(Foto de capa: Stephanie Lauria).
Por Marcos Antônio Alexandre
Faculdade de Letras – UFMG/CNPq
Crítica do espetáculo Saudade, visto no dia 19 de janeiro, no CCBB-BH
“Qual é o som do céu estrelado? Para mim, são notas agudas que tocam em velocidades diferentes e que são expressas nos dedilhados do piano, na suavidade das notas cantadas, na delicadeza da divisão vocal e na força da canção que antecede o final do espetáculo, como se fossem chuvas de estrela caindo sobre o piso do palco. Assim, a direção musical de Saudade busca amplificar sua poética, conduzindo o público a um encontro profundo com suas memórias e saudades”.
Eu bem gostaria de que essas palavras fossem minhas, mas não são. Elas pertencem a Everton Gennari, quem assina a direção musical e a preparação vocal do espetáculo Saudade e foram por mim extraídas do Caderno do Espetáculo disponibilizado para o público. O fragmento citado integra um dos textos que compõe o Programa da montagem e que chamou muito a minha atenção enquanto aguardava para assistir ao trabalho, do qual já tinha recebido ótimas recomendações de pessoas amigas.
Fotos: Bob Sousa
As palavras se agrandam para mim quando, ao final do espetáculo, depois de me emocionar muito com a performance de todo o elenco, eu pude comprovar um verdadeiro “encontro profundo com minhas memórias e minhas saudades”. Ri, ri, ri, gargalhei, me diverti; sendo completamente envolvido pela dramaturgia proposta, voltei a vários momentos de minha infância, ri, ri e me emocionei. Do riso ao choro, numa sucessão de eventos e peripécias que proporcionaram sensações de pertencimento à minha criança novamente; de ver a morte – o sentimento de perda – com outros olhos, de retomar a experienciar da partida de meus entes queridos por meio do olhar das infâncias, um olhar que a vida adulta vai nos retirando e que o espetáculo consegue nos (re)aproximar.
Saudade é o espetáculo que esteve em cartaz no CCBB-BH, desde 9 de janeiro e em temporada até o dia 2 de fevereiro, assistido por mim no dia 19 de janeiro. Sem dúvida, uma obra singular e que proporciona aos espectadores vivenciarem múltiplas sensações: alegria, empatia, cumplicidade, encantamento, entusiasmo, riso, tristeza, saudade.
A montagem é uma produção do grupo Os Geraldos (Campinas/SP), com concepção e direção de Douglas Novais e dramaturgia de Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro. O trabalho é inspirado no conto “Pinguinho”, de Viriato Correia, e nos escritos de Rubem Alves, como se pode tomar conhecimento por meio do Programa do espetáculo. Também é divulgado que a peça articula os temas infância, morte e perda, ancorados em canções do imaginário coletivo.
A obra me remeteu muito ao espetáculo Matias e a Estrada Infinita do Tempo, da Cia Banto[1], que, também, de forma sensível e delicada, trabalha com a temática da morte para as infâncias. O importante a ser observado é como as imagens e os temas inerentes às infâncias são articulados pelo grupo em cena de forma lúdica e com uma profundidade que atinge todos os públicos. Os espectadores são levados a experienciar ações performativas que os conduzem a momentos de muito humor, acompanhando as travessias da personagem Pinguinho e de seus amigos, fiéis escudeiros que, com ele, entram e saem de jogos e peripécias que trazem para o palco o universo das infâncias e das fantasias inerentes a esse contexto.
Em cena, são 13 intérpretes (seis atores e sete atrizes: Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Cileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar) que, de forma dinâmica, entregues e envolvidos com o texto fabulado cenicamente, vão conduzindo a narrativa e levando a história que é conduzida pelas espirais do tempo. Geograficamente, ela nos remete a um vilarejo de algum recôndito do Brasil, transportando para o palco situações em que histórias de crianças vão sendo corporificadas com leveza e de forma sublime.
A linha dramatúrgica que conduz o trabalho é durante todo o tempo entrecortada pela música, estabelecendo uma ponte intercultural com canções tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim – algumas músicas muito presentes no imaginário coletivo do espectador. Em meu caso especificamente, a primeira canção trazida para a cena, “Gente Humilde”, me ganha completamente, por se tratar de uma música que está relacionada às minhas memórias afetivas, me remetendo a momentos em que me despertei para o universo cancioneiro de Chico Buarque e me encantei com as letras de suas músicas[2].
De fato, as músicas não apenas propõem uma organização das cenas, mas instauram sensações e criam ações dramatúrgicas que vão delineando a trajetória das crianças/personagens para vivenciarem as peripécias propostas pela concepção dramatúrgica de Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro. Assim, mais do que acompanhar as ações de cada criança/personagem, a música organiza a progressão das cenas e cria um espaço de comunhão entre intérpretes, palco, personagens e plateia, no qual o canto coletivo atravessa línguas, nos possibilitando retomar territórios e buscar diálogos com outras gerações. Não tem como não se emocionar com “Sambalelê” e, em outros momentos, não deixar de identificar o repertório sonoro relacionados com nomes consagrados como Astor Piazzolla, Piaf, Vander Lee, entre outros compositores e intérpretes.
