras criadas, na dança e em um jogo de elementos que dá àquela criação do escritor algo de onírico ou fantasioso.

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19/09/2016 TAGS: Belo Horizonte, Bonecos, Cenas Curtas, Dança, Festival de Cenas Curtas, Galpão Cine Horto, representatividade BY: Luciana Romagnolli
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A união dos sujeitos políticos

A união dos sujeitos políticos

— por Luciana Romagnolli —

Crítica a partir do espetáculo “O Que Você Tem a Ver com Isso?”, da ZAP 18 (BH).

Foto: Madana Mohana

 

Todo início de ação pressupõe uma indagação: como fazer? Como preencher uma falta? Como mudar uma situação? Como agir no mundo? Escrever uma crítica não é diferente. Talvez haja críticos que já saibam, ao sentarem-se em seus notebooks, exatamente o que dirão para preencher as linhas seguintes. Como haverá, quiçá, os dramaturgos e os diretores de teatro que nunca iniciam uma criação sem ter a obra toda preconcebida em mente. Ainda assim, a concretização guarda sempre um enigma que só o ato é capaz de desvendar. No teatro de pesquisa, a investigação não é outra coisa senão jogar-se, em alguma medida, ao desconhecido. Pois é esse o gesto que permite descobertas. Não repetir procedimentos. Encontrar novos meios para obter novos resultados.

Mas, como fazer? Essa pergunta não ocupa posição central nesse preâmbulo à toa. É com ela que a diretora Cida Falabella inicia o espetáculo “O Que Você Tem a Ver com Isso?”, apresentado pela Zap 18 na sexta-feira (15), dentro do Projeto Off Cena do Sesc Palladium. Como fazer teatro hoje, diante de um contexto político em que os direitos humanos e trabalhistas estão sob risco? Não seria mais urgente a manifestação, a greve, a assembleia, a participação nas câmaras de vereadores e de deputados, a ação nas portas de fábricas e multinacionais, nas ruas? Como fazer teatro quando a arte e a cultura estão ameaçadas em suas condições de existência e sofrem uma ofensiva de desqualificação? Como fazer esta crítica sem considerar a dimensão política concreta imediata? Como escrever uma crítica, afinal? É algo que se descobre fazendo. Teatro também. Se isso já vale para períodos democráticos, quanto mais em tempos de exceção.

O início do espetáculo da ZAP 18 coloca em cena essas indagações enfrentadas no processo criativo, por meio de um dispositivo contemporâneo: filmagens de celular feitas por Cida Falabella nos dias da ocupação da Funarte-MG, de maio a junho de 2016. A ocupação foi uma experiência intensiva de busca por formas de fazer política que contemplem as tantas vozes constituintes da sociedade, incluindo aquelas em luta pelo reconhecimento de seus direitos – a frente feminista, a LGBTTI e o movimento negro – e as mais marginalizadas, tais como as pessoas em situação de rua, permitindo a conciliação da esquerda em torno de pautas comuns e apoio mútuo. Verdadeiro laboratório político para artistas onde se vivenciou, no corpo a corpo, o que o filósofo francês Jacques Rancière aponta como bases estéticas da política: as “lutas para transpor a barreira entre linguagens e mundos, na reivindicação de acesso à linguagem comum e ao discurso na comunidade, provocando uma ruptura das leis naturais de gravitação dos corpos sociais”, como ele definiu em uma entrevista a Solange Guénoun e James H. Kavanagh (2000).

“O Que Você Tem a Ver com Isso?” precipita essa experiência de resistência em busca de um “comum” partilhável entre mais sujeitos sociais, e de encontrar modos para transformar uma realidade muitas vezes percebida como imutável. Ainda segundo Rancière, desta vez em entrevista à revista Cult de 30 de março de 2010, “a estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos”. Eis os desafio ao qual os mais de vinte artistas em cena e fora dela se lançam no espetáculo: encontrar uma forma poética e política de dar a ver e a entender a crise contemporânea e a necessidade de transformação social a partir de uma visão crítica do país.

É do próprio fazer teatral que parte a ZAP 18 para responder como fazer teatro hoje. Recorre ao passado, à memória de seus feitos, como grupo que desde 2002 ocupa uma casa na periferia de Belo Horizonte, no bairro Serrano, uma opção geopolítica determinante no tipo de partilha do sensível pretendida. Retoma cenas de espetáculos anteriores, apresentados sob o olhar do presente, com um distanciamento histórico preenchido pela perspectiva crítica. “O Que Você Tem a Ver com Isso?” faz-se, então, como obra de transição, impermanente, instantâneo de tempos instáveis, desejo de assimilar algo que talvez ainda comece a se desenhar. O grupo conta como encerrou o percurso do espetáculo “1961-2009”, que a cada ano alterava seus números finais, por já não ser possível explicar cenicamente a complexidade dos acontecimentos políticos recentes do país. O novo trabalho é admissão desse limite e, a partir dele, busca por reinvenção.