A direção e concepção de cena de Douglas Novais, que também assina o figurino e a cenografia da montagem, é preciosa. Chama a atenção sua a opção de encenação ao fazer com que o elenco utilize como adereço uma prótese dentária (tipo dentes da Mônica[3]), que, ao longo da peça, é colocada e retirada pelos intérpretes, permitindo que o elenco possa assumir partituras físicas das crianças que são trazidas para cena e, por sua vez, fazendo com o que o público, por identificação, se veja nas ações das crianças representadas. SER ou NÃO ser criança? Voltar às infâncias? Ver-se como criança? É possível vestir e/ou desvestir uma história? Uma aventura? Um desejo? É possível recuperar o luto? (Re)vivenciá-lo?
As roupas de algodão, segundo o grupo uma referência à obra de Cândido Portinari, trazem leveza à cena, remete-nos às ambiências dos interiores brasileiros, mas, sobretudo, singularizam as partituras físicas dos intérpretes em cena. O figurino final é de uma beleza extrema, reforçando a instauração do universo fabular proposto para a encenação. A potência da música invade a cena e o público se vê (ou se sente), de fato, “dentro” da cena, vivenciando a despedida da personagem Pinguinho. O fim do espetáculo surpreende não só pelo fato de as personagens perceberem outras dimensões para encarar a morte e o luto. Enfim, saímos do teatro, deixamos a cena, perguntando-nos “Qual é o som do céu estrelado?”
A interpretação de todo o elenco é coesa e todos se destacam com momentos especiais. Musicalmente, o grupo é extremamente harmônico e cada interpretação trazida para as cenas é performatizada com esmero. Não posso deixar de evidenciar a excelente performance de Gileade Batista, que dá vida à personagem Pinguinho. O ator, além de apresentar nuanças dramáticas muito bem delineadas na criação de sua personagem, canta e encanta o público com a sua leitura da personagem, repleta de engenhosidade, espontaneidade, espiritualidade, leveza, dramaticidade e liderança. Merece destaque também a performance e presença de Everton Gennari, que, com maestria, está presente o tempo todo em cena, compondo o quadro de crianças que integram a tessitura dramatúrgica, mas, principalmente, tocando, cantando e regendo o elenco, que assume timbres e tons vocais extremamente dinâmicos e harmônicos.
Assistir Saudade é, sem dúvida, uma experiência especial e que merece ser compartilhada por muitas outras pessoas. Como espectador eu me senti provocado em inúmeros lugares. De minha parte, fica o desejo de assistir novamente ao espetáculo e a expectativa de que ele tenha uma longa trajetória e que possa ser experienciado por um sem-número de plateias, acionando outras infâncias, outras idades, outros territórios, outras memórias…
Ficha técnica:
Direção e concepção de cena figurino e cenografia: Douglas Novais
Assistência de direção: Julia Cavalcanti
Iluminação: Caetano Vilela
Dramaturgia: Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro
Assistência Dramatúrgica: Emme Toniolo e Tatiana Alves
Direção musical e preparação vocal: Everton Gennari
Direção de texto: Douglas Novais e Paula Guerreiro
Elenco: Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Cileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar
Visagismo e maquiagem: Douglas Novais e Gileade Batista
Coordenação do Ateliê Kairós: Emme Toniolo
Assistência do Ateliê Kairós: Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, Vinícius Saggo, Valéria Aguiar, Agnes Foster, Aline Sivieri e Jennifer Adélia
Coordenação de comunicação: Nicole Mesquita
Design gráfico e ilustrações: Guilherme Crivelaro
Redação do programa: Paula Guerreiro
Coordenação de produção executiva: Paty Palaçon
Produção executiva: Anna Helena Longuinhos
Assistência de produção: João Vitor Paulato, Nicole Mesquita, Lívia Telles
Captação de Projetos: Carolina Delduque, Paula Guerreiro, Lívia Telles, Paty Palaçon
Assistência de Captação de Projetos: Pedro Dias, Anna Helena Longuinhos e Débora Piccin
Coordenação técnica: João Fernandes e Alexandre Cremon
Operação de luz: Débora Piccin
Fotografia: Stephanie Lauria e Bob Sousa
Coordenação de gestão: Tatiana Alves
Coordenação geral: Douglas Novais
Produção: Os Geraldos
[1] Sobre Matias, vide https://www.horizontedacena.com/vai-ver-a-eternidade-seja-a-lembranca-que-deixamos-nas-pessoas/.
[2] Lembrando de que “Gente Humilde” é uma composição clássica do violonista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), de 1945, sendo que a música ganhou letra póstuma de Vinícius de Moraes com a colaboração de Chico Buarque.
[3] Em referência à personagem dos quadrinhos da Turma da Mônica.




