Há uma simplicidade em cena que recusa a lógica capitalista do produto, da produtividade. As diferenças de performance entre os atores atestam também essa outra configuração, na qual o desempenho não é valor excludente – oposta ao regime meritocrata, faz do palco um espaço comum para corpos distintos. A dramaturgia é fragmentada e dispersa, agrega cenas de uma ópera-rap sobre um homem cego cujas posses são furtadas na cidade (antecipando o próximo espetáculo do grupo, “O Homem Vazio na Selva da Cidade”) a discursos políticos diretos e à fábula absurda do prefeito cujos decretos são cada vez mais disparatados, unindo leis imaginárias (de hoje em diante, arroz vira feijão) a reais (a “cláusula 8” proibindo artistas da livre expressão política durante a Virada Cultural), numa aproximação alegórica pronta a reafirmar a máxima de que o realismo fantástico, na América Latina, é apenas realismo – o que nossa política teima em corroborar.

Da ópera-rap ao canto de “Brasil, Mostra sua Cara”, cuja letra escancara a “atualidade” dos anos 1980, e ao manifesto festivo que abre o espetáculo, em alusão a ações estético-políticas como o carnaval de rua e a Praia da Estação, a música entra como discurso político e poético que endereça uma crítica social e conquista adesão de um público amplo. O teatro da ZAP 18 rechaça elitismos. Coloca em cena os cidadãos e cidadãs que vivem “no andar de baixo”, marginalizados, aqueles que estão fora do “comum”, ao mesmo tempo que se constitui em linguagem acessível e forjada no didatismo para se comunicar com um grupo mais amplo de espectadores.

A construção dramatúrgica multifacetada abre-se à interpretação mais livre por parte do público, especialmente quanto às conexões possíveis entre as partes. Sem um sentido de totalidade, emergem desejos e desafios. A mim, sobressaiu a fala de uma atriz sobre a igualdade ser, na verdade, escravidão, por não dar espaço às liberdades individuais – à qual compreendi como uma crítica que opera por inversão: numa sociedade em que a liberdade se confunde com o liberalismo individualista do cada um por si, perde-se a noção de liberdade coletiva como aquela só possível perante a igualdade de oportunidades para indivíduos inevitavelmente diferentes. O convite à reflexão crítica por parte do espectador se concretiza.

A experiência proporcionada pelo espetáculo diz respeito, portanto, ao processo de subjetivação política, a dar a ver que cada sujeito é um agente político na sociedade – daí a interpelação do título. A dramaturgia aberta, irredutível a um entendimento linear, age sobre a percepção de que a igualdade dos sujeitos e a justiça social estão por ser conquistadas. Um apelo à crítica e à ação. A pensarmos juntos: como?

A pergunta do título ecoa sobre os sentidos possíveis de se atribuir à obra. O próprio ato de se questionar é o que move os sujeitos. A resposta provisória, mais que isso, a resposta-semente plantada pela ZAP 18 é: união. Pela copresença dos corpos no mesmo espaço, pela união das ideias e das forças, pela conciliação, pela refutação do niilismo e do ceticismo, pelo combate à inércia. Um coletivo que se une para se interrogar e buscar respostas, que se une para propor, criar, agir, construir. Assumir sua parcela de responsabilidade. Colocar o mundo em movimento. Encontrar novas formas de configurar a sociedade pela revisão do passado, pela reflexão crítica e pela potência coletiva de luta.

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19/07/2016 TAGS: Belo Horizonte, Cida Falabella, Off Cena, Rancière, Sesc Palladium, teatro político, Zap 18 BY: Luciana Romagnolli
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O Horizonte da Cena é um site de crítica de teatro criado em setembro de 2012 pelas críticas Luciana Romagnolli e Soraya Belusi, em Belo Horizonte. Atualmente, são editores Clóvis Domingos, Guilherme Diniz e Julia Guimarães. Também atuam como críticos Ana Luísa Santos, Diogo Horta, Felipe Cordeiro, Marcos Alexandre, Soraya Martins e Victor Guimarães. Julia Guimarães e Diogo Horta criaram, em 2020, o podcast do site. Saiba mais

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